Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

20.04.24

Quando éramos homens, e havia algum prestígio em permanecer vertical, os predadores, sejam eles de nomeada, com obra feita ou aspirantes a tal, ou perdedores, como dizem os disléxicos activistas, e as presas amiúde geradas pela fome do outro, ninguém estranhava o seu lugar na cadeia alimentar, o mais antigo labirinto sem esquecer o talhante de bata ensanguentada, quando a sobrevivência era clara e não um poema de quem tranca uma vida lá dentro, antes de o advogado tomar o lugar do fabulista no lugar de intérprete de animais, numa altura em que os pais abandonavam os filhos na floresta com o fito de engordar as bruxas e os trilhos de pão eram recebidos pela fome de aves e bichos menores, o mundo, nem por isso, era muito diferente do nosso. 

Vivemos em plena era onde o conforto migrou para todos os vértices e arestas cortantes. A título de exemplo, a literatura, antigo pugilismo solitário, ringue onde o leitor se agredia com golpes remotos de malucos generosos, os quais queriam, acima de tudo, o nosso bem, metamorfoseou-se num spa no qual o leitor, espremido qual laranja algarvia, se espoja entoando o refrão do ego. Durante um ritual mais ou menos sofisticado de afagamento, depende das eras, depende dos preços, o leitor é bombardeado com elogios que, de outra forma, não os receberia. Eis o abismo, o mundo não está para nós, e a arte — não haja receio de usar aspas — fala para nós como se fosse uma mãe protetora, capaz de ir, vejam bem até onde vai a ternura do capitalismo, ao limite de entender o nosso dialecto de soluços e ranho. Posto isto, dada a ração semanal de literatura carregada de verbos engessados, de adjectivação mansa, não é de estranhar que eu seja incapaz de destrinçar a barata tonta da barata sensata. Interpreto a rapidez da barata quando se cruza com o humano tal como quando o adolescente levado em ombros pelas hormonas é apanhado pelos pais que juraram chegar tarde e, ao ouvir uma porta aberta que não estava nos planos, num instante se adapta favoravelmente, mantendo, por ora, o cadastro limpo. Nunca conheci uma barata tonta, a barata sabe sempre ser barata, seja aqui ou ao rés de um cogumelo radioactivo. Há um homem nas redondezas, é para fugir — parece-me sensato. 

Os cães começam a ladrar, incentivando outros a fazer o mesmo, e desse modo cria-se uma rede de latidos que cresce enquanto houver cães disponíveis para a chinfrineira. A vila, que dava ares de civilizada, com um pé neste século e outro no futuro, supondo que chega cá inteiro, não nos fiemos nas empresas de entregas, gradualmente foi despertada, casa a casa, para um coro de animalidade. Em fechando os olhos, diríamos que a vila retrocedeu até ao estado de selva. Partindo do princípio que houve um motivo para os primeiros cães começarem a ladrar, não é de descartar a hipótese segundo a qual os primeiros cães continuem a ladrar só porque há outros cães a ladrar. Ladramos porque outros ladram, e é tudo.
E eis que fui conduzido pelo pensamento rumo à crítica literária. Uma rede de críticos que se criticam mutuamente, sendo que o primeiro, alegremente, criticou um livro provocando uma avalanche de críticas. Não obstante a beleza da tempestade, o leitor do dito livro que originou esta pugna verbal, dá-se conta que andam a usar o mesmo punhado de citações pilhado a um crítico primevo e ninguém foi à fonte verificar se havia minério ou ouropel. Ladram porque outros ladram, e é só. 

E eis que entro numa casa de banho pública, nas paredes da qual foi sendo coligido, sem agenda, um enorme cadáver esquisito. Surrealistas de bexiga aflita. Eis algumas das pepitas. 
A castidade não valoriza o pénis, pelo que não posso considerar o homem enquanto objecto. A democracia é a arte de cortar irmãmente o bolo até ao átomo e bramir ‘já vos matei a fome’. Somos animais sociais, expressão a necessitar de uns retoques, no entanto, grande parte das cenas de pancadaria nascem num ambiente de convívio, logo não contem comigo para festas. Se as mulheres pararem de me ignorar, paro com os poemas — ganhamos todos. Não tenho penteado para ter inimigos. O Júlio tem tanto carisma que até os peidos são citáveis. Há anos que ando a matar perdizes com os mesmos cartuchos. Esta última tem-me tirado o sono, confesso. 

micke-lindstrom-OKNA5NoLwj0-unsplash.jpg

 


