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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.09.25

O comediante estava feliz. O público ria sempre. Estava preso num gif. O inferno do mesmo.

Ele: Fazes o meu tipo, mas...
Ela: Mas o quê?
Ele: ...turbei-me.

A boneca insuflável sente-se enojada pelo namorado, um homem normal. Apanhou-o na sala com um cão de porcelana.

Orfeu: Olha, vou contar aquela piada racista. Foda-se, Eurídice, outra vez. Já te tinha dito para não olhares para trás. Que inferno, pá.

Ironia macaca é ser mecânico, passar os dias debaixo dos carros e morrer atropelado.

 Sublinho as partes menos importantes dos livros. É uma forma que eu arranjei de nunca me esquecer que sou parvo.

Apostar em mim é como apostar num cão de porcelana numa corrida de galgos. É simultaneamente patético e risível. Uma boa aposta, portanto.

A química e física das relações esporádicas. Tinha umas mãos de ouro. Apesar disso, ela não reagiu.

Um homem a partir dos 40 é um boneco de neve. Duas bolas e gelo.

Adorava ser homossexual só para poder dizer: Ando à procura do meu Van Damme. Alguém que me dê luta e abra as pernas como ninguém.

Época balnear.
A água estava tão gelada que a tatuagem da coruja que habitava a coxa voou até ao bosque.

O hip-hop abriu-me os olhos para muita coisa. Sem ele dificilmente descobriria as infindas possibilidades de acampar um boné na cabeça.

Antes do Big Bang, Deus não tinha tempo para nada.

O infantário é um estúdio de tatuagens não permanentes.

Estou a contar os dias até que uma feminista se lembre de propor a alteração da palavra “Encé(falo) para algo como “Encécona”.

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Roberto Gamito

19.09.25

Continuo a preferir os porcos mealheiros às strippers. É muito mais difícil enfiar dinheiro num corpo em movimento.

O gato ginasta. Deu 7 mortais para trás; ao oitavo morreu.

O hemofóbico venceu o seu medo. Finalmente cumpriu o seu sonho: ser serial killer. Uma inspiração.

Atirei o pau ao cão. O gato ficou surpreso, o cão contente. E pus o castor a chorar.

Entrei numa loja de sofás. O empregado olhou para mim e senti-me desconfortável. Péssima publicidade, péssima publicidade — pensei. E saí.

Não somos mercadoria, somos pessoas, garantem os mais optimistas, sentados num sofá feito de paletes.

“Entre o bem e o mal uma rosa.” Não é o amor que nos salva, mas o Mascarado da Sailor Moon.

Sem cenoura, o boneco de neve transforma-se no Voldemort. Um homem frio. E sem nariz.

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Roberto Gamito

17.09.25

O falecido só vai à frente, no carro funerário, para ninguém confundir o cortejo fúnebre com uma manifestação de ninjas.

A electricidade também é uma droga. Deixa muita gente agarrada.

Consentir que o outro fale até ao fim.
— Eu sou um homem da ciência...
— Que engraçado, eu também.
— Oculta.
— Ora, foda-se.
 
No circo havia um número com um casal de fumadores. Um fazia anéis de fumo; o outro, tigres.
 
No zingamocho da bazófia.

A egípcia gostou de mim. Não me espanta, no Egipto os gatos sempre foram venerados.

Trabalhava noite e dia para conseguir aquilo que sempre sonhara. As maiores olheiras do mundo.

Estava tão incerto da sua capacidade de ser humilde que, além das lições de humildade que recebia da vida, tinha explicações de humildade.

O deus Marte morreu. Guerra à sua alma.

O Super Mário é canalizador, mas onde ele ganha mesmo dinheiro é no Parkour

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Roberto Gamito

13.09.25

Passado o auge da popularidade, o coro de encómios que tantas línguas seduziu e amestrou, podemos ver, vencido o ruído, as falhas do seu gesto. Que obra, que mediocridade ímpar.

Durante tempo de mais estive a leste das quezílias, mastigando com desdém a rosa dos ventos com um semblante de quem já viu tudo e não sabe o que fazer com a fome. O mundo está nas últimas ou prestes a começar: são coisas de averiguar.

Dou-me conta que os coitos publicitários metidos a despropósito com fins de aumentar a ninhada de seguidores de figuras de porcelana chegam a mim sob a forma de uma procissão de comichões que percorrem sem pudor o meu corpo de lés a lés. As palavras engolidas recalquei-as ao transformá-los em sapos barulhentos. O inconsciente é um grande cortejo de Dioniso.

