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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

24.06.21

A domesticação torna-nos previsíveis. No entanto, o animal manso é tão-somente uma ficção. Atingido o pino da cólera, o selvagem romperá o casulo da etiqueta e ensinar-nos-á o eclipse da pose.

O passado caiu-me aos pés na rua apinhada. Os peões evaporaram-se, dando lugar à encenação teatral da memória. Há personagens desfigurados, há personagens que não deviam lá estar, personagens secundárias que ascenderam a principais e vice-versa. A memória há-de saber conduzir-nos até ao último acto. Então era este o fito do Homem desde o início: semear recordações para mais tarde serem colhidas.

Ambicionar a leveza ou o seu contrário? Não tenciono ser um mero joguete da tempestade. A fama percorre a estrada do embuste do zero ao infinito, todavia é incapaz de encontrar o que procura.

Nas redes sociais, ficamos com a sensação de que há ninguém. Melhor dizendo, não há ninguém fora do eu. Um desfile de eus insuflados pela patranha.

Presentemente, aproximamo-nos do outro com cautela redobrada. As relações são guionadas, não vá a conversa resvalar no imprevisível. É preciso expurgar o animal do discurso. O filósofo ri-se quando o Homem tenta domar a paixão. O fogo é aquilo que não controlamos.

Depois disto acabar — diz um profeta no coração da catástrofe —, as ruas apinhar-se-ão de loucos ou salvadores — dou-vos a escolher o epíteto —, inventores de mundos paralelos.

O viajante do tempo comunicou-me que a verdade fora banida do mundo. Temia-se que o confronto com ela pudesse ferir o Homem.
Provavelmente outra mentira.

A única coisa que nos fez continuar foi o facto de acreditarmos que há por aí uns lábios que nos sirvam, qual sapato na Cinderela.

Ateu em queda. Reza a lenda que, a certa altura, houve uma conversão. Um precipício e um empurrão, eis a fórmula: não necessitamos de mais nada para transformar um incréu num crente.

Se somarmos os crimes e as virtudes, obtemos sempre o mesmo Homem.

Segundo Orwell, o importante não é mantermo-nos vivos, é mantermo-nos humanos. Percebo a pertinência da frase, comenta o mundo cada vez mais desumano. Na orla do vulcão, a dança intensifica-se, há que escolher bem onde pôr os pés. Um passo em falso e é o fim. Acrescente-se esta informação preciosa do vulcanólogo: atenção ao que vem da terra, todavia nunca descurem o que vem do céu — pode ser a vossa perdição.

Dá-me, livro, um pitéu para o cérebro. Algo aveludado com que entreter a língua.
O poeta — desculpem o devaneio — é um camarão recalcitrante numa cataplana de lérias. Quero muito ressuscitar, cogitou o depressivo, mas até para isso é preciso coragem.

O boom de Jesus postiços é a resposta ao boom de Lázaros. O ideal seria levantarmo-nos da morte pelo nosso próprio pé.

Mesmo que grite aos ouvidos de Deus, o futuro não começa mais cedo. Só podes gritar segundo os trends. Só te podes emocionar segundo os trends. Só podes ser imprevisível segundos os trends.
Esta hipocrisia faz quantos aos cem?, pergunta um aspirante a influencer ao vendedor de uma vida nova.

O século XXI como mão que desliga a máquina ao pensamento.

ao contrário de cummings, a minha especialidade não é viver — em minúsculas, para piscar o olho aos exegetas.

É preciso soterrar os muros em poemas. Falta tinta? Tragam os polvos e espremam-nos como limões. Não é tempo para atirar a toalha ao chão, ainda não tentamos tudo o que está ao alcance da mão.

É preciso encomendar novos deuses ao futuro. É uma questão de estatura do Homem, não de salvação.

Não é momento para deixar de regar a rosa. Nesta altura, uma flor murcha pode ser suficiente para o mundo ruir.

O passado caiu-me aos pés, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

23.06.21

Escrevo, à maneira póstuma, sem recear ninguém.
Só fora dos ecrãs é que a vida é vida. Uns fogem, outros desviam-se, consentindo a sedução por parte das sereias do escapismo, enquanto outros, com nomes à espera de serem insuflados pela posteridade, esperam, sentados numa rua deserta, o tsunami das dúvidas.

A maioria dos amputados sofrem daquilo a que medicina chama “membro fantasma”. Lançar o boato de que o Homem do século XXI, o qual foi degolado pela velocidade, padece de cérebro fantasma e ver de camarote o século incendiar-se. O poeta maldito como uma espécie de Nero clandestino.

Diante da montanha aplanada graças ao dinamite da mediocridade, o poeta comenta: “Cume, fazes-me uma falta incalculável. Espero ter estado à tua altura.” Não te subestimes”, diz o sopé em tom de gracejo.

Trocar as pausas para o tabaco por pausas para a comoção.

O silêncio é mais experiente que o mais genial dos Homens. A ideia que hoje formulas, a qual se pavoneia desmembrada na cabeça, saltando de sinapse em sinapse à espera de uma mutação que lhe dê forma, já foi escutada por ele. O silêncio já escutou tudo. O que é novo para o Homem é antigo para o silêncio.

O epitáfio do suicida é a sua própria queda. Naufraga à vontade, o farol foi desactivado. Há frases que são consequência da queda, outras da redenção. Porém a maioria são tentativas vãs de cartografar o nevoeiro. Eis-me mágico doidivanas a retirar da cartola informe gritos, mitos, hidras e heróis.

Entrem e saiam calados da casa do Senhor. Não proponham personagens ao criador, não tentem interferir na história.

Se soubesse que a queda era tão boa nunca teria aprendido a voar, cogita Lúcifer. Doravante o Homem já não toma parte do diálogo. Somos cinzas adiadas nas mãos do fogo.

Não. Uma síntese célere de despojamento. Mais tarde ou mais cedo aquele que for capaz de o pronunciar será o mais rebelde dos Homens. O não enquanto pedra na engrenagem na máquina do progresso. Notícia num século que não lembra ao Diabo: Homem apanha prisão perpétua por ter dito não.

Suspender a visão e lucidez, abdicar da jornada e do cerco, liquidar o texto, as margens e as notas de rodapé dos vindouros simulando a dança da destruição de Shiva. Rir diante do incêndio da memória.

Não basta sublinhares o óbvio para te evidenciares, digo. O século XXI ri-se. Nem só de ecos se fazem as décadas.
A crítica ao eco é quase outro eco. A trecho final da trajectória da humanidade enquanto luta de papagaios.

Não fites o quadro a menos que te fira os olhos. Regressar de um quadro que nos esmaga é como enfrentar um sol e não cegar.
Que arte terá visto Homero? Que quadro, escultura ou poema o terá esmagado a ponto de o cegar? E se as suas duas epopeias não senão um relato desse encontro?

Não reponho a água na jarra, prefiro apressar o definhamento da flor. Identifico-me com o seu murchar. A água, no caso da flor retirada do seu meio, é um paliativo. A flor merece sofrer.

Numa selva de fauna luxuriante, a abarrotar de estímulos, o faro fica preguiçoso. É preciso aprender a caçar no deserto. Aí é preciso inventar as presas para nos mantermos vivos.

Deixem-me ser o mais claro que se pode ser nestas condições: as minhas estratégias de capturar aquele que gostaria de ser fracassaram. Daí em diante as incompatibilidades aumentaram, virei costas ao mundo e fechei-me dentro do meu eremitério privado. Encasulei-me no interior de um pêssego quilométrico. Sou o caroço duro de um mundo que há-de singrar após o meu último suspiro.

Só dar atenção àquilo que cega. Mas não basta olhares para o sol, é necessário vasculhar o mundo de uma ponta à outra à cata de estrelas insuspeitas e terrenas.

É impossível um deus morrer se as carpideiras endeusam essa morte.

Uma província de espectros, sem ninguém para tocar. Andar com as mãos atrás das costas, quiçá atadas, como os velhos. Eis a pandemia. O mundo assombrado.

“Acabe-se com as citações”, disseram os estudantes radicais de Frankfurt. Desculpem, puseram-se a jeito, não escrevo para agradar Ninguém.
Mas já cá que estamos, nas frutuosas paisagens da ecolalia, citemos Canetti: “Ele refugiou-se em Deus. Aí é onde mais gosta de sentir medo”. Isso foi antes d’Ele morrer ou depois? Suponhamos o seguinte cenário, Deus, mudado em cachalote branco, ocupado por gerações e gerações de homens que procuram o santuário onde o seu grito possa ser ouvido. Homem, o qual foi feito à imagem de Deus, unido ao criador (em virtude da morte minúsculo) pela podridão.

O artista confessa ao psicólogo a sua capacidade de exteriorizar o seu mundo interior, porém receia que não haja espaço para tantos planetas. Resta-lhe o voto de silêncio.

Deus está embriagado com a miséria. Fiquem em casa, é mais sensato. Se Ele vos encontra, mata-vos com a conversa mais maçadora de sempre.

Século XXX. À excepção do Homem e de um punhado de animais úteis para o estômago do ser desumano, tudo se extinguiu. Foram anos de muito tumulto para os biólogos. Hoje é comum vê-los camuflados nos arbustos da cidade a documentar a vida de um ser humano anónimo. Calem-se, sussurra o biólogo, está ali um animal raro, o poeta. Mergulhado na escrita, nada nele está noutro sítio. A indústria da compressão de arquivos inspirar-se-á na poesia. A ciência de ser tudo em pouco espaço acabará por florescer, eis o prognóstico do biólogo palavroso.

Procuramos na arte uma espécie de judo metafísico. Quando a vida vem abrutalhada e cheia de pressas, há um meio de a atirar ao chão. Virar do avesso quem nos quer tombar. O artista franzino serve-se da força da vida para a atirar ao chão. A vida com os costados no cimento e o franzino a celebrar a vitória que alguns julgaram inverosímil. Não podemos deixar de sorrir quando vemos o gigante estatelado no chão, o gigante vencido. Sentimo-nos uma espécie de gato das botas. Tudo muito bonito, mas será possível aplicar o judo à morte, a qual vem lá de longe a anunciar-se com uma fúria de mongol? Será a morte o limite do judo?
Peço desculpa pelo incómodo, chamem-me sedentário, mas prefiro adiar esse último confronto. Nunca se sabe quando é que uma nova técnica me vem parar à mão.

 

Judo aplicado à morte, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

22.06.21

Uma porta que ora se abre, ora se fecha. Nas imediações deste nada, o louco contabiliza a entrada e a saída de espíritos. Só precisamos de um punhado de loucura para singularizar o quotidiano.

Autoridades desinfectam os bordéis de eufemismos e perífrases, as pragas mais comuns do século. Há velhos empilhados em furgonetas, qual cortiça, parando em todos os apeadeiros da solidão. Próxima paragem: cemitério.

Lutadores férreos na arena da hipocrisia, no entanto, basta um olhar e estão desarmados. Um instante para me inteirar do mais importante. Antes de o corpo ser baleado por uma salva de mentiras, o amor, no rescaldo, poesia.

Canetti esclareceu-nos em relação ao Homem: “Tudo o que aprendo transformo em medo”. Fugir ao conhecimento com um sorriso nos lábios, como o bobo que ridiculariza, em plena queda, as alturas.

Autoridades encefálicas procuram milhões de neurónios em fuga. Graças à machadada da arte, escapuliram-se da cabeça aberta em duas faces. Foram feitos reféns por um perfume. O resto está por apurar.

Arte penteada, para não envergonhar ninguém. O embuste acabará um dia; houve artistas que esconderam dinamite em quadros aparentemente inócuos. Hei-de dinamitar um século inteiro com a minha obra, cogitava um escritor na sua mansarda.

Século XXX, os Himalaias de lixo. Alpinistas ricos escalam montanhas reais, pobres, montanhas de lixo. Onde residirá o verdadeiro desafio?
Somos fúria, som, duas mãos e nenhuma cabeça. O decapitado ambiciona subir às alturas inacessíveis. Possivelmente, uma reminiscência de Babel.

É preciso fechar o cometa numa sala e fazê-lo orbitar em torno de uma rosa decrépita. O gelo e o degelo foram suspensos. A rosa enquanto centro pulsante deste microcosmos.

Objectivo de vida: acordar cedo todos os dias com o fito de catalogar borboletas nunca antes vistas.

A vida é um voo gaguejado de A a Z.

Actéon enlouqueceu com os cães dentro da cabeça. Volta e meia as vozes surgem apinhadas de dentes.
As coisas não saem forçosamente como nós desejamos, nem nos livramos da maldição sem nos aproximarmos da morte. Estamos sujeitos aos caprichos dos deuses. Hoje companheiros, amanhã predadores. Não há forma de nos defendermos daqueles que outrora amámos.

A memória é a homenagem ao fogo e à Biblioteca de Alexandria. O que arde e o que fica é um mistério.

O poeta abre a boca, a fénix assoma-se, só com a cabeça de fora. Há milénios que escolheu as goelas do vate como ninho. Reza a lenda que se acoitara no efémero para dar mais valor à eternidade.

O nome da amada está ligado ao ventilador, provavelmente não resistirá. Contamos os dias como quem conta sílabas num poema alexandrino. O que se observa no poema não é um pássaro, é uma palavra cheia de surpresas que, verso sim, verso não, regressa para nos ensinar a voar.

Paixão, amor, ódio, esquecimento. A que temperatura ardem os nomes? Respondo: ardem ao rés do zero absoluto.

A que temperatura ardem os nomes?

 


Roberto Gamito

21.06.21

Todos os desfechos das hecatombes são covers do silêncio primevo. Penso em rituais de engrandecimento do ego e rituais de esmagamento do ego.

Como é que se chega à perfeição sem fazer batota? Qual dos atalhos devo adoptar para o meu caminho? Um homem com pernas suplentes como os mongóis tinham cavalos. Parar é morrer.

A pandemia enquanto parteira de novos microcosmos. Milhares de homens armados em planetas em miniatura orbitam com afã à volta de casa. Os astros despenham-se sem pedir licença. Os profetas vêem-se esmagados no seio de uma destruição ininterrupta, tornaram-se obsoletos. A profecia ruinosa é lenta de mais para um século como o nosso.

O lado fascinante da palavra: exibe e oculta. Por vezes em simultâneo. A palavra nua para uns, enfarpelada até aos olhos, para outros. Sedução caleidoscópica?
Uma síntese: motivos para prosseguir:
(preencher quando houver certezas.)

Sair da folha para fugir de quem está na escrita. Criador ultrapassado pela criação uma e outra vez.

A dor entra com força a meio do poema, destroçando pássaros e orquídeas. Com as sobras nas mãos, perfumes e penas, exigem-nos um novo mundo.

Há um espaço invisível em redor das obras de arte que impede o homem de ser engolido por elas. Mas o temor ninguém nos tira.

De dia contrói uma ponte, à noite, um muro. Eis o Homem.

Os poemas escritos durante o arco da humanidade não chegam para homenagear as aves extintas. Ainda há muito para voar.

O morto é aquele que já não pode ser contagiado pela arte. A queda tem-me na mão. Uma expressão síntese para a vida: reunião de trabalhos.

Imaginar a possibilidade de empacotar o universo num verso. E amarrotá-lo.

Os números com o tempo metamorfosear-se-ão em linhas e as linhas em paisagem e tudo isso será engolido com a subida das águas.

Olhos vendados, mão vendada, pés vendados. O artista que não sabe para onde vai.

Após uma década de gatafunhos, a mão começa a desafiar a queda.

Não podemos interferir no precipício do Homem, só podemos assistir ao seu desenrolar.

Frase com um funil na cabeça, para não se morder a si própria.
Porém a ferida persiste.

Um louco pergunta ao outro compincha de hospício: Se perdesses a cabeça, ias procurá-la?

A única coisa que nos faz continuar é a sede. Perdidos ou não, não interessa: não temos outro lugar para onde ir.
Só com a cabeça de fora das areias movediças, o poeta burila a epopeia. É um teste que o deserto põe ao homem de molde a ver até onde está disposto a ir aquando da sua perdição.

Tu ontem não confiaste na minha escrita, na minha respiração. O que mudou entretanto?

Amanhã por sorte não é já.

Funil na cabeça da frase, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

19.06.21

O jogo do Euro 2020 que opôs Portugal e Alemanha relatado segundo o parecer de um bêbado.

(Segundo a ordem do jogo)

 

Não jogamos um caralhinho chinês.

Gosto da defesa portuguesa, não atrapalha ninguém, é amiga do futebol bonito.

Portugal estacionou o triciclo na área de Patrício.

Quer me parecer que o Patrício nem sequer vai ter tempo para coçar os tomates.

Golo de Portugal.
Portugal está com uma eficácia alemã.

Estamos empatados, sofremos. Estamos a perder, sofremos. Estamos a ganhar, sofremos. Só estamos bem a sofrer.

O treinador da Alemanha parece que está sempre a ensaiar o minete, não é? Não pára com a língua.

Após os dois auto-golos de Portugal.
Portugal:
Sorte: Não és tu, sou eu.

A defesa portuguesa está mais confiante que um cão de loiça numa festa de martelos.

A defesa portuguesa dá tanta segurança como uma boneca insuflável no meio de um tiroteio.

Intervalo ou como eu gosto de lhe chamar “encontro entre treinadores de bancada”.

À excepção de Pepe, todos os defesas deviam ser obrigados a vestir um bibe. Parece que ainda não cresceram para o mundo do futebol.

No Twitter, estamos a espezinhar o Semedo porque nos disseram que pisar merda dá sorte.

A esperança de ganhar o jogo escondeu-se atrás do Wally.

Portugal está a mamar mais que uma actriz pornográfica no pico da carreira.

A esperança de ganhar o jogo tem 800 e tal anos e acabou de apanhar COVID-19.

É por jogos destes que Portugal inventou o fado.

Já não estamos em campo a fazer nada. É aproveitar os minutos que faltam e abrir uma rolote de bifanas na área do Patrício.

Tirem os defesas para segurar o 1-7.

Portugal está a fazer cosplay do Sporting de Peseiro.

Os jogadores da Alemanha têm nome de refrigerante de marca branca.

Acho descabido os comentadores estarem a elogiar os jogadores de Portugal com 4 golos na pá. Calem-se, já ninguém acredita.

E se o Diogo Faro for o nosso amuleto da sorte? Apontem um canhão para o estádio e lancem-no.

Ritmo de quem tem de se levantar cedo para ir trabalhar nos correios e não pode correr o risco de contrair uma lesão.

Para Portugal, futebol é aquele jogo que se joga com a bola nos pés e a calculadora nas mãos.

Obrigado, Fernando Santos, já tinha saudades de levar na pá.

portugal-alemanha.jpg

 


Roberto Gamito

18.06.21

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.

Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.

De Roberto Gamito e suas vozes.

____

túnel de vento Roberto Gamito

Episódio 454 - Cristiano Ronaldo e as duas garrafinhas de Coca-Cola

Apeadeiros da conversa:

.Cristiano Ronaldo e as duas garrafinhas de Coca-Cola. 

.Deserto, água e coca-cola. 

.O camelo desiludiu-me. 

.Matar a sede. 

.Cabeça de twitter. 

.Artista enquanto talhante. 

.Igreja enquanto casa de Deus. 

.Cristiano Ronaldo, o Messias do H20.

.Boicote sem pernas para andar. 

.Combate entre o bem e o mal. 

.Combate entre o Homem e a Natureza. 

.É impossível tombar os gigantes actuais.

 

Podem escutar-me o episódio e seguir-me aqui:

 


Roberto Gamito

18.06.21

Preciso de disparar contra alguém, cogita o cronista, caso contrário expludo. Pilhas de presas de elefante dispostas como cabanas. Uma aldeia construída graças à morte. Paquidermes ontem protegidos hoje chacinados. O deus dinheiro é mais colérico que o Deus do Antigo Testamento. Máquinas que diríamos impossíveis a fagocitar o interior da Terra. Igreja imaculada e antiga destruída pelas máquinas. No seu lugar não irá nascer nada a não ser o progresso. No Quénia, milhares de pessoas disputam cada metro quadrado de lixo com as aves oportunistas. As aves questionam-se: “mas que merda vem a ser esta?”
A fome cresce com a máquina e permanece animal acossado. Não há homem mais verdadeiro do que aquele que esventra a Terra pelo lucro. No palco onde se conta a ficção desta história, ensaia-se a esperança.

Ela disse-me “amo-te”. Nesses dias, parece que o corpo ganha um novo par de pulmões. Doravante estamos preparados para conquistar o mais desafiante dos cumes. Assustamo-nos com a comitiva de futuros possíveis que chega com o silêncio. Aqui, diante do amor, a máscara é impotente como um cachalote encalhado numa praia deserta.

É preciso vasculhar as pausas à procura de novos deuses, consentir que a luz se embrenhe pelas fissuras da nossa existência.

Alguém esperançoso consegue achar vida em qualquer assunto — que inveja! Ponho o Eu para trás das costas e mesclo-me ao mundo até a minha voz se confundir com a do vento. Daí em diante um lobo sem corpo e ocasional.

Com ou sem Deus, o homem segue a trajectória da cruz. Uma cruz que fosse aparecendo aos poucos. Uma verticalidade que fosse cedendo aos poucos em virtude do peso da cruz.

Suplicar soluções que não existem a deuses que não existem para resolver problemas que não existem. Dar um salto: passar este legado a homens que não existem.

Fito uma frase de Melville como se estudasse um animal, inspecciono-lhe os hábitos e os intentos, tento perceber a sua respiração. Deixei de acreditar nas musas quando, a seguir ao teu nome, não soube conjugar o verbo amar. Isso não é razão suficiente para me matar e não é razão suficiente para continuar vivo.

O Homem continua a querer as mesmas coisas, porém, o Pai, Deus, diz que não pode ser. O filho desata a chorar e o pai passa uma vergonha monumental no corredor dos milagres. As pessoas são ocupadas por uma multidão de pessoas. À tona uma pessoa de Troia, lá dentro, pequenos homenzinhos à espera de iniciar uma revolta.

Algoz à tarde, palestrante motivacional à noite. O lado oculto da lâmina. A guilhotina não me impediu de sonhar, eis como termina cada palestra.

No século XXII, a Organização Mundial de Saúde aconselhar-nos-á as horas certas para nos masturbarmos e talvez até os dias certos para fornicar. Tudo para bem da saúde do louco.

Adoptar uma música como quem adopta um animal vadio. Ter paciência, o laço há-de aparecer. Um dia, se tudo correr bem, ou mesmo se correr mal, serão inseparáveis.

Quando alcançarmos a era da eficácia plena, os românticos serão catalogados como pessoas com necessidades especiais. Serão aconselhadas a mover-se sob restrições, a sair à rua em horas de menor movimento. Temer-se-á que este grupo apatetado possa infectar os lúcidos.

Uma mão, qual vasilhame bizarro, com vários mundos lá dentro. Qual deles sairá desta vez? A missão: acabar cada frase ofegante, cada frase uma tentativa de suicídio, talvez assim consiga expurgar a falsidade e o mais, os ornamentos característicos dos gigantes postiços.

Não é preciso escrever em cada esquina que as coisas mudaram.
A velocidade é uma espécie de pó: oculta um mundo à frente dos nossos olhos. Outrora o mundo era dos lentos, hoje, de Ninguém.

 

O lado oculto da lâmina


Roberto Gamito

17.06.21

Aplaudo os poemas e eles como que me respondem: O que pretende este imbecil de nós?

Terminar uma relação com um minuto de silêncio. Pegar nas coisas e sair da vida dessa pessoa sem mais justificações. Uma despedida sem palavras.

Sou bobo de um rei decapitado, terá dito um louco há muito tempo.

Muitos escritores recusam-se a usar a palavra empatia e são olhados de lado. Mais uma fissura na ficção do século.

A pandemia agudiza-se. Sexo presencial só em 2022.

Interromper o afã do século com um grito. Vida miserável, uma biografia em maiúsculas.

Uma inédita hipocrisia chegou com força a este século. Quem não se conseguir adaptar vai ter de abandonar a cidade. Treinar o sorriso frente ao espelho: prepararmo-nos para o que aí vem.

Se o homem é um animal que sabe esperar, como escreveu Gonçalo M. Tavares, há quanto tempo estamos extintos?

Não sou xamã, não passo cartão aos sinais e aos astros. Deambulo pelo mundo como se não fosse daqui. As cabeças das sacerdotisas explodiram com mais um prenúncio de guerra, atingiram o limite.

Ao rés da rosa é mais fácil suportar situações ásperas, hostis.
O homem irremediavelmente só é quem exorcizou da vida o perfume.

Estou com um pé no cadafalso e o outro no paraíso. Eis que sou obrigado a dançar: para onde serei conduzido pela coreografia?

Um século sem cumes novos. Escaladas turísticas.

Não posso deixar de fazer piadas por motivos sagrados. Terá alguém alguma vez dito isto?

De pé ou no chão, o importante é que não me roubem a esperança.

 

Um pé no cadafalso e outro no paraíso, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

16.06.21

Sinto-me a caminhar sobre gelo fino. O peso é o meu inimigo; atravesso o lago gelado ao sabor das piadas. Talvez a leveza me salve. Seria terrível se a arte, ao adicionar peso ao corpo, nos castigasse com o afogamento.

O fim do mundo? O apocalipse já chegou, está é mal distribuído.
Hoje acabou o amor, diz o homem destroçado à mulher. Peço desculpa. O melhor é voltares cá amanhã, pode ser que tenhas sorte. Pode ser que a sorte chegue para os dois.

Diálogo improvável.
— O que vais fazer hoje?
— Nada de especial, vou passar a tarde a olhar para uma foto de infância.

Mas o poema convocará cada estrangeiro de dentro da noite para o coração da luz. É preciso continuar, mesmo que saibamos onde parar. No norte não há norte.

O velho tomba na rua, aparentemente sem causa. Segundo o parecer do vate, foi abalroado por uma memória. Está-me sempre a acontecer, prossegue o bardo.

Tenho receio de disciplinar o meu coração para a frieza. E depois? Nem sempre o que é útil no presente nos ajudará no futuro. Síntese porreira.

A., de 80 anos, passeia um cão de loiça. A trela está esticada, o canídeo está irrequieto, está com fome de vida.

Durante o confinamento a casa foi transformada em palco. Portas a fingir, entradas e saídas de fazer de conta. A vida transformada pela peste numa peça de vaudeville macambúzio.

Há navios à espera de autorização para descarregar os contentores apinhados de demónios. A pandemia lixou os planos do Diabo. Tenho o dinheiro todo empatado, regurgita o senhor dos mil nomes.

Nas ruas mais perigosas, os velocistas treinam o sprint com um punhal na mão. Aconteça o que acontecer, não abrandar.

O assassino lançou a dúvida em pleno julgamento, levando ao rubro um bando de filósofos. Segundo ele, a pena é excessiva, ninguém está inteiramente vivo. Matei apenas o bocadinho que estava vivo, comentou o semiassassino.

A economia como homem dos robertos. É ele que nos guia, agachado, ora para fora de casa, ora para dentro. Choramos quando lemos um poema sobre liberdade, todavia ignoramos a razão do aparecimento das lágrimas.

Um fosso entre as pessoas. Será o amor capaz de dar o salto?
Entre as pessoas, crocodilos imaginários.

A temperatura de um livro é medida pelo número de ideias que é capaz de gerar aquando da sua leitura. A frase é dita sem convicção.

Outra vez o poeta: gerei um verso excepcionalmente inesperado, fiz gato-sapato da vida e da morte. O meu destino encontra-se boquiaberto.

O suicídio é uma hipótese. Mas só pode ser testada uma vez. Pelos padrões da ciência não prova nada.

O meu coração é uma província inabitável há vários anos. O caminho está feito. É preciso voltar atrás se a intenção for caminhar. Ensino o meu coração a fitar o outro sem se entusiasmar. Víscera-mor enquanto cão amestrado.

Noutro mundo.
Há dez anos que não nasce uma criança. Foram encerrados infantários, amas, lojas de roupa de bebé. Seguem-se primárias, escolas básicas e, por último, secundárias. O mundo fechado capítulo a capítulo.

Os jornais incentivam os poetas a desinfectar as mãos antes de se aventurarem em províncias estrangeiras. A poesia está, mais uma vez, morta.

Falta pouco para começarmos a disparar contra palavras. Falta pouco para humorista surgir como sinónimo de déspota.
As palavras ainda não estão obsoletas. Há dias, meia dúzia delas foi capaz de me derreter o coração. Talvez resida aí algum tipo de magia. Adiar o acto de atirar a toalha ao chão. Ter fé no dia seguinte como num Deus.

Um tiro na nuca desse dia que me assombra. Arrastá-lo sem alarde pelos degraus do poema, eis a minha poética.

O boneco, que imita o bebé, ri e chora.
O bebé, que imita o boneco, cala-se e permanece quieto.

 

As palavras ainda não estão obsoletas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.06.21

Tertúlia de Mentirosos com Catarina Matos.

Tertúlia de Mentirosos Catarina Matos

Catarina Matos. Humorista, cultora da one-liner, cheerleader da vida.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: o medo de falar de mais, o medo do ridículo, projectos na gaveta, o mundo encantado do plágio, o produtor de conteúdo e o repetidor, as metamorfoses das redes sociais, a conversa ideal, Steve Martin, síndrome do impostor, a vertigem da velocidade, os subterrâneos da comunicação, guardar resíduos radioactivos, magia e ilusionismo, gerir uma noite de comédia.

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.




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