Roberto Gamito

20.04.24

Como se foge a isto? Quando escrevo estas linhas, que poderiam ser outras, caso as musas cooperassem, reparem, engendrei uma miríade de engodos com o intuito de as atrair e, até ver, nada surtiu efeito, nem peixinhos nem tubarões, não peço muito, contentar-me-ia com a da comédia, a desengonçada e mal-vista Talia, ou, estando a patrona da gargalhada muito ocupada a digerir o mundo numa cama de interpretações e notas de rodapé, a cabeça de Medusa servir-me-ia igualmente, parado é que não posso estar. Aproximo-me a contragosto da casa dos quarenta sem coreografia digna de ser fotografada nem patilhas condizentes com a minha ideologia política, esculpindo, ruga a ruga, o rosto derradeiro sem pretensões de o expor no museu. Pondo a primavera para trás das costas, enxotando as andorinhas com uma fanfarra de bufas própria destas idades, fazendo adeus às cores de outros tempos ao som de ossos tagarelas — corpo enquanto casa assombrada onde tudo é instrumento macabro, cada vez mais vizinho da morte — ó vizinha acaso não tem uma coroa-de-flores a mais que me possa dispensar?, como se as palavras fossem tombando sem alarde do discurso como pétalas afónicas, no chão lâminas rombas, como se me rapinassem com dedinhos ágeis de contrabandista o passado e perfume e me abandonassem com uma mão atrás e outra à frente na grande catedral do Deus desconhecido, no interior da qual, presumo, o homem enlouquece sem ajuda de terceiros, tipo câmera anecóica, o sangue juntamente com uma chusma de barulhinhos de início incógnitos ganham tamanho e bibliografia a ponto de alcançar o tamanho de um predador jurássico, dos grandes e logo a abarrotar de dentes, e receber, à minha frente, bem empratado, o inferno ao meu gosto — sem que o tivesse encomendado. Dono, ou melhor, sócio minoritário, de uma verticalidade precária, de um esqueleto que vê nas dores a oportunidade de receber mais uma leva de socalcos, exilado na sua própria imagem, descortina favas dia sim, dia não em cada passo dado, merda para a jornada, narciso em fim de carreira, rei capaz de entediar o mais enérgico dos regicidas, orador motivacional de fantasmas, embora sem efeitos por aí além, depenado por qualquer mão, virtuosa ou calejada na marotice, vencedor no papel e derrotado na prática e mais um rol de lugares-comuns incapaz de detonar esse guarda-roupa de peles secas guardadas no fundo do baú da existência. Podem vir a fazer falta, pensa, a época alta dos bailes de máscaras está longe de acabar.

Ao olhar para o espelho, como é comum nos filmes, dá-se conta que, ao desnovelar o reflexo, ingressa numa inabarcável galeria de cadáveres, aqueles que poderia ter sido e outros que, querendo ou querendo, acabou por ser e ainda outros que, carambolando entre o passado e o futuro, foram traduzidos pela memória, esta dotada da insânia de enterrar o rosto inicial no esquecimento e devolver-nos a cabeça de um animal inclassificável. A confusão é tanta que ignora se matou Laio ou se vive debaixo das suas saias. O nosso homem, o qual se havia desembaraçado do nome para que pudesse entrar e sair de todas as histórias sem ser notado, daí que oscile entre a primeira e a terceira pessoa, ele que, ao contrário do poeta, não habitou o nome, quando muito morou lá por favor, fora inquietado por uma dúvida. Como se foge a isto sem enlouquecer? Serei eu, também, obra do acaso. Não suporta não ser senhor de si próprio. Medrou como humano enquanto os lábios de uma Beatriz genérica no entanto escaqueirada pelo tesão não se esfumaram da sua cabeça. Nada havia a fazer. Punha-se a vampirizar a sua magra biografia, a enxertá-la com episódios alheios, ele que fora, que epifania azeda!, estupidificado por mil servidões. O jovem, apodemo-lo assim para efeitos de ódio, veio directamente da cona da mãe para o insultar. O nosso homem levou com enxovalho no lombo e placenta na careca sem dizer nada. Sabe lá ele o fim que o espera, pensou o mais entradote, e prosseguiu com o seu monólogo interior. 

 

carly-osborn-LKRRLAKgeO4-unsplash.jpg


Roberto Gamito

20.04.24

Deitados, como se o mundo não lhes interessasse, à procura de posição, fazendo tangram com os ossos, ensaiando inconscientemente as poses uma e outra vez documentadas e que tantas alegrias dão aos homens de pau solitário, encimando a toalha axadrezada de piquenique com corpos disponíveis para o plano inclinado da mentira, como manda a lei dos piqueniques, rodeados de pitéu caseiro, preludiando sem verbos a mais a cena de sexo silvestre como vem nos livros, principiou-se a falar da singularidade da bifana enquanto a mão do homem ia cartografando a febra, rodeados por um nevoeiro de moscas que, aos poucos, se densificava, as principais fiscais da paixão campestre (1), as quais, exegetas vanguardistas, interpretam a toalha de cima como se fosse o retrato de Belzebu. Não obstante o rei estar afogado há muito no mar de intenções da rainha, o tempo passava devagar como se tivesse apostado em nós.

É, convenhamos, tempo de acabarmos, cuspiu ela sem peias da sua boquinha ontem entregue à trombose do orgasmo, a qual, no prefácio da paixão, foi hábil em burocracia ebuliente, a grande sala de espera onde alinhamos, por ordem crescente de fome, uma alcateia de desejos, não ignorando que é apenas uma questão de tempo até sermos atendidos e nos despedirmos do verniz da sofisticação, desmantelando, assim, esse oxímoro com o dinamite do tesão. Mostrou assim dominar o timing da comédia humana. Bebi um café e veio-me à cachola Balzac.
Minutos antes de ser alvo de tão inesperado rosário de palavras, simultaneamente vulgar, já o havia visto um sem-número de vezes nos filmes, via-o de fora, a rir acriançadamente, do ridículo que é darmo-nos conta de uma marreta a tombar do céu com intenções de legar ao chão uma aldeia de estilhaços; todavia, empreendia, qual Ulisses pacifista sem memória para coligir os pretendentes nos arquivos da cólera, uma odisseia de planos para os próximos 500 anos porque, segundo li em certos sonetos, ciência das boas quando o assunto é a aliança de carnes, dado que somente no exagero a carne e a palavra formam aliança, era para sempre. Em dias de menor comedimento, vinha-me à ideia que o universo continuava a expandir-se no sentido de acomodar o que sentia por ela. Que armazém de expectativas goradas tinha agora em mãos para despachar. Negócio a explorar: comércio de expectativas em segunda mão para quem, destituído de miolo, é incapaz de sintonizar o coração na frequência do infinito. No parecer de certos entendidos, gente que a memória logo esculpe até ao pó, do pó ao pó é um longo calvário do caruncho!, o artista é, afiançam esses cultores de entrelinhas, quem se dá conta da luta entre o infinitesimal e o infinito. O muito pequeno põe-se muito direito, adquire uma monumental poupa, enxerta nele metros postiços e vê-se ao espelho como gigante genuíno sobre os ombros de um ego recém-calibrado pela situação aflitiva.

Sempre que alguém se dedicou a biografar a vida dos comediantes, coisa que acontece com muito menos frequência do que deveria, quer dizer, se descartarmos as películas com ares de documentário cujo fito é enobrecer o palhaço que está em vias de se extinguir, logo ele que não passa de uma coleção de balas perdidas, somos colonizados pela ideia de um Cristo assustadiço que saiu da cruz com intenção de trocar os pregos antigos por novos, regressando na mesma noite, não vá a metáfora afrouxar.
A morte. Uma última pausa após a qual não se seguirá punchline.

“É, convenhamos, tempo de acabarmos.” Recebi a notícia como um estalo no coração. Mesmo aí, no ponto final posto por extenso, partilhámos as contas. Ela disparou as palavras eu fiquei com o coice — e recuei destrambelhadamente até à infância, ultrapassando, primeiro, o labirinto das relações falhadas. Às arrecuas até ao início, sem precisar de terapeuta.
Eu que me afeiçoei à farpela de ser Ninguém, ela, entomologista, amante do insignificante, viu-me, percebo agora, como insecto exótico. Houve um erro de paralaxe que me passou ao lado. Para mim, o sonho, para ela, mais um trabalho. Acabar comigo era o equivalente a alfinetar-me num quadro de cortiça e dispor-me friamente ao lado do escaravelho mais parecido comigo. Com efeito, desembaracei-me da pele humana, em tempos um dragão chinês debaixo do qual se acoitava uma legião de possibilidades, e fui despromovido a escaravelho-bosteiro, com sorte uma espécie única, hábil em brilhar no escuro. Um bolinha de merda perfeitamente esférica transportada até à amada, caminho prenhe de perigos, predadores e até brisas. Uma e outra vez, um exemplo de combatividade. Infelizmente, carecemos de um Homero capaz de pôr isto em Epopeia. E isto tudo a fazer o pino, como se não houvesse outra forma de transportar excrementos esféricos — o único globo que faz jus ao mundo dos homens. Analisando friamente, agora que as palavras a cavalo nos sentimentos iniciam o arrefecimento, aos poucos, a pertencer ao território dos fantasmas, e a distância que nos unia uma assimptota. Feita as continhas no guardanapo de taberna, ignoro se fiquei a perder. Ser humano, segundo se conta, embora haja teses contrárias, contém aspectos positivos capazes de erigir seitas à volta de duas ou três patranhas. Um escaravelho-bosteiro, arrisco, é um parente de Sísifo com a ligeira diferença que, embora o deserto se afigure como um inferno em obras, alcança a amada. Desafortunadamente, desconhecem-se testemunhos de escaravelhos fêmea após receber tão delicado presente. Há ali muito trabalho envolvido. A esfera, como disse Platão, é a perfeição, e por consequência, a imagem de Deus. O escaravelho, que só se deixou ludibriar pelos egípcios, não estabelece, que se saiba, ligações com Deus. E no entanto ela move-se. Para ti, a perfeição, o retrato de Deus, a mais bela das merdas. A perfeição esculpida na merda. A comédia é própria do homem. E, faça-se justiça, do escaravelho-bosteiro.

(1)
A mosca é uma empata-beijos e, no limite, caso o lume gerado pela fricção das carnes seja brando e insuficiente para as incendiar ou electrocutar, uma empata-fodas. A mosca é tipo irmã conservadora que fiscaliza as pernas da irmã mais nova a fim de controlar as entradas e saídas de estranhos. A mosca é puritana.
Não me espantaria se houvesse estatísticas nas quais se percebesse a importância da mosca e o impacto negativo sobre a natalidade em Portugal. Se não há condições para a prática da fornicação, o chamado sexo, caso analisem estes temas de óculos de massa e bata branca, haverá menos oportunidades para expedir bebés para o mundo. A minha tese é que existe uma mosca batedora que, assim que avista um casal, vai comunicar às outras que andam pelo campo a debicar excrementos. Hoje temos gastronomia portuguesa. Não é preciso ser grande crítico gastronómico para entender o entusiasmo da mosca. Mesmo um palato analfabeto reconhece a superioridade do presunto face ao excremento.
Apesar de ser proverbial o seu apetite por cocó, aí parente do humorista em noites de aflição, e por matéria morta, a saber: cadáveres e pessoas tomadas pela depressão, as moscas não recusam comida caseira. Tal como as hienas, reconhecidas no meio animal e académico por serem necrófragas, não dizem que não se lhes calhar na rifa uma carcaça fresca. E aqui somos todos irmãos.

 

