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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

18.10.21

1) Breve carta de apresentação. Roberto, Curto e Grosso

Quem é? Em quantas mulheres pensa diariamente? De forma respeitosamente lúdica, é importante frisá-lo de molde a não aborrecer os ninhos de cobras que pululam nas redes sociais, que é como quem diz, viveiros de carpideiras. Já ousou comer favas com chouriço? Está bem servido de pirilau? Tal actividade interrogatória, inteiramente compreensível para filósofos amigos do mexerico, partilhada por monges com orelhas atravancadas de cera, a fim de se isolarem do mundo, e velhotas famintas de boatos, pessoas carcomidas pelo destino que, como vocês, leitores destas linhas insólitas, se entregam de corpo, genitália e alma ao exercício perpétuo da questiúncula, preenchendo o vazio existencial com bolachas existenciais e migalhas filosóficas — as perguntas apalermadas, para os mais desatentos —, ao mesmo tempo que tentam pôr em circulação vetustas opiniões que, de outro modo, estariam a ganhar pó no armazém, não o do filósofo H., mas o muito afamado armazém da quinquilharia emocional.

Quem sou? Seria despropositado declarar que tudo começou por uma recusa de comer peixe cozido. Daí em diante, a minha vida resumiu-se a arranjar um rol de desculpas crescentemente mais aptas a convencer a minha mãe de que fornecer ao petiz (na altura era uma pessoa-em-flor, acreditem, embora os detractores, nos quais eu me incluo, denunciem o facto de eu ter nascido velho) peixe confeccionado com vapores, peixe de sauna, faria estragos valentes numa criatura da minha envergadura intelectual. Se obtive sucesso na minha empresa? Evidentemente que não, sou do tempo em que a opinião dum garoto não valia um chavelho. Falávamos e de seguida calávamo-nos para sempre. Éramos poetas formados na escola do tabefe. Eis como os pais trabalhavam com os filhotes no passado. Todavia o estrago havia sido feito. O esforço de evitar o pitéu cozido conduziu-me à vereda mal frequentada do humor. A desculpa, a perspectiva sinuosa, e medição de gigantes apinhados de empáfia, o toca-e-foge com a ideia, do tu-cá-tu-lá com o abismo, do disparate torrencial e as coreografias de bêbedo lendária postas por extenso. Todas essas manhas e personagens me foram sendo apresentadas, para deleite dos meus neurónios. Um caminho sem regresso. Que se foda Ítaca! Eis-nos chegados ao circo das sinapses. Eis a obra: pôr o orgasmo em discurso.

Eu cá também não gosto de pitéus confeccionados a vapor, dirá alguém sem algo interessante a acrescentar. Tu tens, raciocinam vossas excelências (o título que adquirem só de ler estas linhas, coisa não tão insignificante assim), mas isso se calhar já sou eu a imaginar coisas, um coração desconcertadamente belo, fecham o raciocínio. Findam as cogitações, é preferível assim, antes que mudem de apetites a meu respeito e me confundam com um mero palerma.

Esta é uma história burilada com genuinidade, cujas intenções são: ombrear com as típicas histórias de infância de humoristas e quejandos e outros assuntos que não interessam elencar, todavia, como não havia nenhuma história de onde pudéssemos garimpar a centelha que me mostrou a veia de humorista, precisei de inventá-la. Não me queixo, já me habituei ao feitio da vida: só me dá trabalho. Fez-me sócio majoritário da minha vasta biografia, mas continuo sem lucrar uma côdea com isso. Sou muito fácil de ludibriar. Nem lembrar disto é bom, ponho-me logo a chorar. O humor tem esse efeito em mim.

Roberto Gamito, o sujeito que nos trouxe cá. Torna-se difícil avaliar o humor deste símio ocasionalmente bípede, já que, por um lado, teima em recorrer a receitas para engrossar a sua prosa (alerta larachas de pendor gastronómico), e a deixar-se seduzir por chouriços baratos (sem segundos sentidos, prefiro bivalves) porém condimentados de forma a apimentar o interesse do leitor, por outro persiste, qual Laurence Sterne a cavalo no lombo intrépido de Donald Barthelme, no desporto ilusório de acreditar que vale a pena respirar, o qual se divide nas seguintes provas: tentar vencer a morte, afinar os rouxinóis à pedrada e a competir com jibóias que leccionam a asfixia às suas presas, e, apesar de tudo, não se deve chamar a isto gelo, isto é muito humano, uma vez que este fogo não vai ficar para tio. Se o comediante é descendente do Diabo, eu, como um ilustre legatário do caído-mor, também hei-de lucrar, em havendo sorte e genica nas gâmbias, com este Inferno a que se convencionou chamar vida. Quanto a mim, estupidamente. Ficaria melhor com outro nome. Convenhamos, é um termo que não puxa por ninguém. Finalizemos a coisa, recuso-me a arranjar problemas com as pessoas, não têm culpa nenhuma e além disso são todas estúpidas. 

Desafortunadamente, sou dono de um pénis avantajado. Tal impede-me de olhar para o meu umbigo, pelo que não consigo muscular o meu narcisismo. Resta-me sofrer e conviver com a realidade, tal como ela é, sem adornos e farpelas cativantes. Contrariamente às correntes de pensamento mais prósperas que a humanidade nos legou, suspeito que um pouco a contragosto, sejam elas da esfera da ciência, da religião ou filosofia, ter pénis grande não me faz bem ao ego. Cabe-me a mim aprender a viver com este infortúnio.

Na sua última versão, Roberto Gamito é uma espécie de pangolim, bicho raro e manso, a caminhar sossegadamente para a extinção, o primeiro e o último da minha espécie, uma alcachofra bailante, que, ao suspeitar da aproximação de alguém que o possa perturbar com rituais de sociabilidade, enrosca-se sobre si próprio e só se abre volvidas umas décadas. O amor transformou-me num pangolim, esta é a verdade, quiçá a única presente neste escrito. Num tatu. Num tatu-de-jardim, para usar uma expressão brasileira para designar as nossas porcas-saras. Fui de bicho em bicho, de pele em pele, de grito em grito, pois a mudança dói que se farta — eis uma legenda para um rabo ilustre. Cresci desmesuradamente. Sou incatalogável. A prova são os biólogos que levei ao manicómio. Trabalhei como chauffeur de uma furgoneta, transportava malucos. Não fui; mas podia ter sido. Aliás, devo ter sido, mesmo que não tenha recebido por tal; o mundo está apinhado de malucos e ninguém nos paga pelo serviço de os transportar. 

O humor resgata-me das ruínas do amor. Desmancha a pose de defesa. A tal redenção de que se fala na arte. Esses segundos, é quanto dura. Esses instantes suados de maravilha conquistada ao inferno. O humor é isso. A arte é isso. Ou pelo menos eram antes do império do eco. Sem amor, fechar-me-ia durante décadas e passaria a vida toda a examinar o meu pénis. O que não faria bem à auto-estima e ao ego. Do pénis. Porque olharia para mim, imaginando-o de pupilas esfomeadas, e veria que não sou nada de especial. O pénis deprimir-se-ia com o meu aspecto. Qualquer dia pego nesta ponta, os judeus riem-se destas coisas, desculpem, e escrevo uma história infantil. O pénis que nasceu grande e que acabou pequeno, deprimido. De resto, está tudo impecável. Os trinta e e tal anos que mediaram o dia em que fui desalojado do corpo da minha mãe e este dia em que escrevo esta prosa de antologia, digna de fazer inveja a um ouriço com aspirações literárias, não sucedeu nada digno de nota. Fui respirando e aproveitei para petiscar nalgumas travessas do mundo. É como se tivesse passado três décadas numa sala de espera a ler revistas antigas, ou de um vídeo com gatos a andar de mota, à espera de um não sei quê, tão ao jeito dos poetas. Bem, parece que chegou a minha vez. Roberto Gamito, o comediante, a pessoa, o alentejano...entram num bar. Já chega, aposto que ninguém leu até aqui, de contrário, apareceria alguém a comentar assim "É suposto humedecer pipis com este prosa?”

