Habitualmente, ocupo-me de temas graúdos, a saber: mamas, rabos e pouco mais, que o meu miolo não se deixa engodar pela cantiga da frivolidade. Não obstante a dedicação que ponho no tratamento de tão notáveis temas, há dias em que é necessário abordar assuntos menores, tais como a humanidade e a sua extinção.
Há duas formas de andar nisto: ou pegamos o touro pelos cornos e tentamos negociar umas tréguas duradoiras, onde, nós e o touro, nos deitamos sobre uma toalha de piquenique e cavaqueamos sobre a poesia contemporânea, ou, como Édipo em Colono, a última obra que chegou até nós de Sófocles, principiamos a ansiar que o pó nos cubra e que os nossos pecados caiam no esquecimento.
A muito longo prazo, o Homem terá desaparecido e provavelmente todo o acervo da humanidade, os nossos degraus postos em tela ou em papel, livros e peças de arte de todos os feitios devorados pelas traças ou pela erosão, eis o que nos aguarda o futuro. Aos vindouros, quiçá ratazanas bípedes, legaremos o lixo radioactivo produzido nas centrais nucleares. Escondemos no interior da terra aquilo que somos: produtores de veneno. Esses territórios doentes, como ilhas inabitáveis ou depósitos de lixo radioactivo construídos às três pancadas, serão o nosso único retrato. Grande herança.
Até se alcançar o ponto crítico e se tornar inevitável que a arca se vire — a arca partilhada entre Homens e animais —, podemos pensar em duas coisas: quem somos e quem poderíamos ter sido.
Todos os dias se extinguem espécies, de animais de grande porte até insectos. Grande parte dos animais nunca foi catalogada. Nunca saberemos de facto o que se perdeu. Ou, se quisermos ser mais directos, nunca saberemos ao certo os animais que assassinámos.
Há algo de sinistro — o tipo de impotência que deve sentir alguém diante de um reactor nuclear prestes a descontrolar-se — em ver o mundo, outrora fervilhante de biodiversidade, entrar em declínio. Pela primeira vez na história do planeta, uma extinção em massa tem a mão de um animal, o animal vertical, o mais capaz de toda a criação. Parafraseando David Farrier, desde o desenvolvimento da agricultura, domesticámos 474 espécies animais e 269 espécies vegetais. Achei por bem partilhar esta informação.
Já muito se escreveu sobre o estado actual da arte e do pensamento contemporâneo, mas creio que podemos ir um nadinha mais longe nessa ideia — ou profecia, se preferirem — de o pensamento estar à beira da extinção.
À medida que o mundo se torna inabitável, os animais invertebrados prosperam. Não são os corvos nem os abutres que representam a morte, mas sim as alforrecas. As alforrecas sobreviveram à Grande Morte. Estão aptas a sobreviver, tal como as bactérias, num oceano privado de oxigénio. Quando elas prosperam, como sucede actualmente, é sinal que o fim se avizinha. Estamos a passar de ecossistemas que favorecem vertebrados a mares dominados por alforrecas.
Não seria ousadia pensar que o mesmo sucede em terra. Enquanto os vertebrados levam tempo a adaptar-se se quiserem continuar vivos, as alforrecas estão tranquilas, como se nada fosse.
A verticalidade torna-nos vulneráveis.
Os invertebrados, estejam eles no oceano ou nas artes, serão esquecidos, dado que são incapazes de deixar marcas nas rochas.
![Dinastia de Alforrecas, Roberto Gamito Dinastia de Alforrecas, Roberto Gamito]()