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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

14.07.21

Para homens pouco abonados, que é como quem diz, com poucos meios, melhor dizendo, sem tomates, quero dizer, sem um terço do corpo, dado que o número de magia correu mal, é impossível torrar uma nota de conto por cada mulher que se senta à mesa com fins de arejar a marotice. Aqui entra o discernimento ou, se preferirem, o jogo de azar.

Fui eu que criei o meu mundo e dele só tirei benefícios. Acaso já me viram por aí, a altas horas da noite, refiro-me aos escassos dias onde cometi a imprudência de não me embebedar, a fazer alarde de tal? Meus amigos, é possível engendrar um mundinho e permanecer calado. Ninguém é obrigado a pavonear-se.

Ninguém, repito, ninguém, e repito novamente dado que tenho ADN de papagaio, ninguém parte do princípio de que um jantar em sítio neutro é caracterizado por uma demorada cerimónia imaculada; em boa verdade, os suados engulhos, os improvisos em cima do joelho, longe de constituírem um brilharete, e a pompa de apresentar o pénis à mulher numa prosa perfumada. Tiros no escuro à luz da vela?, desculpem a recaída na poesia.

Quando vejo com estes olhos fatigados como toda a fome da sociedade está, entre nós, corrompida pela entediante copiosidade, achegas que engrossam a conversa ao sabor dos ditames da moda, sinto-me estrangeiro. Cabrões, burocratizaram o canibalismo entre pessoas adultas. Em tempos idos, era impensável o manobrador do pénis preludiar a travessa das carnes com um rodízio de verduras.

O pénis tem sido pouco estudado. Quanto mais fome tem, mais engrossa. É um animal inspirador que não passa cartão à lógica.
Ao pé dele, os poetas malditos parecem meninos de coro.

Isso, mais do que todas as nossas magras vitórias, dado que a alface não enche a barriga, atrela-se a uma ideia mais amarga da vida. Andamos aqui a rondar carcaças há muito vandalizadas por necrófagos e a fazer render o fiapo de carne entalado entre os dentes. Foi um repasto excelente e encheu-me a pança: eis o que não podemos dizer por estes dias.

Quando nu, penso com os meus botões tatuados no peito que a vida, se lhe dessem uma oportunidade, podia ser outra coisa.
Não sou crente mas.
O nome de Deus vem à baila de vez em quando, no decorrer da foda — que me atrapalha e desmotiva. Então um gajo labuta a anca como um lunático para depois Outro ficar com os louros? Isso faz-se?
Nem na fornicação há justiça. O pénis não merecia este fado.

Fado do Pénis

 


Roberto Gamito

13.07.21

Vomitava anualmente resmas de sermões bem-intencionados e insípidos. Incapazes de sair da órbita da obviedade, não passavam de um misto de raiva e patetice enformada em mandamento. Basta, disse uma voz saída da mansarda, bastidor ermo deste século. Um dia os pensadores hão-de cair-lhe em cima sem a burocracia das boas maneiras e levar um pontapé no rabo do pensamento. A profecia não tardou a cumprir-se. Não teve outro remédio senão rolar escada abaixo qual cena de acção. Há quem interprete este episódio como cruel, outros como cirurgia estética. Seja como for, a crista baixou consideravelmente. Podia ter feito melhor? Creio que sim,  bastar-lhe-ia o silêncio robusto. Mas não será pedir muito a uma personagem tão desejosa de estrelato?
Não saiu incólume à descida. Hoje vagabundeia na rua sem mestres nem pupilos com uma cabeça de metal. Cabeça dura, cabeça blindada ao pensamento. Enfim, desgraças que nos deixam na mesma, comentava a velha.

Por pouco não dava com a língua nos dentes e arranjava uma forma bárbara de se expressar. O sangue romperia bravamente pelos interstícios da mão posicionada à frente da boca.
Mas sobre este assunto o melhor é ficarmos calados. Não consintamos que a suposição se transforme em ópio.

Esse cutelo é o orgulho, a menina dos olhos da empatia. Eis a legenda que o acompanhava no museu das certezas.

Todos fingem acreditar na vida, perpetuando assim a fraude. Os abutres discutem por estes dias se há diferença de maior entre o Homem vivo e o Homem morto. Dessa discussão sairá, inevitavelmente, um novo mundo.

Pedaços de carne vadiam à mercê do acaso, experimentado rotas de colisão. Um estrangeiro do costume, bastante legível. Uma cascata de partículas elementares. Oh, meus queridos cabrões, grita vadiamente a vizinha do segundo andar, receio bem já ter registado esta experiência — as colisões — demasiadas vezes. A vossa vida há muito foi expressa em fórmula. Nada do que possam levar a cabo, sóbria ou ebriamente, será catalogado de imprevisível.

