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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

30.10.21

Júpiter é um planeta gasoso, eis o que aprendemos na escolinha. Em tempos muito recuados, foi um planeta semelhante à Terra, povoado de vida, pedrinhas e indignações. Há uns bons milhões de anos realizou-se a mais famosa feijoada cósmica. Segundo as palavras de um extraterrestre que recusou dar o nome, pois teme sofrer represálias, é um evento que ocorre de 3 milhões de anos em 3 milhões de anos, o qual reúne as principais figuras do cosmos. É muita gente, mesmo se juntássemos os dedos todos dos seres humanos, não esquecendo os dedos extra graças a Chernobil, ficaríamos com cabeças por contar. Reza a lenda que é o zingamocho do regabofe e da comezaina. Tudo se resume a um prato: feijoada, montes de feijoada. Por que motivo foi escolhido a feijoada e não outro prato, como por exemplo, o frango assado?

Sem vos insultar, refiro o seguinte: é muito difícil assar frangos para tanta barriga. A solução seria assá-los numa estrela, porém, é complicadíssimo arranjar alguém com habilitações para tal. Há quem faça uns biscates num estaminé sem certificações, todavia carece de traquejo a assar frangos em estrelas sem os esturricar. Ademais, a feijoada carrega uma carga simbólica que une todos os convivas. O universo, tal como o grão de areia a que chamamos Terra, é povoado por diversas quezílias, rixas e guerras. A maior parte delas originadas por motivos estapafúrdios.

Segundo um jornalista da galáxia Andrómeda, Abílio Verde, houve um planeta que desapareceu à parva. Um dia alguém cometeu a ousadia de gozar com um boné de um ser de uma galáxia vizinha. Não nos podemos vangloriar demasiado, há quem mate por um desaguisado à volta de um jogo de cartas, como a bisca ou a sueca. A nossa sorte é que o velho praticante de sueca não dispõe dos meios necessários de molde a pulverizar planetas, mas lá chegaremos.

Regressemos à feijoada. A feijoada é um diplomata com provas dadas. Durante uma guerra que durava há tanto tempo que os historiadores já haviam perdido a conta aos anos, surgiu um herói inesperado. Um extraterrestre-sopeira que, enfarpelado com uma bata aos quadradinhos brancos e azuis, atravessou o campo de batalha aos gritos com o seguinte pregão: “ou acabam com este barulho ou não há bucha para ninguém”. Foi um descanso.
Montou-se uma mesa gigante apoiada nos destroços e nos cadáveres e foi uma tarde bem passada a atestar panças, a afinar a língua em cantorias e a elogiar as patilhas dos adversários.

Doravante testou-se a mesma estratégia em todos os conflitos. À excepção do planeta Pitágoras, o ardil da feijoada pôs cobro a todos os enguiços bélicos. Não foi Deus, nem o diálogo, nem tão-pouco o intelecto que trouxe a paz, mas sim a notável feijoada.
Em pouco tempo erigiram-se altares em homenagem à feijoada um pouco por todo o universo. O facto de a Terra carecer desses altares só prova a imbecilidade da nossa espécie. Resta-nos esperar pelo dia em que um estratega militar troque a saraivada de balázios por um chuvisco de conchas de feijoada.

Regressemos ao que nos trouxe cá: Júpiter. Não é preciso ter frequentado a universidade para ter conhecimento de um dos efeitos de comer feijoada. O flato, o peido, o traque, o arroto anal. Aliás, a sua repetição. Não estamos a falar de um peido isolado que interrompe um clima sério com distinção, referimo-nos a uma arte — a sinfonia do peidinho. Se a reputação nos conduz à perfeição, podemos afirmar que é só uma questão de tempo até a feijoada transformar um ser imperfeito num traquejador sem falhas. Mas o inesperado deu-se: um peido em uníssono, as incontáveis bundas reuniram-se magicamente no mesmo som cheiroso. Foi um cataclismo de tal maneira inesperado, que criou uma nuvem fétida no interior da qual os peidos chocavam gerando peidinhos inéditos. Com efeito, ocorreu um fenómeno raro: peidos originados por geração espontânea. O peido havia-se emancipado do cu. O ar tornou-se irrespirável e o certame da feijoada foi rapidamente abandonado. Júpiter tornara-se gasoso de um momento para o outro. O peido reclamou a sua independência. Um belo dia para a liberdade?: eis a questão que divide pensadores de todos os cantos do universo.

Nos festivais que se seguiram, optou-se inteligentemente por limitar os lugares, sob pena de tornar inabitáveis os planetas. Em jeito de achega sumária, Júpiter é um planeta gasoso graças ao festival cósmico da feijoada.

 

Júpiter e a Feijoada Cósmica

 


Roberto Gamito

29.10.21

A casa, a qual havia sido passada de geração em geração, ardeu por completo num incêndio que se crê ter sido provocado pelo fogo, eis as palavras de um jornalista de nomeada. Ainda dizem que o jornalismo está morto e não tem carinho pelos factos.

Que o fogo é o maior pirómano, não nos oferece qualquer dúvida, todavia, fartos do ramerrame do quotidiano ao qual regressamos cabisbaixos e sem ganas de o transcender, não abdicamos da esperança de um dia nos cruzarmos com parangonas aptas a nos retirarem do marasmo, qual pinça sem Parkinson de uma máquina atulhada de peluches. Com efeito, tratava-se de um incendiário a ensaiar no quarto a sua obra ulterior. Correu mal, ninguém nasce ensinado, mas os pais não o castigaram por isso. Sem saber, arriscara mais que os seus antepassados. Jogar fogo à casa do outro é um desporto que não requer talento por aí além, ao contrário da arte entusiasmante de regar a gasolina o nosso lar. Temos orgulho em ti, disseram os pais, os quais engrossaram as fileiras dos sem-abrigo da cidade.

O avô fora a sua grande inspiração. Reza a lenda que aos sete anos fora capaz de realizar um cerco a uma aldeia. Para tal, precisou de uma carrinha de caixa aberta apinhada de jerricãs de gasolina e um altifalante com sons de cavalos aos pinotes e mongóis aos gritos. A aldeia permaneceu em estado de sítio durante seis dias e só não ficou mais porque o Benfica jogava nesse dia. Desafortunadamente, pelo menos se virmos o episódio do ponto de vista de quem leva a vida a fabricar documentários, a diplomacia foi obrigada a arregaçar as mangas, pondo um ponto final neste Ilíada caseira.

Este avô foi responsável por inculcar no catraio cujo nome não importa referir, dado que Joaquim Asdrúbal não é um nome do qual nos possamos orgulhar, o gosto pela fagulha, a tal ponto que a primeira frase do pirómano-em-flor fora esta deixa carregada de simbolismo: “detesto sushi”.

Aos doze anos de idade, juntamente com três amigos, fundou a sociedade dos Amantes da Labareda. No primeiro trabalho do grupo, decidiram assar um dos elementos. Todos concordaram: o simbolismo do número três é superior ao do quatro. Se queremos eternizar a obra, não podemos pensar pequeno, eis o veredicto que condenou um dos elementos às cinzas, o menino Acácio Albino.

Naqueles dias, éramos livres, eis uma das entradas do diário de Cândido Afonso, um dos elementos do grupo, hoje bancário. É comum vê-lo referir-se a esses tempos como uma escola: sem essa temporada de vândalo não seria o bancário que sou hoje, comenta Cândido. Posso ter trocado o incêndio literal pelo incêndio figurado, porém não sinto que abrandei. Sendo verdadeiro comigo próprio, creio que agarrei este emprego pela oportunidade de incendiar vidas em barda, graceja Cândido antes de ludibriar mais um velhote com propostas duvidosas.

Num ano que não importa apurar, após vários obstáculos de natureza judicial, os elementos ganharam uma bolsa de estudos para filhos de antigos pirómanos. Foi precisamente nesta altura que o nosso personagem principal catapultou a sua vida para a estratosfera. Foram dias de fartura. Além da mencionada bolsa, recebia a bolsa destinada a filhos de antigos bêbedos e demais subsídios que lhe vinham parar o colo. Entre uma coisa e outra, a fim de se camuflarem na sociedade, entraram para os bombeiros. O motivo? Passarem por boas pessoas e confeccionar piadas badalhocas com mangueiras.
Em todo o caso, o seu nome crescera tanto que muitos o viam como artista contemporâneo. E nem isso era bom. A reputação de um artista contemporâneo poucas vezes consegue vir à tona da lama.

Em Lisboa, Joaquim, já com os seus vinte e picos, sob a tutela de uma cadela exemplar, a qual cresceu graças às tetas fartas do álcool, começara a questionar-se sobre a razão do seu fado. Ao ligar a televisão, vira por diversas vezes a concorrência no mundo dos adultos, e o departamento do fogo posto não era excepção. Além do fogo, tinha outra paixão ardente: os livros. De facto, foram estes objectos empoeirados que estiveram na origem da dissolução do grupo. Os outros dois elementos, inspirados na Inquisição, ambicionavam queimar livros, enquanto Joaquim se opunha a essa ideia com todas as suas forças. De que vale reduzir o mundo a cinzas se não fica nenhum registo do episódio?, gritava Joaquim aos ouvidos dos dois papalvos. Tenciono inspirar pelo fogo, quero ser a musa que a musa da memória procura. Uma frase bonita, no entanto, os dois ex-elementos já haviam abandonado o quartel dos Amantes da Labareda.

A quantidade de fogos e foguinhos deteriorara a imagem do incendiário. Em defesa do lume criminoso, cuja imagem estava, a todos os níveis, nas ruas da amargura, escreveu um ensaio intitulado Da defesa do Incêndio e os filhos de Heróstrato, obra recebida com um desprezo líquido pelos críticos.

Grande parte dos anos que se seguiram foi passada em viagens pelos balcões das tabernas mais esconsas, sobre as quais escreveu crónicas naquele tom característico de quem gatafunha poemas enquanto anda a cavalo. Afastou-se da civilização, arrendou um quarto no mato e passou a dividir as despesas com ursos.

Conviveu demasiado tempo com os cucos, saltando de ninho em ninho de molde a estreitar laços com esses seres alados. Os animais contaram-lhe, finalmente o workshop de fabulista que fizera anos antes dava mostras de ser útil, que havia uma lenda japonesa em relação ao cuco. A traço grosso, era uma ave que cospe sangue enquanto canta. Impressionado com a lenda, quisera voar como uma ave. Felizmente os pardais e restante passarada nunca o encorajaram a seguir a carreira de Ícaro; Joaquim interpretou este episódio como mais um falhanço. Sem mais alegrias, passou os últimos anos a contar os seixos do fundo do rio.

Sou um cuco. Estas foram as suas palavras. Morreu no centro de uma poça de sangue, a qual coagulou na forma de labareda. Eis o relato do último elemento.

Amantes da Labareda, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

28.10.21

Plotino disse, armado em guru motivacional, que o livre-arbítrio incluía a capacidade de ter aquilo que se queria ter. Bastava criar a cama para esse cenário. Onde está cama ele terá escrito receptáculo — é desculpável, ao contrário de mim, não foi visitado pelas musas.

Com essa hipótese em cima da mesa, é-nos permitido avançar para terrenos inéditos e, quiçá, desfazer mal-entendidos. Todavia o homem contemporâneo, grupo do qual faço parte a contragosto, a minha vontade era pertencer ao mais respeitável grupo de orcas do século XXI, nem sequer é capaz de descortinar os seus desejos. É comum vê-lo a brincar — melhor dito, desesperar — qual gato a dar patadas no novelo das possibilidades. O livre-arbítrio há-de dizer: “Porra, belo destino o meu”.

Somos, ou temos o potencial de ser, mais do que Homens. Calma, não fiquem nervosos, não é uma palestra. Quando estiver a precisar de dinheiro, aviso-vos. Com efeito, estou a marimbar-me para vocês, sou uma espécie de Deus sem posses nem poderes. Atacando com carícias humorísticas a divindade que nos calhou em sorte no ocidente, Deus ou Yahweh, é útil metamorfosearmo-nos numa velha de aldeia e questionar: quem são os teus pais, ó forasteiro?

Deus pertence a uma linhagem de deuses da tempestade, aliás, Ele próprio foi em tempos um deus da tempestade. Sucedeu a Enlil, Baal, Adad e outros. A curiosidade da velha está como que satisfeita. Ao contrário dos primeiros deuses dessa dinastia das tempestades, Deus foi alvo de uma metamorfose enaltecedora. Passou de deus da catástrofe para deus do amor. Ao contrário dos outros, soube trabalhar a imagem como uma celebridade e ainda hoje retira dividendos de tal transformação.

Aproveitando o facto de estarmos a dissecar o cadáver de Deus, detenhamo-nos no sopro. Em muitas culturas, sopro significa criação. Quetzalcoátl nasceu quando o deus da existência respirou sobre a sua mãe. Tempos houve em que bastava respirar para cima de uma mulher para lhe causar uma gravidez. Segundo Lyall Watson, há mexicanos que ainda acreditam nisso. Pelo sim, pelo não há casais que dormem de costas voltadas para evitar sarilhos. Mal não há-de fazer.

Contudo há variações desse sopro maiúsculo mais de acordo com o Homem. O sopro criador pode ter várias origens — essas mesmo que provocam risos envergonhados nas crianças e adultos. O vento de Labosum, deus criador, era apenas um dos seus arrotos. Em outras zonas há mesmo sopros criadores mais humildes a sair do rabo (1).

Em suma, se acreditarmos nisto ou bebermos o suficiente, a criação tem três origens: respiração e suas variantes, o arroto e o peido. Vamos assumir que todas elas são viáveis e que herdámos esse poder dos deuses. Imaginem um mundo onde as mulheres podiam engravidar por quatro vias: 1) a sobejamente conhecida, que tantas alegrias dá aos praticantes desse desporto tépido; 2) um suspiro (os velhos ressurgiriam como garanhões); 3) um arroto (o perigo que era convidar uma mulher para ir beber uma coca-cola); 4) o peido (a feijoada seria doravante considerado um jantar romântico). Não minto se disser que seria um cenário caótico e maravilhoso. Não era perfeito, dado que num dia de cólicas podíamos engravidar cinquenta mulheres. Mas ao menos dava uma bela história para contar aos duzentos netos.

(1) De todas as hipóteses esta parece-me a mais viável. As provas estão à nossa volta.

 

Deus da Tempestade, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

27.10.21

A vida não está para grandes festas. Coloquemo-nos então no estado necessário para a celebrar, isto é, estreitemos laços com uma boa garrafa de vinho. Para citar Paul Valéry, a razão é uma deusa que julgamos vigilante, mas que na verdade dorme, numa qualquer gruta do nosso espírito. Concordo, nem vale a pena pensar mais. Com efeito, a obra nascente das mãos do Homem é um casamento de acasos e tropelias, somos personagens provisórias num teatrinho de marionetas sob o comando de um Homem dos Robertos desconhecido. Se bem se lembram, os bonequinhos terminam quase sempre à cacetada e aos gritos. O diálogo é como que um preâmbulo da sessão de pancadaria. Se aprofundarmos o nosso entendimento da cena, mas sem pedir ao cérebro mais do que ele pode oferecer, concluiremos que o diálogo é inútil e que só a rixa tem o condão de desatar os nós da ira. Mas como pensar o episódio — pensei agora, sem pretensões de alcançar um raciocínio. No público, como em todos os redutos, haverá facções. Haverá os adeptos da refrega, os quais deliram quando se dão conta da pancadaria, os exegetas da sarrafusca, os quais tentam injectar razões e espessura no caldo do desaguisado e, quem sabe, um terceiro grupo: os que não percebem peva e por conseguinte encolhem os ombros — não confundir com os neutros.

Com mais calma, e com o auxílio da razão remelenta, poderíamos equacionar o seguinte: aonde param os diplomatas? Se este quadro pintado às três pancadas representa o mundo dos Homens, será que a não existência de conciliadores põe a nu a farsa da diplomacia? Tentem responder a esta questiúncula, é o trabalho de casa.

Feliz ou infelizmente, temos as nossas incertezas como algo de passageiro. Como a ambição é ingressar no grupo dos fixes, engraçado como ninguém cresce realmente e Freud perdeu esta oportunidade de brilhar, fazemos de conta, táctica que aperfeiçoamos quando dominávamos meia dúzia de vocábulos e defecávamos onde calhava, que dinamitamos as dúvidas. O grupo dos fixes é quem, no parecer dos não-fixes, detém a verdade. Uma infantilidade do género “os adultos sabem tudo o que há a saber”. E nada parece perturbar a soberania do umbigo. O ingresso no grupo dos fixes tende a dispensar-nos da bela experiência de pôr os miolos a laborar.

Regressemos mais maduros à diplomacia e à mocada. Por que motivo a diplomacia não singra no teatro de marionetas? Pela simples razão que é um espectáculo e a diplomacia é entediante. Nunca ninguém se expressou deste modo: Matias, hoje vi uma coisa memorável. Vi duas pessoas a apertar a mão após um debate mais aceso. A cena marcou-me. Passei a tarde toda a chorar. Acrescento do narrador. Provavelmente foram acicatados pela turba: “Apertem a mão, apertem a mão.”

Imaginem um filme de acção em que as cenas de porrada eram interrompidas por um diplomata.

— Meus amigos, a violência não resolve nada, vamos sentar-nos e falar um pouco como adultos. Proponho a calma e a reflexão.
— Estou demasiado enervado para conversar. Propostas? Proponho que vás para a cona da tua mãe.
— Beba um chá, respire e já falo consigo. Não faça nada que se arrependa. O meu conselho: não aja de cabeça quente.
— Só sei agir de cabeça quente. Aliás, devo a minha reputação de durão pelo facto de agir de cabeça quente. Se começar a ponderar as minhas acções, vou para o desemprego.
— Nada tema, tem em mim um amigo, pode abrir o coração: tem problemas em casa? Como foi a sua infância?
— É assim tão claro?!
— Pode desabafar.

E acabavam os três, os potenciais barraqueiros e o diplomata, aos abraços e beijos, provando que há outras formas de dar vazão à testosterona. E morriam os três no fim. A seguir à porrada, seguia-se o desmantelamento da bomba — aspecto que a diplomacia descurou.

Teatrinho da Testosterona

 


Roberto Gamito

26.10.21

Túnel de Vento podcast

Estava a bacorejar o episódio 509 - Ensaio sobre a Cegueira, que é como quem diz gravar, quando me lembrei que não havia feito menção ao episódio 500.

Tentar definir este podcast é como tentar engaiolar o vento. O mais que consigo é pedir de empréstimo uma expressão de Horácio, poeta latino. Exército de febres.
Com efeito, o túnel de vento é a tentativa vã de trazer à tona esse exército de febres.
E todavia o arpão continua a fazer tangentes ao grande cetáceo albino. Feliz ou infelizmente, nada parece adentrar no lombo da verdade.

A frase de Diderot, esse filósofo-humorista, tranquiliza-me: "Devem exigir de mim que procure a verdade, mas não que a encontre."

Eis-nos chegados aos apeadeiros do episódio 500:
.Outubro já não é o que era.
.Fiscal da sopa de peixe.
.Escassez e a ganância.
.O leitor é uma figura mitológica.
.Demasiada empatia nas sinopses.
.Possuído pelo espírito da estupidez.
.O valor nutricional do corpo de Cristo.
.A arte do insulto.
.A arte não é um guia turístico.
.Dave Chappelle e privilégio branco.
.Elogio da cicatriz.
.Activista picuinhas.
.A sardinha contra o atum.
.Leonardo da Vinci, o taberneiro frustrado.

Mais 91 episódios e volto a dar notícias.

Podem ouvir o episódio aqui ou em qualquer outra plataforma de podcasts:

 


Roberto Gamito

22.10.21

Rúben Branco, Tertúlia de Mentirosos

Rúben Branco. Humorista e rei do underground.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: o conforto e o sentimento uterino, opiniões nas redes sociais, as redes sociais como montra para a hipocrisia, Big Brother, polémicas no twitter, o humorista e a imagem, a morte na arte contemporânea, o comediante português não falha?, cada geração tem os seus interesses, a relação do humorista com as redes sociais.

Rúben Branco nas redes sociais:
https://www.instagram.com/rubenbranco123/

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.

 


Roberto Gamito

22.10.21

Em tempos idos, acreditava-se numa relação directa entre o sofrimento e a qualidade da obra do artista. Mais sofrimento era sinónimo de maior qualidade na obra. Presentemente, vivemos numa espécie de mundo almofadado em que as arestas cortantes foram relegadas para figurantes. Apesar do contributo das influencers, o sofrimento perdeu a sua antiga aura. O prazer tomou o seu lugar. Não é necessário ter a quarta classe para nos darmos conta das limitações do prazer. Se o prazer fosse aquilo que promete, a melhor poesia seria escrita durante o orgasmo. Ora, consultando a literatura especializada, é árduo manter a cabeça orientada para a prosa ou para a versalhada no pino do calor, aliás, alcança as raias do impossível. Vim-me logo sou poeta. Revirei os olhos logo sou artista. Eis duas frases improváveis.

Não me espantaria nada que a maioria dos artistas visse na sua obra em construção uma espécie de lareira. É vital combater o frio de uma forma imprevista e duradoira. Fique bem claro que esta diatribe não se estende aos mártires e às carpideiras da nova escola que frequentam as redes sociais, esses viveiros de palermas.

O sofrimento por si só não nos conduz a nada, todavia parece-me disparatado atirá-lo para o monte das ideias obsoletas. A título de exemplo, veja-se o que aconteceu com as serpentes marinhas e as lulas gigantes, a psicanálise e o vento Föhn (1). A oscilação do prestígio é indicador de como o Homem, este intelectual-sopeira, anda às aranhas. Primeiro existe, tem muita força, depois não existe, é uma mentira pegada e quando damos por ela estamos novamente a debruçarmo-nos sobre ela, a ideia, a prestar-lhe atenção e a admirar o conhecimento dos antigos. Eis as flutuações da empáfia do Homem.

Com efeito, há pelo menos um fundo de verdade. Veja-se o caso de Dante e o seu amor platónico por Beatriz. Substitua-se o magno sofrimento por um fenómeno muito mais caseiro: colhões cheios.

No meu humilde parecer, obras como A Vida Nova e a Divina Comédia de Dante só existem graças aos colhões cheios. Tais obras seriam inconcebíveis de colhões vazios. Não quero com isto postular que Dante não seria poeta se dinamitasse o termo platónico com a farpela pelos joelhos, mas dificilmente alcançaria as alturas que alcançou. Em correndo bem com Beatriz e esta se revelasse uma foliona de alcova, Dante acabaria por se tornar um aedo dedicado à construção de quadras de manjericos.

Que é o Inferno senão a ilustração da vida de um homem esfarrapado que é condenado a permanecer com os tomates atestados a escassos metros da amada? É uma espécie de Tântalo, morrer à sede mesmo estando rodeado de água.

Não exagero se dissesse que os colhões apinhados são os últimos descendentes de uma grande linhagem de deuses, musas e daemons. A fagulha da inspiração, a existir, habita aos pinotes os testículos. Assim sendo, a obra de um grande artista é a miscelânea cifrada ou escancarada das fodas que ficaram por dar. Querem criar grandes obras mas sentem-se medíocres? Querem? Fodam menos.

(1) Segundo os antigos, este vento era capaz de deprimir um homem saudável e conduzi-lo ao suicídio. Estudos recentes encontraram uma relação entre este vento e as flutuações de serotonina.

O colhão é a última musa

 


Roberto Gamito

21.10.21

A pastelaria oferece-nos um lote bastante farto de seres humanos. Há uma miríade de velhotas, pequenitos animais encaracolados pelo reumatismo, desde as galhofeiras, as perdigueiras da marotice aptas a desencantar nabos das frases mais insípidas, passando pelas escancaradamente atiradiças, as curiosas como crianças, as quais não descansam enquanto não perguntarem o nome de todos os bolos, apesar de comerem sempre o mesmo, típico deste animal cujos hábitos são leis divinas, até mesmo velhas rezingonas e aspirantes a carpideiras cujo ofício é ensaiar o fadinho quando a alegria vai à casa de banho, enfim, animais hospitaleiros no tocante à tragédia. Acrescente-se casais quedos e calados, quiçá um par de homens-estátua reformado a recordar os bons velhos tempos. Tal cena põe-me alerta para algo que o Homem enquanto parte integrante de um casal descura: devemos falar apenas o necessário sob pena de esgotarmos as palavras. O diálogo deve ser racionado como ração no pino da guerra.

Calma, ainda não acabei de pintar o quadro. Há os velhos bêbedos que saltam de cadela em cadela com a agilidade de ginasta asiático, o velho que confunde sapatarias com pastelarias, a velho surdo que vê em cada palavra semiouvida uma oportunidade de trocadilho, o velho cuja religião é a mini e a bifana às 8 da matina e por aí vai. Apontemos os nossos humildes holofotes para o velhote ébrio. É comum vê-lo indignar-se: os jovens hoje em dia estão sempre agarrados ao telemóvel, exclama ele agarrado à sua fiel cerveja. Mas as coisas não se encaminham só por si, para sermos francos, é necessário suplicar aos neurónios horas extra a troco de migalhas de esferovite, que é como quem diz, coisa nenhuma.

Ater-me ao lote de personagens anteriormente descrito é insuficiente para apodar o texto de crónica. É em momentos como estes em que os minutos viram séculos e o pensamento tenta criar ligações onde nunca houve pontes. Passando em revista o cardápio de personagens, equaciono qual deles me sairá na rifa num futuro próximo. Dito de outro modo, se a vida é um filme, qual destes personagens será o meu papel daqui a uns anos, quando o cabelo branco conquistar por completo a minha cabeça?

Oscar Wilde, um pândego de cu travesso a quem deu para escrever coisas engraçadas, apontaria algo desconcertante e memorável sobre estas questiúnculas que ocupam o meu miolo enfezado.

Eis-me biólogo versado em faunas de pastelaria. Eis a velha com os olhos a fagulhar diante dos bolos. Se querem ver uma velha feliz, atirem-lhe bolos. Se querem ver uma velha infeliz, digam-lhe que o seu bolo predilecto acabou.
Não há muito tempo vi uma velhota envelhecer vinte anos após saber que o último pastel de nata havia sido vendido há cinco minutos. A cena puxou-me para terrenos literários. Recordei-me do célebre trecho de Ricardo III, peça de William Shakespeare:
“Um cavalo! Um cavalo! A minha coroa por um cavalo!” Sendo que, neste caso, seria “Um pastel de nata! Um pastel de nata! A minha coroa (aliás, a minha permanente) por um pastel de nata!” Riam-se, mas não olhem para os preços praticados, caso contrário darão conta que a inflação esvaziou a hipérbole.

A ausência do pitéu adocicado — e falamos nós de humanidade e empatia! — traumatiza a velha a ponto de a pôr a chorar, episódio que a velha carpideira não vê com bons olhos — detesta concorrência. Não é fácil viver a velhice sem bolos — coitadinhas das que padecem de diabetes.

Biólogo de velhas

 


Roberto Gamito

20.10.21

Sem mais preâmbulos, confesso-vos que tenho cinco minutos para erigir da província hostil que é a folha em branco uma crónica.
A partir desse instante, a resolução de assassinar a brancura da página instalou-se em mim qual contrato com uma operadora de telecomunicações. Eis uma boa ideia para um policial: o garatujador que assassina folhas em branco.

Como disse Timóteo, um dos rapazes que à época se encontrava na posse dos melhores neurónios, uma vez que praticou a lábia até lhe saírem fagulhas dos lábios, “a vida é uma merda”. Farto de ouvir a mesma lengalenga, caíram-lhe igualmente as orelhas — a lepra do eco continua a fazer as suas vítimas.
Nem a citação nos apanha de surpresa, nem Timóteo ambiciona a originalidade. Mas que vem a ser isso de originalidade? Um trecho que proporciona um surto de cenhos franzidos? Isso é lá conquista digna? Um artista sobrevive à custa de uma turba de criaturas com o sobrolho levantado? Suspeito que não.

E que os amigos cognominassem Timóteo de O Parvo não altera nem macula o elogio anteriormente oferecido. Somos muitas pessoas, como se profere hoje, e o empresário português, versado como é em voos metafísicos, aproveita-se e pede ao trabalhador — perdoem-me, escravo — para labutar por dez— e só lhe faz é bem. Se somos uma legião, ainda há muita gente dentro de nós desempregada. Visto por este prisma, amiúde usado pelo empreendedor a fim de decompor a luz em citações, a escravidão moderna obrigava a vir à tona populações de possibilidades que até então se acoitaram dentro do ser humano.

Em dada altura, o fio de raciocínio volta-me as costas. Ferrei-lhe uma bordoada nos costados, bem forte e bem feia, como é tradição entre os coléricos. O raciocínio faz-me uma desfeita dessas? Trago o Timóteo ao texto e o raciocínio não passa cartão?

Uma crónica de fugida

 


Roberto Gamito

19.10.21

Quero esquecer o meu nome, vida, quero entrar numa província inédita sem a esparrela do destino a prender-me os pés. 
Não há registos de ter existido um Homem com o coração habitado, habitado por aves canoras. Por que motivo nos deixamos arrastar sem luta por este pensamento, esta crença inderrubável de que o mundo... Entedia-me terminar as frases, a música aborrece-me. Calo-me, espero até que as boas memórias sejam como uma mão inquieta rumo ao animal em apuros.  O corvo depenado crocita entre os galhos de uma árvore seca. Segundo ele, a raposa confundiu-o com um malmequer.

O fedor do animal putrefacto faz-me recuar à infância. A morte é indisfarçável. Retrocedo, perco altura, peso e barba. Escuto o meu coração. Continuo a não perceber a sua língua. 

Corvo depenado

 

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