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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

06.01.21

Decorridas estas décadas de vida sofrida durante as quais percorri de gatas o trilho da penúria sentimental, continuo sem perceber a razão pela qual a comunidade gay não se apropriou do belo ditado “o pássaro madrugador é quem apanha a primeira minhoca”.
Não é que se possa fazer grande coisa pela saúde — leia-se reputação — da frase anterior, mas ao menos podia desculpar-me dizendo que tenho séculos em cima do lombo e, tal como o idoso, gozo de uma imunidade que me permite zombar de tudo.

Cá está um mentecapto, pensam vocês. Segue-se um diálogo. Se perguntarem por mim, estou no twitter a salvar o mundo.

— Haja companheirismo neste mundo que só está bem a desintegrar a irmandade da verga.
— Podias explicar-te melhor? Necessito de mais pistas para saber do que falas.
— Vamos lá ter calma, senhor detective. Um gajo já não pode desabafar hieroglificamente?
— Poder podes, mas dessa forma estou impedido de contribuir para o diálogo satisfatoriamente.
— Tens mesmo cara de quem contribui para diálogos.
— Podias não me enxovalhar?
— Calma, meu vândalo de monólogos. Vens para aqui todo lampeiro a interromper este caudal verboso de maravilhas com o bigode a tresandar a virilha de taberneiro octogenário e não queres levar uma palavrinha mais azeda como paga. Vê se cresces, pequenote.
— Assim não há condições para termos uma conversa saudável.
— Mais um oportunista da toxicidade espontânea. Vai choramingar para as redes sociais e não me torres o miolo. Já me tinham falado de ti, corre por aí um boato que és um palerma.
— Preferia não me pronunciar quanto a essa temática.
— Lá está, o boato tem sempre, pelo menos, um grão de verdade. Deixe-se de queixumes e insulte-me humoristicamente como um homem.
— O senhor cumpre todos os requisitos de um estúpido.
— Essa boca é para mim?
— Não, estava apenas a ensaiar uma forma de ser simpático consigo.
— Amigo, estava a mangar consigo. Acagaça-se logo, falta-lhe treino de pugilato verbal. Precisa de vir comigo todas as noites à taberna e insultar pessoas à desgarrada, isso dar-lhe-á fibra. Assim como está não arranja amigos nem companheiros de zaragata. Está aí com uns insultos que é uma tristeza.
— Obrigado pelo conselho, mas a que se deve tamanha amabilidade?
— Vou conversar com o Deus que está dentro de nós e já lhe respondo. Entretanto, para se entreter, pode ir para o caralho.
— Não tinha já parado o arraial de boçalidade e insultos?
— Companheiro, nunca pára, é assim que se ganha músculo na lábia. Desiludiu-me um nadinha, está armado em putinha inibida que se mostra envergonhada ao mínimo afago quando na verdade a sua imaginação é uma morada de nabos.
— Problemas que me ocupam a cachola. Bem tento resolvê-los com a minha psicóloga, todavia continuo o mesmo entrevado no capítulo das intimidades.
— Compincha, continue o seu raciocínio, mas primeiro deixe-me abandonar a sala, não há necessidade de eu continuar a ouvir as suas baboseiras.
— O meu amigo consegue ser muito cruel quando quer.
— Pedia-lhe que me deixasse prosseguir com o monólogo. Ficou claro que, por mais que se esforce, é incapaz de adicionar algo ao diálogo. Tão jovem e já tão inútil.
— Mas…
— Nem mas, nem meio mas. Andavas tu de colhão para colhão já eu levava a cabo monólogos dignos de Shakespeare. Vi algo em ti, mas desiludiste-me. Este lado humano que me força a apostar em cavalos pernetas só me traz desgostos.
— Senti um pingo de humanidade.
— Já me assoei, já não há pinga, meu cabrão.
— Afinal há luz dentro de ti.
— Ui, pronto, alcançaste os píncaros da lamechice e do enfado com essa tirada. Não digas mais nada que ainda me matas de tédio. Já estou a sentir umas pontadas no cerebelo.
— Vou calar-me.
— Que ideia brilhante! Saiu dessa bela cabecinha? Nem parece teu.

 

O que se retira deste diálogo, perguntam-me. Eh pá, vão chatear o Camões e os seus epígonos.

 

Estoura Monólogos, Roberto Gamito

 

 

 


Roberto Gamito

05.01.21

Quando estou em apuros, questiono-me: o que ainda não foi dito?
Na cultura, seja ela alta, baixa ou de estatura média, não existem rupturas totais com o passado, nem sequer uma continuidade absoluta. É uma interpretação de autor daquilo que nos persegue, quase sempre o passado. Além disso, não devemos descurar o futuro que há-de desabrochar no próximo passo. O artista precisa sempre de sombra — a sua matéria-prima de eleição — contra a qual objectar. A cada nova vaga de artistas, os pedestais são reavaliados. Há algumas correntes, os aduladores e os dinamiteiros, os que vivem de costas para o passado que os amedronta e a lista continuaria por vários dias se o nosso fito fosse a minúcia. Há quem esvazie os pedestais e substitua os gigantes de outros tempos por pardais. Dessa forma, terão mais hipóteses de os desafiar num futuro próximo. Adulam migalhas de forma a obter um combate que possam vencer no futuro.

Rebelar-se contra um gigante, nem que seja durante um curto parênteses de empáfia, implica uma viagem rumo ridículo, o qual será proporcionado pela derrota. Possivelmente, sucumbiremos aos entraves de subir ao cume. É preferível amputar com insultos o gigante, decepá-lo com historietas de origem duvidosa, reduzi-lo a pó do que pugnar contra ele numa luta justa. Aos olhos dos contemporâneos, essa estirpe de coragem acaba por ser um estorvo. Tornar-se-á um falhanço demasiado ruidoso. Tácita Muda, a deusa feminina do silêncio, era uma ninfa tagarela, principalmente de forma inconveniente, a quem Júpiter retirou a língua. A arte é dar voz a quem não tem voz. É desafiar Júpiter mesmo que ele nos roube a língua. É contar os segredos dos deuses e esperar.

 

Tácita Muda, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.01.21

Figuras aparecem e desaparecem de seguida, legando-nos um laivo palpitante de curiosidade insatisfeita. Quem será aquele velhote envolto em flanela que, ao chegar ao apinhado balcão da pastelaria, olhava para um lado e para o outro como que desconfiadamente? A esplanada divide as águas: há dois tipos de pessoas, a saber: as que procuram o sol e as que fogem do sol. As pessoas que procuram o sol, designemo-las répteis bípedes, olham para os veneradores da sombra com desdém e vice-versa. Cada um destes grupos acredita ter uma verdade que permanece oculta à outra facção.

Eu, meio apalermado e com o equilíbrio de um bêbado consumado, vistorio a esplanada à procura de mesas. Confesso, prefiro a sombra, contudo, em cenários desta índole, a prioridade é encontrar uma mesa desocupada, esteja ou não ao sol. Sinto que a minha decisão acarreta vários riscos. Este menino, longe de se acobardar, aceita o desafio mas ignora que, em escolhendo uma mesa ao sol, será persona non grata na facção dos apóstolos da sombrinha. Pergunto-me se a minguante freguesia dos indecisos — essa gentalha que tanto lhe faz estar à sombra ou ao sol — arrisca o pescoço para se sentar onde calha sem remorsos. Como pode alguém viver no mundo tenso das esplanadas sabendo que é odiado por todos?

Submetido às humilhantes sessões de crítica sussurrada, costumo amiúde beber o café ao balcão, desculpando-me: “Nem tinha reparado que havia mesas”.

 

Sol e Sombra, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

03.01.21

As batalhas entre a nova e a velha escola são muito antigas.
Se houvesse intrepidez da nossa parte, poderíamos baptizá-las como escola do castigo e escola da recompensa. Com mais tempo tentaríamos perceber se a escola da recompensa não é a sublimação da escola do castigo e se a suposta quezília imemorial não passa de um problema de branding. Nada muda, quando muito torna-se mais subtil.

Se recuarmos muitos séculos até ao início do império Romano — um exemplo entre vários — perceberíamos que a riqueza mundial está a par da escravatura. Houve um ponto na História em que 20% da população romana era composta por escravos. Gauleses, hispânicos, cartagineses e por aí vai.

A nossa primeira inclinação seria declarar que a escravatura está em vias de extinção. Todavia, num olhar mais demorado, talvez não fosse insólito perceber se a escravatura não se metamorfoseou em algo mais imperceptível. Localizado no mapa o seu novo estádio, entender se há relação entre a riqueza do país e esse novo estádio de escravatura.

Nos primeiros túmulos havia a inscrição “empresta-me a tua voz” para que os vivos, ao pronunciarem o nome do morto, o ressuscitassem. Ler um livro é pôr nos lábios um pensamento que não é o nosso. No limite e se lido em voz alta, somos joguetes dessa música longa saída da leitura. Uma possessão controlada pela nossa sede de leitura.

Sem aprendermos a ler, ou por outra, proibindo as palavras uma por uma, seríamos incapazes de dar vazão ao que nos atormenta, os protestos coxeariam e facilmente seriam desacreditados. Quando muito, gaguejaríamos o nosso descontentamento e tropeçaríamos ao propalar o evangelho do desencanto. É um acto perigoso, sempre à beira do abismo, gritar que as coisas não podem continuar como estão. A leitura e o livro sempre foram os aliados mais fiéis da liberdade (os clubes de leitura clandestinos nos campos de concentração são disso um exemplo capital), daí que facínoras tenham uma propensão para a queima de livros e bibliotecas. Sem livros que os contradigam é mais fácil reescrever a História.

“E se um dia acordássemos, todos nós, e descobríssemos que somos absolutamente incapazes de ler?” São capazes de responder à pergunta feita por Nabokov em Fogo Pálido?

A quem devemos emprestar a voz?

 

Escola nova e Velha Escola, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

02.01.21

Discutiu-se, pesou-se com serenidade os argumentos na balança matreira do merceeiro, passou-se por um crivo parcial as ideias mais apalermadas, joeirou-se o absurdo, separámos o trigo do joio, enceleirámos o joio e deitámos fora o trigo, bacorejou-se e chegou-se a conclusões, a maioria das quais esquecíveis de tão óbvias que foram. Infelizmente, ninguém estreou as mãos em rituais de pancadaria.

Uma noite dessas em que o álcool nos insufla a alma e nos encoraja a abrir o coração diante da caixa de costura, a qual, apinhada de botões de diversas proveniências, de todas as cores e tamanhos, como que uma manada de psicólogos à espera de nos escutar profissionalmente, encetamos o monólogo da nossa vida sem que o público arrede pé, provavelmente embasbacado pela grandeza do espectáculo ou, na pior das hipóteses, a sua pequenez. Mais sóbrio, também há dias para isso, damo-nos conta que a conversa deu origem a um grande fluxo labial, todavia os problemas continuam a residir ruidosamente dentro de nós nesta frágil casinha itinerante que designamos corpo, a qual, sejamos francos, não tem pés nem cabeça.

O objectivo de sair uma pessoa melhor de tal e tal experiência será, mais uma vez, adiado. Dito de outra forma, o projecto coxeou de maneira significativa, não é que tenha recuado ou dado mostras de ser estapafúrdio, no entanto não atingi os cumes que apreciamos fotografar e escarrapachar nas redes sociais. Resumidamente, mantive-me medíocre embora haja esperanças de melhorar num futuro mais ou menos próximo. Ri-me com vontade porque, embora ensarilhado em ideias menos próprias para se contar numa igreja, nomeadamente de índole marota e suicida, fui como que uma espécie de Xerazade embriagada que, apesar de soltar bandos de graúdos perdigotos, se salvou graças ao poder da lábia e da fé inabalável num caudal de palavras. Somos seres sedentos de histórias, vozeei eu aos meus botões. Só que eles tenham ficado com essa na memória já fico contente.

Nada me faria mais feliz do que encontrar um botão na rua um dia destes e ele se recordar desta história, o dia em que, dentro de uma caixa de costura, ouviu o sermão do bêbedo aos botões extraviados.

 

Sermão do Bêbedo aos botões, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

01.01.21

Paisagens como bugalhos. Cárcere de carne, arquitectura óssea. Corpo a raiar o humano. Furtava com as mãos atrás das costas os nomes esquecidos dos pergaminhos das estantes mais altas de Alexandria. Entre uma revolta e outra, sentava-me onde os cães defecavam e esquecia o mundo. O labirinto ia ter comigo, perseguia-me a salivar até ao cume, apinhando-me de bifurcações. Há décadas que o número de dúvidas não parava de aumentar. Cicatrizava o amor em sépia com a mão mergulhada nas letras, polvo mutilado de cinco tentáculos legando ao predador um maremoto de tinta, linhas atrás de linhas, a epopeia babélica do elipse do Homem, vertigem ilusória de acagaçar míopes, precipício erigido do nada ou do branco, uma noite posta em verso. Falaciosa jornada com os cronistas da mesma na valeta. O coração entregue à tradução, o cérebro numa língua estrangeira, ou vice-versa. Afoito na tristeza, na clareira do asteróide esquecido hoje entregue às ervas daninhas, desapontando a profecia mais risonha que a sacerdotisa me havia confiado, simulava a minha própria morte com veemência de autor. À tardinha, numa vagabundagem pelas ruas empoeiradas que o amor abandonou, recebia pequeno-burguesmente, de pupilas destroçadas, o ocaso pontual. A ferida reaberta pela realidade. Ovídio viu mal a coisa: há sempre espaço para as mesmas feridas. Corpo hospitaleiro recebendo de braços abertos os bastidores de uma relação falhada. Calor numa métrica contorcionista, cio nas entrelinhas. Dedos perdigueiros bisbilhotando no verbo o nome ausente. Tempestade impune. Saga do eco tímido até ao grito. Onde há fogo não há livro, onde há mulher linchada não há liberdade nem pensamento. Paz à alma de Hipácia.
A monotonia parasitária. Na orla da frustração, consentimos ao tempo que nos engaiole numa dança pobre feita de passos em falso. Bem-vindo à legenda de um quadro cuja cratera em crescendo, devido ao galope paulatino do lume, não poupará nada nem ninguém.

 

Hipácia, Roberto Gamito

 

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