2) Breve carta de apresentação. Roberto, o poeta estagiário

A vida não é senão mais um poema gaguejado acerca de qualquer coisa. Rasurada, posta de pé, primeiro por emendas, de seguida por lágrimas e mãos solícitas, um dialecto próximo ao do latido, animalesco, parcialmente cifrado. É vago, mas é o que há. Inexplicavelmente, descobrimo-nos sozinhos, e só as facas parecem dar conta das nossas necessidades, do nosso cardápio de ânsias, do nosso inventário de fantasmas entregue à orgia da multiplicação. Demoramo-nos a fitar a escuridão, a arquitectar paisagens frutíferas, aptas a rasgar o marasmo para o qual a vida caminha a passos largos. Parece que nada vai voltar a ser o que era: de facto, a vida não é uma dança, como alguns poetas afiançam. Os passos atrás só ilusoriamente o são. Os passos mascaram-se, tentando ludibriar a Morte, o Tempo. Aqui entra o humor. Uma arma deslindada no último segundo. Esse utensílio rombo que nos garante uma vitória de Pirro nesse território, palco de batalhas intensas entre a vida e a morte. Essa luta, está bem de ver, é um jogo. Só há e sempre haverá um único vencedor. A batalha, seja essa ou outra, é uma manobra de diversão. De nos esquecermos por momentos, caso a piada se insurja contra o mundo, de que estamos cercados. O cerco é liquidado provisoriamente pelo humor, pela arte, de forma a tornar a ideia mais abrangente. Durante esses segundos, saboreamos a liberdade. Detonamos o coração da Ilíada. Contudo ele bate. O cerco. Findo o aparato de teor literário, um espaço para as mãos do autor das linhas ladrarem, há que tirar alguma satisfação disto tudo, linchar o que de mau a vida nos trouxe em bandejas de prata com o fito de nos seduzir. Os afamados presentes envenenados. Nunca foi suposto ser de outra maneira, a labuta é passear sobre vidros enquanto sorrimos para o mundo. Encetámos a nossa profana aliança com o desconhecido, com a secreta esperança de que a felicidade antiga se erguerá, qual Lázaro, de umas patéticas linhas. Sobreviver com quase nada, arejar a minhoca em rituais de enganos, desencorajar o crescimento de ervas daninhas no coração. Com efeito, escrever comporta uma certa embriaguez. Já não há glamour, para quem já viu tudo, em continuar a ver as coisas como elas são. Foi então que surgiu a ficção na vida do Homem. A forma suprema de alheamento. Esta carta de amor ou carta de tesão estranhos apodos, se imaginarmos alguém de outro século a tentar extrair-lhe o significado, principiou a sua demanda com os poemas na cabeça, essa era a sua primeira e última intenção, mas rapidamente resvalou para, se formos generosos na etiquetagem, num lançamento, sem horários marcados, de aforismos, por assim dizer, leves.

Houve um desvio significativo, nem me refiro na qualidade, essa seria sempre duvidosa, logo no acto de traduzir a ideia em acção. A ideia era poemas, a acção optou por traduzi-la em frases. Sou incapaz de vos ofertar alguma justificação, aconteceu assim porque aconteceu assim, como quase tudo na vida, antes de a contaminarmos com explicações artificiais, pois não suportamos conviver com algo para o qual não temos explicação. Mas e daí? Mal ao mundo, o qual vagabundeia nas ruas da amargura, a regatear preços de limões simbólicos, não há de vir. As frases, as que foram surgindo, são pequenas fotografias, de tamanho irreal, bastas vezes esborratadas, definições escritas em cima do joelho; o mundo não pára e não dá tempo para que o desvendemos. Ousamos enquanto corremos, podemos abrandar, para afinar uma linha, mas nunca cessar a marcha. A faceta poeta estagiário, escrito inteiramente por uma das mãos do autor, Roberto Gamito, coisa que tanto pode ser interpretada como um elogio como um defeito, dirigiu-se para aí, o autor, frequentador assíduo desses oásis de ouropel que, em virtude das rendas, tem de partilhar o mesmo espaço no sonho, com as mais tenebrosas latrinas. Cautelosamente, permiti sentir-me, muito por culpa das frases que foram brotando, quase sem explicação, bem de vez em quando. Intrujava a vida e a morte durante esses minutos e tudo o que ganhei foram vantagens insignificantes. As frases padecem de um travo a humor. Quando ele desaparece da língua, é sinal que regressámos ao inferno.

3) Breve carta de apresentação. Roberto Gamito, o bêbedo

Sendo conhecido o imperativo contemporâneo para a justificação detalhada, vejo-me obrigado, não a aporrinhar-me desfazendo-me num chorrilho de declarações mansas, mas a tentar elaborar um texto que se veja. Traçar umas quantas tangentes à célebre pergunta repleta de dedadas “O porquê disto tudo?” A resposta, a haver, um gajo nunca tem certeza de nada, começa numa frase, um dia, com uma intenção e acaba, um pouco apalermado, num episódio para o qual não lhe deram guião. Por exemplo: vamos beber um café, porque era apenas um café, acabamos por beijar uma mulher, a amar essa mulher e quando damos conta estamos de volta ao sítio onde fomos felizes, desta feita acerbos, agarrados como uma lapa à poesia e empenhados a ensaiar a nossa morte. A resposta, quando muito um lamiré, tanto é dotada de validade para o particular deste estaminé, como é, suspeito, para a vida. O que a vida tem de bom é que tudo o que aprendemos por aí, seja nesta página, seja num meme aparvalhado, pode ser transladado para a vida dita real. Ganhamos alguma coisa com isso? Bagagem; porém, por vezes, até isso atrapalha. É vital passar por um rigoroso ritual de despojamento para voltarmos ao início, ao ponto em que as mãos eram nuas e esfomeadas.

O bêbado ou bêbedo situa-se, porventura, no equilíbrio do jogo experimental, umas vezes arriscado, outras tão-só traquinas, entre o pólo puramente ficcional e o autobiográfico, sem esquecer as volutas provocadas pela hesitação. Um tentar verbalizar essa hesitação — esses tremeliques existenciais — que nos acompanham, nos consomem, nos moldam. Não sendo o autor, Roberto Gamito, alguém a quem podemos justificadamente apodar de bêbedo, terá, contudo, uma vista privilegiada sobre o que consiste uma relação duradoira entre o homem e o álcool. É conhecedor profundo das suas implicações. Nunca abdicará de uma âncora no real, no verosímil, se preferirem. Contudo, o mundo do bêbedo, não é um mundo regido pelas regras do humano típico, é-o somente em parte. Normalmente um ponto de partida. É constituído por verdades a pique, coisas que nos desabituámos nesta sociedade de baile de máscaras, repetições até à loucura, como se a bebida induzi-se no hospedeiro uma espécie de estádio de transe próximo à Síndrome Tourette, rituais próximos aos dos xamãs siberianos, falar sozinho, visto que os bêbedos perderam a crença, nos deuses, nas pessoas, em tudo. São amiudadas vezes seres que já não esperam nada do outro. E aqui identificamo-nos. Caminhamos sem entraves para esse estádio; ao examinar o pensamento do bêbedo, sabemos o que nos espera, um estado de descrença ininterrupta. Amarguras que trespassam como arpões o coração de homens derrotados. Um humor sem freio. Uma lógica aos pinotes, rodopios de raciocínio capazes de dar nós ao mais desenvolto dos cérebros. Logo, se podemos discuti-la, refiro-me à prosa, enquanto repositório de textos meio reais, meio ficcionais, não só descritiva (nascidos da observação) mas como esgrimista lapidar de argumentos, umas vezes em aberto, como um haiku, outras fechado, moralistas, como um aforismo. Reconhecer o nosso não poder sobre as coisas, o nosso poder de tourear fantasmas, a lógica fragilmente racional puxada ao limite, no jogo entre ditos e sentidos, onde a vida e a poesia são apenas um só olhar. Ou, se quiserem, dito de forma menos poética, estes textos são revisões sobre as chibatadas que a vida nos dá. 