Ao passar pela mulher que o conduziria sem problema à loucura, espreme-se todo, com o fito de lhe oferecer o sumo da sua existência; porém umas míseras gotas não serão suficientes de molde a abrandar tamanha sede.

Estou-me borrifando para as convenções da sociedade. A partir de hoje sou um candeeiro malabarista. Puto iluminado, és incapaz de manter os malabares no ar!, comenta um amigo. Sou um candeeiro, diz o candeeiro. És uma inspiração, diz o amigo do candeeiro, que é como quem diz, o bêbedo.

— À medida que envelhecem, os homens vêem com mais nitidez os seus deveres.
— Essa é a razão pela qual passas as tardes sentado no banco a inventariar mamas?
— Sim, é a minha vocação: biólogo especializado na observação de tetas selvagens.
— Mas isso não te pode trazer problemas?
— Pode, todavia ninguém pode pôr um travão na ciência.

Logo que os víveres começam a ser distribuídos, o saco de pichas do outro alegra-se. Só passamos fome se formos tortos, alega o assediador. Detalhes muito...bem, não vamos entrar em detalhes. Não há consentimento para tal, diz o meta-assediador. Meta-meta-tragédia, declara o juiz boçal.

Findo o fricandó, a língua liberta providencia-me uma certeza: de uma forma ou de outra, estamos fodidos.

Queiram desculpar-me, todos estes comportamentos de machão fazem com que sejamos populares junto de certos círculos. Penitencio-me prontamente, gostava de pertencer a este novo círculo de snobs. Será que dá para entrar? Exímio no xadrez da hipocrisia, a personagem brilhava na mesa da boçalidade e do puritanismo com grande à-vontade. De facto, estávamos diante de um prodigioso invertebrado, o maior da sua geração.

prodigioso invertebrado, Roberto Gamito


Roberto Gamito

12.07.21

Não te esforces por ser meu leitor, deixa-me tal como estou: carne pendurada no gancho. Se vês em mim as sobras do naufrágio, não me lances a bóia, tinge antes o oceano de sangue e os tubarões farão o resto. Mais não mereço que um desfecho a várias bocas. Ando às voltas qual compasso furibundo que tenta legar ao mar uma circunferência. Devo confessar-te que sou um especialista em afogamentos. A minha morte, repetida aqui e ali, no campo ou no papel, não sabe o que é repousar.
Ando de tempestade em tempestade à procura da língua.
Aproveito a minha estadia no fundo para anotar os fragmentos da vida em conchas.

A mão, hoje romba, despiu-se de minúcias. Semente bípede no interior da qual o animal pleno arranha as paredes. O metabolismo acelera à beira do precipício e mina os pilares de uma vida longa. Para seduzir as pequenas coisas não nos podemos pôr de bicos de pés.

A máscara alastrou contaminando o teu repertório de gestos. Um olhar gritante, em maiúsculas, que é como quem diz, caricatura de terra ressequida. Dói-me ser o exagero de ontem. Quando a minha língua fértil era hábil em encurtar distâncias, nada cumpri que o esquecimento não possa obliterar numa primeira passagem. Mesmo no auge da solidão, nem de rosto precário à mostra, com as mãos todas à disposição, sou incapaz de vivificar o teu nome sacro. O caminho é uma legenda prolixa de uma queda que há-de vir. Sei de cor os apeadeiros onde fui ultrapassado pela vida. Ao princípio era o advérbio. O modo, a afinação enfadonha de um verbo impontual. Penso que o eclipse nos habituou mal em virtude da sua duração. É natural que me sinta aborrecido pelas profecias, principalmente aquelas cujo fito é ver-me pelas costas. O deserto é o celeiro das sementes da solidão. Nada devemos esperar de verde. As águas salobras da depressão, o suor a pique da ansiedade. Caí em todos os engodos como um magistral parolo. E por isso não me perdoo.

A escrita é um claustro silencioso apinhado de demónios. Eu preferia um horto onde pudesse plantar corações. No fio da navalha: onde afinal vivemos os melhores anos. E era igualmente aí que mergulhávamos, quais funâmbulos suicidas, sem rede nem ficções de amparo. A solidão fez com que os cachalotes nos invejassem. Mergulhávamos nas nossas vidas — as sobras barbarizadas pelo passado — para virmos à superfície meses depois. Destemidos, aprendemos a ir ao fundo sem esperança nem oxigénio. Habituamo-nos a esses lugares destituídos de deuses, digo, onde a luz não chega. Jurámos sepultar esses ensinamentos na memória até ao último dia, acreditando assim acabar com a própria ideia de suicídio. Fugimos ao Diabo pelos atalhos engendrados pelo Caído. Íamos às bifurcações mais célebres a fim de perceber se ainda éramos Homens. O peso da decisão obrigar-nos-ia a romper os fios do bonecreiro. Caíram que nem patinhos, ria o Homem dos Robertos.
Pobres coisas dispostas por fantoches embriagados. Os fios projectam uma sombra a que chamámos liberdade.

Quantas vezes terei de ouvir a tua distância sem conseguir cantá-la? No dia que estiver frente a frente com a morte já nem sei bem o que fazer.

Suicida e a Queda, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

09.07.21

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.

Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.

De Roberto Gamito e suas vozes.

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túnel de vento Roberto Gamito

Ep 467 - São Judas, Humor e a Pose Consumista, Génio e Medíocre

Apeadeiros da conversa:

.Amestrar paredes.
.As duas Ceias.
.O abismo entre a palavra e a acção.
.Cabana da felicidade.
.David e Golias.
.Sócrates teve a vida facilitada.
.Falar o bem não é sinónimo de praticar o bem.
.São Judas.
.Olhar múltiplo e uma nesga de realidade.
.Humor, a burla, a pose consumista.
.O Génio e o Medíocre.

 

Podem escutar-me o episódio e seguir-me aqui:

 


Roberto Gamito

09.07.21

Corpo em revolução, figura parva ou geométrica. Redondo ou quadrado, carne para uso, descarte ou disparate. De quanta obsolescência serão dignas as minhas frases? Linhas que aos demais não assentam, nem à justa nem à larga, nem em prosa nem tão-pouco em verso. Lá vão elas rumo aos bastidores da tratantada com as tetas bem apertadas de molde a não desarmonizarem a eufonia, as sílabas, acotovelando-se no meio do texto íngreme e a raiar o inútil, as sílabas, o mundo enquanto lugar de caça e fuga, as sílabas.

Poder ser que seja um acto louco, mas ajo de acordo com o pulsar do texto: eis a minha crença mais arreigada. Já de rastos ou a meio da queda, sintonizava a vida com o respirar da literatura. Éramos, cada um à sua maneira, dois animais aflitos a braços com o fim.

Que mal pode haver em querer escrever e carecer de começo de língua inédita? Ao rés da folha, desenteso ao fitar o inferno do mesmo. Outrora, desentendíamo-nos ao primeiro verso, poeta e leitor dois bichos singularizados pelo desnorte. Um poema perfeito é uma paixão recém-chegada. Salvo o calor e suas múltiplas acepções, não entendemos peva. De joelhos, aquiescemos face à língua ígnea e estrangeira.

Choquei alguns acólitos do gelo, alguns paladinos de coração emperrado, alguns cruzadinhos de espada romba. Morte ou vida é-me igual ao litro, grito ao sacristão. Doravante o sino dobrará sem porquê.

Amor. Terei eu pé mesmo se o tema teimar em aprofundar-se ao ser desnovelado na língua em solavancos tépidos? Nas minhas costas, o mundo.

Disparate: emendar o que quer que seja quando nada é certo. Enumerem, caso haja tempo para futilidades, os sábios que se cruzaram convosco até então. O animal amolece, nada duro e durável. Tento entender a trajectória dos projécteis adiados.

A sedutora 4x4, adaptada a qualquer terreno, fez mais uma vítima. Retirei peso ao seu negrume, confesso-me.
Ao ruminar o que terá acontecido longe do radar das minhas pupilas, as hormonas decidiram entrar-me pela prosa adentro, qual rusga, insuflando-me os verbos outrora flácidos.

Amor ou morte? A ganância tomou conta das mãos indecisas. Nem ouro nem poesia. Temi as consequências, o retorno a um início primevo, desta vez de mãos vazias e afónicas.

Imaginava-me de pés e mãos atados, encimado por um carnaval de flechas desejosas de se abaterem sobre mim. Voar é um exercício vão quando o céu principia a dar mostras de querer ruir.

A carne, a eterna suspeita. De um lado os idólatras, do outro, os iconoclastas. Sou um entre a multidão de anónimos. Espero pacientemente a minha vez de arder na pira. Palavras demasiado concludentes. Em tempos idos, fui ensinado a deixar o mundo de fora da língua. Não digas isto, isto e isto. Então falo do quê?, respondia. Ninguém me sabia responder, o gato finalmente comera-a.

O rei dos oportunistas palmilhava a estrada do sucesso com a sua corte de sequazes que, espante-se, massajava-lhe os nobres tintins sem descanso.

Ninguém me ensinou a afogar — tudo o que ignoro aprendi sozinho.
Respirar para tão pouco. Cá estamos, camaradas náufragos, neste mar vindimado pelo medo.

Desisto da minha condição de estátua. Inicio a dança, faço as pazes com o movimento. Não é comum depararmo-nos com uma magia consumada que não aproveite o momento para mamar da teta dos holofotes.

Tardava o confronto com o tempo. Entretanto, ia-se entretendo a lutar contra espantalhos e pardais. Se quiseres ser homem-estátua, pára, se continuares assim, a andar feito parvo, não vais a lado nenhum.

Não temo a morte, tenho um ataúde à sua medida à sua espera em cada esquina do texto. Como afiançam os místicos, não é o Homem que entra no templo, é o templo que entra no Homem.

Terei de me assumir inábil para lidar com o amor. Já o tive nas mãos mas…
Volta para a direita, volta para esquerda, hesitação, simulo a volta para a direita e volto para a esquerda. Um tiquetaque obnóxio, uma tentativa de abrir o cofre da alma e pôr o Homem — o que poderia ter sido se a plenitude fosse alcançável — diante do Tempo vertebrado para avaliação.

Uma vez descalçada a bota que é confeccionar o primeiro verso, o poema anda sozinho, quase sem ajuda. As sílabas que colho da mão suada: frutos em botão.

Constato que o hábito recente deixara o monge inacabado.
Ao contrário do que nos foi ensinado nas redes sociais, é impossível reduzir o Homem a uma característica. Resumir um ser humano a uma palavra é um acto criminoso, sem direito a redenção, ó cruzadinhos da empatia.

O que é afinal o Homem? Animal exemplar, domesticado em dias de festa — sexo! —, de pronto solto no seu habitat penumbroso apinhado de olhos inquisidores.

A luz fraqueja diante das palavras maiores. Os anjos não se pronunciam. Esta manhã, graças ao nervosismo face à situação que me poderia pôr em cheque — e logo eu que nunca tive queda para rei —, aprendi, enquanto remexia as nádegas na cadeira, o samba da sala de espera — dança que, quanto a mim, merecia outro prestígio.

Suspeitem de asas tão franzinas. Estou certo de já ter passado por esta ideia. Por sorte, a cabeça será outra e a frase, resultante da observação, sairá noutros moldes. Não me questionem se tal constitui um ganho. Sim, distraio-me com o que estiver mais à mão.

Fugir ao medo? Com o calor que está? Não sejas estúpido. Aninha-te aqui e vamos lá ver se há material para erigir uma história de amor. Finda a fornicação, posso ocupar-me de outros assuntos. Não houvesse período refractário e o homem nunca teria inventado a burocracia. Sem período refractário não haveria Kafka, pensei eu após a ejaculação.

Não sei formular um pedido de socorro sem parecer uma causa perdida. Não sei pedir ajuda sem que me dêem extrema-unção.

O passado é fértil. Tanto é uma barragem contra fantasmas como se transmuda num viveiro deles.

A desconfiança tomou conta das minhas definições. Tento fintar o cinismo, todavia ele arranja constantemente forma de entrar a pés juntos na frase. Combatê-lo com ironia é engrandecê-lo. As armas para nos defendermos dele ou estão extintas ou ainda não foram inventadas.

As cabeças dos gigantes derrotados. Tê-las à cabeceira, sob a forma de rosário, é, a espaços, reconfortante.
À parte isso, sou, incontestavelmente, farinha do mesmo saco. Porém, ao estar em contacto com os meus semelhantes, fui impelido rumo à singularização. Não me peçam mais explicações, não estão em idade de compreender a minha jornada.

A abstracção de decantar a música cantada ao coração numa noite como nenhuma outra. Prosa atafulhada de inseguranças, perífrases atrás de perífrases, o nada mais copioso possível.

Mas…não vim ao mundo com o fito de moer palavras adultas e diluí-las em frases mansas, de pacote. A língua selvagem descansa. Ao entrar em casa, penduro-a, por fim, não na folha, mas no cabide, como coisa que só faça sentido ser usada na rua.

Peso infinito sobre os ombros. Já disse ao médico uma ou duas vezes. Não há meio do teste de ADN chegar, não me espantava nada que fosse filho de Atlas. Que vida é esta afinal? Carregar o cosmos às costas — façanha ao alcance de tão poucos — e suplicar ajuda às sanguessugas para que me cocem os tomates. O gigante mirra a cada súplica. Dentro de pouco tempo poderá ser derrubado por qualquer um: eis o destino dos grandes.

Tenho os dias pretéritos como reféns na memória. Sinto que levei a cabo um crime imperdoável que não cessa de engrossar.

Na folha, dou as voltas que o mundo não deu. Cada um foi para seu lado; um permanece no tabuleiro, o outro, comido.

Martelei-lhe a carne, conta a mulher A à mulher B, mas nem por isso ficou mais tenro — continuou, aliás, duríssimo. Mistério que intrigava todos os talhantes com que se cruzara.

Poeta: Planeio cada pormenor como quem arquitecta uma catedral.
Escrever ajuda-nos a exercitar a mão, que é por onde a humanidade abre o leque dos mundos possíveis.

O meu marido deixou de me procurar, comentou a mulher à amiga. Cessaram as buscas, fui dada como morta. E agora? O que faço eu à minha vida?

Para muitos, a vida é andar em manada, de mamada em mamada, um tudo ou nada de quatro ou de joelhos.

Este lugar, que assumiríamos meu, será, postumamente, ocupado por um sismo.

Corpo em revolução, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

08.07.21

A vida encarregava-se de lhe dar festinhas ásperas no lombo.
Qual festinhas, qual quê, era bordoada de três em pipa que até os ossos cantavam admiravelmente. Não, amigos, não enveredei pelos arrabaldes do exagero. Segundo o seu biógrafo, houve um osso que lhe saiu do corpo e enveredou pela carreira de tenor. Prova de que todos os autóctones daquele mundo, salvo os homens-estátua, esses têm sempre muito que fazer, cumpriam com zelo os seus deveres pedagógicos. Volta e meia, R., o nome da nossa personagem, cometia a ousadia de sair à rua com um sorriso nos lábios — que ingénuo. Espera aí que eu já te digo, pensava o transeunte. Isso faz-se?, pensava outro. O mundo está a ruir por todos os lados e este bandalho tem coragem de disseminar a sua alegria pelas artérias da cidade deteriorada. Ó meu grande bandalho, rugia a turba recém-formada pelo boca-a-boca, espera aí que eu já te fodo, vais ver o que sucede com indivíduos como tu! Não tens vergonha?!, entoava a turbamulta, a desencaminhar as crianças para o mundo da felicidade. Que lindo espectáculo. Vais levar tantas e tão boas que doravante os talhantes inspirar-se-ão em ti aquando do procedimento de fazer carne picada.

Ao cabo das mais extraordinárias bordoadas da História do Homem, a música, hóspede dos píncaros, foi relegada para segundo lugar no campeonato das artes. Aquela cena de pancadaria passou a ser conhecida como as Mil e Uma Chibatadas no Lombo, historieta que os pais contavam aos catraios quando estes, possuídos pelo espírito do entusiasmo, eram incapazes de dormir. Remédio santo.
O adulto pôde finalmente ser adulto sem interferências. Até dava gosto ser pai.

E, para coroar os efeitos artísticos da rixa épica, surgiram escritores vindos dos quatro cantos do mundo — nessa altura o planeta ainda era a duas dimensões. Por questões financeiras, surgiu uma miríade de alternativas. Havia tantas versões desse espancamento seminal como Homens no mundo.

Em teoria, devíamos ficar achincalhados ao ver o mundo dos negócios a multiplicar em boatos e versões a história original. Contudo, tal comportamento ganancioso originou um estranho efeito. Cada Homem à face da Terra tinha hoje uma história com a qual se identificava perfeitissimamente.
Daquele episódio de rija pancadaria — com fins pedagógicos, defendeu-se a turba mais tarde, para ensinar o bem à antiga, continuava —, nasceu uma prole de zaragatas, festinhas e pugilato verbal posto em texto e em discurso. Metafórica ou literal, ninguém escapava à omnisciente bordoada da vida. Uns tempos depois, R. foi elevado à condição de santo numa cerimónia que, para simplificar, apodaríamos de arraial de porrada. Coloquialmente, fora baptizado de Santo Padroeiro da Bordoada no Lombo. O Homem havia renascido.

Nem mais felizes nem mais tristes do que antes; em todo o caso, o Homem aprendera a conviver com a sua dor. Bispos dessa religião, o Bordoanismo, professavam que o Homem não é uma lebre. Esta, ao ser acossada pelos cães ou pelos tiros dos caçadores, refugia-se no primeiro buraco se lhe depara à frente, qual homem que sai à noite com pénis esfaimado. Acabara-se a era dos medrosos. Um pouco por todo o mundo, à excepção das conas e dos rabos, os buracos ficaram sem hóspedes.

Ao ler esta crónica, o leitor dirá: Você é estúpido com satisfatórias intermitências, as quais usa, imagine-se, para ser inteligente. Ai é, retruco eu. Ó bandalho, espera aí que eu já te conto das boas!

 

Bordoada de três em pipa, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

07.07.21

António Careca levou a cabo uma proeza alto lá com ela. Segundo reza as gordas do jornal, escorraçou com um pontapé bem metido nas nalgas o Caído-Mor, o Senhor Satã, o qual replicou degrau a degrau a sua célebre queda. Escapou por um triz ao elogio do vulgo, o visado acanhava — sempre acanhou — os bajuladores. Os demónios menores caíram-lhe em cima como lobos esfomeados. Em vez de o matar, desfecho que o aliviaria, obrigaram-no, então, a vestir-se com um oleado verde e amarelo, isolando-o cromaticamente do resto do mundo. As redes sociais, blindadas que estão ao pensamento, não souberam como reagir a tal acontecimento. Assim enfarpelado, o homem cumpriu o seu destino de fazer-nos rir.

É uma criatura submissa, entre o homem e o cão, pacata e inofensiva, cuja arte lhe chega, no máximo, para coçar os tomates em dias de palestra. Ao que parece, é insuficiente se o fito for fundar uma vanguarda.

A modéstia impede-me de revelar os maiores cumes entre os estúpidos. Todavia uma coisa vos digo, a competição nunca esteve tão renhida. Não é fácil deixar um legado neste campo.

O árbitro de comportamentos interrompia momentos tensos como se a vida dos outros fosse um filme dirigido por ele. Movido por um fervor religioso, o figurão eclesiástico das redes comunicava às pessoas como deviam viver a sua vida. Ninguém diz nada, esse juiz de meia-tigela é o orgulho do Homem, a menina dos olhos do século XXI. Todos fingem concordar, perpetuando assim a farsa. Mais burros não ficamos, pensavam eles.

O seu nome vem à baila de vez em quando, fazendo o soalho estalar com o sapateado da sua grandeza, é um nome demasiado grande para ser menosprezado pelo círculo de medíocres calejados. Corre o boato que a conversa só é conversa quando o seu nome é chamado ao barulho.

Homens sazonalmente verticais tentam passar por escritores. Estão a braços com uma língua que não é a deles, espremem-na até à última gota, mal dá para um copo, quanto mais para uma obra.

À míngua de espectáculos e demandas dignas de figurar em currículos de heróis, ocupam os dias a apadrinhar guilhotinas. As redes sociais são o lar, como alguém há-de postular um dia, de algozes enfezados. Incapazes de ver sangue, arranjaram um ardil destinado a provocar a morte à distância.

Oh, K., receio bem que o senhor seja demasiado hilariante para este século. Amanhã falamos, primeiro é necessário seduzir o coração do castelo.

À excepção do linchamento digital, somos burocratas até ao tutano. Burocratizamos o coração, o sexo e o mais. A picha e a cona traumatizados, acoitados em cima da pilha de papéis. E que alívio é abrirmos a porta à morte e saltar pela janela do quinto andar.
Os suicidas dariam a vida para poder ver as feições da morte ao perceber a fífia do Homem.
Os génios do século XXI ocupam um lugar muito importante na História, e é extremamente árdua a tarefa de os descrever — são papagaios uns dos outros.

Mais uma corrente literária, mais uma ninhada de papagaios.
À medida que envelhecem, os Homens vêem com mais nitidez o discurso do seu reflexo. Olha como estás acabado, meu animal esfrangalhado, comenta o reflexo alojado no espelho.

Recuso-me a ser ludibriado por uma fatia de nada, por mais apetitosa que se me afigure. Logo que os víveres começarem a ser desmentidos pelos sábios, os suicídios vão subir em flecha.

Esquece a verticalidade, se quiseres prosperar no teu ofício, e é por estas dicas que os aspirantes a homenzinhos de valor vendem a alma ao diabo, agacha-te e reza a tudo o que não te for familiar. Pudesse eu ao menos usar um faca nos dentes — sucessora da rosa no tango —, a fim de fazer boa figura na dança das cadeiras. Regicídio, deicídio, não importa. Fui contratado pelo destino para trabalhar, que é como quem diz, colher cabeças dos arbustos penumbrosos.

Não há ninguém capaz de puxar fogo ao século? Estes anos apinhados de escritores de prosa desdentada é incapaz de deixar marca. Tanta carne à espera de ser mordida.

Se apreciares o meu poema, sou menina de te abrir as pernas. Manjar silábico, digno de um não-sei-das-quantas. A cavalo dado não se lhe olha o dente e ficamos assim, cada um com o seu quinhão. A tão desejada aprovação, emprestar a rata por tuta-e-meia, dar minutos de voo ao vergalho, o costume, réchauffés.

Se pudesse fazer aquilo que quero, e o meu caminho fosse exequível, não restariam deuses nem demónios para contar a História. No entanto, é útil editar o pensamento antes de o verbalizar, enfatizá-lo com prosa hipócrita, elevar o paralítico das artes aos píncaros, tudo comportamentos com provas dadas, os quais fazem com que nós sejamos populares quando rodeados de uma matilha a salivar de aprovação. Para brilhar à mesa não é preciso suar o miolo, basta dizer aquilo que os demais ambicionam ouvir.

Quando cumpridas as várias salvas de elogios, aí sim, podem começar a pavonear-se. A vossa grandeza fictícia entrará sem atrito nessa atmosfera carregada de empáfia. Hipnotizados, os anões julgar-se-ão gigantes. Inimigos, nem vos passa pela cabeça a verdadeira estatura do Homem.

E eis que prossegue o artista nas andas da publicidade, papando elogios qual parasita, saracoteando-se com o pedigree dos iluminados. Atrás dele, uma comitiva de carraças, em cima, uma ou outra pulga.

Mas está tudo mal para ti? Nada disso, sou como uma criança que brinca na praia de pilinha ao léu. Tudo me alegra, tudo capta a minha atenção.

Ninhada de papagaios, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

06.07.21

A frase encurralou-me, obstinada e com os dentes de fora, nas suas ruas apinhadas de vocábulos. E foi esse estar entre a espada e a parede que me fez desabrochar. Mas isso não é nada — exclamarão alguns num tom de arruaceiro. Que os porteiros desta crónica expulsem os indivíduos que possam vir a provocar tal desacato.

O orgasmo enquanto veneno mortal — leva-nos desta para melhor.

Eu, que sou perfeito em todas as vertentes da minha imbecilidade, sou um implacável inimigo da vaidade e odeio profundamente os que, pondo o seu narcisismo por extenso, se auto-elogiam copiosamente. Enfatizo, num tom de indisfarçável satisfação, que sou parvo. Aliás, sou um dos melhores representantes da espécie e tenho, com certeza, todas as aptidões que costumam governar a parvoíce.

E não caiamos na tentação de ceder a esse vulgar preconceito segundo o qual os párocos detractores — os pretensos adversários da parvoíce — são um grupo bem posicionado em matéria de inteligência. Em vez de descobrirmos a careca aos párocos, optamos por choramingar e a tecer louvores apressados para que parem de nos maltratar. Atiramo-nos a eles, denegrindo-os com os elogios mais sumarentos ao alcance de um parvo. Na boca do parvo, o elogio sai marreco.

O parvo confesso e o pároco detractor da parvoíce são irmãos.
Creio que isso já é castigo suficiente; peço-vos, irmãos da parvoíce, que não insistam mais na zaragata — é uma estupidez.

Se nós tivéssemos o mesmo pedigree intelectual que o tipo sensato, a disputa teria morrido ali. No entanto, o parvo é mais curioso que Eva. Suplico a todos os bispos da sensatez que me desculpem, comentou o parvo, mas se parasse agora iria macular a minha natureza. O pároco detractor aquiesceu. Não demorou nada até outra zaragata ocupar o lugar da antiga. Oxalá nunca acabe, pensaram.

Vimos, ao longo da História, vários parvos que, por um motivo ou por outro, se afastaram do caminho sinuoso da estupidez para acolherem com agrado o caminho da rectidão. Felizmente não foi o caso. E, coro ao dizê-lo, tal é uma inspiração.

O caminho sinuoso da parvoíce, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.07.21

Kant designa o gracejo — a piada — como luxo das cabeças.   

Na piada, como refere Byung-Chul Han, a linguagem entrega-se ao jogo. Ao privarmos a comédia desse lado lúdico, afunilamo-la, aproximamo-la de uma linguagem informativa. Tornamo-la utilitária. Aos poucos fomo-nos esquecendo que a piada é uma arena onde a linguagem busca o sem sentido, o absurdo, o qual se acoita sob o verniz das miragens incumbidas de nos embriagar.    

Ao tornar-se informativa, como escreveu Byung-Chul Han, a piada trabalha em vez de jogar. Em suma, vergou-se. Uma arte de joelhos não é arte.  

A par da poesia, o humor é uma insurreição contra o mundo e no limite contra ele próprio. 

É um desempoeirar de palavras, um promover de novos encontros, um devolvê-las à rua da embriaguez para que possam circular sem os ditames da produção. No limite, a piada aspira à não utilidade. No limite, a piada não responde a nenhum senhor, não é escrava de ninguém.  

A piada é (ou era) uma espécie de ritual de esmagamento do ego. A possibilidade de sermos mais estúpidos do que somos. Eis uma aberração para a sociedade narcotizada pelo ego.    

Como isso seria um desperdício em termos de produção e como o narcisismo colectivo não vê com bons olhos tal manifestação de inutilidade, a piada selvagem, distante da informação, encontra-se à beira da extinção. Ao aproximar-se da informação, a piada chega aos ouvidos do público já cansada. A informação segue uma lógica aditiva. E…e…e…   

Piadas perecíveis, que apodrecem de um dia para o outro. Eis o que temos presentemente.

O ‘ou’ está fora da equação, tal podia constituir um retrocesso, o maior pecado numa era de produção vertiginosa.   

Na prática, a piada actual começa a morrer no momento em que é proferida, carece da vitalidade de um gracejo arisco, o qual, segundo me contaram, vem ao mundo graças ao jogo e, em calhando, há-de colonizar os discursos de quem a escutou.

Mais que a comédia ou o humor, a poesia eleva esse jogo da linguagem ao limite. Deixou de ser lida. Num mundo cego pelo sentido imediato ela não tem lugar. Segue-se a comédia.

A piada é o luxo das cabeças, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.07.21

Houve um período graúdo durante o qual se achou que o humor possuía o condão de retirar o gume às situações. O humorista faz parte da comitiva dos Homens que chegam depois, os retardatários. Um cronista peculiar da tragédia. Enquanto uns exaltam os mortos e outros os ocultam, o humorista diz: Espera lá! Não me digam que estes bandalhos tiveram o desplante de morrer. Logo hoje que me apetecia ser feliz.   

E nesse “espera lá!” face à morte, o único acontecimento sem segundas versões, o comediante despoja o Homem do medo. Nesse momento a faca deixou de cortar. Tal é o mérito momentâneo da comédia. Convém não enveredar pela senda do delírio e postular parolices como o humor salva. O humor amortece um golpe, o gume da faca rapidamente retoma o seu lugar. O que não faltam aí são oportunidades de apanhar no lombo. Enquanto guarda-costas, a comédia deixa um bocado a desejar. Aplaca meia dúzia de golpes e de seguida põe-se a narrar a cena de pancadaria, argumentando que descobriu a sua verdadeira vocação.  

Antes de nos tornamos fanáticos de certas ideias mais rebuscadas, é vital não esquecer a pergunta formulada por Rosenstock-Huessy: Não estará a linguagem ao serviço do momento?   

Seja concisa ou rombuda, a linguagem é um fragmento, ficará sempre algo por dizer. Haverá sempre lugar para subentendidos entre quem manda e quem recebeu a ordem.   

O humor é conciso; o homem actual é rombudo. São inconciliáveis. O medo de ficar algo por dizer obriga o Homem a narrar minuciosamente cada gesto, cada movimento do pensamento, a justificar cada respiração e a desculpar-se por cada palavra. Resultado: dizer demasiado adia a acção, oblitera a tensão.  

Em todo o caso, a sua missão está votada ao fracasso. Por mais detalhada que seja a sua narração nunca será capaz de dizer tudo. Chegará o dia em que até o resumo será desaconselhado.  

As palavras certas terão de aparecer, caso contrário haverá problemas. Palavras como patrocinadores. Quanto mais rombuda é a linguagem, mais diluímos o fogo. Se não queima, não é comédia. 

Há um traço comum presente em quem levou a sátira ou o humor de forma incomparavelmente séria. A desistência após perceber que os predicados da comédia não passam de ficções. Kraus, à cabeça.   

A comédia combateu bravamente durante milénios, chegou a hora de arrumar a trouxa e descansar.

 

Comédia Mutilada, Roberto Gamito

 

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