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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

19.03.21

De calças em baixo e com o chifarote à mostra, o nosso homem, o ex-ensaboador de egos, após mamar a bom mamar das tetas das musas, pôs-se a escrever versos à janela. Soltou o tímido sonoro das nalgas, como que a ensaiar, mas pediu calma ao público que prontamente acorreu à beira do palco com o fito de ver brilhar o artista do século. Fechem os olhos bem fechadinhos, comunicou o dono da espadinha, cheirem esta música. É de reserva, só a canto em ocasiões especiais como esta. Um cu de tenor, aplaudiu o público.

Mudando de cenário e de paleio, comprometo-me a andar sempre de pau em riste, disse o homem embriagado ao padre. Pode fornicar a noiva, declarou o empregado de Deus. E logo ali se beijaram homem e mulher e o mais. Era uma alegria vê-los a pinocar em plena cerimónia. Jesus Cristo até saiu do crucifixo para ver melhor o espectáculo.

Que brejeiro cronista me saíste, pensarão. Já não tenho idade para cair na armadilha do puritanismo. Em podendo, o homem deve berlaitar de manhã à noite de forma a que o pau não ganhe caruncho.

Confidenciaram-me, no entanto, que a mulher se servia do desgraçado e que o sugava pelo pavio, e o pobre sem estudos avançados na berlaitada, todavia não parvo o suficiente, não ousava dizer não à manobra da fêmea. Se acaso minto, condenem-me a ler essas prosas enfadonhas que pululam a internet, amiúde enxertada com as ideias da moda. Enfim, raciocínios de traumatizar o caralho.

Calma, dirão. Calma? Amigos, tenho mais juízo no caralho que os Sete Sábios da Grécia tinham na cabeça. Avancemos, portanto, à confiança.

Nos arrabaldes da berlaitada, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

18.03.21

Longe de mim encetar esta croniqueta como quem leva aos beiços um medronho de molde a pôr um ponto final num lauto repasto. Em virtude da pobre conjuntura actual, vejo-me impossibilitado de brincar à trancada, tocar um trancabailado, expressão pedida de empréstimo a Rabelais, com essas moças que pululam com a sua cona fogosa e verbosa o tinder e vizinhanças. De facto, poetar o que me vai na verga é desperdiçar tempo quando a pandemia, qual muro intransponível onde as osgas se acoitam entre dinastias, se interpõe entre uma picha e uma cona famintas. De que vale sintonizar-lhes o cio e regular as condições atmosféricas na cueca com palavrinhas meigas se não logramos transpor a foda teórica para o mundo real? São erecções e ejaculações que caem em saco roto. O paleio encantatório do engate é muito engraçado nas primeiras horas, mas cedo chega a altura de dar pasto à pichota. Engaiolado na braguilha, o pénis é um animal triste que fareja a cona longínqua. E logo o dono do pénis, o qual no momento das pontadas, as chamadas cabeçadas com que o membro latejante enfuna as calças como velas em dias de vento, é despromovido a vassalo logo que o dono se alua com o festim de tetas bailoçantes. Durante o auge do mestre João Coruja — continuamos a falar do nabo — o homem verga-se à vontade da cabecinha menor. Que é como quem diz, a inteligência falece durante o império do tesão.
Feitas as contas, mil e uma maneiras arranjou o Homem de contar histórias, cada uma delas com um fim, o qual pode ser ou não verbalizado. A História, a maiúscula e a pequenita, a arte e as bagatelas circunvizinhas não são senão a epopeia da piça, um pobre-diabo quixotesco, um cavaleiro da triste figura em busca da melhor buceta.

Uma bela sexta-feira apresentei à mulher o meu caralho — não se arrepiem, isto sou a ficcionar — expondo as vantagens e os prejuízos de não levar com o malho. Saída do nevoeiro de suspiros, com a língua desfivelada para a marotice, a mulher pronunciava brejeiramente os seus apetites sem tirar os olhos do recém-içado caralho.
Fode-me bem fodida, gemeu ela, fode-me até não restar réstia de caralho; não voltarás a cheirar esta cona.

prosa marota, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.03.21

Não obstante os devaneios e as falácias de empertigado, continuo elegível para o cargo de protagonista do filme da minha vida. De facto, gabo a competência do chamado influenciador digital em elogiar-se por tudo e por nada num sarapatel de adjectivos. Não se precipitem nos juízos: é mais difícil do que parece. No que me diz respeito, sou incapaz de tecer um elogio à minha pessoa sem me escangalhar a rir ou introduzir um acrescento do género: “quem é que estás a tentar enganar?”