4) Breve carta de apresentação. Roberto Gamito, Fino Recorte

Há, inevitavelmente, algum decoro em exercer a minha venerável opinião sobre a página Fino Recorte a par da coragem de permitir a mim próprio que o realize. Resta saber, e para tal necessitaria de um perito de provas dadas, género um hater calejado em rituais de estrebuchamento, com prémios ganhos lá fora, se é mesmo intrepidez ou se é estupidez. Há quem diga que andam de mãos dadas. E fazem elas bem: não há fado pior do que andar sozinho numa frase, sei do que falo, que noutra vida encarnei um vocábulo atirado ambiguamente em direcção ao coração de uma mulher. Registe-se, com justiça, não a portuguesa, mas uma estrangeira, que a página de facebook em questão, infelizmente escrita de uma ponta à outra pelas minhas mãos, ou pelos meus pés, consoante o dia e a inspiração e grau de experimentação a que me sujeite, padece de algumas características que hoje justificam um ressurgimento de uma cama explicativa. O porquê disto tudo? Quem é que a elabora tão simpaticamente para gáudio das pupilas dos leitores ? — quase que pedia um trocadilho, não era? Não, isto aqui é uma casa respeitável. Tudo isso ficará sem resposta, uma vez que esta página, tal como o autor, que, de longe em longe, se não mesmo sempre, se cruzam biograficamente nas mesmas linhas, tudo isto, com efeito, anda paralelo à vida, perpetuamente sem respostas, se descartarmos os artifícios, nomeadamente os engodos prontamente servidos e os riscos de composição duvidosa. Então não haverá sentido para nada? Como questão que é, ignoro se pertinente, consolar-me-ia se o fosse, confesso-vos, pois este parágrafo sofre de baixa auto-estima, deverá ficar a vadiar na perenidade enquanto pergunta. Haverá respostas, não uma, mas infindas, o que torna difícil de as enumerar em tempo útil. Mesmo não estando espartilhado pelos horários inflexíveis da televisão, onde o tempo é todo contadinho, a internet ainda não mo permite. Pode ser que um dia haja um sítio onde possamos elencar um número infinito de respostas. Até lá resta sonhar com esse paraíso, ou, num plano prático, praguejar entusiasticamente contra a criatura que erigiu este texto de arquitectura absurda. O fio condutor da página, a haver, não é do género casamento, a criatividade aplicada ao humor, aos meus olhos, adequa-se mais à ideia de harém, auxiliada pelo método de cerzir coisas umas nas outras, sem parança, já que parar, piscando sedutoramente o olho à referência de Xerazade, pilar central em As Mil e Uma Noites, significa a minha, a nossa morte. Que informação dramática, como diria o outro meme. Chegou ao nosso tempo a ideia, muito mais maneirinha, de que “parar é morrer”. É útil, suponho, lembrarmos a sua origem árabe.

Roberto Gamito, este que vos escreve, não estranhem a forma aparentemente bizarra desta frase, ainda que haja logo uma tendência pueril de a plasmar como idiota, considerando que não foge muito à verdade, posto que este tipo de abordagem é própria de maluquinhos e, espante-se, bastas vezes utilizada por mim. Celan, um poeta, e outros antes e depois dele, tiveram a gentileza de nos ensinar que não há maior desconhecido que o eu. O eu é o outro-mor. Se os outros são o inferno, o eu é o Tártaro, o último nível do inferno. Assim sendo, quando falo de mim, falo de um outro, se o fizer sem pretensões. Falar de mim, que é sempre um outro, abdicando de ilusões, para findar o raciocínio numa frase de gente crescida. Só me conheço muito pela rama, apesar de estar casado desde criança, os tempos eram outros, comigo próprio. E além disso, como clarificou Robert Musil, o Eu é uma sucessão de Eus. Não esquecendo os desdobramentos literários de pendor pessoano. Em suma, é tudo muito complicado, e no tocante à escola da vida parece que sou um repetente contínuo incapaz de sair do primeiro ano. Animador, não é?

Não vale a pena embelezar o que nunca foi bonito. A vida, a morte, o amor, o fracasso, o celeiro de desaires que vamos enchendo à medida que o tempo passa. Um armário de fósseis: o coração. É tudo inescapavelmente triste. Envelhecer, em grande medida, é ter isso gradualmente mais nítido. Aqui entra o humor que, nos seus melhores dias, infiltra-se, qual água velhaca, pelos interstícios da carne tornada pedra e nos faz tremer. O gelo e o degelo da água faz-nos ceder. Pôr em causa a pedra, a forma, e rimo-nos, umas vezes mais, outras vezes menos, depende do emissor, do receptor, do conteúdo, do contexto, das condições climáticas aquando da comunicação das piadas, aspecto que interferem no nosso estado emocional, com o nosso miolo, tudo características partilhadas por uma cartinha de correio; com a diferença de que uma carta das finanças dificilmente será hábil em arrancar-nos o sorriso, mesmo que escrita pelo maior humorista de todos os tempos.

Somos amiúde atingidos com surpresa, afinal não somos assim tão robustos como pensávamos, somos frágeis, e uma das formas mais belas de expor a fragilidade é via riso. A comédia expõe fragilidades. É uma tentativa risível, de, como Sísifo, sair do Inferno. Repetida vezes, até ao infinito, pois a fuga é impossível, conta-nos o mito, e contar-nos-ia a vida, se não estivesse afónica. São esses instantes de redenção, de utilidade duvidosa, já que tão depressa aparecem como tão depressa se esfumam, que tento providenciar quando escrevo uma piada. Se o consigo? Não me façam rir. Volvidos alguns milhares de piadas, nesta e noutras páginas, escritas inteiramente por estes dedos esfomeados, plagiado pelos pares, rapinado por milhares, pareceu-me a altura certa para dar mão a esta vontade, o impulso que subjaz, arrancado aos escombros felizmente com vida, finalmente verbalizado, respigado por uma obsessão antiga, que é possível continuar a pelejar, mesmo que o mundo esteja todo contra ti, género poeta maldito. Assim como assim, não há nem nunca houve vencedores. Há apenas caminho, há apenas luta. E o homem, o comediante, cresce na luta. Nunca na vitória. Fino recorte é uma das formas que eu arranjei de escrever comédia, ao contrário deste texto, consinto que as frases curtas me seduzam, tento fabricá-las sucintas e autónomas, que é como quem diz, com o máximo de tensão verbal, como um aforista ou um poeta. Este é o Fino Recorte, este é o Roberto Gamito, ou pelo menos parte dele, o resto terão de ir à procura.

5) Breve carta de apresentação. Roberto Gamito, comediante de piadas

Numa entrevista fictícia, encontrada há dias num dos escaninhos da mente, o autor desta página, Roberto Gamito, esse excelso papalvo, dotado de um cérebro extraordinário quando comparado com o miolo de um periquito em idade escolar, atleta como poucos no campeonato competitivo do absurdo, dono de umas coxas invejáveis, pelo menos esse é o parecer unânime dos canibais, gente que não consente o suborno nesse tipo de assuntos, deu a entender que a sua prática de hibridismo entre vários géneros tem como sintoma o desconforto — explicitaria crescente, até porque sou amigo próximo do Gamito, e duvido que seja oportuno enganar-me a este respeito — com o termo humor. A título de exemplo, a literatura padece do mesmo mal. Vamos supor, para bem da nossa sanidade, a qual já teve melhores dias, que literatura e humor são primos afastados que, quando se encontram por força do destino no mesmo espaço, a saber: neste texto?, sentem uma inclinação para andar ao sopapo, inclinação essa que facilmente ganha corpo e passa da teoria à prática, e assim é que é bonito. Na violência como nas outras coisas menos sofisticadas da natureza humana, não é bom atermo-nos às promessas. É vital concretizar. Palavra-chave no tocante ao humor: concretizar. Seja qual for a vereda pela qual vagabundeie, a coreografia de bêbedo executada a fim de alcançar o seu fito, a comédia, perdoem-me se acharem que comédia e humor são termos dissemelhantes, tem de concretizar. Uma subversão consumada. Um para lá da surpresa. A esse guincho providenciado pela surpresa e o seu embalo — o humor — convencionou chamar-se riso. Foi, quanto a mim, uma escolha feliz. Se se chamasse Roasdassadsadglroasoflsldasdashdkaskdashkdsadasd, toda a gente confundiria riso com uma cidade da Hungria. Do que nos livrámos; ainda há coisas bem feitas.

A arte, tal como a vida, é um ritual de despedidas. Encetamos a jornada com uma provisão generosa de possibilidades e acabamos com duas ou três caricas na mão, a tentar convencer o padeiro de que são moedas. Onde é que andam as epístolas e as sátiras em verso, do género das de Horácio? As epopeias? Um bom catálogo de fruta em métrica alexandrina? Humor é um termo um nadinha bambo, já deu o que tinha a dar, e a mais não é obrigado, já carece do tesão de outros tempos, um pouco como aquelas meias dilatadas do uso, refiro-me ao bambo e não ao tesão, que, só com algum despudor olímpico, as voltamos a usar na presença de terceiros. Uma peúga nas últimas apta tão-somente a aquecer-nos nos momentos de solidão. Confessemo-lo, sem pompas de espalhafato, humor é um termo conveniente, e quase inevitável, para catalogar o que aqui ocorre, essa minha observação, a qual não passa de um exercício de estilo, um género de humor perdido, quando humor era sinónimo de encostar a língua às cordas, decantar em prosa ou verso esse fôlego sobrante antes da morte. O que escrevo, como já devo ter dito, fica sempre bem mencionar a coisa desta forma, dá uma certa ilusão de coerência, só se pode chamar humor visto não haver outra categoria onde o enquadrar. O que escrevo, como já o pensei, já o saberão os versados em telepatia, e tenho a sensação de ter começado uma frase assim em algum lado, só se pode chamar humor a isto por ainda não ter tido tempo para lhe arranjar um nome mais conveniente. Mas está combinado. Quando for de férias, é a primeira coisa que vou levar a cabo. Hoje, não necessariamente hoje, um hoje centrado no hoje propriamente dito, porém que estica as pernitas, tentando uma espargata, pondo uma perna no passado próximo, e outra num futuro igualmente próximo, e os tintins no hoje propriamente dito. Há muitos tipos de hoje, e sinto que faltava alguém sistematizar isto. Por sorte, conheceram-me; a vida não pode ser só desgraças. E esqueci-me do que ia a escrever — calma, não consintam o ludíbrio. Estou a seduzir-vos em pleno baile dos engodos, e vocês, pessoas até à data minimamente dignas, deixaram-se cair, feitos patos, para o lago da marosca. Retomando o parágrafo. Hoje já não sinto a hostilidade para com as palavras, antigamente rudes e ásperas, tempos em que a mão errava pela folha pejada de puas. Comprei uma carabina metafórica, olhem que não dão o porte de arma metafórica a qualquer macaco, e as coisas serenaram entre nós. Gosto da palavra puas. E mais: gostava de eternizar que gosto da palavra puas. Quem foi Roberto Gamito? Foi um homem que gostava da palavra puas. O meu fito nesta página é ir um pouco além. Recuperar o elo perdido entre comédia e poesia. Agilizar a lógica, digamos, humorística, até a tornar musical. Uma música para fazer rir. Até à data tenho falhado sempre que posso. É continuar a tentar: pode ser que chame a atenção de algum milagre. Vemo-nos na próxima piada. Roberto Gamito.

6) Breve carta de apresentação. Roberto Gamito, o comboio desgovernado

Roberto Gamito, actual inimigo do universo, foi encontrado numa caixa de nuggets. Um dia negro para o mundo dos fritos. Data igualmente reconhecida pelo notário como o nascimento desse espécime raro, falo do Roberto e não dos nuggets sencientes. Momento charneira para quem o encontrou aconchegado entre pepitas panadas, com aqueles olhinhos piscos de quem levou com óleo a ferver nas pupilas com o fito de lhe abrir a pestana. O sujeito, que não quis dar a cara volvidos estes anos, embora tenha oferecido o corpo a um preço bem convidativo, adoptou, após esse evento traumático, que é descortinar um Roberto Gamito no seio do nosso pitéu, um estilo de vida mais saudável, tornando-se assim um predador de brócolos. Escusado será mencionar que as verduras detestam-me. Gamito, como é apelidado pelos amigos, conhecidos, ou até pelo próprio, quando se enfrenta ao espelho num campeonato de cabeçadas, enquanto a avó, armada em poetisa marginal, optou por apodá-lo com a perífrase “moço sem jeito nenhum”. Os antigos amigos que ousaram chamar-lhe Eduardo foram sendo, aos poucos, banidos do círculo da amizade. Não cá há lugar para incongruências deste tipo na vida do Roberto. Todas as outras podem entrar, sem problema nenhum.

Notabilizou-se como um dos mais apaixonados parvos e um dos mais activos papalvos que o mundo conheceu no século XX; dando provas suficientes, no dealbar deste século, que não ficará por aí. Há quem sussurre, temendo ser ouvido por rivais, apostando as fichas todas, que ficará como uma das figuras de proa do século XXI no que concerne ao fracasso. Quem sou eu para discordar? Roberto Gamito, o próprio. Aliás, estou, bem vistas as coisas, numa posição privilegiada para discordar; porém, se a vida me ensinou alguma coisa, foi que argumentar surripia-nos bastante energia. Vou guardá-la para fins mais lucrativos, tais como visionamentos de ocasos e captura de borboletas imaginárias. Despertou para a vida quando estava prestes a contabilizar três décadas no lombo, para o colorido que é o absurdo de estar vivo e ter pouco ou nada de interessante a dizer. Especializou-se na queda quotidiana, caindo aqui e ali, qual bailarina contemporânea, apesar de que, ao contrário destas, tombava sem qualquer dignidade artística. 

Com um percurso intensamente trágico, baleado assiduamente por balas oriundas da ficção, foi perseguido ao mesmo tempo que era ignorado. Uma espécie de pessoa que oscilava entre a celebridade e o leproso. Roberto foi, durante os últimos anos do século XX, o principal anónimo do banco usado pelos mais promissores falhados da sua escola. Esse terá sido, segundo os historiadores do futuro, o seu auge. Em criança sonhara ser mágico, pois imaginara que comprar comida deixaria de ser um problema, a cartola seria a sua despensa. E além disso via com entusiasmo a ideia de passar uma tarde a sacar lenços das mangas, esse era, sei-o de fonte segura, o seu plano de vida. Metamorfoseou-se, ignoramos quando, não mo quis confessar, o Roberto carece de confiança no Gamito, no ponta-de-lança da galhofa. Era uma explosão contínua de chalaças, independentemente do tema que surgisse à baila. Demolia o mundo sem contemplações. O som das explosões, o das primeiras mágoas, fora, assim, substituído pelo das gargalhadas. O mundo, esse, permanecia, como garantem os grandes, imune à destruição pronunciada pela comédia. Fintando o desespero a que estava condenado, Roberto Gamito transformou-se no sumo pontífice do humor, di-lo-ão os críticos do futuro, não por ser verdade, mas por cometerem a ousadia de citar esta lasca de prosa. A piada condena o humorista à próxima piada. É simultaneamente um mecanismo de redenção e de perdição. Força o artífice a outros olhares, outros ângulos, outras distâncias. A minha voz alimenta-se do fogo dessas Sodomas e Gomorras, as do mundo, as privadas, tentando ecoar, alheia a grilhões, até aos meandros da selva de betão, na qual se escondem as mais protegidas feras. Ao embrenhar-me, acho útil mudar agora para a primeira pessoa, em tamanho labirinto pela derradeira vez, colhendo lições, amiúde rombas, beijos, suspiros, mas nunca vitórias. A vitória não me está sangue, há muito o percebi. Este é um humorista que resolveu desafiar o Minotauro esperando, já quase sem esperar, que o seu golpe coincida com o milagre. No limite, andar em cima das áscuas não desistindo das asas. Aquilo que aqui leram não passou de um ritual de tangentes. Nada poderão saber do Homem, sendo ele, como outros escreveram antes de mim, o inferno. Da sua demanda, a do Homem, sobrará um compêndio de lamirés humorísticos. E é só.

7) Breve carta de apresentação. Roberto Gamito, o asmático

Foda-se. A epígrafe é extraída de uma porta de casa de banho pública. Não é um vulgar foda-se. É um foda-se que passou por muito até cá chegar, ao mundo dos vivos. Está longe de ser um foda-se oco. Inclino-me mais para uma espécie de eureka encontrada num lugar insuspeito. O parto ocorreu numa porta esconsa, foi lá que o seu autor o trouxe à vida. Este foda-se simboliza a vida. Um foda-se poético, que pode querer dizer tudo ou nada. Um foda-se desnecessário, como quase tudo o que é humano, longe dos holofotes da fama. Um foda-se que não podia ser de outra forma. Uma marca que exibiu, e continua a exibir, a dignidade possível, continuando isolada, como se tudo o resto, números de telemóvel avulsos, poemas de latrina, desenhos obscenos não ousassem adentrar no território do foda-se. Essa palavra é o rei dessa casa de banho pública, tudo o resto lhe presta vassalagem. A asma é crónica. Dura para sempre. Como aquele foda-se. Durará enquanto eu estiver vivo. Esse é, feliz ou infelizmente, o sempre possível. Além de crónica é muitas vezes galopante. A tendência é para piorar com os anos. Para além disso, é, em muitos casos, limitativa, mesmo fora das zonas de ataque. Isto é, mesmo no decorrer de um dia típico o asmático perceberá as suas limitações. Não pretendo a vitimização, longe disso. É o que é, temos de aprender a conviver com as nossas limitações, não há outra forma, e não vale a pena gastar energia — coisa que não abunda nos asmáticos — em assuntos deste tipo. Todavia é inegável o poder que a asma colhe num asmático. A título de exemplo, ando num ginásio, e naqueles dias no decorrer dos quais a asma ambiciona tomar conta do corpo, o meu rendimento físico desce vertiginosamente. Nem me refiro a ataques de asma propriamente ditos, isso é outro campeonato. São passinhos de bailarina que a asma dá para nos controlar. É uma luta, mas é uma luta pela qual vale a pena arregaçar as mangas existenciais. Há anos, não sei se dois, fui parar às urgências, não pela asma, mas por outro problema, e reparei numa coisa. Os meus comparsas de urgências eram quase sempre asmáticos. A maioria deles velhos. Foi como se visse o meu futuro à minha frente. A velhice é como o parque de diversões da asma: apanha-nos fracos e faz gato-sapato da saúde. Apanhei um maestro, se a memória não me falha, norueguês, que se entristecia porque tinha um concerto marcado e teria de o adiar por causa da asma. E eu revi-me nele. Quando a asma nos impede de leccionar a nossa paixão aos outros. Por exemplo, a escrita. A partir do momento que deixamos de fazer o que gostamos de fazer, pela asma, é sinal que ela venceu. Mesmo em dias em que ela está bem presente, tento que isso não me impeça de levar a cabo duas das coisas que mais aprecio: ler e escrever. Assim pelo menos estou a dizer à asma: Minha menina, não me interessa que estejas aqui comigo, eu vou continuar a minha vida como se nada fosse. No meu caso particular, um dos gatilhos da asma são as amplitudes térmicas. Entrar, num dia como este, de Inverno (estou em Portugal, sei que tenho muitos seguidores brasileiros), numa loja que mais parece um forno é meio caminho andado para a asma se pronunciar. Estou aqui, verbaliza ela. Aqui estou eu, respondo prontamente. E ficamos a conversar, ela como uma pessoa normal, e eu a arfar como se estivesse a fornicar uma pessoa invisível. Esta é uma página que gira à volta da vida de um asmático. Tento que essas órbitas tenham algo de humorístico. Se conseguirmos rir, é sinal que estamos vivos. Tudo o que aqui foi sendo escrito é da autoria de um sujeito asmático, de seu nome Roberto Gamito que, infelizmente, sou eu. Esta será, doravante, a apresentação da página. Se apreciarem mais crónicas deste tipo, até porque tudo o que aqui foi dito pode ser esmiuçado com mais vagar, verbalizem nos comentários. A crónica é a asma.

Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.10.21

Declives a calcinar a cabeça, língua a abarrotar de perífrases. A realidade armada em Lineu — razia nos seres imaginários.
Ia ter contigo sem nenhum sonho que me pudesse diluir a noite.

O dejecto imune à emenda cresce a cavalo do fermento da época.
Armados em romanos sofisticados, crucificamos as palavras antigas como quem parou em tempos a revolta dos gladiadores ariscos.

Com a chegada custosa do primeiro verso à folha, a mão do poeta alcança o cio. Obra em botão abrindo, saltando de flor indescritível em flor indescritível.

A dinâmica da fome metamorfoseia a presa em predador e vice-versa. Na orla colérica em redor da qual acontece o ritual de transmutação, o homem regressa ao seu estado animal.

Alcanço o teu corpo vindo do mar. Com efeito, não passamos de náufragos que confundem terra com carne. Tal como a orca, só me interesso pela língua e pelos teus lábios.

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Roberto Gamito

08.10.21

Não me é possível decidir sobre a dimensão da catástrofe, mas também não a pretendo para lá da minha mão. Faria melhor se abdicasse do trono do reino desfalcado, desabitasse o tempo e o lugar nos quais as aves esburacadas pelo chumbo vêm morrer.
A pergunta é ruído face à tempestade de areia que se avizinha. Eu não sou o que se acoita sob as vestes do meu nome, mas sim o gume ao qual nunca alcançarás.
Não obstante a coreografia não ter alcançado a perfeição, compareci diante do espelho com a minha vida. Que farias tu se a tua cabeça estivesse cheia de cigarras a ziziar sem parança, que farias tu numa província na qual a música fosse impossibilitada de medrar?
Pus o peso do mundo na língua e diamantizei-a. Escavei fundo até ao fruto abandonado pela memória. Recebi-o sem imagens e sem promessas de linhagens.
Não me procures nas minhas palavras, nos meus gestos, no meu olhar: não sou alguém que possas receber de braços abertos.
Subo até um lugar irrespirável, tentando em vão resgatar-te. És inesperada como um fruto no deserto.
Os cisnes soterrados só com o canto de fora abrem as pálpebras ao destino. Jogavas às escondidas com os teus demónios no grande labirinto da tua mente. Não arrancaste do espelho nenhum fruto corrompido pela memória. Não havia ninguém na margem a que tu apelidaste passado. Este não é o meu destino, mas cheguei ao cume do desespero, gritaste.
E a ebriedade de um caminho novinho em folha?
Amarei todos os meus passos, eis o que pensaste no início da jornada.
Escrevo a sangue palavras como Homem, sabedoria, amor, Deus, no interior das quais soam sinos monumentais.
Não há fogo em ti, não há água em ti. Não me queimas nem me sacias.
 

Não há fogo em ti

 


Roberto Gamito

06.10.21

Deleita-me o vandalismo atabalhoado dos medíocres face aos gigantes encasulados nos livros. Há coisas que do dizer ao fazer se esfumam, a saber: amo-te.

Existência do absurdo? Admiti-lo é ficar frente a frente com o nada.

De assoalhada em assoalhada à cata da voz certa, a magia capaz de nos trazer à tona da metamorfose. Eis-nos, findo o milagre, dotados de uma pele inédita.

A arte hoje posta onde não incomoda: na prateleira dos catraios.

Em meia dúzia de minutos arranjei lenha para me queimar, cama para me deitar e oceano para me afundar.

O dia está perdido. Não sentirei a tentação de emendá-lo na folha. Não lhe mexo mais, farto que estou de fantasias.
O dia será enterrado na folha tal como está.

Em dias menos tristes, ando à boleia da vontade de mudar de vida. Essa possibilidade feita música ressuscita-me.

A minha mão herdou os cacos do passado. Esgota-me a simpatia aprendida na escola da hipocrisia. Não me dá pena passar a perna à eternidade.

Na prateleiras das crianças

 


Roberto Gamito

12.09.21

Cansado das coreografias diurnas, regresso a casa reptando qual lagarto, atravesso sem pausas para contemplações o matadouro e eis que alcanço o palco dos múltiplos enforcados: Ah!, a beleza das cordas com um único propósito. Esta é a hora mais antiga durante a qual o coração resvala rumo à metamorfose com o fito de reencontrar o início — a sua temporada de vulcão activo.

O esquecimento é a minha pátria, logo não vos sei contar se o rei ia nu ou enfarpelado. O teu corpo desnudo abre as pálpebras ao meu desejo — porra!, que despropositado.

As formigas percorrem o labirinto das tuas migalhas sem se deterem em nenhuma — és fictício como uma vitória no pedestal da extinção. Entretanto, a turba celebra uma paz sem legado.

À excepção do cadáver enfarpelado, não havia ninguém no espelho.
Do teu rosto ao rosto glacial do teu pai distam várias consultas no psicólogo pagas com o dinheiro ganho a esfaquear esta e aquela possibilidade de seres feliz.

Eis uma frase dissonante — o quinto martelo de Pitágoras — para assombrar o leitor: as cotovias guionadas, como que afónicas, a murchar diante de uma fogueira de sombras. Jogavas às escondidas no pequeno labirinto do quotidiano. No interior da casa de espelhos, ó tu que és uma legião, eras o rosário posto em reflexo nas margens do suicídio profético.

A sombra é viçosa sob os corpos ululantes de desejo dos amantes. Aquela noite foi a única noite da minha vida, cogitou o poeta antes de estoirar os miolos — imagem horrenda que mais tarde originou um quadro belo. À excepção daquela noite, a minha vida foi vivida sob o primado do refugo. Embora tenha descido ao vulcão a ponto de desfigurar a mão em lâmina, persiste sem conseguir alcançar o gume do nome de Deus.

Que faço eu diante do abismo? Sou vulcanólogo ou suicida? Mais um que deu um passo em frente em busca do legado — uma inspiração. Como legado deixou-nos: “Amei todas as alturas. Fiz-me faquir obscuro, andei sobre as áscuas sem auxílio divino; assim foi o meu caminho até ao círculo dos gigantes."

Ainda salva o deus inédito, no interior do qual soam sinos gigantescos? A mão cantante não sobrevive nestas condições, felizmente nunca saiu do papel.

Amanhã e hoje, cogita o suicida, são o mesmo dia. Nada havia dentro das palavras que pudesse usar como água. Perto dali, pássaros cantantes levam a cabo rituais de acasalamento no seio das cinzas.

Gastei a minha vida diante do templo do deus desconhecido, extenuei-me a dissecar a luz sem nunca encontrar alimento.
Pesam as frutas distantes no pomar do passado. Cansa descortinar o percurso certo quando os corredores estão apinhados de lâminas. Cansa soletrar esse nome cheio de espinhos.

O desencontro é a nossa religião. Entramos na vida adulta como animais num bosque de gumes.

Lei da Vertigem, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

10.09.21

Com a presente crónica, texto de carácter eminentemente pirotécnico, de alegrar adultos e escorraçar crianças, pretende-se, não sem modéstia, antes de mais, contribuir de forma decisiva para o marasmo vigente. Esta vidinha de missinha do meia dia, este clima de bosquejos de ressurreições e atmosfera de democracia a carvão e, sentemo-nos de molde a ganhar fôlego, tê-los no sítio — numa prateleira, qual texugo empalhado.

Uns esperam por D. Sebastião, campeão olímpico de escondidas, tão bom que não compareceu na cerimónia de entrega de medalhas — assim se vê quem leva a sério o seu ofício; outros, uma bela foda. Cada um com as suas esperanças, como palraria Américo Fortuna, burlão, empreendedor e amigalhaço do Diabo, se ainda estivesse morto. Seja como for, há quem afiance que já viu a cabecinha do salvador a assomar-se, rasgando em dois, qual Moisés cabeçudo, o nevoeiro.

L. ingressou no mundo desencantado dos hipsters após uma semana a sonhar a preto e branco. Epifanias com hálito a monotonia — cabrões, não têm sorte nenhuma na vida.

No pináculo de uma cadela monumental, o padre, António Cruz de seu nome, pastor ébrio para os amigos, confidenciou aos autóctones da taberna que, em alturas de crise, o sangue de Cristo era vinho de pacote.

Não tenciono insuflar a verga de sangue literário, porém o poeta, melhor dizendo o macho cantante, após a foda desastrosa, bacorejou: “creio que sou possuidor de uma verga beckettiana”. Sigo regiamente o mandamento: “falhar, falhar de novo, falhar melhor”. A cona, que havia feito a universidade de letras ou coisa que o valha, sorriu e desculpou a ineficácia do homem nas artes circenses.

Finda a temporada de actriz pornográfica, virou o cu para a lua, a qual prontamente a encavou com a sorte, e encetou uma nova vida de escritora de velhacarias. Cito de memória as suas palavras: “escrevo sobre pichas grandes, um género maior”. Aglutina, ao mesmo tempo, desejo e ficção.

Certo dia amei uma mulher — vejam lá ao tempo que isso foi, eu que carambolo qual bola despojada de livre-arbítrio entre a poesia e as pernas escancaradas mais à mão — e disse-lhe, sacando de uma prosa ensaiada de véspera: “É para foder ou é para conduzir burocraticamente a conversa nas calminhas até às raias do tédio?”
Respondeu-me no idioma do enfado e a picha murchou como uma rosa reformada. Os chapadões e os insultos vieram depois. E a mais não aspiro, que sempre fui humilde.

Nesse tempo, a minha vida era fazer tempo até ao jantar, com breves pausas para coçar os tomates, a fim de despertar a coragem que, reza a lenda, se acoita em tão misteriosos feijões, mas não tão misteriosos que nos levem ao reino do gigante.

Sara, a qual se fazia difícil, consentia que eu fosse lá escarafunchar às sextas-feiras e aos domingos. E lá tinha eu de me esfalfar no trabalho, chupar pichas em todos os departamentos, desde colegas a chefes, passando por desconhecidos (não queria ser malvisto) com o fito de me trocarem as folgas. Não recomendo a inexperientes. A mim não me custou por aí além: só sou vertical fora do horário de trabalho, é aí que guardo dois ou três quartos de hora para mudar o mundo — e tanta é a diferença que faz.

É incrível como poetas e filósofos, gente que faz as vezes dos comprimidos que visam combater as insónias, nunca se tenham debruçado sobre o seguinte: as conversas outrora desérticas frutificam à volta de um par de mamas — que volta e meia não vale grande chavelho. O homem transcende-se ao rés de um par de mamas.

O mundo, a desgraça do costume. Os políticos estão ao corrente da situação e prometeram não mexer uma palha. Até ver estão a cumprir.

Anúncio de emprego. Procura-se poeta com mais de um olho, preferencialmente três, já que estamos fartos de ver o que os outros vêem. Precisamos de uma visão inédita. Não entrem em contacto connosco se não tiverem atingido pelo menos 3 vezes o nirvana nos últimos seis meses. Ordenado um nadinha acima do limiar da pobreza, dado que o dinheiro não importa aos iluminados.

Chegou-me aos ouvidos que há uma foto onde deus amamenta uma hiena. Não sei como me pronunciar sobre isto. Aliás, sugeriram-me o silêncio, como sempre acontece nas democracias adultas — essa universidade de mimos que põe no mercado de trabalho pedreiros versados na construção de paredes invisíveis.

No sarau de poesia, digo poemas de Herberto Helder, mas a pensar no jantar.

O homem é como a psoríase. Dá-se-lhes a mão e eles querem logo o braço.

Não gosto de me masturbar ao som das músicas da moda. É tudo muito plástico, assaz passageiro. Prefiro masturbar-me com música clássica e cultivar o meu pau.

E por fim, os meus colhões, disfarçados de carapaus de corrida, partiram à aventura pelos mares jamais vindimados de Homero em busca de terras onde a coragem possa ser posta em prática.

Cabrões sem sorte, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

24.08.21

Houve um período graúdo durante o qual se achou que o humor possuía o condão de retirar o gume às situações. O humorista faz parte da comitiva dos Homens que chegam depois, os retardatários. Um cronista peculiar da tragédia. Enquanto uns exaltam os mortos e outros os ocultam, o humorista diz: Espera lá! Não me digam que estes bandalhos tiveram o desplante de morrer. Logo hoje que me apetecia ser feliz.
 
E nesse “espera lá!” face à morte, o único acontecimento sem segundas versões, o comediante despoja o Homem do medo. Nesse momento a faca deixou de cortar. Tal é o mérito momentâneo da comédia. Convém não enveredar pela senda do delírio e postular parolices como o humor salva. O humor amortece um golpe, o gume da faca rapidamente retoma o seu lugar. O que não faltam aí são oportunidades de apanhar no lombo. Enquanto guarda-costas, a comédia deixa um bocado a desejar. Aplaca meia dúzia de golpes e de seguida põe-se a narrar a cena de pancadaria, argumentando que descobriu a sua verdadeira vocação.
 
Antes de nos tornamos fanáticos de certas ideias mais rebuscadas, é vital não esquecer a pergunta formulada por Rosenstock-Huessy: Não estará a linguagem ao serviço do momento?
Seja concisa ou rombuda, a linguagem é um fragmento, ficará sempre algo por dizer. Haverá sempre lugar para subentendidos entre quem manda e quem recebeu a ordem.
O humor é conciso; o homem actual é rombudo. São inconciliáveis. O medo de ficar algo por dizer obriga o Homem a narrar minuciosamente cada gesto, cada movimento do pensamento, a justificar cada respiração e a desculpar-se por cada palavra. Resultado: dizer demasiado adia a acção, oblitera a tensão.
 
Em todo o caso, a sua missão está votada ao fracasso. Por mais detalhada que seja a sua narração nunca será capaz de dizer tudo. Chegará o dia em que até o resumo será desaconselhado.
As palavras certas terão de aparecer, caso contrário haverá problemas. Palavras como patrocinadores. Quanto mais rombuda é a linguagem, mais diluímos o fogo. Se não queima, não é comédia.
Há um traço comum presente em quem levou a sátira ou o humor de forma incomparavelmente séria. A desistência após perceber que os predicados da comédia não passam de ficções. Kraus, à cabeça.
 
A comédia combateu bravamente durante milénios, chegou a hora de arrumar a trouxa e descansar.
 