Vacilando na orla do inferno, afastei o olhar, mitificando o vulcão. A minha queda criaria novas espécies de aves que me acompanhariam até às portas do Orco num canto rente ao humano.

Aqui me têm, mais velho e ocasionalmente engaiolado, aprisionado entre os parênteses dos horários e da eficácia. Sísifo das 9 às 6 e Ícaro em pós-laboral.

Não há cronistas das orgias pagãs. Transcrever a folia é matá-la. A palavra fica de fora. A palavra é para o frio e para o ameno. Em registo infernal só resiste o bicho treinado na escassez. A fartura dilui a selvajaria. Isto na selva. Ao rés deste discurso, uma procissão de anjos a abanicar-se cheia de calores.

As palavras deviam enroscar-se nos gestos até não sabermos onde começam umas e acabam outras. O ar-condicionado da religião cristã achatou-nos o potencial. Mais fogo, mais fogo.

O sonho do bobo: a minha língua dará à luz uma ninhada de regicidas.

Ao fazer-se ao piso do pretenso gigantismo intelectual, ao pedir de empréstimo uma verticalidade surripiada num sem-fim de coordenadas de molde a insuflar o vácuo de canto, um nada que fique no ouvido, roubou a luz às plantas indefesas.

 

(transcrição de um episódio do podcast Duchamp, disponível no Spotify e afins)

 

Estou a escrever coisas mais encorpadas no Substack

 

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Roberto Gamito

24.05.25

O disparo das lagartixas até há pouco imóveis. Caso tivessem permanecido quietas, desinteressar-me-ia, qual personagem convicta de as ter compreendido. É nesse instante humilde, engrandecido pelo chinfrim das folhas caídas, que a ilusão da compreensão se estilhaça. Afinal era outro bicho. O papel de observador e animal observado saltitou, percebo-o agora volvidas umas décadas, entre mim e ela. Crescemos ou minguamos se formos submetidos ao olhar treinado. O olhar desdobra-nos sem nos pedir licença, incita-nos à metamorfose. Se amedrontado, o olhar transforma a migalha num zigurate, se paciente, detona a estatura engalanada pelo marketing da lábia do gigante postiço. E assim faz as pazes com a realidade, pelo menos por agora, eis a diplomacia sem alarde nem apertos de mão.

Quando se é puto, as frases saem mancas e são amputadas por gritos e risos; não procuram bocas póstumas que as trasladem de geração em geração; nascem fósforos acesos e despedem-se de nós com o fogo humilde sem pretensões de serem eternas. Sem querer, quando catraios de miolo por estrear, somos semelhantes a radialistas e a podcasters de nova geração. A sociedade actual elevou-nos à categoria de eficientes máquinas de encher chouriços. O silêncio é onde construímos a nossa Transilvânia, eis a residência ambulante dos nossos medos. A grande maioria de nós é inábil em unir pontos, ainda que alguns dos jogos da infância consista -- deliciosa ironia! -- em uni-los em cadernos de actividades, amiúde patrocinadas pela inércia. O tempo passa sem que nos segredem a razão do plano inclinado. Quando damos por ela, metamorfoseámo-nos em estátuas nervosas, a ensaiar a quietude e a queda, porém com o alarde raramente observado no mármore.

As gargalhadas preenchem os cotovelos do dédalo da esplanada, são os enchumaços das conversas sérias. As crianças percorrem os interstícios das mesas encimadas por minis e galões, andam de um lado para o outro, testando todas as direcções, qual aspirante a pêndulo, imprevisíveis e sem agenda são Ulisses a andar em círculos.

Ninguém sabe, nem os pais, quantos decilitros de lágrimas escorrem dos olhos de uma criança durante a infância. Por tudo e por nada. Oprimidos por quinas de mesa e por pais de sorriso bissexto.

Do perfume da infância chegámos ao fedor da vida adulta. Não desembarcamos paulatinamente, quais turistas endinheirados; somos cuspidos como náufragos. O cheiro pouco convidativo impede-nos de regressar ao passado, impossibilita a idealização; o pivete é o rival da miragem. Sem o perfume da esperança e dos sonhos, a realidade é um cadáver de um cacholote. 

Quando aperto a mão de um homem envelhecido, conheço a dimensão do reino. Modesto ponto primevo, áspera e diminuta promessa, sonhos lançados pelo abismo à beira do qual a esperança desespera, big bang em botão e adiado. E eis que a morte chega com o ponto final derradeiro. Os vindouros que semeiem este universo noutras paragens. 

