Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

21.12.20

Uma tempestade de areia mumificou uma floresta arcaica e, desde então, quais faraós que ninguém ouviu falar, as árvores descansaram protegidas da decomposição.

Tempestade de areia, escoada piroclástica, tal como aconteceu em Pompeia, eis a Medusa inescapável. Medusa, mulher monstro, ponto de contacto entre fuga e combate, horror cujo olhar petrificava as pessoas, mito cujo desenlace fatal operado por Perseu foi retratado por Caravaggio no seu célebre escudo, o cabeçalho deste blog.

Espera-se da carne que cumpra com indiscutível mestria o inadiável protocolo de fornicar. Fornicação, uma prioridade do caderno dos afazeres, actualmente atafulhado de entulho.

Volta e meia vem-me à ideia de que o Homem não fez senão arranjar novos modos de morrer. Além dos naturais, morte ofertada por feras e quedas, tragédias trazidas de supetão por erupções e sismos, o Homem, não contente com as formas ditas naturais ou divinas, conforme a escola do medo que tenham cursado noutras vidas, tratou logo de arranjou outras, farto que estava de esperar pelo que não domina. Enforcamento, óbitos por degolação, suicídios de autor, mortes sem querer, fazer do carro um barco. Do lado de fora da chacina, o Homem convencia-se a si mesmo que a barbárie havia sido um percalço há muito ultrapassado.

Para a sede de sangue, herdada provavelmente de um deus arcaico ficcionado pelo Homem, forma inteligente de legitimar a sua animalidade, não vai achar cura nem razão.

O veneno tornou-se invencível; nem por milagre podemos ser curados. Caímos aos pés da cólera e erguemo-nos como bárbaros que nunca deixámos de ser. Uma raiva mansa, um regato marulhoso, o qual transborda violentamente e rompe o casulo da humanidade. Enquanto bárbaro, o Homem quer a soma dos pequenos mundos que lhe foram vedados.

Por certo há a esperança de que tudo podia ser de outro modo no momento em que a hesitação se interpõe entre a vontade e o golpe.

Que é feito do paraíso que havia, por cima e em volta, esse mundo simples todo flores e perfumes que espezinhamos quotidianamente? Procuramos hoje aquilo que matámos ontem.

E o amor que era o que precisávamos? E só o subjectivando — só um louco o faria — se dirá que aquilo que nos aconteceu pode ser uma de várias coisas.

Para onde nos conduzem as águas do rio da História? Como que cadáveres, boiando sem oferecer resistência, fumando a nossa breve existência.

 

Floresta Mumificada, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

20.12.20

A sala está deserta, os pensamentos circulam, selvagens, sem a interferência de ninguém. Um deserto cúbico onde as ossadas foram substituídas por pilhas de revistas vetustas. Não me ocorre nada que possa derrubar esse silêncio. Enfrentando um espelho que não recua, observo um vulto apatetado. É forçoso metaforizar o fenómeno, mas falta-me fôlego e vontade e vida e o mais. Ainda tratamos por aqui coisas pequeninas, animais legíveis que nos caibam meigamente nas mãos.

Espero que ninguém se aproxime, penso, a solidão é o meu único património. Não é bem a noção amarga de uma vida extraviada, esta postura cabisbaixa de derrotado convicto da qual poderíamos perfeitamente abdicar.

Acaso considerássemos depurar este silêncio até à luz, enxertando aqui e ali alguma profecia mais entusiasmante, podia ser que, num dia de sorte, houvesse alguém que nos escutasse.
Empanzinado com a côdea da sabedoria, damos um gole de vinho imaginado.

Era de Ouro ou Era de Pechisbeque, filosofava o abutre sem conter o riso, no cimo de uma máquina de vender tabaco.

Palmilhar este deserto à procura de algo que se assemelhe a um Homem, sibilava a cobra, herdeira de Diógenes.

A poesia é o grito do outro traduzido na nossa língua de amedrontados. Do lado de fora desta tristeza, o cão barricara-se no folhedo, deixando a cauda de fora para amostra. Dentro de segundos explodirá de alegria, dinamitando o monte de folhas.

Despenhámo-nos sovando amadoramente a trajectória que o amor nos havia destinado. Pusemo-nos, mais metro menos metro, no cume da tragédia.

 

A vida o deserto a solidão Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

20.12.20

O empenho dos personagens em esquecer o futuro era manifesto.
O narrador, cujo nome não interessa deslindar, parecia engasgar-se ao tentar legendar superiormente o sucedido. Possivelmente, encontrou um ponto de contacto inesperado com as suas criações. Quem diria que após tantos anos a engendrar ficções ainda haveria um resquício autobiográfico naquilo que lhe escorria dos dedos.

Um escritório como tantos outros, atulhado de pessoas e sonhos quebrados. Um dia inteiro naquilo — a mesma lengalenga sem nome a que muitos chamam trabalho — e não há uma alminha caridosa que se atire da janela para animar o dia. Noutras alturas, a imagem de um Homem a olhar pela janela, provavelmente à cata de um perfume que o insuflasse de esperança, conduzir-nos-ia a um estado meditativo. Todavia os tempos mudaram, vivemos num mundo em que o interior e o exterior se equivalem; as escapatórias, as fugas para um sítio melhor esfumaram-se. Resta-nos o suicídio, como que regressados pelo trilho do silêncio à única questão relevante da condição humana, como escreveu Albert Camus.

Nem sequer há vontade de falar. Se nos obrigam a repetir mais uma vez ‘preferia não o fazer’, atiramo-nos de pronto para os braços da morte. No tempo em que era fácil encontrar o amor essa ideia seria completamente estropiada por um mar de possibilidades. Ao olharmos pela janela, pensávamos: o amor, a felicidade andam por aí, urge continuar as buscas. Acalentávamos ingenuamente a ideia de um dia tudo ser diferente. Entretanto, passaram-se décadas e as antigas danças mil e uma vezes adiadas metamorfosearam-se em amargas recordações. Somos uma bailarina fundida à cadeira embalados pelo ruído atordoador num palco inclinado.

E se visse um estrangeiro intrometer-se na narrativa do abismo — alguém dotado de um olhar maravilhosamente inédito, com um coração apto a rasgar a monotonia. Quando novos, a brochura prometíamos, ao falar da vida, qualquer paisagem aparentada ao paraíso. De facto, fomos ludibriados.

Em certos recantos do escritório, um homem cujo nome se mesclou ao eco do edifício repete para ninguém as suas magias. Tenta, virado para a parede, exorcizar a vida demoníaca que gradualmente se lhe infiltrou na carne. Baba-se e gagueja, esbraceja e esperneia, porém nenhuma frase surte efeito. Apelidaram-no de xamã reformado. Fala com os espíritos, mas os espíritos não lhe passam cartão.

Em certas alturas festivas, a empresa propõe-nos uma foto de grupo. E dignidade, questiona alguém. Isso ficará para mais tarde, responde o faraó da pirâmide perecível. Tiramos a foto para a posteridade. Sozinhos, que é como quem diz, rodeados de fantasmas. Mais tarde, noutro século, a fotografia será levada para laboratório a fim de ser analisada ao microscópio. Façam o que fizerem, não encontrarão sequer vestígios de alegria.

A empresa está a passar por uma fase difícil, cantarola o patrão naquela voz de poeta rouco. Só conseguiremos manter os postos de trabalho daqueles que estiverem dispostos a vender a alma ao Diabo. Não peço para mim outra coisa, responde o cadáver vertical.

Cadáver Vertical

 


Roberto Gamito

19.12.20

Frequentemente, dado que somos exímios a desperdiçar tempo, iniciamos já suados a concretização de uma tarefa que há muito devia estar feita — uma crónica, por exemplo —, e encetamos a alucinação xamânica durante a qual nos deixamos possuir, à vez e sem rebuço, por um cardápio avantajado de demónios. Somos ingénuos a ponto de acreditarmos que o bombardeamento de estímulos nos conduzirá até aos altos cumes da inspiração.

À beira do desastre, que é como quem diz, o melhor já passou, orlamos o precipício e suas redondezas em passo de vadio à cata de tetas susceptíveis de nos nutrirem, sejam elas oriundas do mundo real ou do mundo virtual. Tempos houve em que esta questiúncula decisiva nem sequer existia. O mundo virtual, antes ínfimo e risível, estava longe de ser um rival à altura do mundo palpável. Entrementes, o século que nos saiu na rifa deu um coice, catapultando-nos para formas inéditas de nos relacionarmos connosco e com os outros. Não vos minto se postular que o tempo dedicado ao mundo virtual cresce espantosamente e o mundo real é cada vez mais um mundo de recurso, ao qual recorremos para coisas monótonas, pouco dignas de figurar no panteão das redes virtuais, a saber: carregar os telemóveis e viver a vida sem a pirotecnia da artificialidade.
O mundo real, sem adornos, não gera engajamento.
Eis o quadro pintado até então: o mundo real de joelhos diante da ficção.

Será isto a consequência de um ego que procura avidamente nas redes sociais aquilo que o mundo real lhe nega? A melhor imagem de si mesmo. Ou é algo mais primitivo? Será que o Homem sente ter esgotado as histórias do mundo real e hoje procura noutras paragens, qual navegador da nova escola, género pirata de sofá, uma história que o faça sair de si mesmo?

Ficaram apenas as cinzas de velhas pontes. Quão loucos teríamos de ser para principiar um puzzle com as sobras do velho mundo?

O mundo real é cruel, amesquinha-nos e apouca-nos sem parança. Não se acanha aquando do inventário das limitações e defeitos. Este pormo-nos de joelhos, esta rebelião escoada pelos dias, sem quebramos a nossa pose de mimo, da qual não sairão herdeiros, não dá sequer para o primeiro verso de uma elegia. Será que não conseguimos melhor que isto?

Como nota elucidativa dos nossos propósitos para esta crónica apraz-me dizer que, infelizmente, a última pergunta ficará sem resposta.

Um qualquer olhar estrangeiro capaz de resgatar o coração da sua vida em suspenso, como que uma instrução que devolvesse a vida e suas maravilhas à carne corrompida pelos dias ficcionais. Eis possivelmente uma escapatória.

 

Mundo virtual, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

18.12.20

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.

Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.

De Roberto Gamito e suas vozes.

túnel de vento, Roberto Gamito

 

Apeadeiros da conversa:
.A vida
.‘Tá todo lá dentro.
.Uma nova ninhada de estúpidos.
.Século XXI: Tudo o que não é imediatamente acessível ao nosso olhar é mentira.

.2020, o ano do fogo.
.Lamiré sobre Alquimia.
.Não há factos, só há interpretações.
.Relação entre filho e pai.
.Doenças do Eu
.
.Olhar para trás na arte.

 

Ouvir: Soundcloud , Spotify 

 


Roberto Gamito

18.12.20

Não aconselho a ninguém que interaja, seja de que forma for, gestos, palavrinhas meigas ou sorrisos, com os autóctones da taberna.

É gente com demasiadas histórias, faminta por caçar mais um par de orelhas ingénuo. Ao entrarmos num sítio destes, a simpatia, os bons modos, aquilo que nos torna humanos, isto é, os ademanes da civilização, devem ser deixados lá fora. Sair-nos-emos bem melhor se nos comportarmos como animais selvagens.

Caso contrário, ao abrirmos a boca para intervir numa conversa, mesmo que sejam modestos monossílabos, estamos perdidos. O habitante da taberna interpretará o gesto de cordialidade como “este tipo está interessadíssimo a ouvir-me, bem, vou contar a mesma lengalenga durante 3 horas que é para ver se ele arrebita”.

Em que momento da História do Homem esta actividade azucrinante começou a ser uma tradição? Provavelmente encontraríamos as suas raízes com a descoberta do fogo. Mal o fogo foi domado e o Homem se reuniu à sua volta, os chatos começaram a prosperar exponencialmente. Hoje é o que se vê, estão espalhados por todo o mundo, a espécie bípede mais bem adaptada de todos os tempos. O autóctone da taberna é apenas um herdeiro muito afastado desse chato primevo. Devemos agir cautelosamente sob pena de perdemos a vontade de viver.

Vejo poucos antropólogos a discorrer sobre o grande malefício do fogo: as conversas entediantes. Há vários milénios, o fogo era o centro de tudo. Aquecíamo-nos, mas em contrapartida tínhamos de levar com as histórias do chato. O chato: “nem sabes o que me aconteceu. Há dias apanhei umas bagas”. Já ouvi essa história, retruca o inocente. Convém frisar que este tipo de interação persiste até hoje. Não é pelo facto de retrucarmos simpaticamente que o chato se está a repetir que o chato deixa de ser chato. Possivelmente foi também à volta do fogo, com a cabeça a mil a tentar arranjar estratagemas a fim de se escapulir ao chato, que o Homem pensou pela primeira no suicídio.

Mas deixemos de açoitar o chato, ele tem, em princípio, o direito à vida.

Quando ingressamos na taberna, sabemos que a multa sairá cara quando os empregados da mesma têm a mesma farda, pior ainda se imaculada.
Segundo estudos medianamente sérios levados a cabo por mim, quanto mais aprumados estão os empregados, mais a comida será uma porcaria. Se querem comer uma bifana em condições, o taberneiro precisa de estar com aspecto de quem interrompeu uma cena de pancadaria só para vos servir.

Fala-se muito de educação, ou da falta dela, mas quanto a mim prefiro ser insultado se o resultado for comer uma suculenta bifana e uma imperial bem tirada. De que me serve ser recebido com um bom dia e um sorriso se depois fico desiludido com o petisco? Ainda não comemos simpatia. Aliás, o tratamento insultuoso só demonstra que o taberneiro está tão confiante no seu petisco que se pode dar ao luxo de nos chamar filho da puta. E nós acatamos, sabemos que daí vai sair uma memorável experiência gastronómica.

 

Taberna, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.12.20

Foi na taberna que se arruinou. Até então tinha sido um fabulista respeitável. Sabia ouvir e falar com animais, a saber: porcos, cavalos, patos e galinhas admiravam-no, respeitavam-no.
Não obstante a ligação fecunda entre este homem singular e os animais, não tardou a cair na rotina e a sentir na pele os efeitos nefastos associados a uma ligação mais duradoira. Os problemas começaram a surgir em catadupa, que é como quem diz, a realidade decidiu bater à porta. O que antes era visto como uma bênção depressa se transformou numa maldição. Os animais viam no fabulista uma espécie de psicólogo. Escutou as quezílias entre o gato e o cão, as preocupações das cabras, as quais, desmotivadas por não haver nada que se assemelhasse a uma elevação na planície, se suicidaram num poço, as vacas que reclamavam por um jantar antes de cada ordenha, o rato que achava ofensivo estar sempre associado ao queijo, como se não houvesse outras iguarias tão ou mais apetecíveis, o falcão míope que confundia torrões de terra com lebres, a toupeira que queria aprender braille, o javali que não aceitava o seu corpo, o cavalo que falava dos casos de assédio e violação, meu corpo, minhas regras, dizia o equídeo, não posso ser montado por qualquer um.

Num rasgo de inocência, o fabulista abordou os animais comunicando que não podia levar tantos problemas para casa, era insustentável. Os animais não compreenderam. O burro disse que, desde que iniciara as consultas, até a palha lhe sabia melhor.
A vaca, essa, há muito que mantinha um flirt discreto com ele, bastava ter dois dedos de testa e prestar atenção na forma como ela mastigava as ervas.

Vejam como o descontentamento tem aí pasto e como há-de ser fácil para o fabulista enveredar pela via do vício. O seu dom revelara finalmente o seu lado venenoso. Acorriam de todos os lados do mundo vários animais a contar as suas histórias, pequenas rixas, presas a falar da relação tensa com o predador, predador a queixar-se de que as presas estavam cada vez mais inteligentes, herbívoros a pensar mudar de dieta, necrófagos com a ambição de carne fresca, enfim, uma miríade de reclamações a que o entendedor de animais não lograva dar vazão.

Não passo de um bailarino a dançar no pântano da mexeriquice, pensava o fabulista. A canalha ulula imprecações sobre tudo o que mexe, eu que pensava que os animais eram diferentes, mais afeiçoados ao essencial.

A pouco e pouco canalizou a amargura para a vida da pinga. Quando se deu conta estava a falar com pedras da calçada.

Segundo os registos da época, houve uma matilha que passou ao rés desse homem esfarrapado que, na altura, cavaqueava com o passeio deitado no alcatrão. Os cães, ao assistirem àquela triste figura, mijaram-lhe em cima. Não falas connosco há dias para depois vires falar com as pedras da calçada. Desiludiste-nos a todos, pensava que tínhamos algo especial. Não nos mereces. Daí em diante os animais nunca mais falaram com ninguém. A história do último fabulista.

 

O último fabulista, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

16.12.20

Não pude, por motivos de saúde, ficar em casa como desejava.
Embora pudesse ter arranjado uns motivos de doença, qual ministro que vê o barco a naufragar e resolve usar a magia da desculpa para se esfumar tipo ninja, sinto que a doença é um tema demasiado ilustre para ser tratado em cima do joelho. Não obstante reconhecer em mim um homem feito com barba a condizer, sei-me inapto no tocante ao arremesso da mentira. Olho de forma estrangeirada para o mar encanitante de pessoas que me rodeia e invejo-o. Mentem sem engulhos, uma fluidez na patranha que é um disparate, é uma mentira atrás da outra que até dá gosto. Infelizmente, nessas alturas vem à tona a minha notória incapacidade de aprender com os outros. Por esta altura, se fosse um sujeito minimamente avantajado de miolo, já deveria ser capaz de mentir como um campeão engravatado. Não é por falta de exemplos. É na vida dita real, a qual podemos desdobrar em vida íntima, laboral e de taberna, da qual pouco pouco se fala, seja nas notícias, seja na poesia; quer nas redes sociais, quer até os seus mais altos propagandistas, os excelsos políticos. Nenhuma dessas experiências faz ninho na minha cabeça, pelo que não renasço como burlão calejado. Desgraçadamente, estou condenado a um estado de inocência perene. Aquilo que, mais adultamente, poderíamos designar burro incorrigível.

Volta e meia a nossa vida colide magicamente com um sábio insuspeito. Vamos lá encetar a descrição do bicho. Esbaforido, com os olhos a saírem das órbitas, cabelos em pé, gravata desfeita, braguilha aberta, como se a vida o tivesse fodido há coisa de minutos, pilinha desconfiada assomando-se qual vizinha à janela, manchas de sémen na t-shirt, fotografia de uma celebridade a sair-lhe do bolso das calças, as meias para fora das ditas, envergando um guarda-chuva esfarrapado, o homem fitou-me com um olhar de desencanto e disse: Olha-me bem para a tua figura. Para o que havia de estar guardado, ripostei eu prontamente.

Aprendemos a odiar-nos cordialmente no Inverno e no Outono, dado que é estapafúrdio retirar as mãos dos bolsos com o frio que se faz sentir por esses dias. Por esse motivo, embora houvesse as condições para a prática da rixa, decidimos, parvamente, continuar a cavaquear num tom ríspido.

Alcançada a discussão, vindo sabe-se lá de que províncias, o sábio não tardou a desovar em reprimendas de toda a estirpe, como se fosse um Leonardo da Vinci do puritanismo. Nada que beliscasse o meu ego moribundo. Cedo levou duas lambadas e foi dançar o resto do baile para a cona da mãe dele.

É hábito dos grandes humoristas resolverem os grandes problemas às avessas. Este é apenas mais um magro exemplo, visto que, no máximo, sou tão-somente um humorista mediano. Resolvi, com a meiguice que me é característica, desatar a quintessenciar a minha vida humilde, mas não obtive sucesso.
Em todo o caso, forneci-vos um calote. Com efeito, sinto-me em dívida para com os meus leitores e principalmente os bots da Bulgária.

 

 

por motivos de saúde

 


Roberto Gamito

15.12.20

Somos os herdeiros extravagantes do século XVIII, época charneira no tocante à sociedade de consumo. À data, a explosão de bens de consumo ocupou várias mentes ilustres como por exemplo Rousseau.

O problema resume-se à escolha entre, por um lado, o consumo decadente e a riqueza, e, por outro, o despojamento virtuoso e a pobreza. Rousseau defendeu a virtude, postura estranha se vista à luz do nosso século.

Numa leitura mais apressada, diríamos, como Alain Botton, que esta questão já não é pertinente. No entanto, a nossa relação com a riqueza e a virtude tumultuou-se. A nossa noção de virtude sofreu várias metamorfoses. Para alguns de nós, ignoro se uma parte insignificante, seria óptimo chegar a uma espécie de compromisso entre o conforto e uma certa postura ecológica que nos deixe dormir à noite sem pesadelos. Bastas vezes esse compromisso é tão-somente um paliativo. À superfície é uma virtude, na profundidade, decadência. Ou seja, uma virtude falsa na medida em que estamos, mais uma vez, mais preocupados connosco do que com o mundo que nos rodeia.

A questão que preocupava Rousseau continua a preocupar-nos, embora continue sem resposta. Existe alguma forma de amenizar a voragem do consumo com as suas consequências?

Uma forma simples de perceber a que ponto estamos obstinados em querer legar um mundo melhor aos vindouros é responder a esta pergunta simples: conseguimos comprar produtos que não sejam disparatados?

Embora não seja bonita, a forma como o capitalismo se desenvolveu até aos nossos dias dá uma imagem muito realista do Homem. É inegável que o capitalismo é a máquina mais capaz que alguma vez construímos para satisfazer as necessidades humanas.
Essa é a fachada do capitalismo. Se virmos as traseiras, temos o lado negro: uma máquina de gerar abismos. Que é como quem diz, enquanto estivermos apardalados a vistoriar montras não haverá problemas de maior.

Não deixa de ser curioso que o grande salto do capitalismo foi quando enveredou para a produção de coisas desnecessárias e disparatadas. No cerne da revolução consumista há algo que se mantém até hoje: querer parecer mais do que os outros. Entretanto, como seria de esperar, a feira de vaidades aperfeiçoou-se. Aquilo que antes era visto como disparatado ou inútil arranjou forma de se legitimar. Os mil ardis do capitalismo não cessam de surpreender.
O ego que se pavoneia postula o inútil como indispensável.

Metafisicamente falando, o consumismo desenfreado é a fuga sublimada. Fugir de nós mesmos sem nos tornarmos nómadas. Adiar o confronto connosco mesmos indefinidamente. Comprar, comprar, comprar mais, seja neste mundo, sejas nos mil mundos virtuais até nos esquecermos de quem somos.

Aos olhos de alguns, é normal que tenhamos chegado a este estado. Se visto pelo lado mais pessimista, ou realista, como dirão alguns, o Homem é apenas uma cópia do rei Erisícton, presente em Metamorfoses de Ovídio, o rei vertiginosamente guloso que, ao violar a natureza, foi amaldiçoado pelos deuses com um apetite incontornável e se devorou a si mesmo.

capitalismo, roberto gamito

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog