Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

03.12.20

O mundo persiste no seu cantarolar, uma ou outra lição, mas o aluno fecha de pronto os ouvidos à instrução. Neste momento, tenho o caderno aberto ao acaso. Nessas páginas vivem humildemente alguns rabiscos com ares de prosa, linhas empilhadas de molde a aquecer as unhas, sobre as quais passeiam sem pinga de interesse um par de moscas. Pousam, voam e voltam a pousar na orla das garatujas. É proverbial o interesse das moscas pela escória. Provavelmente, voam com vontade de encontrar algo melhor para as suas vidas, tal como o ser humano faria na sua situação. Porém, ao darem uma voltinha generosa pela pastelaria, admirarem bolos e rabos à mostra, chegam à conclusão de que não há merda melhor que as minhas páginas. Não refuto. Em todo o caso, é uma forma sofisticada — à falta de melhor palavreado — de me baixar a crista. Inclinar-me-ia, caso fosse embalado por uma maré de empáfia, a afirmar que as minhas palavras se aproximam sem medo do ouro. Assim sendo, resta-me a resignação. Acolho com agrado o trabalho destes pequenos editores alados. Seria óptimo, por exemplo, na escrita de piadas. Conspurcávamos um punhado de folhas de larachas: aquelas que fossem agraciadas pela visita das moscas, seriam descartadas. Já vi métodos de selecção piores, reflectirão vocês, quando tiverem tempo para pensar na vida.

Compreendo que o primeiro impulso seja enxotá-las, visto que a maioria de nós padece de um ego frágil. E isso acontece porque nos rebelamos imaturamente contra o esforço necessário para transformar as críticas do insecto versado na porcaria em lições sensatas. Sejamos sérios: não há ambiguidade nenhuma na avaliação se houver um casal de moscas a fornicar em cima do vosso poema.
O cenário ideal para as moscas: a merda perfeita.
Necessitam de aceitar a avaliação o quanto antes, riscá-lo e partir para outro.

 

mosca, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

02.12.20

Movimento-me, para usar a expressão da escritora George Eliot, com o agasalho da estupidez. Por não dispormos de informação adequada, com base na qual possamos tomar decisões cruciais na nossa vida, optei, inteligentemente, por viver a vida ao calhas.
Em todo o caso, a verdade está-nos vedada. Devemos ir-nos familiarizando, sistematicamente, com a nossa invulgar incapacidade de navegar no mundo. Os faróis encontrados aqui e ali no decorrer da nossa jornada não nos impedem de naufragar. Eis-nos, inevitavelmente, agarrados ao primeiro destroço que lograrmos jogar a mão. As luzes e as ajudas são amiúde pirotécnicas, postiças; os deuses, figuras decorativas. Não há mapas aos quais possamos recorrer para escapar ao labirinto da noite. O inferno é, quase sempre, inescapável.

Somos criaturas espantadiças, bichos incrivelmente vulneráveis, com uma complexa rede de medos. Com ou sem paciência, estamos à espera que nos ouçam. Mas antes disso — e depois disso — decepcionar-nos-emos catastroficamente.

As palavras doces e o calor humano providenciam-nos uma forma de interpretar o mundo com novos olhos ao mesmo tempo que diminui o tom da ansiedade.
A ansiedade, se traduzida para algo poeticamente palpável, é uma lente de magnificar criaturas sem rosto.

Entramos em pânico, esteja ele à superfície ou a borbulhar no nosso mundo interior, porque sentimos, certeiramente, como é fino o verniz da civilização, como um episódio que se afigura perfumado está, de facto, preso por arames. Uma palavra errada e deitaremos por terra o castelo de cartas de uma relação. Seja como for, a vida está à mercê da voragem: o que parecerá hoje importante será amanhã pulverizado pela memória. Quão aleatórias são, com efeito, as nossas escolhas. À luz dos nossos dias, o passado revela facetas insuspeitas sobre nós próprios. As criaturas que nos amedrontaram, se resolvidas pela razão, transformam-se em bichos de estatura risível.

Com um sem crescimento emocional, continuamos à mercê daquilo que nos foge. Isso exacerba a ansiedade para níveis inauditos.
O primeiro passo para a serenidade emocional é a aceitação. Porém, nesse capítulo, somos homens-estátuas.

Somos leopardos a viver num mundo só nosso. Volta e meia vemo-nos despertados, inesperadamente, para uma nova realidade.
O dardo tranquilizador — ou o dardo exacerbador — disparado há dias, semanas, meses começou a surtir efeito. Não havíamos ainda tido oportunidade de perceber a sua presença.
Os efeitos principiam, aos poucos, a fazer-se notar no corpo e na mente.
O passado mal digerido, mesclado com o dardo vindo do outro conduzem-nos para a província da depressão. Sentimo-nos felinos perdendo o vigor, exibindo uma agressividade sonolenta.
O predador tombado pelo passado e pelo futuro.

 

Leopardo sonolento, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

01.12.20

Talvez nos tenhamos tornado demasiado lentos, demasiado sérios, preguiçosos, lunaticamente embrenhados nas certezas adquiridas na candonga para ver o mundo com outros olhos. A ideia de que o mundo pode ser outra coisa apavora-nos. Refugiados no nosso castelo de cartas, onde enceleiramos as nossas noções sobre mares e terras, aves e árvores, pessoas e demónios, repetimos numa prece tartamudeada que somos reis e senhores deste cosmos raquítico. Usamos o cinismo a sangue-frio.

Todavia, em momentos de maior clarividência, gostaríamos de ter a oportunidade de sorrir e experimentar sem engulhos a ingenuidade da criança. Agarrar no mundo sem manias nem fórmulas, ser um romântico, idealista ou utopista de joelhos esfolados. Ao enjeitarmos a via de um novo olhar, damo-nos conta do nosso compromisso com o lado sombrio da existência. Essa atitude de recuo diante o novo olhar mina-nos até aos ossos. Somos incapazes de nos despojarmos das antigas peles.

Volta e meia, não sei se por obra do acaso, se por obra do destino, cruzamo-nos com jogadores viciados na aposta sentimental. Apesar de exibirmos um semblante rígido, um tudo-nada pedante, um tudo-nada narcísico, (a mentira de que sabemos tudo transformada em ópio), surge alguém dos arrabaldes de um verso forasteiro, perfumada e doce, selvagem e inesperada, apostando que há mais para além da pose de gárgula toda bazófias, lançando um palpite preciso sobre quem se acoita debaixo de tanta pedra. O amor é uma espécie de Miguel Ângelo. É quando, ao olhar para o outro, logramos ver a estátua enterrada no mármore. Finalmente chegamos à tona do mármore, como se regressados do inferno. A face adquire feições antigas, tornamo-nos ávidos consumidores de vida. Glutões do palavreado, viciados em perfumes que nos enobrecem. É arte, é magia, é o Homem renascido graças ao olhar novo do outro.

 

Amor, Roberto Gamito

 

Pág. 5/5

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog