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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

03.05.21

Sanatório e num salto tanatório. A notícia da minha morte fez-me sentir logo melhor. Leigos alheados do trigo. Precisávamos de um período para incubar um novo mundo, para refrescar o miolo que havia dado tudo no passo anterior da magia. Quer dizer, uma sinapse que se infiltrasse no cérebro como um relâmpago e curto-circuitasse a constelação das convenções que nos agrilhoa os movimentos.

Respiramos o que nos dão os vulcões. Fumo e enxofre como que nos habituam ao inferno que há-de vir. Fiquei décadas a estudar o porquê de me ter afastado da minha vida, quando esta era a única ponte — estafada metáfora — das redondezas. Eu vi extinguir o fogo em meia dúzia de criaturas singulares que entraram na caverna da minha vida como tochas. Após a morte, tentavam acalmar-me num caldo de suspiros e frases entrecortadas, em estrangeiro, num idioma repleto de perífrases, aspas e coisa nenhuma. A morte abordara-me por esses dias numa língua só nossa, propondo-me um fim memorável.

Já fui escorraçado da província dos meus sonhos pelo meu próprio pensamento. Tentei em vão esvaziar a cabeça como forma de retaliação. Meus Deus, quão mortos estamos eu e Tu.

Antes de adormecer, faço uma espécie de luto pelo que acabou de desmoronar à minha frente. Pela boca do incêndio, pasto e colheita soam ao mesmo. Não tarda seremos contemporâneos do pó. Diremos, em havendo milagre, que diabo de destino!

Admiro qualquer forma de voragem, equiparo-a à minha fome extensa e invulnerável. Não a insulto nem a parodio.

Não crio atalhos por entre a turba popularucha a fim de subir degraus indevidos. Sem inimigos nem fanfarras, escalo as montanhas das cidades invisíveis com os joelhos em sangue. Tudo obedece ao cume. Se o alpinista se despedir verdadeiramente do sopé e se entregar à canção do cume, por uma só expedição que seja, não podemos esperar o mesmo homem aquando do fim.

No piso de cima da ampulheta, o deserto nunca cessa de me surpreender. Onde está deserto lia-se, antigamente, humanidade. Ela, ou uma qualquer que funde um poema sem agenda, era uma borboleta no meio de uma parada militar.

O vate primitivo, hipnotizado pelo silêncio, deixou-se chacinar por uma trovoada de cascos de bisonte. Ao rés da sua morte, seres minúsculos, espicaçados pela curiosidade, despertavam da caverna para a sua evolução. Há quanto tempo isto prossegue.

Metamorfoseei-me durante a minha competição contra gigantes extintos. Venci só sem aplausos nem apupos uma luta só minha. O influencer mostra-se-á chocado entre celebrações e activações de marca, ao passo que uma chusma de onanistas se identifica na afirmação que a glorifica. Dá à costa um mar de esperma incapaz, nem Vénus nem Neptunos.

Certos poetas, orlando precipícios com os seus pés metediços de bailarina obscura, contarão certamente outra história.

Os sinais estavam lá, garantem, como miras de sniper nas cabeças ebulientes.

 

Sanatório e Tanatório, Roberto Gamito

 

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