chris-curry-N4AFGRPZGk4-unsplash.jpg


Roberto Gamito

19.04.24

Se nos descuidamos, impingem-nos livralhada que calha nem terem lido. No limite, celebridades, encandeadas pela sua pretensa estatura, apresentam, de olhos volta e meia fechados, típico de afectação importada, enquanto puxam ao sentimento quando deviam era impelir à bofetada, um livro que calha nem terem escrito. Toda a gente aplaude e ninguém se enfurece sob pena de macular a grande ilusão. Suspeito que nem às gordas — sejam elas garrafais ou cósmicas — passam cartão. Não vejo isso — nem o mundo — com bons olhos: ignoro se é espírito crítico, se miopia; em todo o caso, não nos entendemos na mesma língua. Numa sessão de apresentação de um livreco em que, partilhando da visão — e amiúde da cegueira — do autor, o compincha de linhas convidado para fins de afagamento (o corrector automático, esperto, substituiu ‘afagamento’ por ‘afogamento’ e só prova que as máquinas já alcançaram consciência há muito) debita umas vacuidades pomposas para gáudio de um público faminto de obviedades, trocam-se intenções de punhetas num tom barroco, e só descansa quando elevar o escritor a génio do século, fá-lo com elogios gerais, ortopédicos, os quais servem para qualquer um e não magoa o andar. No fim aplaudimos com a cara cheia de sorrisos e nem do título do livro nos lembramos. Tal como o velho, o público do certame literário contenta-se com pouco: uma cadeira e um tipo a falar e, acrescente-se sem receio, a secreta esperança de poder lançar o bitaite trazido de casa à mínima oportunidade, qual farnel vocabular, isto e até menos que isto faz com que não arredemos pé deste festival de gagos em que não sobrevive, sequer, uma citação para contar aos netos.

Findo o prefácio laudatório durante o qual o amigalhaço destas lides o matriculou na turma dos imortais, o escritor enceta o guião pachorrento no qual singulariza as suas dores de parto num tom que deveria ser engodo para um sem-número de zaragatas. Põe à borda do prato a dificuldade, deixa-se tentar pela facilidade condescendente, durante a qual despovoa as entrelinhas com um pau, não vá alguma ideia ficar lá a minar o verdadeiro sentido das suas palavras e os leitores abalarem da sessão com mais dúvidas do que certezas, comete erros, uns a propósito, outros a despropósito, a forma mais saloia de se humanizar, de gerar empatia, tal como aprendeu em noites de insónia nesses tutoriais da internet, ele que sem eles não passa de um autómato cuja função é agradar, que é como quem diz, uma puta, e logo das mais precárias, pese embora de solicitude infinita. Não arrisca por medo, não vive por medo, não chega sequer a mergulhar na piscina dos crescidos, não saberia lidar com as críticas, cada ajuntamento é ocasião para pôr em prática o oportunismo, matricula-se em todas as esquinas, fez escola em todas as intrigas e mesmo assim, ao chegar a casa de cócoras com o cu calejado de tanta promessa e com a língua extenuada de tanto nada posto por extenso, pensa: não serviu de nada.

micke-lindstrom-vOSeuDQf2cQ-unsplash.jpg


Roberto Gamito

18.04.24

Temos por cá um espanta-bundas de víscera desafinada, que crê ver na esquina habitada o antídoto contra o azedume. Continuando a partir daí, com a calma de quem não tem nada a perder, sem que um nome sonante nos enguice o coração e nos ensarilhe as pernas, principiando a caricatura do destino a cuspo, proveniente de uma fúria fresca, emergindo desses restos de comida requentada na cabeça de outros e de sangue coagulado nas fotografias em sépia, posfácios de lutas interiores que nem os historiadores sem critério passam cartão. Os sinais, se juntos proféticos, se dispersos entretém para intérpretes de domingo, são os bastidores de uma verticalidade em ruínas, de um homem inacabado a estourar os últimos cartuchos na fila dos rodapés, onde, asseguram os matreiros empacotadores de falsos gigantes, celebrará em letra miúda a sua glória. 

Isto, seja lido com tempo ou na diagonal, sejas tu um rei ou um bispo, é um perigo a ganhar patas subterrâneas na corrente sanguínea do leitor, a quem, calculem, já temos de pedir em tom de súplica que molhe, ao menos, os pezinhos nestas linhas. E só isso constitui um ver-se-te-avias-ó-manel, labirinto apinhado de minotauros burocratas hábeis em rebobinar o processo de canonização até à demonização do mais santo de entre os homens. 

Quanto aos outros, mergulhem em apneia neste paleio, carreguem no fôlego a cruz esculpida de véspera, posta a quente na província agreste e inabitável que é, presumo, o coração humano. Para evitar equívocos, o tipo desce sem intenções de regressar à superfície. Em voltando ao mundo dos vivos, confundi-lo-iam com algum herói e tal estraga a reputação de qualquer um. 

Espantalhos aristocratas espantam passarinhos e passarões e, de chofre, açambarcam as migalhas que prometeram proteger. 

Pairamos sobre o esterco sonhando com a queda munidos de asas sem obra feita. E foda-se.

 

dima-kapralov-rkDtmviAHDw-unsplash.jpg


Roberto Gamito

14.04.24

Furriel, escuta-me: há dias, após comer gulosamente cabidela de diamantes de sangue numa correria de colheradas, prato típico de déspota milionário, perdoem-me a redundância, a referência e a enumeração fora da época de inventários, vagabundeava com vontade todavia sem genica pela rua dos meus últimos dias com a pança a saltitar de pitéu devorado e dei-me conta de um detalhe deveras revelador. As poucas sombras de árvore que ainda restam haviam sido ocupadas por veículos, carros, carripanas, motas e quadrúpedes de chapa não identificados, estes repousavam quais felinos exaustos, como que posfaciando uma caçada com bocejos, bosquejos de proezas e flatulências, enquanto os homens, o zénite da criação, suavam quais figos a secar ao sol, como se a água fosse um estorvo.  

Principiei a asnear, que é como quem diz, de mim brotou uma catarata de obscenidades, hábil em polinizar os ouvidos mais sensíveis com uma irritação fresca, não lhe faltando nutrientes — só quero o vosso bem. 

Massa cinzenta, queimadinhos, o arroz e o miolo, jantar de zombie feito em fanicos. Ando de um lado para o outro com as cinzas de Deus nos cornos, ele por fim minúsculo que está dentro de nós e por momentos morto. Perante isto, a notícia de mais uma morte inesperada, só logrei pensar em foder e em Dostoiévski. Amanhã pode não ser permitido, há que voltar aos clássicos. 

