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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

18.11.21

— Olá, excelso colega de diálogo.
— Vieste em má altura. Vou deixar-te, tenho coisas para fazer.
— Não me faças uma coisa dessas, não vim preparado para solilóquios.
— Tenho um caldeirão cheio de indígenas ao lume, não me posso demorar muito.
— Não sabia que eras canibal.
— Não era, mas sabes como é, gosto de experimentar novos sabores. (Põe-se com a mão na orelha à escuta.) Ainda não ouço gritos, é sinal que tenho uns minutos para pôr a conversa em dia. Que contas?
— Nada. Queria apenas falar.
— Sobre o quê?
— Sobre nada.
— Lembras-te de quando começámos a falar?
— Não, era muito pequeno.
— Não mintas, nasceste com uma determinada idade e assim te mantiveste, pelo menos foi isso que o autor destas linhas me contou.
— É verdade, não nego, porém um dia fui dar com a minha backstory num caderninho e nunca mais fui o mesmo. Recuei à infância e por lá fiquei durante muito tempo.
— Queres que te conte uma história?
— Para quê?
— Para te animar.
— Não sou do tipo que se anime com histórias.
— Animas-te com quê?
— Com tragédias.
— Disparate, ninguém fica animado com tragédias.
— Não sabes aproveitar a vida. Há lá coisa melhor que puxar uma cadeirinha e ver uma tragédia a desenrolar-se à nossa frente?
— Mas que absurdo é este?
— Meu camarada, o destino esqueceu-se de nós, estamos entregues aos caprichos do acaso. Para quê importarmo-nos com o outro?
— Para quê esta farsa, dias após dia?
— Não há nada mais hilariante do que a infelicidade do outro, reconheço.
— Infelicidade que é transformada em felicidade.
— Como dizia o outro, na natureza nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma.
— Esse raciocínio tem uma excepção. A estupidez humana: permanece inalterada desde o início.
— Aproveitando a atmosfera leda da conversa, sabias que a Glória morreu?
— Tomei conhecimento. Quem a teria enterrado?
— Contaram-me que o trabalho foi levado a cabo por uma comitiva de abutres.
— Abutres?! Mas essas aves não apreciam cadáveres?
— Apreciam, porém a Glória já estava muito velha, a carne demasiado rija e eles resolveram enterrá-la. Segundo eles, o cadáver desfeava a paisagem.
— Faz sentido. Bem vistas as coisas, os necrófagos são os fiscais das paisagens e são eles que impedem que o mundo se transforme num pomar de cadáveres.
— Está um elefante na sala!
— Deixa-o estar, a conversa está interessante.
— Um elefante na sala!
— Se te faz confusão, alcança aquele saco de amendoins e dá-lho. É uma bela entretenga para o trombudo.
— E ele acalma-se?
— Claro que se acalma. Tens é de te levantar do sofá: ele vai pensar que chegou a hora de ver documentários sobre animais.
— Não achas que devias soltar o elefante?
— Sim, porém sinto-me demasiado cansado para criar novos hábitos.
(Ouvem-se gritos.)
— Tenho de ir, preciso de tratar do almoço.
— Dá-me um beijo.
— Não te dou beijo nenhum.
— O que é que eu faço sem o teu beijo?
— Escreve um poema e não me aborreças.

Teatro Acabado, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.11.21

— Qual é o propósito disto tudo?
— Não conte comigo para o esclarecer.
— Felizmente tenho o privilégio de, por acaso, saber a resposta.
— Importuna-me com a questão e sabe a resposta?! Temos a burra nas couves.
— Não temos, a cerca é resistente a burros.
— Meu compincha de diálogo, vamos fazer um esforço para nos entendermos. Neste local, chamemo-lo folha, nós somos os únicos representantes da humanidade, quer queiramos, quer não.
— A humanidade está mesmo nas últimas se deposita fé em nós, humildes farrapos de carne.
— Ajude-me a distribuir o peso da humanidade pelas suas costas.
— Ganho alguma coisa com isso além de dores?
— Nome.
— Dá para almoçar de graça caso ganhe esse tal Nome?
— Depende do nome.
— Em última instância, fico na mesma, é isso que me está a querer dizer?
— Exacto. Outros terão abordado o problema tão bem quanto o senhor, se não mesmo melhor, todavia é consigo que tenho de trabalhar com vista ao aperfeiçoamento da nossa espécie.
— Não sei se estou para aí virado.
— Tem alguma coisa para fazer hoje?
— Ter não tenho, mas arranjo, tudo é mais aliciante que ajudar a humanidade.
— Fica-lhe mal essa atitude. Vamos, pelo menos por uma vez, representar condignamente a impecável espécie bípede à qual pertencemos a contragosto.
— E se eu recusar, há represálias?
— A minha ideia era vir em paz, mas posso pensar em castigos. Dê-me cinco minutos.
— Mudemos de assunto, pode ser?
— Era mais ou menos isso que ia sugerir, deixemos a humanidade para quando formos amigos.
— Confesso que estava a fazer-me duvidar e cheguei mesmo a ponderar ajudá-lo, porém dei conta do seu estado mental.
É um ser desprezível, capaz de ficcionar amizade só para levar a sua ideia a bom porto, ajudar a humanidade — hoje em dia vê-se com cada coisa.
— Esqueça a humanidade, já não está cá quem falou.
— Não me minta, continua cá. Se há coisa que eu detesto são mentirosos e pessoas com calças amarelas.
— Não seja por isso, dispo as calças.
— Afinal é uma pessoa razoável.
— Posso ao menos ficar com a t-shirt laranja?
— Vou dar-lhe essa abébia pela iniciativa.
— Podemos ficar de costas com costas como nos bons velhos tempos dos duelos? Sou incapaz de me despir à frente de personagens.
— E que tal se eu te enchesse de porrada?
— Qual é o fundamento disso? O enchesse de porrada, não o conheço de lado nenhum para essas intimidades.
— Talvez voltássemos a dar valor às coisas.
— Eu já dou valor a tudo.
— Será que dás?
— O mundo está apinhado de preciosidades, desde pássaros, pedrinhas, passando pelos camelos e indo até aos cactos.
— Isso vem-te do coração ou é apenas uma forma de escapares ao espancamento?
— Do lado mais profundo do coração, só sentimentos puros.
— Lembro-me de um poeta que elaborou um poema sobre rosas no guardanapo do restaurante antes de começar a atirar sobre as pessoas. Quando o questionei sobre o sucedido ele fez-se de parvo. O local estava cheio. Uma tragédia, tantos bitoques desperdiçados nessa noite.
— Diz qualquer coisa, não interessa o quê.
— Como se estivéssemos num podcast?
— Depois há edição, não há? É que não se aproveita metade.
— Ai metade, se fosse editor, só ficava o primeiro travessão.
— Ai que perfeccionista…
— Acaba a tua frase!
— Prefiro usar reticências, confere-me um ar misterioso. As mulheres que engato é tudo à pala de reticências. As fêmeas ficam malucas com reticências.
— Lamento discordar...
— Achas que Deus nos vê?
— É omnipresente, não tem outra escolha.
— É omnipresente mas muito reservado, daí que nunca se chegue à frente para pagar a conta.
— Quando reservas mesa no restaurante adicionas um lugar a contar com o nosso Senhor?
— Não, senta-se no colo, se quiser.
— Não te cansa as pernas?
— O tipo não pesa nada, não podes é permitir que Ele encha o bandulho. Se quiser atestar a pança, senta-se no chão, que eu não sou pai de ninguém.
— Olha para o céu! Aquilo é um relógio ou uma ave?
— Ao lado do anjo franzino? É um relógio com penas.
— Ah, como o tempo voa.

Teatro ainda mais completo

 


Roberto Gamito

16.11.21

— Sinto-me vivo e nunca me senti mais feliz.
— Isso é tudo uma data de mentiras.
(Ouve-se o estardalhaço de um tabefe.)
— Obrigado pelo tabefe, estava a precisar.
— Não tens de quê.
— Desculpa, ignoro o que me passou pela cabeça. Perdoa-me.
— O que importa é que te sintas infeliz.
— Nunca me senti pior.
— Isso é que é preciso. Adivinha quem é que me ensinou todas estas coisas bonitas?
— Deus?
— Morno.
— Estou perto?
— Não, o tempo é que está para os lados do calor.
— Este homem dá cabo de mim.
— Lá estás tu a difamar-me junto do público.
— Que público?
— O público que há-de vir.
— És capaz de deixar o futuro em paz?! Não lhe ponhas esse fardo em cima dos costados.
— Ponho em cima de quem, então?
— Desde que não o ponhas em cima de mim.
— Não me fazias esse favor?
— Ou paras com isso ou finjo que não te conheço.
— Bem, mudemos para um tema mais alegre. Recordas-te do dia em que me atirei ao rio?
— Sê mais específico, fazes isso semana sim, semana não.
— Quer dizer que tento matar-me semana sim, semana não e tu não te recordas de nada. Belo amigo que me saíste. Talvez te troque por um jornalista do Correio da Manhã, ele ao menos lembrar-se-á de tudo.
— És muito prolixo nas tentativas de suicídio, devias ser mais contido.
— Não tenho culpa de não ter nascido com o talento para o suicídio.
— Não vás por aí.
— Custa-te ouvir as verdades?
— Vamos lá ser sérios: a memória foi coligindo essas tentativas num único acto. É extraordinário as partidas que a memória nos prega.
— A mim não me engana.
— Ai não engana. És melhor que os outros?!
— Claramente, não pertenço à ralé que consente o ludíbrio da memória.
— O que é que comeste ontem?
— Comida.
— A resposta é um tudo-nada pobre.
— Não te chega? Olha o menino que precisa de detalhes, mas és algum tipo a fazer a peritagem à volta de um sinistro? Comida é comida.
— O nome da comida que ingeriste, filhote!
— Sei lá, não lhe perguntei o nome. A ocasião não se proporcionou, além disso sou uma pessoa muito calada. Acredita se quiseres.
— Não te safaste mal, meu pequerrucho.

Teatro quase completo

 


Roberto Gamito

15.11.21

— Não somos ninguém.
— Mas estamos mortos ou morreu alguém?
— Em princípio, estamos vivinhos da silva.
— Como é que vamos festejar isto?
—  A vida?! Com humildade e sobriedade. Infelizmente, não há orçamento para personagens como nós.

(Entretanto, os convivas da mesa ao lado foram assaltados pela questão: será que um Silva perde o apelido aquando do seu falecimento? Foi tudo quanto logrei apurar, retomemos o diálogo das nossas personagens.)

— Trabalhamos de graça, é isso? Na pior das hipóteses, seremos obrigados a vagabundear por toda a eternidade neste diálogo. Isso é lá vida para quem não tem vida?
— E se nos arrependêssemos?
— Mas andas metido em negociatas clandestinas ou em assuntos de fazer chorar a mãe mais marmórea?
— Nada disso, o meu currículo de paladino da virtude está imaculado, mais dois anos a dizer que luto por um mundo melhor e sou canonizado.
— Disseram-me que é necessário morrer primeiro. Em tempos também tive esse sonho, todavia estar morto não se me afigura um futuro desejável, principalmente a longo prazo.
— Concordo, é coisa para nos entediar volvidos uns anos.
— E se esquecêssemos a conversa e fizéssemos um esforço para sermos felizes.
— Devias ter ido para poeta.
— Como é que está o teu pénis?
— Está a inchar.
— Deixa lá ver isso.
— O que estás para aí a dizer?

(Na mesa ao lado, ocorria ao mesmo tempo a conversa entre dois guardas medievais.
— Não vais acreditar no que o gajo me disse.
— Ao menos dá-me contexto, não me contes isso a frio.
— Lá estás tu com as tuas manias. Assim como assim cada um interpreta as palavras à sua maneira. É tempo perdido, mas pronto, faço-te a vontade. Disse-lhe: Aqui está o cárcere onde irá passar o resto dos seus dias. O que falta em condições compensa em ratazanas.
— E ele?
— Saiu-se com esta: “que chiqueiro encantador. Parece que encontrei finalmente o sítio ideal para escrever as minhas memórias”.
— E tu?
— Eu questionei-lhe sobre as suas intenções últimas, não vá ele ter ganas de sair de lá e governar um país e ganhar o Nobel da Paz ou coisa que o valha. De desgraças está o mundo cheio.
— É o perigo de estar muito tempo fechado, começamos logo com ideias para mudar o mundo. Ar puro e murros nos queixos é o que eu aconselho a gente dessa laia.)

— Calma, o diagnóstico não demora nada.
— Cá está o monstro.
— Não lhe chamaria monstro, mais pequenote; em cada homem reside um cultor da hipérbole.
— E então? Há salvação para o menino?
— Sim, o inchaço deve-se, creio, ao tesão.
— E isso tem cura?
— Tem e não tem. É um padecimento intermitente. Em todo o caso, posso aconselhar-te formas de aliviares a dor.

(O diálogo prossegue com a pilinha de fora.)

— Agradeço o parecer técnico, mas cala-te um bocadinho, se não for pedir muito. Não suporto palavras, tenho alergia a diálogos.
— Há alturas em que não sei se seria melhor deixar de ser teu amigo e encher esse lombo rechonchudo de porrada.
— Não vejo necessidade de violência. Ok, vou fazer o esforço de continuar a cavaquear contigo. Se ganhar uma hérnia na língua a culpa é tua. Chamar-me amigo é um exagero, amigo, conhecemo-nos há coisa de minutos.
— Finalmente uma pinga de juízo. Posso contar uma piada para amenizar a atmosfera?
— Tem mesmo de ser?
— Estou com apetites.
— Então vá lá, não quero ser eu a cortar-te as asas.
— Conheces a história do velho da aldeia no bordel?
— Não, acho que não.
— Recusou o broche grátis porque a rameira não lhe disse boa noite.
— Diz-me uma coisa: é daquelas piadas para rir ou para fazer pensar?
— Pára com isso, tenta raciocinar uma vez que seja. Pensar não te faria mal.
— Isso é o que tu dizes, não me apanhas na curva, a História está apinhada de suicidas que o foram por pensarem demasiado.
Comigo é pensar o mínimo, e mesmo isso já é de mais.
— Puxa lá pela cabeça!
— Deve ser isso, saí da escola pela simples razão de não esforçar a cachola e agora via-me obrigado a reflectir porque um menino não gosta de mim como sou — burro como um imbecil.
— Excepto a tua pessoa, careço de esperanças na humanidade.
— Caraças, estás mesmo desesperado.
— Deixa estar, o melhor é não te obrigar a ser uma pessoa que não és.
— Desististe de mim? Pronto, o último candidato a salvador foi-se. E agora?
— Assustaste-me, por momentos pensei que ias ter uma ideia.
— Não me atrevo, alcancei uma bela reputação de papalvo e não tenciono desembaraçar-me dela.
— Queres comer uma chapada no focinho?
— Não há mais nada? Não sou exigente, com uma sopa fico bem.
— Ai, perdão, sou demasiado bom para chapadas. Só me desiludes.
— Desilusão? Fá-la durar, que é a última.
— O que queres dizer com isso.
— Sei lá, tu é que és o pensador.
— É engraçado que quanto mais falo contigo, mais parvo fico.
— Fico feliz por ti.
— Como se fosses uma escola ao contrário.
— Tive uma ideia!
— É um escândalo!
— Queres encontrar-te com Deus?
— Não estou para aí virado, até julgo que me faria mal. Quanto mais pessoas conheço, mais infeliz fico. Ou me torno eremita nos próximos tempos ou ainda morro de tristeza.
— Falta-te humildade. Até uma criatura fictícia nos pode ensinar, nos pode enriquecer, nos pode tornar mais conscientes do nosso lugar no mundo.

(No mesmo bar sucedia aquilo que se costuma designar engate. Eis um fragmento dessa interação.
— Fodemos?
— Perdão?!
— Se calhar não me expliquei bem, quero conhecê-la melhor.
— Assim já é outra conversa. Quer impressionar-me com galanteios de taberneiro, para que eu fique viciada nesse pequenote que trás aí escondido atrás da braguilha. É isso, não é?
— Afirmativo, este maroto só me dá trabalhos. Se não fosse pedir muito, pedia-lhe que tomasse conta dele durante quinze dias.
— Está a brincar? Quinze dias? E se me afeiçoo ao bicho? É como tratar de um animal selvagem: acolhemo-lo fragilizado, tratamos dia e noite das suas mazelas e no final custa muito soltá-lo em liberdade.
— Pois, o que é que o coração lhe diz?
— Diz que é o princípio de algo muito bonito.
— Ai a porca!

Regressemos ao diálogo pela porta da arte, recordando que um dos personagens continua com o pirilau de fora.)

— Dizes cada coisa, deves ter sido endrominado por uma daquelas palestras motivacionais. Vou dar à sola. Há o perigo de nos tornamos amigos se prolongarmos a conversa.
— Bem lembrado, não queremos isso.
— Não saio mais parvo desta conversa.
— E eu não saio mais esperto.

Teatro completo, roberto gamito

 


Roberto Gamito

14.11.21

Já não me recordo como cheguei aqui. Órfão da realidade, qual natureza morta que em virtude dos sucessivos restauros se metamorfoseou em retrato, entrei na universidade dos ponteiros, entregando-me ao curso dos acontecimentos disposto a enfrentar com estoicismo as consequências dos tiquetaques.
Principiava um sufocante interrogatório. Mas quem poderia respirar aqui? Quantas mutações até alcançar o meu verdadeiro nome? É condenável transformar um cenário de guerra num salão de bailes? Será que desejo, como Alexandre, o Grande, o mundo inteiro? “E nem um palmo a menos do que o mundo.”
Desde então esta é a minha morada.

Com é óbvio, tudo isto deve ser interpretado à vossa maneira.
A vossa cabeça mobilará as lacunas do texto fazendo de mim um vilão ou um herói, estropiará as metáforas, esvaziará a altura, espezinhará os múltiplos sentidos, amesquinhará os pormenores em notas de rodapé. Viver dependente das interpretações hostis não é fácil; deixamo-nos levar pelos juízos flutuantes e saltitantes e quando damos conta estamos a condenar à guilhotina santos com obra feita.

Pois é isto: a estupidez não conhece obstáculo, eis a atleta-mor, melhor dizendo, a vontade de esfrangalhar o outro supera tudo. A lacuna no teu discurso será a tua vala — cogita o censor. Desde então tenho pesado as minhas palavras como quem trafica a mais valiosa das drogas.

Após umas semanas a reflectir numa travessa de marisco, agarrado a uma sapateira bolorenta, ensaiando o tango do tédio, consolidei a minha posição: a fúria de viver regressava vagarosamente às minhas veias. A cólera transfigurou-me num animal albino e quilométrico. Alea jacta est.

Entrementes, vasculhava, não de cócoras mas de pé, o mundo à procura de fragmentos de luz, pequenos nacos carcomidos de um deus antigo, um rudimento de um paraíso vetusto. O perfume da rosa fora sepultado na folha. Enformado desleixadamente em poema. Desafortunadamente, incapaz de me transportar pelo leito do delírio até ao passado, a arte viu-se submetida à métrica do literal. O verso tornado sarcófago do perfume. Sem a rota do perfume, vemo-nos agrilhoados ao presente.

Quando as exigências da carne afrouxam, quando o desejo aligeira a necessidade de alvo específico e se espraia como o Outono nas folhas verdes, abandona os ídolos, torna-se iconoclasta e regressa às leis da fome primeva. Não há uma única frase nas nossas conversas que não tenha já sido proferida centenas de vezes. Gaguejamos de nariz empinado citações de autores caídos no esquecimento. Sem poesia, a palavra orbita segundo a trajectória do eco.
Um átomo de novidade na ponta da língua: eis o labor do poeta. Face à bancarrota do coração, afigura-se-me uma guerra sem feridos.

Sem vida, fechado num sem-número de cárceres, foi da imaginação que o Homem gerou a sua autobiografia luxuriante. Nem Deus nos pode expulsar do paraíso da imaginação.

Paraíso da Imaginação, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

13.11.21

Belo leitor, peço-lhe que entre na crónica sem fazer barulho, não ligue à desarrumação nem aos novelos de ideias por proferir, viveiro de rascunhos cuja produção não está de acordo com as exigência do mundo actual.
Não imagine maravilhas nem precipícios. E evite declarar prognósticos desanimadores: diarreias, umas atrás das outras. Nada disso, deposite um nadinha de esperança no escriba.

Ciente do magnetismo da decadência, confecciono umas linhas numa prosa abarracada, tentando em vão ajustar a distância entre mim e o mundo. Não se pode dissimular que só com muito boa vontade é possível elogiar esta croniqueta. É uma lamentável cópia da vida, dependente da falta de talento deste garatujador.

É de admirar que, neste dinâmico e questionável estado de coisas, o meu naco de letras seja capaz de espicaçar o miolo mais sonolento de forma embriagante. Limitado por tantas ressalvas e deficiências oriundas de todos os quadrantes, que é como quem diz, nem leitor nem escritor alcançam os mínimos exigíveis para serem proclamados de iluminados.

Outrora, quando a estupidez era sinónimo de genialidade, muito por culpa do álcool que é hábil a adicionar-nos um mar de linhas ao currículo, havia um formigueiro de ideias a pôr-me o cérebro em pantanas. Mas o melhor é que não se iludam com a hesitação, de chofre posso mudar de atitude a dar-vos caça. O pensamento e a mediocridade são armas terríveis. No particular da mediocridade, vivemos tempos áureos onde é comum ver bandos desses Rambos da mediocridade a brandir a sua língua em discursos apatetados.
Grande verdade! Grande homem, exclamará alguma alminha.

Rambos da Mediocridade, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

12.11.21

Garotos ajudam a algazarra a alcançar novos volumes. Ligarei mais tarde, para reforçarmos laços. Pela soma das cicatrizes consigo estimar a envergadura dos demónios. O beijo atarefado entre o trigo e o joio. Gestos de uma dança equivocada vendidos a granel.

Num ápice, o animal torna-se outro no quadro, adulterando a legenda. A perpétua aldrabice que é possível capturar o tempo numa fotografia é hoje incapaz de converter novos ingénuos.

O nada cortado às postas ocupa a montra e incendeia os olhares famintos.
A ventania impede o badmínton e as penas, mas contagia papagaios e velas.
O embrulho envolve o veneno e a doçaria sem problema. Arrefeço a um palmo da concretização.

Uma fúria impotente tomou conta da folha, ocupando-a de uma grandiloquência carunchosa, cujo tom e pretensão se misturam com o fel da derrota.

Frustraste, na folha e a um palmo da minha boca, as minhas actividades cognitivas com danças subtis — explosões nocturnas e insensatas.

E, para cúmulo, disseste: “Acorda”.

O beijo entre o trigo e o joio, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.11.21

Tertúlia de Mentirosos, Pedro Mata

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.
 
Pedro Mata. Humorista. Paladino da comida triangular.
 
Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
O número máximo de cães que uma pessoa pode passear na rua, passear lagartos, esquimó a passar férias no Algarve, a galinha pode ser o animal preferido da quinta?, a galinha é o animal mais inteligente?, os inimigos chegados no Instagram, piadas sobre redes sociais, incógnitas ocidentais e incógnitas orientais, frases sem autor, e se o Woody Allen aparecesse agora no humor nacional?, e se o Leonardo Da Vinci fizesse stand-up em Portugal?, viajar no tempo para matar ditadores é estapafúrdio, cruzarmo-nos com pessoas à noite, o homem fica mais querido com um cão por perto?, fiambre da perna quieta, ser perseguido por um gato, uma pessoa rica pode fazer tudo, stand-up e a pandemia, testar texto, escrever em palco, a confiança no stand-up, Rui Sinel de Cordes, dar com a cadeira nas costa de um velho, a velha e as conversas intermináveis, o dentista é um galhofeiro?, o dentista e os caguinchas, ideia para um documentário sobre as trabalhadoras do pecado, educadora de infância ou acompanhante de luxo?, o sonho de trabalhar com crianças e a realidade amarga, comida triangular.
 
Não procurem mais, esqueçam os vossos podcasts preferidos, este foi o episódio mais engraçado do ano.
(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.
 


Roberto Gamito

11.11.21

Espremo a esperança entre cenários possíveis, aos quais a coragem me levou pelo cachaço. Não há muito a acrescentar, a nossa história está a chegar ao fim.
A trajectória do ‘era uma vez’ rumo ao ponto final não nos fez ganhar nome nem fama. Não tenciono chorar nas entrelinhas deste texto — a escolha do fado é da vossa competência, ó Parcas feitas fadistas.

Os neurónios, entorpecidos pelas derrotas, dormem, quais faquires minúsculos, numa cama de cacos biográficos, o sono não dos justos, mas dos vencidos, enquanto eu, à luz fraca de um futuro impontual, conferencio a paz com os meus demónios.

De mãos e pés atados, sonho maduramente com actos de calibre maior. Aponto a arma da minha cólera à cabeça dos gigantes e espero. Já não estamos encurralados no labirinto das possibilidades e dos delírios infantis, à nossa frente abre-se um abismo ou uma ponte.

O céu de um mês incógnito enche-se de luzes efémeras, pedras feitas luz, pequenitas sementes de meteoro. A noite torna-se palco de mil e uma quedas. Não pedimos qualquer desejo, receberemos o depois seja qual for a sua natureza.

Os arbustos ganhavam vida graças aos animais esfomeados, designemo-lo ventriloquismo da fome. É difícil perceber se a caçada termina com a vitória do predador ou com a desistência da presa. É árduo compreender em toda a sua extensão a ideia pela qual lutaram — refiro-me aos homens, presas enfarpeladas de predadores.

Predestinados a ser joguetes do quotidiano, estavam encantados na cantiga do marasmo. Quebrei a hipnose a um desses seres. Dei-lhe comida, casa e nome. Amei-o. Tive de voltar a ensinar-lhe a respiração desde o princípio. A sua antiga respiração de animal aflito não é bem-vinda na sociedade dos bichos verticais.
Agora está completamente integrado na cidade aparentemente movimentada, a bem dizer águas estagnadas e já não quer saber de mim. Nada do que é absurdo lhe é estranho. Apertamos as mãos, despedimo-nos. Inimigos como dantes.

Sementes de Meteoro, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

10.11.21

A mulher levantou a saia e comunicou-me: “algures por aqui encontra-se o grande viveiro das histórias, a fábrica das temperaturas prazerosas, o estaminé dos gemidos onde as palavras perdem a pose”. É tudo muito bonito, ripostei eu com um cigarro a pender dos beiços, todavia não é por aí o caminho. Ah, como a tua coragem literata (melhor dizendo, vegetal) aproxima todos os monstros.

Os precipícios deste diálogo? A minha intenção era soletrá-los desde o início de molde a domesticar a vertigem, ceifar o coro de lamúrias que se acoita nos atalhos jamais trilhados com um sopro à lobo mau. Estou fodido, estou fodido, estou fodido, repetimos nós diante do espelho como se fosse um refrão ritualístico. Que mais posso dizer sobre o que não sucedeu? Num suspiro isolado há famílias inteiras de guilhotinas disciplinadas. Mas com que sacrifício foi adquirida essa disciplina? Isso daria uma biblioteca.

Estudava a carne recém-descoberta com obstinação, paixão e nervosismo, com base no que aprendi nos documentários dos exploradores. Onde é que isto vai parar? Que pergunta ingénua!, disse-me. Ninguém é obrigado a saber tudo. Não nego que a literalidade tirânica que grassa presentemente me oblitera o tesão. É necessário pôr as palavras a dançar antes de estas alcançarem o epicentro das nossas intenções, uma certa fantasia a fim de encontrar as coordenadas derradeiras, um certo fogo antes do fogo para que o relâmpago que faz de ponte entre os olhos famintos nos singularize.

Não me espantaria nada se daqui a alguma décadas a literalidade extingui-se o tesão. Segundo o meu parecer de leigo, as carnes ofegantes apreciam ser prefaciadas numa cama de metáforas, de tangentes que, ao tocar na pele, se desfazem em delicadas carícias. Sou, não escondo, um cultor das entrelinhas — possivelmente o último da minha espécie. Já repararam que as entrelinhas de certos poemas são povoadas por gigantes, deuses, paisagens inconcebíveis que a palavra tenta em vão legendar?
A dimensão do que ficou por dizer faz cócegas até ao cérebro mais dotado. Se quiséssemos, podíamos esconder o mundo entre dois versos.

Todavia o mundo dos homens só ocasionalmente se equipara ao poema. Tal abismo fez-me andar de um lado para o outro, coreografia herdada de um pêndulo, espantando lagartixas que apanhavam banhos de sol nos caminhos de cabras.
Em todo o caso, por onde eu ando já alguém andou.

Irritado, partilhei a minha descoberta com o espelho.
Ficou indignado, trocara o refrão por um deixa inédita.
O reflexo acusou-me de exagero, de invenção, de mistificar o indizível. Recomendou-me que regressasse à lengalenga do costume.

O sofrimento é o meu grande professor. Em boa verdade, não é, mas receio sofrer mais represálias. E a rosa, a rosa polivalente, amiga sempre disponível para fazer uma perninha nos poemas? Era um abuso prendê-la neste pedestal desfalcado onde a carne e as aves se ausentaram.

Na ocasião, algo inédito e gigantesco deve ter-se introduzido na conversa. Infelizmente, não teremos tempo para dissecar o monstro. As conversas murcham quando não alimentadas com fome.
E como nos comportaríamos nós, imaginando a sequela desse encontro, diante desse monstro saído da hesitação de ambos?

Na vida, tal como no poema, semeamos reticências. Delas brotarão o Inverno ou a Primavera, conforme a sorte ou o engenho. É preciso muita paciência para encontrar a deixa certa no meio de um guião prenhe de lengalengas. E continuámos a falar — a papaguear não importa o quê.

 

Cultor das Entrelinhas, Roberto Gamito

 

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