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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

28.05.21

Chorão polivalente
Uma carpideira da nova escola. Megafone das dores alheias. Consegue, qual adepto ferrenho, ir buscar dores à década de 60 e relatá-la detalhadamente como se fosse hoje. Ao contrário das carpideiras primevas, este ágil chorão é capaz de chorar, qual ser ubíquo, inúmeras mortes em simultâneo. Se gritar fosse um emprego, seria bilionário. Um prodígio no tocante a transformar uma coisa boa numa coisa má. Um alquimista às avessas. Um anti-Midas cujo dom é transfigurar aquilo em que toca — mesmo ouro — em merda. Não há registos de que esta pessoa consiga ser feliz.

Fã ecléctico
Não há nada que esta criatura não elogie. Minto, precisa de ter pelo menos 10 mil seguidores para ser digno de louvor. Compreensível, a História ensinou-nos, mais que uma vez, que não há génios sem seguidores. O filho mais talentoso do lambe-cus. Aperfeiçoou a arte dos seus ancestrais até ao limiar da perfeição. Divide a língua num sem-número de elogios. Para ele, a contradição é uma miragem; a crítica, dispensável.
O sonho dele é passar quinze dias com as celebridades mais famosas do mundo a tirar selfies. Numa palavra, um vampiro paciente.

Plagiador plagiado
Um dos animais mais espectaculares que podemos encontrar nesta fauna. Episodicamente, escreve algo vagamente original. Um em dez mil tweets é da sua autoria. Copia desenfreadamente anónimos e famosos. Tem a lata de, ao acabar de escrever uma piada em 2021, acusar o comediante de o ter plagiado em 1986.
Desligado da realidade; só usa a razão em dias de festa.
Em dias de bebedeira é capaz de garatujar algo como isto: “dou muito valor à originalidade”. Em suma, um filho da puta com obra feita.

Duchamp tardio
Artista excepcionalmente contemporâneo, o qual tira tudo de contexto, a saber: piadas, frases, imagens, suspiros e silêncios, pichas e conas, se for o caso.
Ironicamente, prefere a sanita ao urinol.

Comediante frustrado
Fel em forma de pessoa. Alguém que é capaz de pedir um mês de férias ao patrão para poder estar concentrado em destilar ódio nas redes sociais dos humoristas que singraram. Guardião do humor. Há um rumor segundo o qual ele guardou num cofre a verdadeira definição de comédia. Porta-voz da ideia de que não há comédia em Portugal. Em dias mais inspirados, brinda-nos com piadas de merda que, segundo o seu critério, são geniais. Hitler, o qual foi um pintor frustrado, não lhe chega aos calcanhares no que respeita à cólera que borbulha nas tripas. Em havendo hipótese, destruía o sistema solar sem pensar duas vezes.

Agelasta
Nunca foi visto a rir. Não acha graça a nada, excepto em ver um humorista a ser linchado nas redes sociais.
Para ele, o humor devia ser abolido, a pior invenção da humanidade. Quem se ri é, no mínimo, mentecapto. Para este ser sapiente, Cervantes é apenas um coxo, Sterne um fanfarrão, Beckett, absurdo, Pirandello, um desnorteado. Faz questão, qual bot, de comentar que não acha graça a cada piada que os comediantes lançam.
Há ainda a casta mais intrépida — leia-se patética — de agelastas que não se inibe de dizer: “é sempre a mesma coisa, não há inovação”. Uma espécie de deus omnisciente entediado. Em parlapié de taberneiro, um chato do caralho.

Herdeiros da Ana Malhoa
Ana Malhoa, para quem eu mando um abraço, é provavelmente uma das figuras mais marcantes do século. Foi a primeira a juntar numa frase três idiomas, a saber: português, espanhol e inglês. Se quiserem, uma espécie de Nabokov, mas com uma peida magistral.
Presentemente, poetas e pessoas comuns usam essa estratégia para cativar as turbas, quer estejamos no twitter ou num sarau de poesia. Hoje em dia é praticamente impossível andar no twitter e ver uma frase com três linhas sem meia dúzia de termos em estrangeiro. Faltará pouco para começar a haver represálias para os portugueses que decidem escrever apenas um português.

Relações públicas de corpos desnudos
Para começar, há duas facções. Aqueles que se escondem atrás de corpos alheios, e os que funcionam como promotores de corpos alheios.
Os primeiros são uma espécie de curadores de nalgas e mamaçal, os segundos, não menos importantes, comentam em termos excepcionalmente elogiosos, com vista a pingar alguma pachachinha. Não há provas que este comportamento se traduza em mais cona ao final do mês.

Feminista postiço
Por norma, um machista 2.0 adaptado aos tempos modernos. Em teoria, consegue ser mais feminista que a mais radical das feministas, na prática, acabará por disseminar dick pics não consentidas pelos seus contactos assim que houver a mínima oportunidade. Uma forma sofisticada de sacar cona. Até hoje não se sabe se este modus operandi se traduz em resultados. Seja como for, as feministas parecem sentir-se propensas a desculpar um machista 2.0. A prova de que ninguém se importa realmente com a verdade; o que queremos, como escreveu o outro, é uma mentira que nos favoreça.

Indignado profissional
Consegue irritar-se com tudo, desde o muito pequeno ao muito grande. Consegue encontrar ligações onde criativos e cientistas são incapazes. É hábil em detectar uma constelação de problemas nas migalhas que povoam a roupa de outra pessoa. Uma máquina de gerar problemas onde não existem. Um escapista da nova geração. É incapaz de lidar com os seus próprios fantasmas, contudo tem soluções perfeitas para todos os problemas do mundo.

Paladino do óbvio
Estes tempos macacos do politicamente correcto trouxeram-nos uma figura inesperada: o paladino do óbvio. Como tem medo de ofender os demais, fica-se pelo óbvio. Para homenagear Nelson Rodrigues, são legatários do óbvio ululante. Dos fenómenos mais degradantes deste século é assistir a um debate onde só se trocam obviedades. Ao que parece, a profecia sobre a morte do pensamento não andava muito longe da verdade.

Refugo do Instagram
Gajas boas e gajos bons, mas não suficientemente bons para conseguirem singrar na rede social da fantasia. Exibem nalguedo e mamas com uma frequência assinalável, para gáudio dos famintos.

12 personagens do twitter, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

27.05.21

Que é feito do desgosto amoroso já sublimado? Eis que restam, ilegíveis, as cinzas de muitos arraiais de despedida. Um homem sem valor facturado no espectáculo da carnificina. Por aqui permanecemos ingénuos, quais cães recém-vadios rondando a presa. Antes da despedida inescapável, uma ou duas frases memoráveis.

A obra podia começar por aí, todavia carecemos de tempo para a encorpar em vários volumes. A morte, apesar de perceber como ninguém o valor da arte, não vai em cantigas.

Por fora homens, por dentro abutres ocultando o jejum.
De joelhos, uns metros antes da pira, estudamos o chão sem canhenho que nos guie até às raízes da salvação.

O que é feito do passo antes apetecido? Quem diria que a fome é susceptível de evaporar. Outrora sapos de anca frenética
saltando de cama em cama
e nelas exprimimos as cruzes
para de seguida as incendiar.

A cada piso o diagnóstico perde adjectivos, ornamentos. Na descida às catacumbas, a prosa transfigura-se em poesia. Tudo se torna flagrantemente claro.

Agora, sobre um chão de promessas quebradas, sobre os estilhaços dos caminhos não percorridos, sobre as carcaças daqueles que fomos sendo ao longo da vida, futuro mártir dançando num piso de mártires pretéritos. Narciso louco e colérico bailando na casa de espelhos em ruínas.

Alumiados pelas mãos em brasa, as quais foram durante muito tempo guardiãs de uma chama mínima, blindando a esperança das ameaças exteriores, opondo à tempestade, o canto íngreme dos náufragos, o cadáver dos nossos dias mais memoráveis.

Já à beira do fim, escutamos ao longe o mundo em uníssono, o marulhar das ondas, o crepitar dos escaravelhos espezinhados, as árvores ganhando voz graças ao vento, o estalar de um osso que deu tudo à bailarina, o canto de cisne do bácoro que recebeu a navalhada no bucho, as últimas palavras do poeta, o barulhinho de uma compra registada, um obrigado a cavalo de um ‘vai-te embora”, um amo-te rasgado por um rugido, o regougar de um raposa de fábula, o grito lancinante de Dido. De seguida, adivinhamos o perfume certo no seio de um exército de cheiros.
Assim que deslindamos a senda que nos conduz ao Tempo Perdido, alcança-nos o golpe fatal.

 

Abutres ocultando o jejum, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

26.05.21

Olha: conseguimos! Alcançámos a primeira frase, vencemos a folha em branco. Elevámos os deuses aos píncaros e afinal é tão fácil ser criador. Fingir, fingir cada vez melhor. Pós-modernismo, pós-pessoas, pós-isto-e-aquilo. Fui tão alegre por esses dias como vocês foram tristes. Ou vice-versa, dado que os critérios destinados a avaliar seja o que for sucumbiram há muito.

Reparo num urinol. Não sei se posso mijar nele. Já mijei muitas vezes nas calças devido a essa indecisão. Cabrão do Duchamp!, digo eu a rir.

Numa noite de cavar olheiras, naquelas horas onde orbitamos, furibundos com ânsias de nos despenhamos, à volta do nosso nome plantado na folha, a minha morte abandonou-me, deixando-me a sós com a vida. Os vindouros saberão usá-la, à morte, com moderação, quase mansa e sem dentes.

Estarei vivo ou morto? Mas qual é a instância habilitada para decidir ou decretar semelhantes juízos? O corpo humano é uma obra de arte, que é como quem diz, irmão do urinol.

Caindo onde os gigantes passeavam, como que ensaiando a vida póstuma, despedaçado contra as montanhas para gáudio das hienas, as quais não me consentiram a escalada, todavia ainda zombando da queda do Diabo, a língua sai tumefacta com fúria de quem percebeu finalmente as regras do jogo, numa relação saudável com a lâmina.  A relação com o mundo, a qual tomou o lugar da utopia, faliu.
Mas quão lestas são as ideias de suicídio quando comparadas com as outras? Sem arabescos nem notas de rodapé, intenções perfeitissimamente editadas.

Ergo-me teoricamente, a trajectória da verticalidade conquistada é descrita no quadro de ardósia. Matematicamente feliz. Isto é tão fraudulento que é de incendiar as escolas e as vanguardas.

O mundo esboroa-se aos meus pés enquanto testava a minha força na folha, reificava aves delirantemente negras e paisagens como casas de espelhos. Diríamos estar perante uma perfeita bifurcação. Ou fingíamos um sentido, ou seguíamos na peugada de John Cage em 4’3’’.

Nenhum tema, nenhuma imagem, nenhum gosto, nenhuma beleza, nenhuma mensagem, nenhum talento, nenhuma técnica, nenhuma ideia, nenhuma intenção, nenhuma arte, nenhum sentimento

nenhum batimento cardíaco, nenhuma vida, nenhuma morte, nenhum deus, nenhum gesto, nenhum verdugo, nenhum anjo, nenhum precipício, nenhuma miragem, nenhum oásis, nenhum deserto, nenhuma ampulheta, nenhuma guilhotina, nenhuma fonte salvífica,

nenhuma interpretação, nenhum par de pernas abertas, nenhuma linha musical, nenhuns olhos perscrutadores, nenhuma divindade insondável, nenhum fogo, nenhum mistério, nenhuma caverna, nenhuma projecção, nenhuma ideia parva de eternidade, nenhum urinol, nenhum monte de merda a fazer-se passar por arte, nenhum amo-te, nenhum baile de máscaras, nenhum rosto precário, nenhum jogo de perder as estribeiras, nenhum poeta medroso, nenhum poeta merdoso, nenhum eco, nenhum herdeiro, nenhum Actéon, nenhuma metamorfose, nenhum cerco, nenhuma jornada.

O mais puro nada.

 

O mais puro nada, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

24.05.21

Tertúlia de Mentirosos com Paulo Oliveira.

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Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: Tertúlia de Mentirosos, o livro; o humor aproxima as pessoas?; Humor e o Narciso; o politicamente correcto enquanto herdeiro das religiões caídas; a comédia e a leveza; humor negro; o comediante; o erro e percepção do público; a coisa mais importante no stand-up; episódio com heckler; o chico esperto residente; o stand-up do ponto de vista de quem ensina; a importância do networking; redes sociais e o comediante; a circulação do elogio; 'lambe-gaitismo'; Bang produções; as duas coisas mais importantes para quem quer ser comediante; aprender com as noites más; cursos de stand-up comedy; o sonho comanda a vida?

Podem ouvi-lo aqui ou em qualquer plataforma de podcasts.




Roberto Gamito

24.05.21

“Precisa de ejacular desse piçalho?”, pergunta. Só as mulheres inexperientes se exprimem dessa forma. Faça de tudo para dar ares de puta sofisticada.

Proporcionando-se a situação de estar a dar farnel à cobra de um cavalheiro desconhecido, não entregue logo os trunfos do seu repertório de fornicadora calejada. Guarde os melhores números para futuras actuações, ó artista.

Ponha-lhe com humildade a verga na boca, um centímetro de cada vez, como que cavalheirescamente, não vá a mulher ser inexperiente nesses sufocos. O broche, tal como todas as artes, requer tempo. Todavia, em faltando tempo, mas sobrando vontade, pode sugerir um biquinho sôfrego.

Quando ele se esporrar na sua boca, engula pausadamente e até à última gotinha, como se estivesse saboreando uma iguaria gourmet. Se se quiser armar em conhecedora de gastronomia, pode declarar: “Meu querido, o teu esperma é dotado de umas notas aveludas, a textura é assim e assado. Uma experiência a repetir”.

Se se deita com um senhor pela enésima vez e já conhece o pau dele de trás para a frente, pode, nesse caso, interromper a converseta que inaugura o acto sexual. Nessa situação, e sem inconveniente algum, quando, ao abrir a porta de sua casa, ele lhe disser boa noite, agarre-lhe prontamente na picha a fim de verificar se ele trouxe entusiasmo.

Se se quer sentir empoderada, consinta que o homem perca o tesão entre os seus lábios.

Aconselho-lhe este pensamento, quando entrar nas redes sociais e der de caras com mais uma zaragata inconsequente: “Há infelizes que nunca farão entesar ninguém”.

Seria de extraordinário mau gosto vir-se para cima da saia dela no primeiro encontro. Se não puder evitar, espere ao menos pela sobremesa.

Não envergonhe o homem que acabou de fazer o mais incompetente minete. Ele fê-lo certamente no auge das suas capacidades.

Se por uns infortúnios da vida for obrigado a prostituir-se, mostre-se cauteloso no respeitante àquilo que aceita. No pior dos casos, pode ganhar uma aversão ao sexo, o que lhe complicaria a vida. O sexo recreativo é um escape, sem ele, está condenado a uma vida degradante.

Punhetódremo.
Recinto onde seres humanos se reúnem para se masturbar até perder os sentidos. Sinónimo de redes sociais.

Seja exigente. Não se deixe enrabar por todos os que lhe pagam um café.

Seja exigente. Não chupe o mangalho a todos os que lhe oferecem uma rosa.

Arminda era uma puta romântica. Trocava bicos por flores.

Vivemos tempos estranhos, há mulheres que gostam mais de indignações do que de piça. A culpa, provavelmente, é dos homens que, nas suas prestações miseráveis, deram mau nome ao vergalho.

 

Piçalho Cavalheiresco, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

21.05.21

Adúltero.
Um homem que, apesar do casamento, não desistiu de encontrar a felicidade.

A vizinha é semelhante à actriz. Mete-se artisticamente na vida das outras pessoas.

Admitir os erros, os nossos, é muito nobre — professam alguns.
Não pretendo contestar tão magno raciocínio, porém, para mim, não me serve. Não faria mais nada a vida toda.

Homem crente. Definição.
Alguém com poucos conhecimentos de acústica. No entender dele, a divindade escutará melhor as suas preces se estiver de joelhos.

Sou a ideia de um gato. Subi à minha árvore genealógica e agora não consigo descer.

Redes sociais.
Uma mescla de recreio e tortura com ênfase para o primeiro.

Zebedeu, modelo, descobriu que gostava de ser o centro das desatenções.

Podemos antagonizar os canibais, todavia não podemos criticar um aspecto: a sua relação calorosa com os forasteiros. Enfim, fazem falta mais canibais na política internacional.

A influencer criou conta no twitter. Segundo fontes próximas, tinha um desejo irreprimível de passar por besta. Alcançou o seu objectivo nos primeiros minutos, uma verdadeira inspiração.

Casa.
Estrutura que nos protege mediocremente contra os perigos do mundo. 

Furacão.
Quando a natureza, inspirada em estórias de catraios, se arma em lobo mau.

Ironia das ironias: seres não-binários num mundo cada vez mais binário, o virtual.

O humor é a sala de convívio partilhada pela poesia e pelo lugar-comum.

O cavaleiro mais rico do mundo tem, provavelmente, o maior guarda-roupa de sempre. Convenhamos, as armaduras ocupam muito espaço.

Desprovido de sonhos: eis o nosso homem. Vê em cada precipício uma oportunidade de desfecho. O que, de algum modo, o reconforta. Esta não é para rir, é para fazer pensar.

Velho.
Ser encarquilhado, semelhante a um fruto seco, vulgarmente sentado, devotado a expressar a sua opinião. O guardião da liberdade de expressão.

"E o caralho" é o etc. de pessoas vividas. 

Sexo.
Ritual mágico segundo o qual a mentira dá frutos.

Comediante anónimo.
Criatura de importância reduzida que só pode ser encontrada em três situações: 1) a escrever piadas, 2) a pensar no suicídio, 3) a fazer coisas estúpidas na internet, a saber: escrever piadas ao vivo na twitch.

O passado é odiado por muitos, mas adorado por melancólicos e fotografias.

Relação saudável é o compromisso no qual tanto o homem como a mulher falam abertamente do fim. Seja o fim de que natureza for. Os nutricionistas alegam tratar-se de uma ficção.

Se me vejo capaz de garatujar uma bela piada sobre inércia? Sim, vejo-me, porém não me ia levar muito longe.

Erecção. Um filme.
O Regresso do Rei.

A vantagem de ter um amante contorcionista é que, se escutares o teu marido a chegar a casa, podes pô-lo na cona.

Com o aumento das rendas na habitação prevejo que por volta de 2060 os portugueses serão contorcionistas a dividir despesas no porta-luvas de um Ford Fiesta.

Ficcionista.
Em princípio, qualquer homem capaz de engendrar cenários hipotéticos quando perto de uma mulher. De modo mais maneirinho, o ficcionista é um artista de braguilha nervosa. 

Tarólogo.
Tipo que, ao contrário do treinador de bancada, decidiu começar a cobrar pelos seus palpites.

Jornalista.
Sujeito a quem cabe averiguar se a galinha da vizinha é realmente melhor que a minha.

Árvore genealógica.
A única árvore cuja fruta está perpetuamente condenada.

O telemóvel é um instrumento de tortura com o qual matamos o tempo. Segundo sei, algoz e vítima fundem-se no mesmo pacóvio sorridente.

A vida é como esta frase — não tem piada.

Humor contemporâneo. Volta e meia fico corado ao pronunciar esta expressão. Os motivos, esses, são mais que muitos, e todos eles vexatórios. Optei por abdicar da graça, o humor ofende.

O consumidor de muletas linguísticas é, basicamente, tipo, imaginem, uma espécie de gago sofisticado. Mas ya.

O palhaço mudou de ramo, é hoje empreendedor. Ironicamente, o negócio das flores de plástico floresceu.

Felicidade.
Demência temporária rapidamente curada com uma ida ao twitter.

Não fosse o palhaço e hoje não estaria aqui. O riso salva, comunicou-me uma ninfomaníaca.

Se o pénis é o palhaço, abre as pernas: eu preciso de ensaiar. 

Ano.
Período em que é provável encontrares-me triste. Fora isso, a minha vida é uma folia contagiante.

Fui para o desemprego e hoje estou separado do meu pénis.
O meu palhaço arranjou trabalho no circo. Aproveitei para vender os colhões e hoje sou humorista activista. 

Ansiedade é uma doença provocada quando és exposto ao teu próprio fracasso. Calma, falhado, a vida são dois dias. 

Ano.
Ardil criado por um tipo que pretendia escoar agendas.

Político.
Aquele que, tal como o larápio, faz conta com o nosso dinheiro.

Encontro amoroso.
Cerimónia que, em correndo bem, é o preâmbulo de um bom entendimento. Sexo, para os mais distraídos. Problemas, para os mais maduros.

Humorista.
Homem familiarizado com o mito de Sísifo — o riso simboliza a saída do Inferno. 

Comediante.
Aquele que, um pouco como o funâmbulo, está constantemente entre o precipício e a glória.

A primeira coisa que penso ao acordar: "Há 36 anos neste trono de papalvo e ainda não há sucessor à vista".

Para ser rico, o comediante precisa de viajar para Itália. Talvez assim aprenda a trabalhar com as massas. 

Intelectual.
Um sujeito que se abstém de consumir jornais de baixo quilate, televisão e raramente navega na internet com o fito de perder tempo. Um primitivo, portanto.

Estou há tanto tempo sem fazer sexo que, em algumas partes do mundo, já sou visto como santo.

Notícia.
Naco de palavras que, independentemente da sua natureza, pode ser comentado com "isto é tudo uma cambada de ladrões".

Universidade.
Bordel onde os clientes são fodidos com a cabeça enterrada nos livros. 

Erudito.
Indivíduo expedito em encontrar a via mais enfadonha para explicar algo que na boca de outra pessoa seria entusiasmante.

Acéfalo.
Certamente grande parte das pessoas que conheces fazem parte deste clube. Afortunadamente, não é preciso pagar cotas para ser sócio.

Decote.
Engodo próprio para pescar besugo.

Botânico é um horticultor que olha com cara de parvo para as plantas.

Sinceridade.
Qualidade que deve ser praticada em silêncio ou num sítio de segurança máxima. Se puderem, evitem-na. Até hoje não há provas concludentes que a sinceridade traga benefícios a quem a pratica. Excepto aos postiços humoristas da genuinidade. 

Conforto.
Quando comparado com o metro, o cemitério é uma boa opção: só tem lugares deitados.

Tímido.
Tomate de estufa — amadurece repentinamente.

Tal como o puto mimado, o canibal é muito esquisito: só come um tipo de carne.

Flauta.
Na boca de uma criança, uma arma.

Dica: se só retiras prazer na comida, nunca vás ao médico.

O influencer retirou poder ao médico. Hoje é ele que nos diz o que devemos comer.

Alegria.
Estado de espírito originado pela contemplação do nosso extrato bancário. No decurso de um sonho.

Politicamente correcto.
Seita fundamentalista que tenciona fazer do mundo um sítio melhor — aliás como todos os radicais —, mais livre, silenciando quem a contradiz; por oposição ao humorista, que, além de sevandija, quer animar o mundo falando das coisas que destroem o mundo.

Indignação.
Sarrafusca amiúde sem contacto na qual a inócua bala foi substituída pelo nefasto impropério descabido.

Couve.
Serve de alimento a uma caterva de insectos e moluscos e, em última instância, em não havendo alternativa, a mim.

Inferno.
Local às vezes ilusório ou ideia durante a qual tens o privilégio de contemplar (nos piores momentos) o teu futuro, o qual te dá força e inspiração para continuar a destruir a tua vida.

Selva.
Sítio onde as presas não podem descansar um momento.

Concordar.
Sucumbir à opinião dos outros quando a nossa figura de parvo se torna indisfarçável.

Pai Natal no shopping.
A única altura do ano em que as pessoas fazem filas para ver um velho.

O historiador versado na guerra de Tróia deu conta que a História se repete quando recebeu o salário pela porta do cavalo. Interpretações posteriores lêem salário de outra forma. Uns vêem nele navalhada, outros, utopia.

Os liliputianos admiram a ideia de um pónei de Tróia.

Sem favores por receber, Arlindo não teve outro remédio senão vender o cu na candonga. Segundo as palavras do comprador, uma pechincha. Hoje podemos ver o cu de Arlindo em cima da telefonia de Ambrósio Antunes, reformado em Alfornelos.

Em virtude do aumento da oferta no tocante ao cus, Marisa Márcia teve o seu futuro hipotecado. Marisa é apenas um caso entre milhões de uma geração cujo cu não tem valor para o mercado de trabalho.

Devotada a pronunciar-se sobre tudo o que dá azo a indignações, Márcia deu expose a Jesus Cristo aquando da pergunta do padre: "Casa com este chavaleco?"

Inspirado em Boris Vian, Artur, homem devoto ao salpicão e caranguejo nos tempos livres, gastava as tardes a pronunciar-se sobre a espuma dos dias. Postumamente, as crónicas — à falta de termo adequado para designar o talento de Artur — foram reunidas num canhenho chamado as Crónicas do Epiléptico.

Erecção.
Comemoração através da qual o homem demonstra com uma sinceridade ímpar o seu apreço pela carne.

O fazedor de minetes morreu aos 37 anos. Segundo consta, a humidade esfrangalhou-lhe o sistema imunitário. No dia do enterro, as mulheres choraram e gemeram em sua honra.

Homem.
Talhante incompreendido. Tal como o canónico, sabe dar valor à carne.

Careço de saúde para tomar posições. O peso de tomar uma decisão dá-me cabo das costas.

De dia contorcionista, homem das mil posições, à tarde, simpatizante do Chega.

Gajo porreiro. Definição.
Aproximadamente, um tipo que partilha das nossas qualidades.

Ateu: Juro por aquele que nunca existiu.

Um desvio ao que seria suposto, por vezes a comédia é apenas isso, comunicou-me um encarregado de obras.

Qual é a diferença entre um comediante contemporâneo e um pisa-papéis? O pisa-papéis é toleravelmente inócuo enquanto o comediante é insuportavelmente inócuo.

Observando o mundo, percebemos que os grupos contrários se perseguem. Para quando uma perseguição sem tréguas aos feios por parte das boazonas? É uma questão puramente académica.

Mundo. Definição.
Background para selfies e quejandos.

Em correndo bem, seguidor é um stalker que nos engorda o ego. 

Razão.
Um engenhoso artifício criado pelo Homem a fim de nos dar a sensação de que percebemos minimamente o que nos rodeia.

A actriz pornográfica confidenciou-me que as influencers mostram demasiado a sua vida. Segundo ela, um degredo.

O vizinho suicidou-se. Segundo fontes sensivelmente seguras, pudemos apurar que, ao ver-se destronado pelo indignado do twitter, não aguentou. Ao pé deste, o vizinho parecia um amador na arte de meter o bedelho.

Indignação é uma arte praticada um pouco por todo o lado, salvo no coração de quem ama. Estas foram as últimas palavras do poeta, o qual morreu engasgado com um rouxinol atravessado na garganta.

Universidade.
Local onde o arrogante se torna mestre no seu ofício.

Se a vida é um filme de acção, o seguidor é uma espécie de duplo para as cenas difíceis.

Insulto.
Uma arte milenar praticada nos quatro cantos do mundo, com enfoque especial nas estradas. Há quem diga que, antes dos romanos, o insulto andava pelas ruas da amargura.

Bebedeira é a magia que rasga os biombos da educação com impropérios. É uma frase bonita. Se os activistas podem fazer comédia enfadonha, também tenho direito. 

Filme erótico.
Documentário onde se exibe a prática do afogamento paulatino do ganso.

O primeiro homem romântico.
O tipo que inventou os eufemismos de foder.

Depressivo maneta. Definição do abutre.
Um tipo com jeito para fazer de morto.

Por um lado não me sinto perdido, por outro, não vou a lado nenhum.

Grosso modo, continuo vivo, pensou o homem deprimido ao olhar para o nabo.

 

Cartas na Mesa, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

20.05.21

Se o palhaço esguichar a flor que carrega ao peito na sua cara, aceite o privilégio de ter sido escolhido como alvo do esguicho. Não será descabido provar o líquido que o ensopou, pode dar-se o caso de ser sémen. Se tal acontecer, aplauda o palhaço pela ousadia.

À noitinha, quando a sua namorada vier cheia de manhas aconchegar-se rente ao seu caralho, espere que seja ela a tomar iniciativa de abocanhá-lo. A fome dela guiá-la-á, não precisa de guias turísticos.

Não simule um helicóptero com a picha. A menos que ela que tenha uma púbis em forma de H.

Nada contra os homens que, diante da sua fêmea enfarpelada para o pecado, exclamam: “Sou a tua putinha”. Contudo, em bom rigor, dever-se-ia apelidar putinha estagiária, uma vez que não é a foda que põe a pão na mesa.

O casal de comerciantes tinha uma vida íntima hilariante. À cona chamavam caixa registadora, ao pénis, dinheiro, visto que está sempre a entrar e a sair.

Nada é mais desumano do que prometer uma foda ao homem e desmarcá-la em cima da hora por causa de compromissos laborais.
Logo o homem que tinha tanta vontade de dar emprego à cona.

Se fosse dono de um grande nabo, apelidá-lo-ia de verdade. Porque a verdade magoa.

Quando tiver acabado de engolir o esperma do seu amante, e acaso tenha ideias de prolongar a noite, não se ponha a falar de temas burocráticos como política e finanças. Pode traumatizar o pénis, essa frágil criatura.

Se a sua intenção é montar o seu amigo às tantas da manhã, faça questão de avisá-lo umas horas antes. Caso contrário chega com fome de fandango e o seu homem já afadigou o pénis num sem-número de punhetas.

Uma foda tão miserável que, se fosse fotografada, tinha hipóteses de ganhar o prémio da World Press Photo.

Se, à medida que envelhece, sente a coragem a abandoná-lo, há um modo de o confirmar. Comece a pesar os colhões noite sim, noite não.

Não ridicularize o homem se ele não quiser ser chupado. O louco lá terá as suas razões.

O Palhaço e a flor, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

19.05.21

Em miúdo ralhavam-lhe, corrigindo-lhe a postura: puto, endireita-te! Hoje, mais alto que os demais, aconselham-no a encurvar-se. És demasiado alto para nós, ó gigante, não nos envergonhes com a nossa pequenez. Na margem de um grande nada, atinge a cólera pausadamente, como se não houvesse outro caminho, como se este houvesse sido predestinado.

Começou como escritor minucioso, porém, ao atingir as mil e uma revisitações com a cabeça na mão, bobo e rei degolado, deu-se conta que a sua mão se havia metamorfoseado num vândalo. Alcançou a barbárie após sucessivas carnificinas, bárbaro gerado pela tentativa e erro, enquanto o velho, já sem dentes nem língua, inscreve na areia da ampulheta o seu epitáfio.

Na barriga de mulher prenha, apodreceram as hipóteses. É tudo o que sei. Não se sabe o que apodreceu ao certo: se o futuro, se a criança ou a crença. De chofre, extingue-se o canto das aves. Segue-se o suicídio colectivo dos poetas.

Pequenos corpos, ficticiamente grandes, corpos uns contra os outros. O bulício da cidade grande replicando o caos do mundo quântico.

Não existe em cima ou em baixo, à esquerda ou à direita. De tempos a tempos, estamos perdidos no espaço. Sem norte, o vazio é escrito em maiúsculas. Na noite cósmica, o grito não medra.
Fito o insecto e de seguida pressiono-o até que expluda. Agita em mim o sonho de replicar o big bang, uma vontade de expansão.
Essa é a razão pela qual os versos são tensos: há neles um universo latente à beira da expansão. Um tentar ser deus contra todas as probabilidades.

No princípio era a obsessão pelas pequenas coisas, como um Proust ou um entomólogo, porém não me contentei com o mundo do muito pequeno. Bailo, aflito, entre estes dois mundos. Do pequeno ao colossal, do insecto ao cachalote, tudo pode ser cantável.

Ícaro tomba no oblívio, que é como quem diz, no epicentro do funeral dos vocábulos. A procissão deste século.

Um verbo que possa viabilizar, qual engodo, a minha fome.

O deserto de um único homem: eis a província do grito.

O gigante orla a praia com um cachalote debaixo do sovaco, como se o mastodonte branco fosse uma baguete. A partir daí, o episódio correrá mundo, seja pela boca dos jornalistas, seja pela boca dos profetas. No momento seguinte, o gigante façanhudo, o detonador dos grilhões, o novo inventor do fogo, será discutido com meias-palavras entre o café e as torradas. O milagre desmantelado pelo quotidiano.

Foda-se é o nome final que lhes sobrará. O amontoado de cadáveres, de ideias desfeitas, promessas quebradas.
A este corpo sem maquilhagem chamam-lhe o quê? O bobo, o tonto, o coitado, o miserável, o sem cabeça — o degolado.

De falhanço em falhanço até ao fojo inescapável.
A vida é o dia-a-dia da morte.

De súbito, vemos uma frase memorável num sítio insuspeito. Não surte o efeito desejado, talvez se fosse 10 anos mais novo e seria enfeitiçado. Entretanto, a couraça concedida pelo tempo tornou-nos invulneráveis à maioria das magias: paixão, amor, amizade, ideias de engrandecer um cadáver votado ao esquecimento.

Parava em todos os apeadeiros. Perguntava por Deus e prosseguia caminho. Uma interrogação que logo lhe desinteressava.
Nunca houve resposta. Ou não se lembra ou não quer contar. Ou não faz diferença.

Suspiro é tudo o que és. Carne pontual compactada entre o passado e o futuro. Canto esmagado pelo dia-a-dia.

Repetir tudo de novo. O luxo dos opulentos. E todavia a vida.

As coisas sem nome ameaçam-nos com a sua estranheza. Não fosse a curiosidade e estaríamos mortos.

As pessoas ligam-se umas às outras por um gesto falho. Um passo de dança retirado da coreografia burilada. Perfeito, mas desumano.

No espaço, onde a noite é uma certeza vinte e quatro horas por dia, não há aqui nem ali, nem eu nem tu, nem tão-pouco haverá espaço para adjectivos. No alto, bicho sem importância, na terra, rei postiço.

E passa-se ao raciocínio seguinte, como que fintando a morte.

Esqueletos que não podem regressar a casa. Um costume da religião lá deles. Consequências, cão e sequências, inferno, cérebro, bicho de três cabeças, vida, pensamento e memória, dois corvos nórdicos e o seu funeral.
Cérebro, metrópole do desgoverno.

O século que nos gerou prenhes de defeitos: sem mãos, sem pés, sem língua, sem cabeça, sem nada, um bicho franzino empanturrado de ficções.

E no entanto, o cadáver adiado simula a cotovia, tudo evapora: carne, pele, ossos, alma até sobrar apenas uma voz nos antípodas do grito. Uma redenção custosa, sem deus que nos acompanhe na fuga.

Não obstante o fracasso, continuamos à cata de uma língua que nos possibilite lutar com o mundo de igual para igual — oh quanta pesporrência. Um pouco antes da falência, cuspo as línguas mortas, regurgito o cadáver de Deus na tentativa de chegar ao limite disto tudo, o limite do humano, do verbal, do animal, levar o verbo, esse início cansado, à humilhação. No fim havemos de olhar para isso tudo como quem olha para um auto-retrato.

 

Levar a frase à humilhação, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

18.05.21

Não apouque a mulher se ela não for grande espingarda na foda. Dê-lhe tempo e formação. E reprimendas no rabo.

Medite ou, em faltando tempo, masturbe-se. Seja como for, vai esvaziar a mente.

Antes de pôr as unhas numa cona, ajoelhe-se e agradeça a Deus por mais uma refeição.

Como retardar a ejaculação de um homem mais impaciente? Fácil, fale-lhe de coisas aborrecidas e, se tudo falhar, discorra sobre o humor português — aborrecido a ponto de retardar a mais apressada verga.

Se por acaso tiver um dia muito preenchido em matéria de fornicação, racione o gemido. Caso não poupe a voz, vai chegar ao terceiro apeadeiro afónica. Ou então terá de enfrentar deixas do tipo: “Queres caralho, minha puta afónica?”

Não se ponha a tagarelar sobre política a minutos de dar alpista à pássara. Nessa altura, a picha não distingue a direita da esquerda. Ao rés de uma crica, o pénis, feito humanista, só se interessa pelo direito do homem.

Enquanto leva a cabo o ritual de felação sofisticado, que é como quem diz, o lançamento do elogio à queima-roupa, se alguém aproveitar a sua posição para enrabá-lo, não seja picuinhas. Veja esse episódio como uma forma de fazer networking. Não digo para dar o cu, digo leiloá-lo. Se for mais desenvolto, até pode perguntar: “Quem dá mais por este cuzinho?”

Se estiver ao lado do poeta aquando de uma apresentação de um livro, faça questão de lhe oferendar uma punheta quando ele estiver a dizer um poema da sua lavra. Registe a mudança de timbre, a animalidade a apossar-se da língua. Como cantou Valete, o mundo muda a cada gesto teu.

Sedução, se bem feita, é simultaneamente uma conversa interessante e uma conversa para encher chouriços.

Será que devo comunicar-lhe que gosto de ser fornicada à bruta?
Será que irei passar uma má imagem de mim? Essas questões merecem chicote nas nalgas.

É-lhe interdito citar nomes de ex-namorados aquando da queca. A foda é um ritual animalesco, não é um sarau de filósofos em que cada um tenta engodar o outro com as palavras dos mestres.

Vou ou não?, questiona-se o homem no recato do seu lar. Em jeito de achega amigável, posso aconselhar-vos. As questões que devem estar em cima da mesa são: ela fode como uma desavergonhada ou como alguém capaz de extinguir o ânimo do caralho menos criterioso; chupa-o com ternura ou com sofreguidão; deixa-se enrabar se a ocasião se proporcionar? Espero ter ajudado.

Fuja a sete pés se ela é daquelas que, no prelúdio da foda, vem com aquelas cantigas de murchar caralhos, do género: “Sabes, quero contar-te uma coisa” Foda-se, mas somos homens, ou somos catraios de bibe a ouvir histórias? Se nos levantamos a altas horas da noite é para dar minutos de voo ao vergalho, não é para coleccionar historietas. Se fosse pelas histórias tinha ficado em casa a ver séries.

Se ela lhe atirar a penosa questão “amas-me?”, responda-lhe à Saramago. As perguntas que esperam de mim um sim ou não são reveladoras da parca inteligência de quem ousou trazê-las à baila.

Mesmo que chupe sardas há vários anos, receba o novo nabo com solenidade. O homem agradecê-la-á e só descansará quando estiver mais húmida que um arrozal.

Se lhe pedirem a cona, é melhor dá-la — lembrem-se de Deus, devemos ajudar os mais necessitados. Não se acanhe, transforme a sua cona na maior filantropa que jamais existiu.

Se é daquelas que diz que a vida é uma tela em branco deve consentir, para bem da coerência, que o seu macho ejacule, a tiros de carabina, para o seu corpinho. Nunca se esqueça que a ejaculação masculina é a mãe da arte abstracta, pelo que o pénis é provavelmente o primeiro artista que pisou a Terra.

Preciso de sexo, exclama uma mulher para a sua amiga. Precisas de sexo?, riposta a amiga. Com que então és feminista. Amiga, só as mulheres de cona agrilhoada é que se exprimem dessa forma.

Cona Agrilhoada, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.05.21

Mais um episódio do podcast tertúlia de mentirosos, desta feita com Dário Guerreiro aka Môce dum Cabréste.

Dário Guerreiro Tertúlia de mentirosos

 

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: pernas roliças, viajar para sítios confortáveis, Dário Guerreiro numa selva pejada de canibais, Segundo Podcast, o medo do silêncio, a dinâmica da aprovação, a relação com o ‘hate das redes’, problemas de interpretação, o zapping nas redes, análise à expressão “não consigo estar parado sem fazer nada”, impingir séries aos outros, Taskmaster, O que é isto de fazer um podcast, stand-up comedy em tempos de pandemia. 

Podem ouvir aqui ou em qualquer outra plataforma de podcast:

 

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