A sensatez, outrora gabada como virtude, hoje não passa de um açaime da vida quotidiana. Uma criatura inapta no auto-elogio já parte com uma volta de atraso na corrida da existência. Os obstáculos de ser apenas aquilo que se é sem mais alardes. Só um estúpido pode insistir em tão estafada fórmula.
Mas o que é o Homem se não hiperbolizarmos as suas magras façanhas? Provavelmente um mamarracho com orelhas ou um invertebrado untado com uma balbúrdia de cremes. E todos os que se encontram fora do jogo — jogo dos embustes —, de tão exasperados, borram-se nas calças ou no discurso pela pouca sorte que lhes coube.

Eu, bobo sem graça nem farpela, continuo aqui a suar as estopinhas a fim de compreender os trâmites da hipocrisia de molde a medrar neste jardim pejado de flores de plástico. Estou muito convencido de que sou o papalvo do século, pelo menos em português, porque desdenho as manobras — das mais triviais às mais sofisticadas — de enobrecer o ego. O meu intelecto não está apto a decifrar tão densa matéria, avesso que sou a tão comichosa disciplina. Terei que me matar de novo? Não terei eu já alcançado os píncaros da desgraça? Logo eu que salto de eclipse em eclipse qual rã cósmica que vê na noite abrupta um nenúfar.

A mim, perito na arte de tirar nabos da púcara, feitiçaria invejada por uns e umas no apogeu da noite solitária, desamparado dos elementos que me são próprios, nomeadamente água e terra, dado que sou um palhaço anfíbio, resta-me soluçar numa língua estrangeira para que pensem que não lhes levo a mal o regateio da banha da cobra.

A voracidade dos plagiadores, a sede dos bajuladores, os aplausos dos manetas, o frenesi dos chupa-pilas, o virote nos círculos de legitimação, o ballet todo em pontas dos gigantes postiços, a mutação da gatunagem, os apupos dos papagaios, a pelintrice do eco armado em vertebrado, os entraves da língua entrevada, o açaime do puritanismo, e o foda-se, pau para toda a obra. Como combater isto tudo, e se possível, de uma só vez? Logo eu que não passo de um merdas.

 

Eu, o Merdas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

16.03.21

É bem verdade que encontramos certas virtudes em criaturas imprevistas, até então ocultas pela multidão de sedimentos — por assim dizer máscaras — por baixo da qual o rosto precário recebe a pressão do mundo. Homem, o fóssil vivo mascarado.
Por isso, desejando este humilde escriba aumentar-vos ainda mais a miséria, ou o intelecto, uma vez que se equivalem, e não podendo ofertar-vos um cabaz de conas, visto que o Natal é quando o Homem quiser e hoje não estou para aí inclinado, resta-me oferecer-vos o amor posto em discurso ou outra bagatela de semelhante jaez. Uma ideia digna de fé, pensarão alguns.
Falo disto como laracheador expedito que sou, digo, funâmbulo trocista deste mundo povoado de Homens remendados. Rio-me nas alturas ao mesmo tempo que passo a minha vida a limpo.
E, para pôr fim a este aparte, mas abrindo as portas à didascália, a cerveja bate no balcão da taberna qual machado vindo do céu e a conversa dá uma guinada. Vertebrados ou criaturas cuja alma é regateada por necrófagos sofisticados, somos feitos da mesma matéria, todos feitos de fogo, o qual varia segundo o espectro da mansidão, há-os indomáveis e os domesticáveis, são metros e metros de tripas, antes um novelo de digestões, somos máquinas polivalentes que ora geram abismos, ora geram montanhas de merda. Não me agarram sem baixas; armadilhei cada uma das minhas linhas.

Ponho nestes rios de letras que raiam a paródia o travo acerbo de continuar em queda. O fado do Diabo não me chega. A novidade, o instinto canino que nos obriga a ir atrás. A perpétua corrida ao ouro e as suas infindáveis mutações. Humanidade, a turba de pegas-rabudas. É raro o Homem que se mantém indiferente ao objecto reluzente. Cegos, encurralados no meio das patranhas aperaltadas como preciosidades, afadigam-se em cabeçadas e gritos e narrativas e ficções de vitória. Com a boquinha a espumar tanto como um carrossel de caranguejos, o manifesto falhado jura pôr fim ao império que o espezinhou. Um interregno de maldições entre regicídios.

A lâmina ébria, não sei se comprada numa loja de vão de escada, se pedida de empréstimo à Bíblia, dançando segundo o refrão da época. O dinheiro fê-la centro de um espectáculo onde saltam cabeças como pipocas para gáudio do titereiro.

Todavia ela não se move, mas eu insisto cá em baixo, nos bastidores do inferno, sem réstia de vaidade nem de humanidade, na criação da língua simultaneamente espada e rosa. Gravito furibundo em torno das sobras do canto, uso os pássaros empalhados como acendalhas.

Privado de palavra, o Homem expõe a fragilidade do ventríloquo. Nesse curto momento de hesitação, a marioneta torna-se senhor do seu futuro. Que é como quem diz, pode cagar na mão do seu mestre, o Homem dos Robertos.

 

Homem dos Robertos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.03.21

De uma maneira ou de outra, às escâncaras ou às ocultas, o Homem está ocupado com a preparação da sua morte para que, chegado o dia derradeiro, não falte nada. O amor e a morte equivalem-se. Ao rés da morte, falamos quase a mesma língua. O mesmo é válido para o amor. Porém subsiste um grão de ignoto, o qual nos conduzirá à ruína ou à loucura via ciclo de perguntas, do qual não sairemos de pé. Uma questão sobrevive a todas as provas: será esse o grão de verdade? Esse grão de luz cifrado segundo o qual governamos a nossa vida. Há muitas formas de cair, simulacros caseiros da queda de Satã. Cada Homem, cada época pariu as suas formas de cair. Entre o nascimento e a morte, cabe-nos realizar uma síntese de uma série de trabalhos forçados. Se for elaborada competentemente, ficará o legado. 

Eu sou um outro, disse o poeta, de seguida regressou à fila do esquecimento, à espera da sua vez. Por azar, puseram-nos com os leigos, os quais escorraçam a morte e o amor com acrobacias de funâmbulo vaidoso e rasteiro. Aos poucos, a nossa língua é rapinada; sobra-nos o eco, suportável apenas quando o tom é irónico. 

Não lhe quero mal, mas também não me consigo decidir se lhe quero bem. Eis o que diríamos se fôssemos sinceros. De tempos a tempos, a fome adopta outro desgraçado, leia-se poeta, caído canoro emprestando o sangue ao ofício. Doravante a sua vida torna-se intransitável. 

Um perfume, repescado em boas condições pela memória, quiçá o início de um novo mundo, sucumbe à realidade, acabando por agrilhoar o Homem pelo nariz. Não sou um nem cem mil. Quando muito, Ninguém; em virtude da odisseia, Ulisses.

Mas afinal o que é a vida? Provavelmente um escultor, dado que passamos de um bloco à forma humana. Uma certa pretensão de alcançar a eternidade logo refutada pelo tempo, o maior iconoclasta. O tempo, que nunca largou a marreta, é Shiva, destrói o mundo numa dança de mil braços enquanto sorri. Como sobreviver de pé sabendo que ombreamos com efémeras ideias postiças? As histórias, que contamos uns aos outros desde o início dos tempos, são dedicados paliativos. 

No fim de contas, somos inúteis perante as órbitas dos problemas. O sangue, o histórico, retocado ao gosto do dia, o cérebro, uma pedra a esfarelar-se. Há choro que chegue para todas as mortes. 

As mãos aquecendo, cultivando clandestinamente um outro tipo de ataque; não basta tirar as ideias do pedestal, pedir ao martelo iconoclasta a poda das estátuas, urge ousar o impossível. Vencer a morte no seu terreno, ó meus jovens kamikazes.

Como o samurai que, ao cometer seppuku (haraquiri, mas o termo preferencial é seppuku), aproveitou as horas de agonia para escrever um poema breve sobre a natureza. 

À beira da morte
cantou o amor
pelas causas perdidas.

Enfim, não passamos de cronistas empenhados a coligir despedidas. 

Amor pelas causas perdidas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.03.21

Uma pá, dois homens de impermeável amarelo, um cava outro observa. Piquete de carpideiras como banda sonora. O ferrolho emperrado, do outro lado do postigo o mundo. Lá longe, de volta a casa, uma salva de suspiros. Sessão letal. O coração ribombando no cofre ósseo. Martírio abafado. Por ora, os caluniadores emudecem.

Uma razia de flores, o perfume ingressando onde não era esperado. Ia ter contigo sem as palavras certas à espera que me compreendesses. À tardinha, sem nada nas mãos para registar o momento, nem bloco nem máquina fotográfica, percorria os trilhos como um caracol. Promessas a calcinar nas rochas. Abertos como golpes, os dias cicatrizavam em mim a custo. Texto em sépia, cantos devorados pelo fogo, mato habitado somente pela minha solidão.

 

Cantos devorados, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.03.21

A fazer fé nas linhas de Swift, pai do humor negro, autor de As Viagens de Gulliver, a sabedoria é uma galinha cujo cacarejo devemos valorizar e ter em consideração porque é acompanhado por um ovo. Não seria inútil analisar esta frase inteligentemente, porém, como o autor destas sílabas não se sente confiante ao abordar as coisas pela via da razão, vamos ater-nos, caros adeptos da escaramuça virtual, acólitos do fuzué das redes sociais, a uma abordagem mais humilde, mais em conta para uma criatura dotada de cérebro assustadiço, pois aí, na estupidez, sinto-me a jogar em casa. Quanto a mim, o ovo é fruto da repetição; tal impede-a de ser o que é, é o rasgo em direcção ao desconhecido. Esticando mais a corda da divagação, é o ovo que interrompe o Eterno Retorno doméstico. E aqui entra o ofício de paciência. Por vezes, e mais do que aquelas que conseguimos enumerar, na nossa vidinha monótona somos confrontados com o cacarejo, o eco, se preferirem, e isso causa-nos comichão na alma e brotoeja no cérebro; não obstante as nossas crenças, só queremos que tudo acabe o mais depressa possível. Todavia, se formos razoavelmente pacientes, a espera pode revelar-se frutífera. Abandonada a minha vetusta teoria de que a repetição é um tributo a um papagaio ancestral, o eco é, bem vistas as coisas, uma galinha invisível que, no seu dialecto repetitivo, anuncia ao mundo que vai pôr o ovo. Sem paciência, podemos cometer o equívoco de achar que há apenas o cacarejo. É crucial esperar o aparecimento do ovo, a semente da novidade, a qual está carregada de colesterol. No entanto, para que ninguém pense, nem nós nem o mundo, (e eu incluo-me no grupo pois não me tenho em grande conta) que a paciência é um ofício utópico, inalcancável às criaturas deste século, as quais foram hipnotizadas pela velocidade galopante, fui persuadido por uma lebre, uma vez que o pássaro incumbido de passar segredos e confortar-me nos momentos menos bons estava de folga, a trabalhar arduamente numa dissertação húmida e seríssima sobre essa figura singular que, sem dizer nada, diz tudo. Segue-se a explicação: o mundo é de tal maneira implacável que até para a cama temos de levar máscaras, liquidando, de uma vez por todas, aquela ideia de Woody Allen de que no sexo as pessoas revelam-se sem máscaras. Sem rodeios e sem aparato humorístico, a galinha e consequente ovo a que me refiro é a Diana Cu de Melancia.

Como não somos labregos nenhuns, apesar de visionarmos a boa da pornografia com a assiduidade de um atleta olímpico de topo, que é como quem diz, todos os dias são dias de treino, compete-nos uma análise cuidada, uma espécie de preliminar, coisa que agrada as fêmeas embora desagrade os impacientes. Enfim, somos cinéfilos premium no tocante ao refustedo, temos poses predilectas, sabemos calibrar o coração carente com o gemido da actriz, somos criteriosos com as cenas, e cada vez mais com a qualidade de imagem do vídeo. No mínimo, exigimos ver pipi e mamas baloiçantes em HD. Em suma, não oferecemos o nosso tesão a qualquer uma. Com a exigência a aumentar de dia para dia, o acto de bater a sarapitola aproxima-se, a passos largos, do amor. Os mais radicais, nos quais me incluo quando quero disparatar e andar à porrada, vão ainda mais longe. Garantem que o homem, espectador da arte da fodanga, é hoje mais exigente na escolha da vídeo, e por consequência da actriz pornográfica que o protagoniza, do que na escolha da mulher dita real que, em correndo bem, realizado o ritual do engate, lançado o engodo que enfeitiçará a mulher no sentido de passar a ideia de que o homem tem a minhoca certa, a qual será uma ajuda monumental, uma espécie de cajado apto a auxiliá-la no sinuoso caminho da felicidade. 

Sejamos sinceros, tal não constitui novidade nenhuma, e desconfio que as mulheres também se identificarão com isto. Provavelmente foi uma doença que apanhámos a ver Netflix, ou melhor dizendo, um vício que apanhámos ao desperdiçar horas a ver thumbnails. Ficámos absurdamente exigentes com a sétima arte. O problema é que estouramos o tempo no superficial e ficamos sem tempo para ir mais fundo. Evidentemente, há segundos sentidos a rondar a frase anterior. 

Na vida real, uma pessoa chega a uma certa idade e está por tudo, senta-se numa esplanada e assim que o primeiro peixe cai no balde damos a pescaria por terminada. A coisa muda de figura quando o intuito é premiar o pénis com arte. Aí temos de ser rigorosos. No mundo real, podemos abster-nos de escrutinar a cona, visto que pretendemos dar minutos de voo ao besugo, a fim de que as asas não enferrujem, agora no mundo da pornografia, no qual nos tornámos peritos, devemos querer o melhor. Aliás, enquanto homem, parceiro de uma cobra zarolha, acrescentando que as cobras são surdas, enfim, somos parceiros de uma deficiente, devo ser capaz, enquanto seu cuidador, de lhe oferecer boas experiências. Concluindo, não devemos escolher a actriz pornográfica que providenciará uma viagem ao nosso esperma de ânimo leve.

Finda a consideração acerca de como eu vejo aquela sétima arte para a qual nunca faltará público, estou disposto a favorecer esta crónica a partir de uma observação saudável, de pendor nutricionista. Vamos analisar a melancia. É um fruto com alto teor em água; segundo a Wikipédia, esse baluarte da credibilidade, cerca de 92%. Esta informação é útil, perguntará o leitor mais impertinente. Caro porém estúpido leitor, só sei responder a esta pergunta com um convicto sim. A água é o pilar da vida. Se formos a ver bem, a melancia é o quê? Água com pevides. A água é o que permite a existência de vida neste planeta. Não seria pouco científico da minha parte se me atrevesse a dizer algo como: o cu da Diana é o que permite a vida no Twitter. Cientificamente falando, é uma afirmação inatacável. Indo mais longe, passar minutos a apreciar o cu de melancia da Diana é uma forma de hidratar-me, aconselhável por todos os nutricionistas dignos desse nome. Aliás, sugiro que, uma vez que a escassez de água é um problema cada vez mais sério, que as pessoas deixem de beber água e passem a levar na carteira uma foto tipo passe do cu da Diana. E assim, imprevistamente, resolvi um dos maiores problemas que o Homem actual enfrenta. Com isto, ultrapassei a Greta na lista de pessoas que se interessam pelo futuro do planeta. Tudo graças à Diana Cu de Melancia. 

Desculpem se vos expandi os horizontes, se dei pasto para que o astrónomo que há em vocês pusesse a hipótese: Será que há cus de melancia em Marte? 

Isto é o máximo que estou autorizado a dizer sobre este tópico tão ingrato que é a vida; não era meu objectivo incitar uma controvérsia na comunidade pensante, mas a verdade é que a vida precisa de água, oxigénio e bons cus para se instalar num planeta. O resto são lérias para entreter meninos.

Até aqui tratamos, como é fácil de ver, de cacarejos. Chegou a altura de abordar o ovo. 

Diana Cu de Melancia informou os incautos, no twitter, sobre as potencialidades do sémen. Primeiro que tudo, alegra-me. Os homens, por muito estabelecidos que estejam nos seus negócios, estão sempre a recrutar relações públicas para falarem bem do esperma. É um orgulho ter a Diana como paladino da gosma láctea. Façamos o que fizermos, os elogios nunca serão suficientes. É a confirmação de que as minhas erecções e consequentes ejaculações foram dedicadas à pessoa certa. Doravante vou bater no palhaço com um sorriso nos lábios. 

De seguida, rematou com a frase “Há por aí voluntários para me hidratar?” A minha primeira reacção foi responder: Querida, patroa do meu tesão, é claro que há; aliás, o que não faltam por aí são candidatos para esse lugar apetecível; não digas isso em voz alta, ainda acabas com o desemprego em Portugal. Todavia, numa segunda leitura, própria de pessoa crescida, vi que estava a ser usado. Está bem que, quando estou a apaziguar o besugo, uso-te como alvo do meu tesão, mas isso não te dá o direito de te aproveitares de mim. Já estás armada em capitalista, contribuindo para a precariedade que grassa no nosso país. Querida, pensei que tínhamos uma relação diferente, mais profunda, mas no fundo só me queres escravizar o caralho, pôr o pénis a laborar de graça. Assim não nos entendemos. Magoas-me seriamente; o pénis tem sentimentos. Hoje vou varejar o pessegueiro com os olhos marejados de lágrimas.

 

Diana Cu de Melancia

 


Roberto Gamito

12.03.21

Errata: onde está rosa-dos-ventos deve ler-se cardo-dos-ventos.
Um passe aflito para o coração do santuário, sítio onde o si mesmo pode brotar e crescer sem empecilhos. Do lado de fora deste ideal, do lado da estufa urbana, Homens crescem prematuramente sem nunca alcançar o sabor a felicidade.

Se de joelhos, comprava-lhe a ficção, lamentos e um quilograma de suspiros. Riu-se e deu-me o troco em pastilhas. Desembaraçados da etiqueta, dançámos em cima da coluna da antiga deidade decepada.

Já bem quentinho, avancei com o mapa atrás das costas, precavi-me contra feras e acepipes, memorizei as melhores citações para cada situação. Aéreas panteras apinham a noite de olhos. Possível legenda: constelação faminta.

Refastelado na prateleira, sou um produto deste século. O preço é simbólico, segundo me confessou o chouriço da estante vizinha.

A adulto emergente compete com a criança desdentada pelo título de maior chorão. A criatura supostamente crescida ganha sem surpresa. Os juízes da prova adormeceram, em contrapartida o público ganha um cheque-insónias válido para as próximas noventa noites. Nem tudo é mau, mas ninguém nos garante que o resto seja bom.

Antes uniam-nos as cumplicidades, os olhares e bagatelas de encher versos, hoje, indignações e toda uma parafernália de rancores. Reservamos o nosso verdadeiro eu para o crematório.

De mim até à minha melhor versão vai um longo caminho. Só lá chego de foguetão. Acidente, vítimas desencarceradas com abre-latas. Ambulância com a direcção partida, de seguida carro funerário. 
Ó tu, voluntário da desgraça, átomo mais revoltado desta turba, que levas a metáfora ao forno para ficar mais tenra. Metáfora? Nada disso, aqui só se vende carne literal. Cardápio humanidade? Angustiantemente monótono: sopa de nabo de manhã à noite.

 

Sopa de Nabo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.03.21

Embora pareça aos olhos dos abutres uma pessoa perseverante, que se recusa a morrer, sou 1/7 niilista, visto que às segundas-feiras não acredito em nada. Em tempos de negação, em que todo o ser humano — animal em formação — ostenta uma cara esfarrapada de alguém que escapou por um triz ao matadouro sem metade da vida, ouso exibir um sorriso mínimo, típico de quem nunca teve aulas de como lidar eruditamente com o nervosismo. A vida é o que é, nem grande nem pequena, uma coisa que não vale a pena exibir no Instagram. Postas lado a lado, a salada de frutas é mais fotogénica que a vida. Contudo, é isto que me dá força para continuar vivo, é dos poucos lugares onde podemos pensar sobre o suicídio.   

Respirar é julgar, escreveu Camus, pelo que, enquanto asmático, dava um péssimo juiz. Entre o justo e o injusto pouco há de diferente, daí o martelo do juiz que, pontualmente, dá ênfase ao ridículo da existência. Não me interpretem mal, como é vosso apanágio, mas à data do crime há diferenças substanciais, porém, ao pensarmos de forma mais lata abarcando vários séculos damo-nos conta que o que é hoje um crime amanhã é lei. E vice-versa, dado que o pensamento é uma dança composta de avanços e recuos.    

Sendo o mundo como é, um circo governado por palhaços proficientes na loucura, não podemos esperar uma sucessão lógica de acontecimentos. Não nos espantaria por aí além se viesse um anjo ter connosco e nos dissesse que o mundo vai acabar porque um tipo, ao tentar matar uma mosca, deu uma bofetada num padre, esse estafeta do amor. Resta-nos cantar, com esta voz herdada da melhor família de canas rachadas, uma serenata com uma lágrima no canto do olho, enaltecendo a perfeição do homem à nossa amada, a guilhotina. Neste mundo vertiginoso entregue aos bichos desnorteados, em que o apego e o compromisso são mitos, a perversidade e a virtude acaso ou capricho. O assassino e o filantropo matam ou salvam porque perderam uma aposta. E partem de supetão para o próximo episódio sem olhar na cara de quem estava no centro do jogo, tal como fazem os médicos actuais. Assim como assim vais morrer, de que adianta dizer que estás doente ou são, declararia um médico com nada a perder. Vamos todos morrer, meu querido; são 100 biscas, podes pagar à saída se quiseres continuar vivo.  

Deus está morto e, segundo as notícias mais recentes, permanece morto, logo temos de nos fazer à vida sem intermediários divinos. Neste caso, à falta de uma estrela guia barbuda que nos conduza à acção benfazeja, orientar-nos-emos no sentido de um não sei quê. O costume, dirão os mais exercitados de miolo. 

Imbuídos no espírito da nossa época, que em termos de hierarquia demoníaca é dos mais poderosos, não obstante em jantares de família parecer um tipo impecável, podemos assegurar que estamos a falar de eficácia. Todavia, se a loucura não se tiver entretanto apossado dos nossos neurónios, supondo que não os penhorámos para comprar alguma bagatela, não ignoramos que em alguns casos, se não mesmo em todos, estamos a perseguir uma eficácia de pendor absurdo. Queremos ser eficazes quando desconhecemos todas as variáveis. O importante é fazer, mesmo que o resultado seja pior que estar quieto. Como o pensamento é inimigo da eficácia actual, nunca percebemos o porquê das coisas descambarem em equívocos graúdos ou desastres com corpulência suficiente para ir pousar às parangonas. Enfim mais uma tirada brilhante do Homem do século XXI.   

De qualquer modo, compete-nos a nós, novelos de contradições, responder à pergunta que nos é posta pela ausência de sentido, esse grão de luz que se assoma por entre o sangue e os gritos vindos de todas as direcções, dizendo o seguinte: Nós ainda não estamos mortos. Pode ser que seja suficiente para não nos adicionarem à pilha de mortos, ao número crescente dos caídos. Se vos derem como mortos, não se aborreçam, são pessoas a fazer o seu trabalho. Aliás, esteja certo ou errado, a mando da eficácia contemporânea, o importante é mostrar trabalho.   

Citando Camus, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o Sol, não sou grande nem pequeno, acrescento da minha lavra, sou humano. É por isso que usamos chapéus, não queremos ser confundidos com os ursos.

 

Camus, Absurdo, Morte, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.03.21

Daninho e imprevisível, o nevoeiro acerca-se das minhas mãos sem recorrer a galopes ruidosos. A litania de espasmos e ais. A memória, mensageira desses episódios, ergue ou tomba a ponte levadiça que nos conduz a esses dias cheios de pó e notas de rodapé. Coração no tubo de ensaio, ilegível experiência. Temperatura que nos põe a falar a mesma língua.

Dessa lição recordo tão-somente os silêncios entre as deixas.
Já na forma de porco, refocilo nas sobras do palco à procura de um final feliz. As teias estrategicamente colocadas onde outrora havia holofotes depauperam a minha vida às moscas. Piada anómala que nos entrega de bandeja o choro, comunicam os camaleões.
A argila secou nos braços decepados. Mas que formas são essas tão alheias à língua? Canto, meu amor, canto, meu temor.

Nómada entre os cacos e bagatelas, pontapés falhos nas lagartixas, gritos enchendo o recinto de fantasmas.

Metamorfoseio-me em dilúvio à espera que a argila comece a abandonar a sua forma.

Malversado nestas hecatombes, choro onde devia rir e rio onde devia chorar. O nexo entre o presente e o futuro comido por ratos.

Numa perícia a precisar de amanho, fazia brotar das minhas mãos pombas brancas depenadas. Piada, petardo no fardo.

 

Piada Anómala

 

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