últimos cartuchos da dinastia do bobo

 


Roberto Gamito

24.08.21

Ao contrário de todas as expectativas, a vida brotou neste planeta antigamente estéril. Tudo terá começado como um projecto modesto, uma tentativa sem grandes perspectivas, um daqueles cursos que se faz para não estar parado, um passatempo entre trabalhos sérios, a fim de ver no que dá. Ainda hoje ignoramos se pelas mãos do Acaso, se pelas mãos de Deus. Encetou-se a experiência com umas bactérias, uns fungos, de seguida uns líquenes. A vida ia ganhando confiança em si mesmo e ia testando formas inéditas, intrincando-se, criando alianças, simbioses. Não havia razão para a competição. Socalco a socalco, o mundo foi povoado pelo milagre. Depois surgiram as plantas, que prontamente se aliaram aos seus pais, os fungos. Do mar vieram os primeiros povoadores da terra. Aventuram-se para além do mundo conhecido. Talvez um parente da iguana das Galápagos. É incrível como a vida pôde florescer num mundo tão rude. Nada estava a favor da vida: mesmo assim ela prosperou. Viver é uma prova de resistência. Foi-o desde o princípio. A vida singrou aonde não a esperavam. Não será essa vida, uma vida que rompe do deserto sem cunhas, o sinónimo de amor?

Na Tanzânia, nas árvores, os colobos, uns macacos com uma pelagem preta e branca, recentemente tiveram de se adaptar a uma realidade nova. De tanto viver suspenso entre a terra e o céu, esse apeadeiro tenso como a corda de um funâmbulo, observa-se o mundo de maneira diferente. Recordo-me do barão trepador, de Italo Calvino. Quem fica muito tempo nas alturas tem uma vista privilegiada e tudo lhe parece pequeno. Nos últimos anos, as antigas árvores, a antiga floresta, foi dando lugar a plantações de chá. Vê-los no meio do chá a fitar os homens absortos na colheita, eles, os colobos, que nunca viram os homens, é de partir o coração. Não percebem o que lhes aconteceu — claro, corremos sempre o risco de humanizar e o colobo terá direito, como é óbvio, à sua singular e inescrutável interpretação da sua nova situação. A forma como o colobo grita indicia a autoridade que tem sobre o território. O grito deste singular macaco foi-se subtilizando até aos nossos dias: hoje chama-se poder.

O colobo é um macaco do mundo antigo, e a floresta onde viveu já não é útil aos homens. Em breve, tudo o que natureza dá, lenta e ineficazmente, será visto como um empecilho. Em breve, os animais selvagens não terão mais para onde ir a não ser migrar para o território inóspito da culpa humana. Não adianta avançar ou recuar, fugir ou enfrentar, todos os caminhos vão dar à extinção. Afortunadamente, os colobos ignoram que estão entre a espada e a parede, e podem fruir daquela imagem de uma nova espécie de macacos, os homens, a colher chá num sítio onde até há pouco tempo havia árvores com dezenas de metros.

Na Amazónia, recensearam-se, até ao momento, 16 mil espécies de árvores. A biodiversidade na maior floresta do planeta é um hino no qual concorrem todas as cores e sons. Certamente um dos maiores orgulhos do Criador, seja ele quem for. Sem as árvores, as cataratas de Iguaçu, no Brasil, não existiriam. Um dos mais grandiosos espectáculos produzidos pela natureza: há milhares, se não milhões de anos que a peça não sai de cena. Sem as cataratas de Iguaçu, deixará de haver o andorinhão-velho, uma ave que nidifica nas cataratas para se proteger dos predadores. Permitam-me que cite uma frase que vi num documentário sobre florestas: “a água como a vida nunca pára a meio caminho”. Se a água parar, a vida pára com ela, eis uma ideia que podemos retirar.
Mas abrandemos um pouco, respiremos fundo, tentemos uma última vez reatar a nossa relação com a natureza, não falar com os espíritos de todas as coisas, rios, árvores, e animais, como um antigo xamã, mas olhar para tudo o que se passa à nossa volta: como um pequeno orangotango.

Terá sido provavelmente a mudança mais drástica da história da vida. Deixou a água e voltou-se para o céu. Primeiro veio o sonho, depois um plano seguido esforçadamente ao longo de milhões de anos de evolução. Entretanto, tiveram que se tornar mais ágeis e mais leves. As primeiras aves contentaram-se com o facto de serem desajeitadas, de avançar aos pulos. A confiança foi crescendo ao longo de milhões de anos até que alguns deram o salto determinante — o voo. Voar dava acesso a povoar o novo mundo. Esta é a história dos pássaros. Muito parecida com a dos homens, parece-me.

Abandonemos por instantes o andorinhão-velho, e voltemos o holofote do nosso desassossego em direcção às flores. Foram elas, e não os poetas ou homens inspirados pela paixão, que inventaram a sedução. Precisavam urgentemente de prosperar. As flores queriam atrair todo o tipo de bichos: os que voam, os que rastejam, ou os que andam. Em suma: manipular os polinizadores para atingir os seus fins. Vistas dessa ideia, as flores já não parecem tão santas. À medida que os olhos dos animais se aperfeiçoaram, as flores viram-no, e o viram aqui pode ou não levar aspas, arriscaram tudo e jogaram o trunfo: a sedução. Um mundo até então quase monocromático deu lugar a um festival de cores e cheiros. Ei-las, as flores, as pioneiras na sedução.

Na caverna Chauvet-Pont d’ara, no sul da França, podemos observar pinturas rupestres com mais de 30 mil anos. Naquela altura o homem não se desenhava a si próprio, desenhava os outros seres vivos. Parece abissal a diferença entre a arte primitiva, vamos utilizar este termo não ignorando o perigo que acarreta neste caso, e a nossa, em que tudo gira à volta do nosso ego, do eu narcótico em que o outro, a aparecer, surge desfocado. Era o início dos inícios. O homem tinha todas as perguntas e nenhuma das respostas. Talvez não tenhamos avançado muito mais, embora a nossa arrogância venha em nosso socorro a fim de o desmentir. O homem primitivo colmatou os vazios com a arte, a cultura, os rudimentos da religião. À falta de verdade, e não sabendo lidar com o vazio, o homem teve uma ideia luminosa, talvez a maior de sempre: inventar histórias. A ficção para fazer as vezes do silêncio da resposta que teima em não aparecer.

Antigamente, o homem negociava tudo com os espíritos. A relação para com a natureza era de dívida. De lá para cá, a relação do homem com a vida transformou-se profundamente. E provavelmente irreversivelmente. A relação passou de mística, para económica. Já não há tempo para negociar com espíritos a próxima presa, a próxima refeição. O novo Deus, o dinheiro, quer tudo cada vez mais rápido, cada vez mais rentável. E o diálogo atrasa.

Um terço da superfície mundial foi consagrado à agricultura e não é preciso ser catastrofista profissional para prognosticar que o cenário vai piorar. As florestas tropicais estão a desaparecer a um ritmo alucinante. O progresso queima tudo à sua passagem. Por toda a África, a floresta do Congo é um bom exemplo disso, a área destinada à vida selvagem decresce. O que sobra é mantido a muito custo. Reservas diminutas mantidas graças à caça que, garantem-nos, visa regular o número de animais até este atingir o ideal, sendo que o ideal é uma palavra larga que alberga todos os interesses. São espécies que estão presas por arames, dependendo inteiramente dos caprichos dos turistas.

A cada dia que passa, nascem 400 mil humanos e morrem 160 mil. Todos os dias são mais 240 mil bocas para alimentar na Terra. Estas são as contas que Deus faz na toalha do restaurante antes de nos dizer o preço da vida. Ninguém quer, à partida, queimar a floresta— porém também ninguém deseja ter fome. Entre a conversão da floresta em terreno agrícola e a fome passeiam-se todos os interesses. Nós vivemos uma mentira. Ao pé desta, Deus, que até pode existir, é uma brincadeira inócua de criança. A economia cresce atrás de um crescimento perpétuo. Uma ideia suicida.
Nenhum sistema fechado pode crescer indefinidamente, assevera-nos a ciência. É só uma questão de tempo até dar buraco. O dinheiro chicoteia-nos com a ordem: mais depressa, mais lucro. Tudo o que não é susceptível de ser convertido em dinheiro é um empecilho. O diálogo é um estorvo. Lutamos sem esperanças de sairmos vitoriosos contra o que criamos. A sede de dinheiro. Queremos mais, queremos sempre mais. E já nem nos importa como.

Coloquemos de lado a Amazónia por momentos. O corno de rinoceronte vale mais que ouro. No mercado negro, cada quilograma vale cerca de 50 000 euros. Quanto mais rinocerontes matar, mais o caçador ilegal ganhará. Ao torná-lo mais raro, mais posso pedir pelo corno, cogitará o caçador ilegal. Do ponto de vista do caçador ilegal, a proximidade da extinção de um animal é o melhor que lhe pode acontecer. Especula sem escrúpulos sobre a vida. Avancemos agora para Chittagong, no Bangladesh. Chittagong parece um pesadelo. Corrijo: Chittagong é um pesadelo. A meu ver, parece-me os bastidores do progresso, sendo que a peça já foi a palco e foi um fracasso. Chittagong é um dos maiores estaleiros de demolição de navios do mundo. Homens franzinos de mãos nuas empurram com cordas pedaços de um colosso em fim de vida. Não se paga quase nada a estes homens. E eles, muitas vezes, pagam com a vida. Quando vejo imagens sobre Chittagong tenho a sensação perturbadora de presenciar não apenas o lado obscuro do progresso, uma realidade local e distante da nossa, mas um vislumbre vívido do nosso futuro enquanto espécie.

Finalmente, o assunto que me levou a escrever esta crónica. Os fogos na floresta amazónica. Por muito que doa, não podemos desviar o olhar, é a altura de a espécie se mostrar adulta, não nos podemos habituar nunca a este tipo de catástrofe. Bolsonaro que, tal como Trump, se imunizou ao escândalo, disse que enviaria quarenta homens para combater o fogo. Uma anedota. Contudo, às vezes basta um Homem para apagar o fogo. Mas um Homem raro. Um que esteja disposto a dar a vida pela liberdade. Talvez não seja descabido relembrar um naco de prosa de autoria de Timothy Snyder, o qual pode ser encontrado no seu livro Sobre a Tirania:
“Repelir os factos é repelir a liberdade. Se nada é verdadeiro, então ninguém poderá lançar críticas ao poder, pois não existe fundamento algum que possa servir esse propósito. Se nada é verdade, então tudo é espectáculo.”

23 de Agosto de 2019

 

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Roberto Gamito

24.08.21

O modo como eu pensava distanciava-te de mim. Eu reflectia, tu ias para o twitter mandar graúdas postas de pescada.

Lembras-te de tudo o que levou à discórdia? Faço questão de to recordar: "o problema começa em terra idade". Segundo o teu parecer científico, estaria a atiçar canibais reformados. 

Não gostas de piça, pelo menos não mostraste apreço pela minha. Suportavas a chuva de inéditos de aspirantes a escritores que te chegava às mãos, porém o que te arreliou foi uma mera pila humilde posta em retrato. Apesar das flores, das palavras bonitas rapinadas aos poetas ou aos manjericos, conversávamos como predador e presa. Éramos dois estranhos com uma montanha de dias partilhados. 

Na vida, o que mais me ocupa, cogitava o escritor de pendor erótico, eram os problemas que não conseguia descortinar de pau em riste e que podem parecer disparatados: em que estilo escrever "enterrava-te educadamente o defunto". Confesso que o grande escriba de escrita fodilhona nunca hesita entre cona e pipi. Desafortunadamente, ainda não alcancei esse estado. 

Eu vivia dentro de um fato de ponto de interrogação: vivia em plena dúvida. O meu fado era acabar todas as frases em tom de questão.

Nada me parecia suficientemente polpudo, fluído, ágil, alquímico; nada era suficientemente luminoso nem carnudo. Era tudo a mesma merda, o mesmo prato de uma cantina desleixada. 

Não te menosprezes, homem. O tom da tua voz e os teus vocábulos de pacotilha humedecem-me a cona. Ignoro o que fazer com essa informação, ripostou o homem. Faz um poema. Ou, em faltando-te o jeito, contenta-te em estar calado.

O velhote pediu à mulher uns cobres para algo prosaico, a saber: uns contos para umas putas. No fim de contas, o velho ambicionava um episódio que lhe rasgasse, por uma vez que fosse, o marasmo em que a sua vida se havia tornado. E eis que a puta chega, de pernas destrancadas, como fada do lirismo caquético. Ela e ele revezavam-se num diálogo cansado. Seja como for, velho e puta não estavam na cama para arrecadar um Óscar. Estavam ali para desempoeirar o vetusto piçalho — e isso não é coisa de somenos.

Somos um compêndio de entradas, comentou a rameira, tal qual uma enciclopédia. Abra-me ao acaso e tente perceber-me.

Ausências, loucuras, acessos de ira. Estou farta desta vida, gritou a mulher de Deus. Atribuis tudo aos deveres da tua profissão. E eu? Quando é que vais ter tempo para mim? A merda do universo é mais importante para ti do que eu? 

Que eu não me chame Cabrão, e tu não te chames Puta, ainda hoje me parece inverosímil. De seguida, comeram-se como num filme. 

Vivemos como se a guilhotinha estivesse em vias de cair, impondo ao miolo sacrifícios até que rebenta. Já estou farto de pensar. Por vezes escapulíamo-nos pelas portas das traseiras da diversão e corríamos para empreender rituais báquicos no mato. 

Percebi que o homem se havia metamorfoseado: era feliz, ficou poeta; era comunicativo, tornou-se gárgula; era sábio, passou a frequentar o twitter. Já não recebia carinhos ao pôr-do-sol, logo quando o coração está mais receptivo a apanhar vitamina.

O velho entra sem bago nos aposentos da prostituta.
— O que estás aqui a fazer?
— Estou só a respirar. Gosto de olhar para mamas depois de jantar, ajuda-me a fazer a digestão.
— Se assim é, 20 paus, estas mamas não laboram de graça.

Elogiei-lhe os cabelos, os olhos e por fim as tetas.  

O velho e a rameira

 

 


Roberto Gamito

23.08.21

A felicidade não põe comida na mesa. A diversão não põe comida na mesa. Os passatempos não põem comida na mesa. Em breve nem o trabalho porá comida na mesa, disse a empregada de mesa.  

Escrever quando se está apaixonado devia ser considerado batota. Basta olhar para a amada e o resto escreve-se sozinho. Espero que criminalizem esses pulhas enamorados o quanto antes.

Guerras por todo o lado, miséria ao pontapé, pessoas no chão, deuses escaqueirados por marretinhas; o grito como língua oficial do século. O bêbedo pensa para si: "já tive ressacas piores". 

Vamos acabar, disse a mulher. Calma, é tudo muito pouco razoável, tudo muito definitivo. Não estás aberta a negociações?, ripostou o homem. Vamos dar uso à tua veia diplomática, querida. Não, soletrou impecavelmente a mulher.

As Primaveras são mais curtas onde pululam namorados. Fujam desses pardieiros se não quiserem morrer novos.

O velho, gasto como um instrumento musical abandonado, repete sempre a mesma deixa. Toques no tema que tocares, sai sempre a mesma nota. Uma nota das gordas para pagar os serviços à puta.

Sexo a rodos, banquetes opulentos e serviços públicos sem falhas, comentou o homem ao anjo caído. Por que motivo regressaste, questionou o anjo. Aquilo não era para mim, sou muito conservador, e além disso adoro reclamar quando estou nas filas.

Enfiei com ganas aquilo que tinha a fim de inventar mais uns centímetros ao pau. Pela cara dela, acho que não surtiu efeito.

Pensamento? Se calhar, o melhor era matarmo-nos a todos e tirar isso da cabeça.

Mulher avassaladora na cama. O escritor não voltou a escrever desde que a começou a comer. Segundo se conta, ela suga-lhe a vida pela verga. Abençoada fodilhona, o mundo está pejado de obras medíocres. 

A mulher era demoníaca na cama. Quando se vinha, o homem fazia o sinal da cruz.

Progresso? O mais certo é tirarem-nos os brinquedos e mandarem-nos para casa de barriga infeliz.  

Armindo foi preso por praticar preços criminosos numa mercearia biológica. Havia quem, pressionado a levar uma vida saudável, comprasse repolhos a prestações. 

O humorista fez uma piada e a suas palavras tiveram efeito no mundo real. Então não é um mágico, é um feiticeiro. Seja como for, fogueira com ele.

Não tomo a vacina porque ouvi dizer que houve uma pessoa que bateu as botas ao tomá-la. Meu amigo, se alguém morrer enquanto dá uma berlaitada, será que também vai deixar de fornicar? 

A crónica não põe comida na mesa

 

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