Pouco resta de mim nestas palavras. Falo do Roberto de outros tempos -- o putinho de parco vocabulário, de olhos atestados de alegria e com as ideias a saírem-lhe pelas orelhas. Um garoto todo quedas e questões -- rumino-o noutra língua e é como se fosse um estranho.
Regresso à minha infância como quem vê um tigre no zoológico -- não a alcanço. A representação do tigre, confundível com o animal selvagem, foi encerrada; o tigre, esse, talvez ande nas redondezas a mirar-nos o pescoço.

Às vezes misturo-me no silêncio dos cadáveres que conheci e tento perceber se a morte me servirá.

Do outro lado da vida, no parapeito da minha descrença, leio este texto, qual plot twist da fábula Polegarzinho, onde a andorinha nos revela, na última linha, que ouviu a estória de um tipo na Dinamarca. E nós que empatizámos com ela, quase morta, ave extinta, empecilho de míopes, aquecida pela solidariedade da minúscula,  a menina quase-noiva da cega toupeira. Uma linha é suficiente para pôr em causa a biografia.

 

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Roberto Gamito

18.05.25

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.

Nuno Costa Santos. Escritor.

Esta conversa foi muito especial para mim; conversei com alguém que foi -- e ainda é -- muito importante na minha formação enquanto leitor. 


Podem escutar o episódio aqui:
https://open.spotify.com/episode/4MO2m29UStG18bfiqRniFs?si=mJItZY9WTzGlvnuEYnwd0Q

 

 

(Podem seguir-me lá no Spotify para receberem episódios fresquinhos todas as semanas)


Roberto Gamito

01.06.24

Novo episódio do podcast Tertúlia de Mentirosos. 

Carlos Moura. Humorista.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:

São Bernardo e resgate de pessoas, Os cães e a necessidade de agradar, Somos a raça que quer morangos o ano inteiro, A culpa e o activismo, O progresso é amiúde adicionar prateleiras, Santa Casa e NFT, Amadorismo na política, 25 de Abril, Abundância mascara a miséria, Países nórdicos e minimalismo, Usar termos ingleses, A musicalidade do português do Brasil, Dissecação da expressão “isto está a dar prejuízo”, gestor no palco da economia, Os números tornaram-se subjectivos, escola Monty Phyton, Empresas e o culto do ego, Gestor elevado a ídolo, Linguagem positiva e a comédia, Pulseira do equilíbrio, Programação neurolinguística, Fernando Rocha, Palhaço Slava Polunin, Bit sobre o Rei dos Frangos, Rever as primeiras actuações, Bit do Duarte Pita Negrão, “Queremos músicas inteligentes", Comédia para não chatear ninguém e a superioridade forjada de quem faz humor negro, Marcos Bilro e a Maddie, Afinar a actuação consoante o público Crowdwork: solução ou problema?, Masterclass de Crowdwork, crowdwork é funambulismo, Dara Ó Briain, “Uma das coisas que mais me custou na comédia”, Noites más, O riso que ando à procura, Perguntas, “Demorei anos até encontrar uma persona em palco”, IA e comédia, Processo criativo 

Ouvir episódio aqui:

 


Roberto Gamito

17.05.24

Não desejaria a ninguém que fosse eu. Descansem, não me chamo Ismael, nem tão-pouco desbarato a vida a perseguir cetáceos albinos; o que de mais parecido tenho com o arpão é o lápis atrás da orelha. As ervas, segundo li nas notícias, tomaram conta dos jardins dos caminhos que bifurcam; o barão trepador, por virtude da escassez de árvores, foi pontapeado das copas por um macaco futebolista, treinado no circo e regressou sem pinga de bazófia ao solo, embora tenha experimentando a vida nos arbustos durante uns dias, não era a mesma coisa; o diabo abriu uma churrasqueira no nono círculo de Dante — e só lhe desejo sorte para esta nova empreitada e, como vivemos em pleno canto de cisne da fartura, Tântalo, finalmente, matou a fome e a sede — e isso só nos devia orgulhar. Fui morada de multidões de possibilidades e aos poucos, ignoro se por cansaço, se por sabedoria, se por passatempo, fui escorraçando-as, uma por uma, ou aos cachos, e hoje sobro eu, um eu sem penas, indigno de figurar num quadro. Um eu implume sem as próteses dos cenários hipotéticos. Despenteando o caminho que haviam traçado para mim com um pau treinado a escavacar pinhatas, preenchi a minha agenda com as tarefas mais inúteis que logrei lembrar-me, irritando os virtuosos dos horários que, em virtude da organização, despacham um ano de trabalho numa tarde. Não faço tenções de abandonar o dédalo, afeiçoei-me ao Minotauro, respeito o seu labor e com sorte ainda encontraremos a saída do labirinto na amizade. A minha biografia é contrabandeada a preço de saldo por amigos e vizinhos sempre que me afasto um pouco. À semelhança dos grilos, se me aproximo muito quando a orquestra das tangentes se abate sobre a minha vida, calam-se, mudam de música, sintonizam uma rádio que não passe fado. Não me faltam, por conseguinte, candidatos a biógrafos. Pauto-me pela discrição, dizem, pela celebração do insignificante, quer dizer, do risível, e pela miniaturização do mundo alheio. A cidade — e quem diz cidade, sonhos, qualquer empreendimento faraónico posto em palavras ou em acto pela ambição humana — é metamorfoseado numa maquete, uma versão de esferovite, reduzida ao mínimo, por assim dizer, terreno onde a hipérbole não medra. Por muito adubo que a publicidade ponha na discussão não logrará desmentir-me, eis uma certeza. Cultivava distância como quem cultiva tomates, continuamente e sem alarido. Ridicularizo alianças, amizades, simbioses; as uniões, para mim, são salas de espera onde os traidores alinhavavam planos magistrais. Ou, se preferirem, a aliança é um viveiro de regicidas.
A burocratização do amor causa-lhe asco. Afastou-se das pessoas quando se deu conta que ninguém entendia amor-próprio como oxímoro. Partilhava com os sábios que habitam os cumes dos livros, os do mundo real não faço ideia, a repugnância pelo conceito de grandeza.

A nossa personagem — esta é uma versão em torno da qual o debate continua aceso — fugiu de casa de madrugada e deixou, na cama, o seu nome entregue às traças. Desembaraçou-se dele e passou a ser oficialmente anónimo, assim em minúsculas de molde a não criar inimigos. O anónimo anda na rua como quem se dirige para o cadafalso. Sem os arabescos da pose, uma coreografia esculpida a suspiros que se afigura perfeita aos olhos de um público ávido de verificar se a gravidade ainda funciona para aqueles lados, se é neutra como tanto asseveram, ou se, pelo contrário, não desperdiça uma oportunidade para despachar mais um homem. As partes seleccionadas, as que compõem este relato destrambelhado, as quais oscilam entre testumunhos, primeira e terceira pessoa, versões oficiais (duvido!), oficiosas, apontamentos laterais, notas de rodapé tentam pôr de pé o edifício de uma existência que se votou ao apagamento. Nada do que fez, segundo se sabe, foi feito para ficar. Não havia nele, segundo ex-amigos, a menor pinga de angústia. A mortalidade assustava-o tanto como um gato preto num esquina mal-iluminada. Obriga-nos ao salto e é só — não ficamos nem mais nem menos traumatizados. Respirava baixinho, como uma pedra, como se temesse estorvar o pensamento alheio com dióxido de carbono ou oxigénio mais ruidoso. Racionava oxigénio, esse era o seu legado para as gerações futuras. Perto dele, os nudistas sentiam-se encasacados, uma fraude. Tudo nele celebrava o despojamento. Dos actos, aos gestos, passando pelas palavras, não havia nele o abismo entre a acção e palavra. A palavra era a legenda perfeita do acto e vice-versa, e isso levava às lágrimas até o mais marmóreo filósofo. Quem quisesse aprender teria aprendido com ele o encanto das pequenas coisas, da possibilidade efervescente todavia sem discípulos, descortinando nos passos dele a biblioteca do fracasso, as hipóteses quebradas que elevavam o falhado a faquir. Habitamos uma terra de cinzas. O papa, num dos seus encontros com o anónimo, exumou do olhar do homem-sem-nome um rosário de amadas, um não sei quê de infância e, caso não tivesse virado costas à psicanálise, teria encontrado uma explicação à altura do mistério.

De facto, há críticos que sustentam que, sob o jogo de luzes deste homem sintético, casa de espelhos onde desdobramos o homem contemporâneo, debaixo do verniz enternecedor de uma solidão que só nos livros singra, se esconde, nos bastidores destes linhas, o narrador a apoucar a toque de porrada a hipocrisia vigente. Qual cobra no meio dos pedregulhos, a biografia do autor assoma-se, dotando de cabecinha os interstícios, no testemunho. Escorraçado da guilda dos apóstolos da recusa, à cabeça, Bartebly, quer infiltrar-se, dê por onde der, no clube dos resistentes.