Na vinheta seguinte, o nosso personagem anónimo prosseguia a sua ruminação, no entanto fora-lhe adicionada uma mulher de joelhos ao rés da braguilha. Enxotou-a sem pinga de delicadeza. Coitada, a pobre só tencionava acoitar-se à sombra dos tomates do velho e, quem sabe, dar largas ao apetite sem que o sol convocasse a madurez para a sua pele. 

Há vinte anos, na rua agora semeada de lojas tão diferentes no nome e no conceito mas tão iguais no conteúdo, havia tão-somente dois tipos de negócio: tabernas e mercearias. Embora o sortido de bebedeiras tenha migrado do passado rumo ao presente, não é, convenhamos, o mesmo cenário. Não tem o mesmo sabor apresentar uma cadeira ressequida do sol às costas de um cavalheiro que ficou à mercê da nossa fúria ou repetir o mesmo gesto mas com uma cadeira da moda. Dá a ideia que até a porrada nas esplanadas é espectáculo virado para os turistas. 

Queira facultar-me prazer e o bom do broche, e se possível em simultâneo, e para ontem, puta! Só se deres uma aparadela no mato. Não estamos em época de incêndios, quando for a altura, falo ei! Até lá regalar-me-ei com este chumaço natural que volta e meia engoda peixe mais necessitado à procura de farnel. Escusavam de teimar com ele, falava assim com todos. Mesclava ordenamento do território e brejeirice com mestria digna de mestre, fora, sem sombra de dúvidas, bafejado pelas musas. Era o cronista do seu apetite e isso fê-lo ganhar muitos inimigos e amantes e biografias não autorizadas.

Há anos, era eu puto a prestigiar a cara com ranho e borbulhas, atirava pedras às lagartixas só para ouvir o farfalhar das folhas secas à minha volta. Apontava à cabeça de uma, e merda!: fugia aquela e fugiam outras sete. Por incrível que pudesse afigurar-se, a tarefa de encontrar vida debaixo da pedra que encrencou Abel, revelava-se esquiva. Qualquer outra pedra oferecia na sua cave um hotel destinado a bichos e bichinhos. Só este pedregulho bíblico permanecia como excepção. 

 

yuri-krupenin-r0qQ4Yvl_JI-unsplash.jpg


Roberto Gamito

13.04.24

Esse festival pirotécnico de parangonas com que nos entopem os sentidos e nos atravancam a alma com grilhões é um chorrilho de arrotos afinados pela novidade mais fresca, que ao ouvido mais destreinado passa por sinfonia. A manipulação a que estão sujeitas as multidões põe a marioneta em perspectiva, confere-lhe tridimensionalidade, adiciona-lhe chapéu e futuro, ao passo que nós, tão desgraçados quanto alienados, embarcámos numa viagem inspirada em Flatland. Quanto menos dimensões tiver, menos problemas arranjo, há-de congeminar um matemático virado para a ardósia a mando de uma faca de dimensões e gume respeitáveis. A marionete regozija-se pelo seu destino — o primeiro pensamento assim que a fada lhe confere vida e número de contribuinte.

E eu? Na altura, inferior a todos eles, fui ganhando corpulência e testículos à Rabelais, os quais saltaram marotamente de geração em geração, qual tesouro de família, tipo Santo Graal do baixo ventre, rapinando centímetros e coragem a esses poeirentos cadáveres encalhados nas estantes, inspirei-me, não minto, em patilhas célebres e barbas com obra feita. À conta de leituras metamorfoseei-me num cachalote pitosga e camaleónico, nem negro nem branco, confundo-me com águas e marés com o intuito de me aproximar desse enxame de Ahabs gagos de arpão reformado. Daí para a frente é sem mestre, cornos nos cornos com a morte. Posso finalmente desarrolhar o demónio que há dentro do homem. Hoje ninguém dorme, é dia de festa, o Diabo olhou, novamente, para o céu.

A minha luta, sei-o, é contra o tempo. Doravante é um contra-relógio, licra da cabeça aos pés e cores berrantes que não me favorecem seja qual for o ângulo ou o fotógrafo, e vá de dar ao pedal. Pedalo logo suo. Existir fica para depois. Em face do vasto catálogo farfalhante de bichos, no qual as espécies se encavalitam umas nas outras no mesmo ruído, quer dizer, acotovelam-se com a ideia de entrarem no círculo franzino onde o holofote separa, de longe, o trigo do joio, ou, se preferirem, como se o jogo da reputação fosse uma partida de sumo, estamos todos gordos e em trajes menores;  em todo o caso, quem permanece no círculo está em jogo; fora isso, ainda há, ouvi de fonte precariamente segura no entanto subornável, gente a merecer um elogio ou outro. Avancemos com calminha, a senda até ao próximo raciocínio está pejada de buracos e buraquinhos. Ali vai uma gaja que merecia estar comigo, comenta o macho em idade de acasalar — e isto não é de somenos. Confiscando os voos do ego para divãs que valorizam à medida que coleccionam rabos desejosos de desabafar, anos a fio no funambulismo da adolescência, anos à pendura no carrossel da morte, mas sim, os voos, ao relegá-los para a frieza das fórmulas físicas, como quem chama a genialidade ao gabinete da eficácia com o fito de a abençoar com um sermão antes de a despedir. Encasulados no cacho de âmbar da previsibilidade, a enceleirar raiva dentro de pipas de carvalho, a fazer tempo para a mudança — e reparem que os séculos passam num foguete, Camões que era Camões falava de um Portugal com os vícios de hoje, meus queridos Velhos do Restelo em regime pós-laboral.

A fórmula arruma tudo: quando descortinarem a minha posição inicial — o inferno, o inferno! — e a minha aceleração — luciferina, não há outra — hão-de ir ao tapete e se for preciso até ajudam o árbitro na contagem. Hão-de aproveitar o último fôlego para a epifania de vão de escada. O humanismo é uma coisa maravilhosa, mas como mercadoria.

Não há por aí ninguém para me despentear as convicções políticas, pergunta a mulher no bar num tom que, se os tempos fossem outros, diríamos carregadamente sexual. Já ninguém me arrepia com parágrafos, os quais tombam sem agenda do céu tipo caca de pombo e ali ficam à espera que a burocracia das freguesias desatravanque o caminho da ideia de limpeza para a limpeza propriamente dita; esses filhos da puta — calma, não é daí que nascem as dificuldades e as diferenças entre nós — desembarcam à minha beira com o seu refrão de época alta com a gangrena de quem romantizou a inércia e a elevou a musa só para ter uma desculpa de atar as mãos. É o costume. Entretém de pila murcha. Na versão fílmica, haverá uns tipos a quem o declive vai beliscando a frágil verticalidade até que, esgotadas as forças, as quais foram desbaratadas em punhetas líricas ou alheias com o fito de subirem na hierarquia onde só os sopés são palpáveis, encetam a queda com a lágrima no canto do olho. Pensamento novo. Não é a descoberta da pólvora, mas anda lá perto. Mas filho, cogitará o leitor ajeitando os óculos e os colhões de forma síncrona, para quê estes coices metidos a despropósito? Meu puto, estás tão a leste das quezílias, o verniz da tua pretensa sofisticação ingressou em ti como ácido, a princípio educadamente, e está a minutos de chegar aos ossos. A tua propensão para imitares os quadrúpedes quando a política te bate à porta tinha de ter uma razão que não psicanalítica. Está bem que nos fodem, à grande e à estrangeira, mas foste tu, não foi a tua mãe nem Laio, que permitiu que o verniz assentasse arraiais no esqueleto e ganhasse confiança até se tranfigurar num vampiro.

Outro personagem. Tratam-no alternadamente como génio e erro conforme tocam os reclames. Linhas — isso vi eu com olhos incorruptíveis — de pura genuinidade da candonga, elevada a hino. Os aplausos ante tamanha farsa tiraram-me o sono durante décadas. As insónias ensinaram-me tudo o que havia a aprender: meti o bedelho como um felino ferra os dentes nas goelas da presa, eu que antes havia inventado acidentes para abrandar a locomotiva da fome.

Que campeões deste atletismo de aprumadinhos! Deleitados e tontos, medalhas e cérebros nas prateleiras dos troféus. Tantos gráficos e nenhum é capaz de mascarar o nosso desnorte. Tantos pódios atulhados de malta com vertigens.

Cada influencer está convencida — ou convencido, que os há também em formato macho — que dá guarida a uma dinastia na barriga. O puto é endeusado assim que é escorraçado da mãe — agora aguentem este festival de mimados.

Não me quero armar em juiz, estou nisto, na vida e no resto, com ganas de aprender e desaprender. Se possível, munido das palavras mais ígneas. Nada de descambar em projectos ambiciosos, pelo que não esperem destas unhas nenhuma catedral, o vosso Deus que durma na rua — daqui em diante é o evangelho da pólvora. Desapareçam-me da frente mais a vossa gangrena do positivismo.

Andas a catar de cadáveres alheios piolhos para assim teres pretexto para te coçar, dir-me-ão convencidos que o vosso cérebro quer alguma coisa convosco. São empreendimentos deste calibre que nos catapultam para uma antologia do disparate, destacadíssimos. Não retruco. Está certo, até deixar de estar.

Com ou sem bola, isolei-me com fintas de autor, visto que o esférico é artifício para evitarmos andarmos por aí aos tiros, não foi golo, mas. Um mas atestado de cólera. O meu propósito: um susto na grande área. Falho, todos falhamos, o que muda é o equipamento e o teor dos comentários dirigidos ao árbitro; e nada garante que para a próxima falhemos melhor. O susto não passou: cá estou eu na área, uma e outra vez, qual possesso suado e de calções cheios de terra.

Roubei-lhe tempo. Que estupidez, perdi o meu tempo e o dela. Somos larápios de tempo inexperientes. Envergonhe-se já o leitor, as banalidades, estas e outras, serão regadas a gasolina. Das mil, uma: uma horta de chamas e faúlhas — um milagre da sustentabilidade, só precisa ser regada uma vez.

Festival de parangonas


Roberto Gamito

07.04.24

Pedi com voz coxa, amparada pelas muletas tipo e imagina, fruto de lábia extenuada de andar a impingir isto e aquilo aos néscios, um café à homem contemporâneo, sem princípio. De uma penada confeccionei crítica social e parodiei Borges, o escritor argentino. Ainda não está suficientemente profundo, comentei ao fitar o café com as mãos de quem vai dar início ao mergulho. Das duas, uma: ou ganho uma medalha ou conduzem-me para o hospício, fosse como fosse, a parvoíce é olímpica.

Língua insubmissa, pese embora o corpo agrilhoado, vícios de quem ambiciona subir pela hierarquia acima, para desprestígio do cu ontem bem reputado, e o corpo é que paga!, manietado no colete-de-forças da eficiência — caiu-nos um problema (desafio, caso vos tenha calhado a fava de ‘empreendedor’) no colo. O problema órfão encontrou em mim um pai adoptivo, e assim se vê como anda o mundo das ideias. A empresa faliu por ser incapaz de oferecer morada a tanto desafio. Das cinzas desse negócio nasceu uma casa de criadores de conteúdo.

Com os joelhos a tremerem que nem varas ao serem coreografadas pelo vento, como que a prefaciar a grande conversa ou uma foda há muito desejada, o clima, ameno, não pedia preservativos nem gorros. Décadas a aturar manetas, a cuspir aos ouvidos dos apardalados o mesmo refrão capitalista para que me levem as bagatelas das prateleiras, anos a deixar-me ficar para trás nesta maratona a que uns, não sem vergonha, apodam progresso, um sem-número de restos de música que transbordavam dos bares, sítios onde vamos à noitinha prosseguir com as buscas, a felicidade que não há meio de aparecer, tudo isso fazia esquecer-me que a velhice — essa cabra multiforme que nos esculpe desfavoravelmente qual escultor sem talento, um escultor só Parkinson, recorda-me do que sei, que é como quem diz, o meu mundo cabe à larga num bolso. A vida é uma tragédia em plano inclinado, o potencial ficou lá atrás.

É agora, questionou a mulher de peito farto. Deixa-me só encostar o mundo às cordas, bramou o poeta armado em pugilista com os calções na mão, consente, filha, que despache o mundo numas linhas, que eu já te atendo.

Numa esquina dessa história cuja luz daria à cena, caso fosse fotografada, o estatuto de memorável, a velhota corcunda, tipo caracol com a mania da verticalidade, vistoriava a montra atulhada de bolos com paciência de relojoeiro. Não tenho tempo para nada, excepto para bolos, aí aprecio a ponderação, eis uma legenda para a cena a piscar o olho a Fernando Pessoa.
Um bolo de arroz e, sem transição, aquela “ainda agora se divorciou e já anda com outro.” Como se as mulheres fossem obrigadas a um período de pousio. Durante uma temporada não se plantarão nabos nessa cona, eis o que deveria vir no Borda d'Água. Deixa a mulher em paz, interrompi eu, agricultura é vida.

Era um homem a desnovelar os segredos do cosmos ao balcão entre berros, pancadas e perguntas. Pediu marisco ao taberneiro só para ter o gostinho de escutar um delicioso ‘vai para o caralho mais o teu gosto requintado’. Antes disso havia estado em casa a homenagear o compasso, a descrever círculos em todas as divisões, pi, pi, caralho, clamava quando cumpria a volta.

E a bifana vem ou não vem, perguntava alguém furibundo, há horas que ando a mobilar as tripas a cerveja e tu, tasqueiro só patilhas, não me desenrascas nada para entreter os dentes.

Outra velha que não a outra, esta segunda velha não parecia de porcelana, porém não estava viva. O cão empalhado exibia o seu melhor ar de desconfiado. A perdiz está amalhada. O restolho devolve-nos um som de cinema a cada passo. Não há lebres a acordar para o espanto de quem foi passear ao mato com o fito de espairecer e foi abalroado com o facto de o mundo, que não se importa com nada do que é humano, ter mais vida que um colhão no auge.

A fauna do sítio era vasta e merecedora de descrição mais avultada. Com o porquinho no colo, o pastor novo-rico dotado com tiques de celebridade de redes sociais trouxe o porco directamente da pocilga para a pastelaria e não admite crítica, vi lá fora, logo faço também, o bêbedo, o qual empestou a visão com vídeos de Instagram viu há dias uma dondoca a passear o seu piruças aprumado numa mala e, para fazer um brilharete, transporta o seu mini bobi desleixado cujo pêlo nunca conheceu escova num saco plástico grande e transparente como quem transporta um peixinho dourado para casa mas antes atesta a pança de bagaço. Patinhas a dar a dar, lindo, turistas, zero, o que era um descanso para a alma. Cafés e bolos a preço de local. De seguida, acordei e dei uma volta.

 

susan-wilkinson-EBH7bF9407c-unsplash.jpg


Roberto Gamito

07.01.24

A paixão é uma experiência cinética — um movimento que celebra um sem-número de apeadeiros por onde o calor passa a todo o vapor. Tanta coisa ficou por perguntar e outra tanta por responder; principiamos a abrandar, a pôr o mapa de lado, atiramos os santos pelas janelas do carro e enviamos piretes ao destino. Ao espaço e ao tempo deixamos as peles secas. O final está ali, à espreita, todo fome e mandíbulas. 

O artista pequenito começa a escalar, como quem não quer a coisa, pelo tornozelo da sua musa, vemo-lo a congeminar patifarias eufónicas, quer dizer, poemas feitos de fôlego de vidas desperdiçadas, vemo-lo, presumivelmente, destituído das máscaras do dia-a-dia, catapultamo-lo para o palco improvisado pelo olhar, o qual desceu pé ante pé pelo declive que liga o marasmo do quotidiano ao decote perfumado. Suspirou com vagar, parafraseando uma actriz de cinema. Dias ou meses mais tarde, desencarcerará desse instante palavras como beleza, bebedouro, energia, indizível. Ao rés desse episódio que não vingou no mundo, regressamos ao zero absoluto. Depois, ziguezagueamos até casa atirando o norte para trás das costas. 

Não me difames assim tão facilmente. Quando me vim, não sabia o que pensar do orgasmo. À primeira vista, era um território despovoado de palavras. À medida que a temperatura arrefecia, as palavras reclamaram o espaço quais ervas daninhas. Doravante parodiarão a Idade de Ouro. 

O poema sobre o orgasmo, lamentava-se o poeta, ninguém tinha interesse em ouvi-lo. No entanto, para escutar o orgasmo, não faltavam ouvintes. É muito sensível, não é? Ao humanizá-lo, ao ver nele, no orgasmo, prateleiras apinhadas de legendas, sufocamo-lo. Mas isso não é grave. O pior é não sabermos o que fazer com o tempo que nos resta. 

Durante muitos anos tinha sempre um livro onde me refugiar. Ignoro se sou eu que cresci, se são os livros que minguaram. Uma coisa é certa, durmo com o rabo de fora — e isso não é bom. Não é bom para mim, que me constipo, nem para a literatura, que não faz puto.

Tencionava replicar esse desconforto noutras coordenadas. Não tínhamos dinheiro, nem tínhamos fome. Víamo-nos uns aos outros como pipas resignadas onde a frustração fermentava longe dos olhares. Um dos meus maiores arrependimentos, diz o velho, é ter dito não ao Diabo; serviu-me de muito. 

Alguns fados, uma canção desasada e um homem depenado às voltas do microfone como quem procura o nome da musa debaixo da língua. 

 

Desconforto noutras coordenadas


Roberto Gamito

10.12.23

Tempos houve em que a criança da cidade, ao pronunciar-se acerca da proveniência do leite, respondia com a incompreendida deixa “vem da fábrica” e era prontamente alvo de um sem-fim de larachas e azedumes. Independentemente da corpulência ou da idade do catraio, a criatura em flor transformava-se num alvo indefeso dum circo apalhaçado, no qual o deboche vertiginoso dava mostras de incansabilidade.

O adulto, especializado em problemas desta estirpe, vinha em socorro da realidade e declarava: “o leite vem das tetas da vaca”. E mais: o adulto não se coibia de adornar a sua resposta com um acrescento já célebre: “actualmente, não sei o que é que as crianças aprendem na escola”. Não vou mentir, também eu, animal amigo da paz excepto nos dias de folga, engrossei o refrão da turba sem titubear. O adulto é um bicho que raramente perde a oportunidade de se mostrar superior aos demais. Mostrar-se conhecedor da origem do leite é uma oportunidade tão boa como outras, aliás, capaz de ombrear sem medos com outras questiúnculas, a saber, quem foi Newton e qual o seu legado, enfim, a altura ideal para exibir o crachá precário de homem inteligente. No entanto, o adulto pouco mais sabe sobre a jornada do leite que a sua origem. Sabe que o leite pinga da teta do bovino, sabe que sucedem vários processos de permeio, coisa que é incapaz de especificar sem se atrapalhar e sem fazer uma impecável figura de parvo, e sabe que essas gotas, mais tarde, hão-de parar no copo.
Aqui chegados, é preciso ter em conta que, se a criança não é grande espingarda em termos de raciocínio, o adulto, o qual, acreditando nos livros, também já foi criança, não é melhor, uma vez que já se esqueceu de tudo o que aprendeu em garoto. A criança pode não saber nada, no entanto, do outro lado da barricada, temos o adulto, alguém que salta de bitaite em bitaite, passando ao lado de qualquer coisa que se assemelhe à verdade.

Perante o perigo de perpetuar esta injustiça, tomei corajosamente a decisão de tirar as mãos da cabeça, que lá estavam com o fito de enfatizar o espanto, pô-las no bolso, para sublinhar que não há pressa, e encaminhá-las rumo à folha a fim de rabiscar o meu parecer de perito em assuntos aos quais ninguém parece passar cartão.

Dirijamo-nos ao fulcro da coisa: as crianças da cidade têm razão. O leite vem, actualmente, de fábricas. Quero pedir desculpa em nome de todos os adultos, comediantes, palhaços amadores e pessoas que se deixaram levar, qual cadáver sem personalidade, pela maré do escárnio. Se forem habitantes deste século, que nem é dos melhores em matéria de vistas, não vos terá passado despercebido o aparecimento de inéditas espécies de leite, nomeadamente leite de aveia e amêndoa.

Tal prova, ao contrário daquilo que inúmeros biólogos costumam dizer, gente que anda na ciência sem amor e com os olhos desfocados a pensar que o mundo é uma exposição de quadros abstratos, que os mamíferos ganharam. Dêem a coroa de todos os reinos, animal, vegetal, monera e restantes aos mamíferos. Já não constitui novidade para ninguém, os mamíferos ganharam uma reputação tal que até as amêndoas se alistaram no partido das mamas.
Como apreciador de mamas desde tenra idade, conhecedor da sua polivalência terapêutica, acolho com agrado o facto de as amêndoas terem feito implantes mamários; as mamas nunca são de mais. E, sem mais, o elogio pela delicadeza e a paciência de quem tem como ofício ordenhá-las.

Não obstante a satisfação que é verificar o avanço das mamas até sítios inesperados, urge lermos a situação à luz dos nossos dias. Será uma jogada de marketing ou o jugo do patriarcado a abater-se sobre as inocentes amêndoas que, a fim de continuarem relevantes nas redes sociais, precisam de arranjar mamas para exibir no Instagram e quejandos? Se for isso é triste, embora me faça rir. É o mundo que queremos deixar como herança aos nossos filhos? Um mundo que obriga a aveia, amêndoas e outras da mesma laia a tornarem-se mamíferos?
Como é que os vegetais e frutos que não aderiram à moda de virar mamífero reagem a esta situação? Tremo só de pensar na pressão a que devem estar sujeitas as novas amêndoas por parte das amêndoas mais conservadoras.
Enfim, só não fico mais doente porque bebo leite de vaca e este, felizmente, está pejado de antibióticos e medicamentos. Seja como for, os estúpidos putos da cidade estavam certos. O leite vem da fábrica. Foram, sem que o soubessem, profetas. Espero que um dia essas crianças, hoje talvez adultas (sei lá, há pessoas que se recusam a crescer), as quais, amarguradas e revoltadas, enveredaram pela via do crime ou do veganismo em virtude do trauma de terem sido tão violentamente gozadas. Desculpem, crianças, os adultos não sabem o que fazem.

 

(10 de Dezembro de 2019)

 

megan-ruth-uPE3UaP_JvE-unsplash.jpg

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog