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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

17.05.21

O mercado de trabalho é um lugar mágico. De cada vez que te foderem o juízo é como se levassem a cabo o teu desvirginamento. Saltas de primeira em primeira vez sem nunca chegares à segunda: sim, minha querida, dói sempre.

Depois de lhe irem ao rabo com ganas, evite ir logo para as redes sociais contar, com prosa de romancista, a experiência transformadora. Não é coisa que faça sentido entre publicações motivacionais.

Não seja demasiado severo com a pontualidade dos outros. A menos que tenha uma amiga com o hábito de o fornicar a horas certas.

Nunca se esqueça de dizer “tenha a bondade de me auxiliar” quando, de pichota entesada na mão, lhe mendigar um broche.

O sexo não é arena de influencers. Toda a pose é pose digna de figurar numa fotografia.

Se se cruzar com uma mulher perdidamente fodilhona, mesmo que seja um homem dedicado à carreira e a essas bagatelas, peça ao seu patrão quinze dias de férias. Se ele se mostrar intransigente, faça questão de lhe apresentar o problema. Se for humano, facilmente compreenderá a urgência do cenário.

Certifique-se que limpa bem os cantinhos da boca após o broche. Não queira subir ao palanque da palestra nessa figura. Caso se descuide, e suba ao palco com esporra nos lábios, dificilmente acreditarão quando estiver a falar do processo criativo.

Não se queixe à sua actual namorada de que a sua ex-namorada era puritana no quarto e que isso emperrou a sua língua no minete.

Não enfie um pepino avantajado na cona da sua namorada. É certo e seguro que doravante não se contentará com cenouras-bebé. Ou então esteja preparado para ser trocado por um vegetal encorpado.

Se a mulher tomada de calores não se importar de ser examinada na conaça, não lhe enfie a mão, mas o caralho. Diga-lhe que é um ginecologista da nova escola. Pode ser que ela ache graça.

Se apanhar a cozinheira com o rolo da massa no pipi, pergunte-lhe se esse é o segredo da sua cozinha. E ria-se se ela disser: “O que corto no sal, ponho de cona”.

Quando a mulher tem a cona a arder, pegue na mangueira macambúzia e tente, por todos os meios, controlar o fogo. Pelo sim, pelo não ponha o seu caralho no seguro.

Não peça ao poeta mais de três minetes por dia. Não lhe afadigue a língua, a sua ferramenta de trabalho.

Se houver confiança, diga-lhe: “Estás triste? Anda cá a casa que eu encho-te de tesão e exorcizo a tristeza”.

Prefira a clareza em vez da obscuridade. Opte por abordagens do género: “O senhor não deseja o meu cu?” Não atrapalhe o tesão dos outros com prosa barroca. Seja poeta, conciso e tenso.

Exorcizar a cona, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

14.05.21

Se o seu amante chegar mais cedo do que o combinado, não se ponha com piadinhas do género “já estava à espera disto” a fim de passar a ideia batida de que o macho sofre de colhões nervosos.

É de esperar que uma mulher contabilista tenha uma folha de excel onde regista a sua actividade sexual, a saber: quantas vezes levou com ele, uma crítica à performance do macho, se há futuro nesta ou naquela picha, se há propensão para preliminares, o tamanho de sarda (medida a olho), a grossura da dita que, segundo fêmeas no terreno, é um atributo importantíssimo e se a conversa que preludia a foda a humedece ou não. Não espero menos que isto de uma mulher contabilista.

A não ser que seja homossexual, não lhe aconselho chamar à parte a sua melhor amiga para lhe perguntar: “O gajo veio-se dentro de ti?” É o tipo de abordagem que devemos evitar a todo o custo.

Numa conversa entre homens propensos ao romantismo, que também os há no mundo real, é provável que a conversa, quando toca em temas de trancabailado, chegue a este apeadeiro: “Chupou-te com ternura? Engoliu a esporra romanticamente? Deixou-se enrabar sem citar escritores do movimento Romântico?”
Como é fácil de ver, homens sensíveis até dizer chega.

Assim que o pinanço findar, não se ponha com ideias de perguntar à fêmea de cona fumegante como classificaria a actividade coital. É o género de informação que ninguém recebe com prazer.

Mesmo que haja confiança, à pergunta “sabes o que me apetecia”, nunca responda “uma bela verga no olho do cu”. Há fortes possibilidades de ela o bloquear nas redes sociais. Faça de conta que é um cavalheiro que não passa cartão ao sexo. Aguente firme nesse papel até que pingue a primeira nude.

Se for um primeiro encontro, paute a sua conversa pela educação. Que é como quem diz, ofereça a sua picha com toda a cortesia.

Se o cavalheiro preferir enterrá-lo no cu, ofereça-lo imediatamente sem resistência. A vida são dois dias, quanto mais depressa ceder, mais fodas poderá amealhar nesse rabo. Seja esperta.

A cona aburguesou-se. Antigamente fodia-se onde se podia, na rua, num palheiro, no mato. A ideia da foda certa no lugar ideal apunhalou pelas costas muito pénis faminto, perdoem-me a poesia.
O sexo não medra no terreno da idealização.

Pus no meu currículo que trabalhei numa linha erótica. Embora não seja verdade, já muita mulher se masturbou a escutar a minha voz. Era novo e inocente e caí no conto do vigário, isto é, da precariedade, uma vez que o trabalho não foi remunerado. Se fosse hoje, teria pensado melhor, e provavelmente teria ocorrido da mesma forma.

Não se esqueça de dizer “obrigado” quando, findo o hino do tesão durante o qual as palavras fazem a cama à carne, o pénis desconhecido lhe entrar pela cona. Não custa nada sermos educados e dessa forma mostra ao homem que é detentora de uma pachacha hospitaleira.

A foda humaniza homem e mulher. A queca é pôr a picha, a cona, rabo, língua, toque à altura das circunstâncias. Se somarmos tudo, temos um ser humano apto a propagar o amor.

Se estiver a ver um filme com a sua namorada e este entrar numa parte enfadonha, faça-lhe um minete para a manter entretida.
Aqui não há margem para dúvidas: se a mulher adormece, a culpa é do homem.

 

Uma picha à altura das circunstâncias, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

13.05.21

Se uma turba concertada de homens se dignar a ejacular no seu corpinho nu, aceite sem engulhos o privilégio com um sorriso, como se fosse digna de um ritual de purificação — vai ressurgir do rito como uma mulher nova.

Na sala de aula, quando a professora dá uma reprimenda, envergando um fato justo pondo em evidência atributos que nada têm que ver com a matéria leccionada, é preferível deixar o aluno ir à casa de banho acalmar-se.

Quando for penetrada por aquele amante cujo hábito é fodê-la à bruta, não tente refrear o que sente. A sinfonia de gemidos é a música que a cobra zarolha anseia ouvir.

Não empunhe o caralho artificial como se fosse uma espada. A ordem dos cavaleiros da piça há muito que foi desmantelada.

Não proponha à sua melhor amiga, a qual é actriz exímia, um papel, por pequeno e humilde que seja, no teatro de operações carnais. Esse comportamento pode destruir uma amizade. Espere antes que seja ela a sugeri-lo, aí estará a desempenhar o papel de bom amigo: ajudá-la num momento difícil.

Há mulheres que, herdeiras de práticas medievais, ao deparar com um homem a tremelicar de tesão, em vez de o aliviarem, torturam-no com insinuações de cueca. Ao passo que a mulher solícita— graças a Deus! — propõe-lhe remédio santo a fim de lhe aliviar a cruz. Felizmente, ainda restam algumas mulheres boas neste mundo.

Chupe a piça do seu homem como quem acabou de descobrir um gelado no deserto, isto é, como se fosse uma questão de vida ou morte.

Se ele se vier antes de tempo, pergunte-lhe se ele tem um dia preenchido antes de se queixar da sua prestação. É perfeitamente compreensível um homem vir-se antes de tempo se tem uma vida ocupada.

Aprenda a conduzir apenas com uma mão. Nunca se sabe quando é que uma mulher necessita de ser masturbada a caminho de casa.
Infelizmente, é o tipo de coisas que são ignoradas quando tiramos a carta. Por mim, só tinha carta quem conseguisse levar uma mulher ao orgasmo enquanto conduz.

Quando ela, com a carne bem aperaltada numa lingerie, estiver de joelhos diante de um pénis contente, comunique-lhe: “Se me chupares bem chupado, estás perdoada. Este caralho perdoa toda a gente, é a sua melhor qualidade.”

Abstenha-se de ser educado durante o coito. Foda como um bárbaro, como quem vandaliza um santuário.

Não ridicularize a sua amada se ela quiser ser comida paulatinamente como um pitéu gourmet. Como uma sinfonia, a foda é um espectro: os momentos de serenidade podem dar lugar (em havendo vontade) à violência.

Não vá por trás enfiar-lhe os dedos enquanto ela diz um poema para a câmara. Distraí-la-ia da métrica e, em virtude dos gemidos, pode resvalar em arte dadaísta.

Todos os dias, antes de se masturbar, ajoelhe-se e agradeça a Deus o facto de Ele ter inventado a crica.

Se se sentir acometido por um surto de inspiração, diga-lhe: “Será que é dia de mergulhar a verga nessa cona?”

Diante de uma dama madura, não se ponha com rodeios. Não se esqueça que está diante de uma criatura que aprendeu a valorizar o seu tempo.

Dê-lhe um beijo na glande e abençoe-o por lhe ter proporcionado mais um orgasmo. Mesmo que seja mentira; fica sempre bem.

Diga-lhe sem falsas vergonhas que foi uma boa queca. É bom para a auto-estima do caralho, esse Caim.

Enquanto reza de joelhos, não se ponha a sonhar com caralhos. Não misture Deus com coisas sagradas.

Se estiver em condições de ordenhar um cavalheiro, faça questão de dizer que está desejosa de levar com o resultado do labor na cara.

Mal sabem os pais que fecham as filhas a sete chaves que só lhes estão a atiçar o desejo. Com efeito, vão saltar para a primeira picha que lhes aparecer à frente.

Ao encontrar-se com um poeta, não deve, sob nenhum pretexto, confessar que já se tocou com a sua voz. Terá em mãos um problema. A menos que tenha ganas de solucioná-lo.

A Ordem dos Cavaleiros da Piça, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.05.21

É interdito fazer desaparecer os objectos pela cona. A menos que a tenha cleptomaníaca, aí sugiro ajuda médica ou um pénis mais compreensivo.

Evite gritar quando, numa discoteca, a música se precipitar no silêncio: “Ela chupa-me que é uma beleza”. Tal pode estragar o clima de festa.

Se for adepto de literatura não se esqueça que a maioria não partilha das suas referências. Para si, O Barão Trepador é um livro de Calvino, para a maioria, um belo título de um filme pornográfico.

Não se ponha de pau feito ao pé de uma réplica da Vénus de Milo como que a atiçá-la, demonstrando que não é como os deuses de picha pequena.

Se tiver que se masturbar numa casa de fados, sincronize o orgasmo com o canto do fadista. Assim passará despercebida.

Se possível não se feche num porta-bagagens com uma donzela com o fito de a fornicar. A menos que seja apreciador de fodas em apneia.

Não tatue no caralho “últimos dias de saldos”. Em vez de a encorajar, perturbá-la-ia. Porém tal táctica pode ter resultados interessantes com mulheres propensas ao consumismo.

Se ela, aquando um encontro fortuito no balcão do bar, lhe perguntar o que está a fazer, não lhe responda “Ando à cata de cona”. Esse tipo de sinceridade raramente é bem recebido.

É inútil pôr-se aos gritos na igreja para advertir o padre que tem carência de pau. Deus, a existir, já informou o pastor.

Se o gajo é chato, foda-o sem mais. É a forma mais eficiente de despachá-lo.

Se o apanhar a masturbar-se, faça-se de surpreendida. Contudo, consinta que a surpresa desemboque em fodanga. É uma oportunidade imperdível para a crica ganhar traquejo.

Se lhe ocorrer dar outro nome ao seu parceiro aquando do enfardanço de piça, diga-lhe que não é ninguém, que é uma manha que usa no sentido de se lubrificar.

De facto, ir ao bordel é uma espécie de turismo para o pénis.

Se finalmente lograr foder o namorado da sua amiga, não corra, a seguir, a gabar-se, como uma tontinha tonitruante, aos ouvidos da maralha. A sua cona pode sofrer um abalo sísmico na reputação.

Bem vistas as coisas, uma mulher que expõe, toda contente, a sua colecção de caralhos artificiais, não dista muito de um americano pançudo que exibe a sua colecção de armas. Ambas as imagens passam o mesmo: falta-lhes algo verdadeiro a que se agarrar.

 

Barão Trepador, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.05.21

Nada é mais desumano do que uma mulher desocupada nas redondezas de um homem de pau eriçado, uma daquelas que não se inibe de dizer que pugna por um mundo melhor, um homem apossado por uma estirpe de tesão que, qual tesoura traquinas, corta qualquer linha de raciocínio. Além disso, tem o desplante de argumentar palavrosamente que não o aliviará, mesmo que o futuro do país dependa disso. Custava alguma coisa abeirar-se da criatura enrascada e perguntar: “Precisa de ajuda?”

Findo o ritual da felação, não cuspa a esporra na cara do seu gato. Ele pode ganhar aversão ao leite.

Em tempos idos, grande parte dos jovens perdia a virgindade graças ao empurrão paterno que disponibiliza umas notas com o fito de introduzir o pau novato do filhote em narrativas de adulto, o que oferecia menos inconvenientes económicos, dado que um jovem não é senão um pelintra. Por que raio acham que os homens vos convidam para um café? Não é um estratagema, ó minhas criaturas voluptuosas desejosas de verga, é falta de bago.

Se um ex-namorado se lembrar de vos bater à porta às 4 da manhã, e desafio-vos a pronunciar 4 da manhã sem ser a cantar, com o objectivo de vos montar até de madrugada e, quiçá, enfiar a sarda romanticamente no cu, qual poeta à procura de inspiração, não lhe responda que a sua cona já não é tão ecléctica como outrora.

Enfie-lhe a mão na cona e pergunte-lhe se ela não acha o ventriloquismo a mais prazerosa das artes.

Se ela, à sua proposta de enfiar o chanfalho, responder que prefere masturbar-se sozinha, diga que não se importa de ficar a ver. E complemente com isto: "Uma artista nunca deve afugentar o seu público".

O heterossexual deve ceder o cu para bem da literatura, a qual carece de incentivos de todo o tipo.
Quando ele, numa noite daquelas em que o acaso decidiu acrescentar mais um volume às suas obras, estiver com ganas de ser pneumático, não desperdice a oportunidade de usar uma cartada literária: "Ó Admirável Mundo Novo!"

Se, antes de começar a dar navalhadas de piça na cona ela disser que não fez a depilação, e sentir que o facto de esta possuir pêlo abundante na rata a inibe para o malabarismo de carnes, não desvie olhar pretextando que está habituado a outras visões. Em vez disso, exiba uma magna erecção, a qual a reconfortará com tamanha certeza, que é como quem diz, é hora de fazer o belo.

Volvidos os primeiros cinco minutos do encontro, não lhe comunique marotamente: “Enraba-me, por favor”. Abstenha-se de comentários deste género antes da primeira meia hora de conversa.

Ao promover os atributos da sua amiga a um indivíduo dotado de pénis com a ideia de lhe tranquilizar a cona, não lhe diga que a sua amiga tem um talento olímpico para chupar piças. Tudo o que disser depois disso será inútil.

 

Orbitar em torno do caralho, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

10.05.21


Se lhe faltar talento para conceber uma piada em condições, não proponha ao seu público chupá-lo com vista a mudar de opinião, principalmente se um crítico desprovido de falo estiver a mirá-lo.
Todavia, em havendo condições para a prática de tal actividade, avance sem medo. O broche é o feitiço após o qual o medíocre se transforma em génio.

Não apregoe a sua visão artística, o mundo não aprecia essas cantigas. Doravante arranjará forma de o foder em todas as ocasiões.

Se necessário, contrate pessoas para pôr a mão na braguilha do seu público. Assim será conhecido como o artista que mantém o público quentinho.

Mesmo que tenha em sua posse as mais confiáveis informações sobre as dimensões do falo do comediante, evite dizê-lo aquando de uma pausa na actuação. Tal tem o condão de destruir uma carreira.

Se escutar, durante uma ida à pastelaria, larachas mais atrevidotas, insinuações de braguilha e subentendidos de pendor maroto, não confronte o poeta, nem tão-pouco ouse explicá-las ao público que vegeta ao balcão sem perceber peva. Consinta que o caralho e a cona subtis sejam semeados nas cabecinhas ingénuas sem mais.

Se está de anca afadigada e se encontra a bebericar um café, não berre: “Aquele pau deu cabo de mim”. É o suficiente para mudar a atmosfera do espaço.

Será que o pénis tem habilidade suficiente?, eis o que uma mulher pergunta a si própria a minutos de dar de comer à cona. Apesar de ser uma questão pertinente, é algo que vai além da competência do homem. A sua única incumbência é esfarelar o nabo. O resto são barroquismos de gente exageradamente romântica.

Não se masturbe se estiver na fila do hipermercado. É coisa para atrapalhar a vida a muitas pessoas. Haverá com certeza pessoas que atafulharão os carros com gomas só para terem desculpa de assistir ao filme.

Estão no meu coração, declara a mulher a um grupo de homens. Agora paguem a renda.

Não se ponha à janela, qual Carochinha dos novos tempos, a apregoar a fome da sua cona, mesmo se, acometida por uma colossal vontade de foder, todos os paus solícitos se abstiverem de a fornicar. Isso é coisa para ficar no imaginário da vila.

Evite enviar retratos de picha logo nos primeiros 5 minutos de conversa. É coisa para macular uma cavaqueira que se queria sofisticada.

Não se ponha a bater punhetas numa paisagem deslumbrante com o fito de se vir com o sublime. Os pintores rir-se-iam da sua ingenuidade.

Se, por falta de lugares no banco traseiro do carro, se sentar no colo do seu amigo, não se ponha a sambar, esfregando o cu no vergalho dele para o entusiasmar, a menos que esteja num descapotável.

Se o seu melhor amigo lhe oferecer um minete pelos anos, não lhe responda, em tom arrogante, que a língua dele é latim, uma língua morta. Ia adicionar à relação um terrível incómodo, possivelmente incurável.

Mas sobretudo nunca diga: que texto tão porcalhão é este?! É o tipo de expressões que se devem deixar ao vulgo. Como é fácil de perceber, dou muito valor à sofisticação.

 

Punhetas a Grilos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

07.05.21


Se medo houver, não siga a missão de massajar cristãmente o pénis, que é como quem diz, dar uma vida condigna ao miserável. O padre não iria compreender. A vida é isto, podia dizer-lhe, contudo, a réplica podia ser julgada impertinente.

Se estiver ao pé de um humorista de joelhos, diga-lhe: ‘Belos tempos, não é?!’
Ainda na órbita da mesma ideia, ao ajoelhar-se em frente do altar, certifique-se que não há, nas redondezas, um homem desnudo.

Se for humorista deve, ao acordar, esgalhar o sacana — assim enfrentará a indignação do dia de cabeça vazia.

Se proporcionar um broche a um cavalheiro e tiver ganas de lhe engolir o esperma, não receie em dizer-lhe que são outros preços. Ele não levará a mal.

No catecismo contemporâneo, o chamado moralismo às três pancadas, se o imberbe paladino da vulva lhe perguntar se é misógino, não responda: “Olha-me este a mamar em piço alheio”.

Durante o sermão, se o acólito do politicamente correcto acreditar na pureza da palavras, não desate a rir-se convulsivamente. No limite, pode falecer e tal episódio pode ser considerado plágio “inspirado” naquele sketch da piada mortal do Monty Python.

Em podendo, ao sair do trabalho, passe pela igreja e pergunte ao padre se pode mergulhar o nabo em água benta. Comunique-lhe que deseja purificar a verga e deixar de ser um homem tóxico. Seja simpático, recorra a citações bíblicas e verá que o padre não oferecerá entraves às suas necessidades.

Não tente seduzir o esquimó mandando vídeos nos quais está dentro do frigorífico a masturbar-se. Tal pode ser considerado xenofobia.

Não pergunte ao surdo se o entesa ao ouvi-la falar taralhoucamente. A menos que este saiba ler os lábios.

Se a vida ganhar o hábito de o fornicar, ou de se vir na sua boquinha santa, antes de vir para as redes armar a puta, lembre-se que há milhões e milhões de pessoas na sua situação.

Não diga à mulher humedecida que é um mágico na cama se só tem uma varinha do Harry Potter. Enfiá-la na cona, apesar de ser uma hipótese, é uma magra realização face àquilo que ela esperava receber.

Se um poeta de lábia treinada a engodar com sonetos que não lembram ao diabo, saiba que, em princípio, não está obrigada a mostrar-lhe a cona ou as tetas. Porém, se puder, faça-o. Tal será recebido como um incentivo à arte.

Se quer dar de comer à cona, não se ponha com fraseado barroco. Agarre na mão do homem e aproxime-a do pipi. Não costuma falhar.

Não se ponha a chupar caralhos à desgarrada, não faz parte dos costumes. A menos que queira fazer disso profissão. Aí nada contra, precisa de ganhar traquejo no ofício.

Antes de se masturbar enquanto pensa em alguém, faça a gentileza de lhe telefonar. Pode ser que ele se mostre interessado a facultar-lhe a ajuda que tanto necessita.

Evite apegar-se muito a um dildo. Ignoro se será boa ideia estar com um homem frio e isso trazer-lhe lembranças de um brinquedo.

Em princípio, não deve interromper nenhuma reunião de empresa pedindo, aos gritos, um minete. Após o episódio, as folhas de excel perderiam o seu encanto. Por outro lado, a reunião seria muito mais curta.

Não meta a mão na braguilha de todos homens da cidade. A menos que esteja em altura de inventário, aí terá uma desculpa: precisa de verificar como é que estamos de material.

Se o homem a fodeu até perder a voz, é de bom tom que publicite as proezas do macho às suas amigas. Terá no homem um amigo para a vida.

Não aproxime a sua boca do pénis das estátuas. Isso pode entesar uma manada de turistas e os guias do museu, então ignorados, podem querer matá-la.

Se for artista contemporânea, não se masturbe se subir a um palco. Os bastidores servem para alguma coisa.

Durante o encontro amoroso, não lhe ofereça promessas de amor eterno, ofereça-lhe antes um minete sem compromisso. As mulheres não costumam mostrar resistência a este tipo de ofertas.

Se uma mulher lhe perguntar porque não entesa, não lhe responda: A tua irmã dá cabo de mim!" Isso traria um incómodo insanável à conversa.

 

Evangelho segundo o Vergalho

 


Roberto Gamito

06.05.21

Eu era a nota de rodapé respirando em letra miúda em romance alheio. Na grande tômbola do destino, fui amamentado a horas certas e sombrias pelo desnorte durante décadas. Entretanto, fui giro para algumas, recto para alguns, obtuso para os demais. Pautei a minha vida de forma a escorraçar os ângulos mortos da minha língua, ao passo que tu, pobre leitor de dedo nervoso no gatilho da interpretação, só te embeiças pelo teu magro reflexo. Não obstante, como que abençoamos a nossa ração de promessas quebradas. Não fosse a cólera a singularizar o homem e seríamos fotocópias uns dos outros.

Ícaro está morto, a queda está viva. É-se amado em qualquer lugar, mas primeiro é preciso aprender a mentir. O carinho bateu em retirada procurando guarida no guião, o canto, mais assustadiço, recuou rumo às províncias animalescas. Urdiu-se um mundo em letras garrafais para gáudio dos míopes.
O cérebro apodreceu de certezas. Fogachos de um númen a gastar os últimos cartuchos, idêntico ao dia em que renunciaste à tua luz. Para saber falar da vida é preciso passar uma temporada como carrasco. O resto são lérias que nos contam para que possamos dormir sem pesadelos.

O personagem fala da necessidade de se conhecer. Que imbecilidade. Sofro mortes umas a seguir às outras, nada do que é desumano me é estranho. Não caminhamos para nada de definitivo. Provavelmente é preferível atermo-nos ao silêncio e à imobilidade. Já não há nada que o caminho nos possa oferecer. Toda a desgraça brota do homem que se ausenta da sua pose de estátua. Gárgula insatisfeita semeia o caos onde ontem havia serenidade.

Ao sabor dos tiros ocasionais, os quais não nos matam nem nos ferem, eu cubro o maior leque possível de movimentos de fuga. A dança posta a nu, coreografada pela morte. A toda a hora se falha, a toda a hora se recomeça. Trata-se de uma verdade inabalável.

Um pouco disto que vi nos filmes, um pouco do discurso da celebridade, uma indignação temperada de forma a parecer justa; vida para uns, circo para outros.

Pudesse eu ser um palhaço no lugar do funâmbulo e apaixonar-me pelas alturas a cada passo dado em direcção à morte. Todo o sopé foi debulhado pelo ruído. Eu sou quem se despede da povoação para arriscar a minha vida no fio da navalha.

Com o olho aberto para o tráfego divino, catalogo os anjos que sobem e descem, os que saem do Céu em direcção ao Inferno e os, mais improvável, que partem do Inferno com o fito de conquistar o Céu.

Deixei as asas hoje carcomidas pelo pó fechadas nos poemas abortados. Apesar disso não me afastei completamente da ideia de Homem: fantasio com as minhas utopias, doutrino migalhas e fantasmas. Cansando-me das trajectórias puídas das redes sociais, as quais, apinhadas de evangelistas de pacotilha, espumam de fórmulas, espremi o meu coração com uma miríade de mãos. Bebi-lhe o sumo e o sangue e, recobrando a energia, afastei a ideia do Homem bom da minha cabeça. Ainda chamarei a isto uma vitória.

Amputei as asas, obriguei-me a descobrir a minha forma de voar.
Entrementes, sacudirei o pó das muitas mortes que conquistei. Critiquem agora a minha jornada, ó fulanos benzidos pelos bispos do eco.

A morte
ontem palavra
hoje calafrio
amanhã certeza.

 

Ícaro está morto, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.05.21

Não sangraste para gáudio dos sequiosos deuses arcaicos, não anuíste de joelhos ao círculo de legitimação. És um cadáver que é comentado da seguinte forma: “Ele agora é apenas isto”.
Pensamos o mundo, reabilitamo-lo na nossa cabeça pejada de ruelas enquanto o prato não nos chega à mesa. É o suficiente para ficar tudo na mesma.

Com ou sem rios de dinheiro, careces de celeiro onde guardar as horas poupadas a não viver. As chicotadas que as tuas múltiplas mãos comeram serão amanhã sublimadas num relampejar de sílabas desagradáveis ao tacto. O amanhã puído pelo falhanço. Olha como brilha graças à tentativa e erro.

Algoz madrugador, corpos desancados pela luz oriunda do cadáver divino. Pouca terra, pouca terra, muita turba, muita turba. Desse canto se fez estrume, desse estrume uma cidade, entre uma coisa e outra teceram-se histórias intermináveis. Em todo o caso, mesmo durante as histórias rolaram cabeças.

Alicio a alcateia com entradas, dou pasto às mandíbulas desejosas de me matar com historietas de sangue. É pôr os predadores a matar, as presas a fugir e a lamentar, isto é, fazer as coisas como deve ser.
O padeiro não conheceu nada senão tristeza, levou a vida trabalhar na mó de baixo, ao passo que o seu amigo, duradouramente feliz, labutava na mó de cima.

Bandalho e o alho, o paspalho e o chocalho, o espantalho e o caralho e o etc., o qual serve de tampão para a enumeração.

O deleite trazido pela eufonia que nos levará a dizer baboseiras, as quais, mais tarde, nos envergonharão. Mandámos vir a morte e ela veio; agora não sabemos o que fazer com ela.

O corvo à cata de um novo augúrio, o fim que não nos ouça ou nos perdoe. E que a borrasca de cona — milagres! — sacie alguém que à mingua andasse. Que o orgasmo nos alinde por momentos o mundo em farrapos e nos quebre o gesso proporcionado pelo quotidiano. Necessitamos de acreditar que sabemos andar depois da chegada do orgasmo.

À parte isso, retratou bichos imaginários. Ele era, a bem dizer, um sonhador. Ganhava a vida a matar para terceiros. À parte isso, um tipo impecável, nada contra.

Cansado de missões, fatigado das cruzes alheias, farto de ser enxovalhado pela queda e pela luz, Ícaro deu um tiro nos cornos em pleno voo. Pintem isto se conseguirem, terá dito.

A pira ou o cadafalso, irmãos de sangue, esperam-te. O gordo com pensamentos suicidas foi à mercearia despedir-se das coisas boas da vida. Segundo relatos locais, os pacotes de batatas fritas emocionaram-se gradamente.

Pouco resta desses dias, mesmo o texto parece não se importar com o desfecho. Crónicas, poemas sem fim. É poeta, mas vêem nele um cão irrepreensivelmente domesticado. Um poeta de loiça. De facto, apenas emula o poeta.

O que ficou no passado fugiu deveras e não há nada a fazer. Alfinetada na actualidade como quem colecciona escaravelhos na parede. Verbos que caem de podre da boca, sem acção.

Alguém terá estado nos bastidores dos poemas que não escrevi. Deus, um nome minúsculo capturado no âmbar da memória.
Terminado o reinado da hesitação, a insânia principia a dar os seus frutos. O deserto finalmente floresce. Mas não é isso que me trouxe cá.

 

O Paspalho e o Chocalho, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.05.21

O reconhecimento de um trabalho
de uma vida, de uma queda.

O vazio, em retrospectiva, é a biografia de Deus. O papagaio mostra-se-á chocado, assim replicando os valores do Homem. Felizmente há um cartapácio de gritos. Devemo-lo a visionários da desgraça.

Vénus decapitada pela educação, cio em luto e uma multidão de onanistas a sofrer com a gaita afónica na mão.

A felicidade existente em determinadas coordenadas. Dito isto, urge não deixar assentar a poeira na língua, ao contrário dos livros mortos, ainda podemos pugnar contra ao tempo. Entrementes, morreu outro escritor, bateu as botas com um livro atravessado nas goelas.

Sentia-me belo, fazia o tipo de um sem-número de demónios. E, no entanto, pouco distava de um naco de carne pendurado num gancho. A cólera, ao contrário do amor, eterniza no cérebro a razão pela qual nos passeamos pelos meandros da cidade com uma faca nos lábios. Há quem troque a faca pela rosa tentando, com isso, perfumar a morte.

Se medíocres, versos nascem e de seguida esperam a sua vez no matadouro do esquecimento. Uma flor no seio da cidade pútrida. O poeta, incansável e imbecil, procura algo que a sustente, justifique, proteja.

Ao olho do colérico dá a ideia que o fermento se apossou da turba dos inimigos. A negociação não é uma boa ideia, comenta o bárbaro para o poeta. Meu caro bardo, põe para trás das costas o poema, esquece o canto e honra, de uma vez por todas, o sangue nos antípodas da música.

E cá para nós, o poeta fará vénia a qualquer nome sonante. Desde que não emperre a eufonia não oferecerá obstáculos. Enfim, paleio nada afim da liberdade, do humanismo, entre outras coisas que ficam bem dizer num banquete. Mas nem só de derrotados se faz a História.

Num sítio de coordenadas mutantes, o aedo armadilha a sua obra para que, chegada a sua glória póstuma, os parasitas e os ofendidos expludam em estilhaços de inveja.

A vida, o trabalho, a queda, Roberto Gamito

 

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