Um zero tão à esquerda que Deus foi obrigado a repensar a sua definição de nada. O que mais desejava era ser esquecido, qual animal recém-falecido na savana. A fome ou o cartucho como ponto final. Tinha a consciência que havia indivíduos que mais pareciam furgonetas apinhadas de nomes de mortos. Se ao morrer fôssemos esquecidos sem adendas nem direito a notas de rodapé, nesse dia acabaria o mal no mundo, a psicologia e o Céu.

Falamos como se as palavras não evaporassem. Ao continuar, vamos improvisando pés-de-cabra na prisão do narcisismo. Nada disto interessa. Tanto as aves como as coisas mais depenadas, as mais engraçadas e as mais ásperas têm para o tempo (aquele que passeia os dentes sobre a nossa pele e ensaia o nosso fim de molde a não falhar nada aquando da estreia da peça) o mesmo valor. Abate-se sobre tudo, ser vivo e inanimado, com o mesmo vigor. Qual marreta embriagada pelo sangue, não descansa enquanto não escaqueirar e de nós não restar uma vasta paisagem de cacos e estaturas arruinadas. Diante do tempo, tudo é ridiculamente provisório. Ninguém vai ficar cá para acabar a história. As cigarras cantam, afiançam os cientistas, ao passo que o leigo, sem talento para fazer amigos, responde: as cigarras produzem ruído. Onde está a verdade? Em quem estuda ou em quem anda no meio das cigarras? Há que ter o ouvido imparcial para responder à altura. O taberneiro, ao ouvir esta última parte, disse: Sim senhor, ainda hoje é segunda-feira e já me roubaram o ânimo. Começa bem a semana.

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Roberto Gamito

16.05.24

Como se foge a isto? Quando escrevo estas linhas, que poderiam ser outras, caso as musas cooperassem, reparem, engendrei uma miríade de engodos com o intuito de as atrair e, até ver, nada surtiu efeito, não peço muito, contentar-me-ia com a da comédia, a desengonçada e por um triz exumada Talia, ou, estando ela muito ocupada a digerir o mundo numa cama de interpretações e notas de rodapé, a cabeça de Medusa servir-me-ia igualmente, parado é que não posso estar. Aproximo-me a contragosto da casa dos quarenta sem coreografia digna de ser fotografada, construindo, ruga a ruga, rusga após rusga, o rosto derradeiro. Pondo a primavera para trás das costas, enxotando as andorinhas com uma fanfarra de bufas como é próprio destas idades, fazendo adeus às cores de outros tempos ao som de ossos tagarelas — corpo enquanto casa assombrada onde tudo é instrumento macabro, cada vez mais vizinho da morte — ó vizinha acaso não tem uma coroa-de-flores que me possa dispensar?, como se as palavras fossem tombando sem alarde do discurso como pétalas afónicas, no chão lâminas rombas, como se me rapinassem com dedinhos ágeis de contrabandista o passado e perfume e me abandonassem com uma mão atrás e outra a frente na grande catedral do Deus desconhecido, no interior da qual, o homem enlouquece sem ajuda de terceiros, tipo câmara anecóica, o sangue juntamente com a chusma de barulhinhos de início incógnitos ganham tamanho e biografia a ponto de alcançar a corpulência de um predador jurássico, dos famintos e logo a abarrotar de dentes, e receber, à minha frente, bem empratado, o inferno ao meu gosto — sem que o tivesse encomendado. Dono, ou melhor, sócio minoritário, de uma verticalidade precária, de um esqueleto que vê nas dores a oportunidade de receber mais uma leva de socalcos, exilado na sua própria imagem, descortina favas dia sim, dia não em cada passado dado, narciso em fim de carreira, rei capaz de entediar o mais enérgico dos regicidas, orador motivacional de fantasmas, embora sem efeitos por aí além, depenado por qualquer mão, virtuosa ou calejada na marotice, vencedor no papel e derrotado na prática e mais um rol de lugares-comuns incapaz de detonar esse guarda-roupa de peles secas guardadas no fundo do baú da existência. Podem vir a fazer falta, pensa, a época alta dos bailes de máscaras está longe de acabar.

 

Ao olhar para o espelho, como é comum nos filmes, dá-se conta que, ao desnovelar o reflexo, ingressa numa inabarcável galeria de cadáveres, aqueles que poderia ter sido e outros que, querendo ou não querendo, acabou por ser, e ainda outros que, carambolando entre o passado e o futuro, foram traduzidos pela memória, esta dotada da insânia de enterrar o rosto inicial no esquecimento e devolver-nos a cabeça de um animal inclassificável. A confusão é tanta que ignora se matou Laio ou se vive debaixo das suas saias. O nosso homem, o qual se havia desembaraçado do nome para que pudesse entrar e sair de todas as histórias sem ser notado, ele que, ao contrário do poeta, não o habitou, quando muito morou lá por favor, fora inquietado por uma dúvida. Como se foge a isto sem enlouquecer? Serei eu, também, obra do acaso. Não suporta não ser senhor de si próprio. Medrou como humano enquanto os lábios de uma Beatriz escaqueirada pelo tesão não se esfumaram da sua cabeça. Nada havia a fazer. Punha-se a vampirizar a sua magra biografia, a enxertá-la com episódios alheios, ele que fora, que epifania azeda!, estupidificado por mil servidões. O jovem, apodemo-lo assim para efeitos de ódio, veio directamente da cona da mãe para o insultar. Levou com enxovalho no lombo e placenta na careca. Sabe lá ele o fim que o espera, pensou, e prossegui com seu monólogo interior. 

 

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Roberto Gamito

03.05.24

A história já não interessa. Numa manhã de julgamento, o algoz suspirava tipo panela de pressão do alto do seu metro e meio com a sua farpela, de um negro por estrear, incluíndo capuz, o qual o votava ao azedo anonimato, isto, se visto com a nossa lente contemporânea, na indumentária nunca facilitou, aí perdeu sempre a cabeça, o que diriam de mim se aparecesse com farpela desbotada, há que ter brio no nosso ofício, tem os seus inconvenientes, dir-nos-ia se nos cruzássemos com o carniceiro num café, espanta amizades, no entanto é óptimo se tivermos um funeral após o trabalhinho, vamos directos para o cemitério sem mudar de roupa, cogitava ele de si para si enquanto senhores com a cabeça a descoberto palravam do alto de um palco improvisado, há pouco tractor atestado de palha, a lengalenga da justiça, conceito tão mutante que podia ingressar na escola dos X-Men, e, eis o importante a reter, parceiro de uma lâmina calejada no ponto final. Pensamentos vindos sabe-se lá de onde ocupavam-lhe a mente e assim montava o baile mental onde as memórias dançavam ao som de um acordeão cacofónico. Ouvem-se aplausos após a cabeça tombada — é para isto que querem viver mais, murmura o algoz.

Um sem-conto de personagens estrebucham em salas onde só a burocracia medra, design inteligente, três cadeiras e está montado o labirinto, entoam uma pilha de veredictos num tom esganiçado de fadista decadente, sentadinhos e quedos quais regicidas domesticados pelo ordenado mínimo, com o cu semeado na cadeira desconfortável qual vida de pobre, isto a fim de não perderem o lugar — o triste jogo das cadeiras —, porém com um dedinho em riste qual maestro cheio de varizes, o qual conduz uma banda de fantasmas. Seres catrapiscados por forcas sedutoras que chegam atreladas a dívidas que, ao contrário de Deus, nunca nos perdem de vista. A fazer fé nas palavras do narrador, são santos; se acreditar nas palavras do literalista, sátrapas de gola alta.

Continuamos as mesmas pessoas com as palavras de sempre, como actores engaiolados num grande sucesso. De tantos solavancos, a ordem antiga extraviou-se. Há dias em que só principio frases com adeus, como quem espatifou os olhos na leitura de compêndios de sabedoria irrevogável e vem à janela para se despedir dessa galeria de quadros cínicos, económico-abstractos com um ou outro pirete — como manda a tradição dos iluminados. Exegetas vêem hieróglifos onde os taberneiros vêem apenas números.
A diferença que a educação faz na apreciação de um cenário.
Discutem-se atrasos, propõem-se adiamentos — muita lábia para que tudo permaneça o mesmo pântano.

Receoso de me levantar mais torto, já me aconteceu armar a zaragata por não gostar da disposição dos tremoços no pires, bem como o episódio onde fui fulminado pela combinação de cores de um pelotão de ciclistas, os maiores produtores de poluição visual, que bebem minis de licra, comportamento que deve constituir crime em meia dúzia de países, tudo isto me irrita e enxerta mãos pelo lombo, visto que a raiva é o leito de onde exumamos os recalcamentos — e reparem, são bichos esfaimados sem vocação para as simpatias da vida adulta.

 

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