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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

09.11.21

Os caminhos teóricos estão cobertos de mato. Os papas da desconstrução proibiram a construção em altura.
Quem rega, afinal, as flores do mal?

Com o niilismo, o fim nunca será radioso, comenta o corvo empoleirado nesta história. O Senhor P. encontra virtudes nas guilhotinas se estas forem de esquerda. Dentro de momentos, caso não haja atrasos no estafeta, os leitores receberão o electrochoque da surpresa, que pilhará a altura das vossas dúvidas.

Instrui o oceano com a minha fúria, descartei o peixe miúdo e matei de fome o graúdo, condenei igualmente palavra e silêncio e aguardei pela Morte.

Resta-me espalhar a pólvora enquanto se aguarda pelas faíscas.
Sem delongas e sem retoques, ultrapasso o meu nome, eu que nunca o habitei de braços cruzados, rumo à ideia de um eu estupidamente superior a mim.

“Mas nada dura, tudo passa, tudo muda, tudo morre.” Não me façam esperar! Ainda morro com a senha na mão!

Comentário de um entendido em amoques: há uma necessidade de pôr por palavras o fogo predatório que nos faz crescer enquanto bárbaros. Um problema desta estirpe admite uma infinidade de soluções, isto é, uma infinidade de mortes. Seja como for, o espectáculo será grandioso.

Paixão, fazedora de todos os ódios e ópios, caminhos de outra laia. Há infinitas formas de adiamento, diz o burocrata-mor à morte.
A morte do lado de fora do guichet, do outro, o burocrata infalível. Quem morrerá agora? Será que é possível matar a morte de tédio? Em que posso ajudá-lo, pergunta o funcionário. Venho aqui para matá-lo, riposta a Morte ao burocrata. Espere um bocadinho, responde o burocrata, ainda não chegou a sua vez, sente-se ali na sala de espera. Mas ali estão os sonhos da humanidade, comenta a morte. Ao menos não lhe faltarão temas de conversa, retruca o burocrata. E assim se passou uma eternidade.

Burocracia contra a morte

 


Roberto Gamito

08.11.21

Sem feriados e sem milagres, Deus encontrava-se sozinho encasulado num ponto. Antes do Big Bang, antes de ser conhecido como o Criador, Deus era contorcionista. E poeta. Enquanto contorcionista, foi autor de uma proeza ímpar, só comparável com o hindu que treinou o seu elefante a esconder-se num porta-luvas de um Fiat Punto. Imaginem-se dobrados dentro de um ponto, sem luz nem diversões e sem margem para acariciar o maroto, durante um tempo inconcebível. É quase tão árduo como trabalhar em Portugal. Nesse estado até uma comichão pode derrotar um Deus.

Dessa altura, antes do Homem e da luz, chegou-nos este único fragmento.

Fomo-nos encerrando cada vez mais (Deus criara amigos imaginários para ter com quem conversar) na nossa acanhada existência, na secreta confiança de que, a dada altura — bastando para tal esperar pacientemente ou, por outra, acreditar na existência do Pai Natal — o mundo se nos há-de apresentar com um aspecto melhor e pejado de tascas com preços apetecíveis.

Comentário ao fragmento:
Mesmo na escuridão absoluta, Deus foi acometido por uma epifania. O que faz falta ao universo são tabernas. Em bom rigor, só há vida porque Deus necessitava de taberneiros. Cervejas e bifanas e um gajo é feliz. Aliás, se formos mais fundo, de que serve ser Deus se não podemos comer acepipes gostosos e molhar o bico numa jola? Sem isso, não andamos cá a fazer nada.

Nisto, ordenou que se fizesse luz — vejam bem o estilo do bicho, nem se digna a levantar para acendê-la, ordena. Porém recordou-se que não havia criado nada. Precisava de gerar, pelo menos, uma espécie de criaturas que vivessem ao rés dos interruptores à espera de uma ordem. Em tempos idos, quando os pais mandavam, as crianças eram obrigadas a ficar junto dos interruptores. Eram noites bem passadas, “ordeno que se faça luz” e a criança despertava para a sua tarefa, por regra aos saltinhos. Caso fosse desprovido de humor, tais acontecimentos seriam suficientes para Ele carbonizar os seres humanos; felizmente Deus está em toda a parte, excepto no twitter. Não é que não consiga lá estar, porém decidiu que a Sua saúde mental não tem preço.

Fez-se luz. No entanto, um efeito inesperado: cegueira. Teve eternidades às escuras e de um momento para o outro tudo se iluminou: parece que é parvo, o ser divino. Os olhos, habituados ao breu, não aguentaram a novidade. O acto irreflectido sai-lhe caro. Apesar da luz, estava condenado a viver num mundo que lhe recorda o início. É evidente, podia curar a cegueira num estalar de dedos, todavia a cegueira tinha um propósito: recordar-lhe do erro crasso. E além disso anda a monte porque lhe chegou a factura da EDP do Big Bang. Nem Deus, que pode tudo, tem dinheiro para custear a despesa. Há quem diga que tem vivido os últimos milhares de anos mascarado de Testemunha de Jeová. Jogada de génio, assim ninguém se aproximará d’Ele.

sem feriados e sem milagres

 


Roberto Gamito

07.11.21

Durante muito tempo, virei costas ao oceano da angústia. Só muito mais tarde, após as rugas conquistarem o meu rosto sem que daí resultasse qualquer oposição, esgotadas as rotas e trajectórias, eu que fui célere e letal qual projéctil e lento e paciente qual monge do deserto, descobri a verdade: não era senão uma ilha. Preferia não ter de me cartografar nem inventariar os bichos que me escolheram como habitat.
Destino ou livre-arbítrio são legendas possíveis, porém o quadro não deixa margem para dúvidas. Há um homem no leme, todavia o homem é cego. Assim sendo, o livre-arbítrio é uma paródia sem fôlego do destino.
Sou partidário da ideia de Nietzsche, apesar de tudo, esse magro tudo, urge dançar. É na orla entre a possibilidade e o nada que o mundo se faz. Eis-nos chegados ao país da espera, onde os Homens nascem ou definham. O limiar é, pois, uma máquina de fabricar ou exterminar gigantes.

A angústia é uma luz intermitente, como se fosse um animal que passasse o tempo nos meandros da carne, no nosso corpo, pronto a saltar cá para fora, aproveitando o deslize de um lapso, um gaguejar, um qualquer engarrafamento de temperaturas na língua, bastando para tal que enfrentemos desarmados o nosso reflexo. Com efeito, o nosso reflexo é uma espécie de veneno que se infiltra paulatinamente nas nossas congeminações, um vândalo em crescendo prestes a incendiar as nossas vulneráveis convicções. Basta para isso que nos demoremos diante do espelho.
Se indefesos e sem máscara apta a nos proteger da verdade, o reflexo faz-nos embarcar e navegar nas águas profundas das possibilidades, nas quais passado, presente e futuro se interpenetram tempestuosamente.

A odisseia de Ulisses e o labor de Penélope levam os neurónios à ebulição. A memória que faz e desfaz como Penélope, sabe-se lá à espera do quê ou de quem — Ulisses e a Morte entre os candidatos —, e revela a verdadeira identidade do chão sólido: areias movediças, parentes menos poéticas dos grãos de areia da ampulheta. Nos territórios da memória, situados em coordenadas incertas onde o mar é mais revolto, estamos sozinhos. Quando muito, vemos os outros seguirem-nos nas margens, primeiro como seres humanos, de seguida como vultos, depois nomes, e por fim como sílabas insípidas de um tesouro há muito perdido e indizível. A memória é um labirinto fluído, os demais permanecem na nossa vida como histórias ou como migalhas, à semelhança de Hansel e Gretel. Porém os dois corvos de Ódin, o pensamento e a memória, não nos facilitarão o regresso.

Estamos condenados e o verniz da sanidade ameaça estalar. Amiúde gosto de imaginar a figura de Teseu a dançar no centro do labirinto com a cabeça do Minotauro. Uma vitória magra, suficiente para nos alimentar o ego durante algumas horas. E depois?

Ambicionamos duas coisas: estar à altura da nossa idade e estar satisfeitos com o passado quando chegados à antecâmara da morte. No pino da empáfia, tentamos criogenizar algumas das possibilidades, a maioria engendradas pelos sonhos, elas que, se não lhes cortarem as pernas, podem ser as sementes do melhor mundo possível; entrementes, resgatamo-los, aos sonhos, para um futuro onde, pensamos nós, seremos mais capazes. Ao longo dos anos, o cadáver da vida sonhada mantém-se conservado num caldo de promessas, porém, aos poucos, a mente dá uma guinada rumo a um estágio infernal e, sem darmos conta, consumimos esses ocupantes criogenados. O sonho transforma-se em ração destinada à cólera ou à depressão.

Sobre todos os cumes da dúvida paira, ainda sem rosto, a possibilidade de recompensa. Por conseguinte, andamos aos círculos atiçando a oportunidade de salvação. De cima, os abutres repetem passo a passo a nossa jornada repetitiva, como se escarnecessem da nossa demanda.

Atena é a deusa da sabedoria e da fiação. Sabedoria, fazer e desfazer, eis a memória decomposta em partes mais simples e eis outro modo de retratar Penélope trocando o pincel pela pena. Para cá é para lá, para a frente e para trás, qual barco embalado pelas ondas, um pêndulo ou um baloiço à beira do abismo, um ritual cujo fito é afastar o depois amargo, que é como quem diz, a morte.

Ontem amavam-se e hoje encontram-se num estado de inércia fatalista.

Volvidos alguns capítulos desse romance narrado pelo vento, os dois conversam numa esplanada de um café de toldo carcomido, é trocado um punhadinho de frases feitas onde ontem a paixão ensaiava poesia. É notório que ambos buscam no olhar do outro a ponta solta desse amor que se lhes escapuliu. O mundo goza de uma pausa quando, apenas temporariamente, duas pessoas tentam enlaçar as suas biografias sensaboronas num apetitoso romance de grande fôlego.

Sem que nada o fizesse prever, a década tornara-se numa sala de espera onde animais e homens se acotovelam à espera de uma metamorfose capaz de lhes conferir asas. Eis a promessa do amor: a Metamorfose. Ansiamos despertar do casulo do amor outra criatura, um animal sem grilhões.

A que espécie de hibernação se sujeitam os homens contemporâneos para que deixem fugir o amor durante décadas? Não respondam, mergulhem antes nesse silêncio, ó meus apneístas nocturnos.
Possivelmente, a ideia de ressurreição de Cristo foi a derrocada do amor. A noção de que algo pode esperar — e o mundo contemporâneo é feito de sucessivos adiamentos com vista a uma promessa futura colossal (um paraíso posto nas prateleiras a preço de saldo) — sem sofrer os danos e a erosão das garras do tempo. Em boa verdade, somos confrontados com a acerba realidade: não conseguimos trazer a vida à tona da morte, as sucessivas exumações inúteis levadas a cabo pela memória só alimentou a dor a horas certas e, finalmente, o reconhecimento de que, após uma longa espera, o mais que logramos resgatar das cinzas é o belo mas putrefacto cadáver do amor.

Entre a morte e o amor, o homem só tem duas escapatórias: definha ou cresce. Nesse sermão levado a cabo pelas sombras canoras, também os nossos mortos nos tentam ludibriar — já não bastava o Diabo. No particular do artista, a folha em branco é o ponto de encontro com os nossos mortos, vivos, mundos teóricos e projectos de metamorfose. Embora inútil, o artista não desiste da possibilidade de inventar uma fórmula que faça as vezes do amor. Vivemos empacotados na dúvida de que nunca seremos suficientemente bons para cantar a altura posta em queda que nos devorou as asas. Todavia é preciso continuar a dançar.
Num mundo sem heróis, só os amantes desafiam as proibições e os algozes. Extintos os fogos do amor, o homem foge da transgressão rumo a províncias maquinais. Não é por aqui que me tenciono perder.

Campeões da lamúria, apressados e hesitantes, carambolando entre não ter tempo a perder e o medo de escolher mal, o homem crê ver a Medusa no reflexo e paralisa.

Em face deste jardim de estátuas, devemos ser capazes de manter a dança, o coração e a cabeça, combater a compulsão para a aceleração, esquivarmo-nos das massas e encetar coreografias de autor.

Antes que o tempo nos despache como incapazes, encaremos a vida — o labirinto em expansão — como uma pista de dança apinhada de aves de mau agoiro.

Sopé dos últimos dias, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.11.21

Antes de mais, é admirável, embora pouco, que os arautos da mediocridade sejam os promotores histéricos da arte, da política e de tudo o que mexe. Não podemos chamar estúpido a qualquer pessoa, há critérios pelos quais devemos separar o trigo do joio. Todavia, ao contrário da felicidade e da riqueza, a estupidez está ao alcance de qualquer um. Inspirada no capitalismo, a estupidez segue uma lógica expansionista. Eis a turba de Napoleões com os copos. Belo quadro! Pintem vocês que o meu pincel foi de férias.

Por preguiça, por falta de tempo, também por falta de talento ou de massa cinzenta, ou por um conforto intelectual que reside em atar em vez de desatar, sou obrigado a confessar-vos que careço de ideias capazes de combater a estupidez.
A conversa, o debate, o diálogo, a troca de ideias, a controvérsia são velhas práticas votadas ao abandono, logo não se perde muito se persistirmos nos terrenos na ambiguidade.

A nossa relação com o tempo, sobretudo o tempo morto, tumultuou-se. As pausas são percepcionadas como estorvos e fazemos de tudo para as obliterar. O pensamento desabrocha nas pausas, no tédio. Esses interlúdios entre dois trabalhos chatos onde fantasiamos sítios, monstros e ideias. A lentidão e a espera são uma espécie de adubo destinado a fertilizar a mente. Esse lado verdadeiramente humano aproxima-nos das plantas — precisamos de tempo e luz para crescermos. Sem pausas, a voz que fala é uma voz desafinada. Doravante ficará impossível chegar ao estágio de animal cantante.

Joga-se algo de muito essencial na tentativa de o Homem contemporâneo expurgar o imprevisível. No regime rápido, sem pausas, dá a ideia — melhor dizendo, ficção — de que somos reis e senhores da nossa vida. O mundo afunila-se, perde espessura, em suma, torna-se unidimensional. Só num mundo despojado das suas várias dimensões é possível retirar o factor de imprevisibilidade da equação. Esse mundo, como é fácil de entender, não existe, é um paraíso artificial. Daí que o resultado fique aquém do esperado. Presentemente, o imprevisível, quando surge, torna-se ainda mais dramático, dado que foi dado como animal extinto. A tentação é olhar para o lado, fingir que não existe, puxar da carabina e liquidá-lo.
A propensão para a literalidade, tão própria do Homem do século XXI, é um retrocesso monumental na nossa relação com o mundo. Regressámos ao instinto. A renúncia ao instinto, termo cunhado por Freud, o qual está no princípio de toda a concepção simbólica, já teve o seu momento. Num mundo sem pausas, sem esperas só o instinto pode triunfar. Eis a nova dinastia dos bárbaros.

 

Animal sem pausas

 


Roberto Gamito

04.11.21

Luís Carmelo, Tertúlia de Mentirosos

Luís Carmelo. Escritor.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: livros e livros diluídos, o leitor é um animal em vias de extinção?, verticalidade dinamitada e horizontalidade pós-moderna, Gnaisse, clássicos e livros novos, metáfora e o salto, pensamento nómada, o jornalismo e as redes sociais, um mundo sem memória nem futuro, literatura portuguesa e o humor, o humor envelhece mal?, universalidade e a tentação de responder à própria época, experiências da intensidade.

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.

 


Roberto Gamito

04.11.21

D., vedeta da época, autor de livros valha-me deus, pontual quando o assunto é pôr os pés pelas mãos, sortudo, herdou a genética dos melhores contorcionistas, salta de imprecisão em imprecisão qual Tarzan de liana em liana, é conhecido por marimbar-se para a verdade e não ter pejo de pronunciar as maiores baboseiras. Sucintamente, um palerma com obra feita.
A palavra de ordem deste novo catecismo do óbvio é: o mau é mau e o bom é bom. Onde está bom — não faz diferença nenhuma aos míopes que grassam no nosso século — pode estar bem.
Não nos precipitemos a ajuizar de infantil este tremendo mandamento, o qual mais não é que uma versão caseira todavia sensaborona de umas linhas de Trótski: “tudo o que decide a revolução é bom, tudo o que a contraria é mau.”

Ao contrário de prosadores de outras épocas, cujo calibre era suficiente para matar elefantes e cornacas, os quais se passeavam nas frases de tronco nu a espumar de virilidade, a nova vaga de doutrinadores é incapaz de despentear uma ideia. Quando muito, faz o óbvio ululante ronronar. Falta-lhes fôlego para pôr o mundo na escrita. Desafortunadamente, o ego ocupa-lhes a língua toda.

Outrora, quando a esquerda era esquerda, e a direita ia além da fachoesfera (nomenclatura dos ideólogos formados na faculdade do twitter), o Homem — e mesmo o homem sem qualidades (perdoem-me a redundância) — era capaz de trocar dois dedos de conversa, cavaquear, errar, dialogar, pôr o seu miolo por extenso. Do outro lado, espantem-se, mas espantem-se sem mostrar muito o serrote, não vá a máscara rachar, não havia cheerleaders a aplaudir cada sinapse, mas sim o opositor a dar-lhe outra visão com veemência.

Como tudo se repete, e a tirania não é senão uma moda que vai e vem, não mentiria se dissesse que há algo de Gulag no pensamento contemporâneo. Há lá coisa mais bela que condenar sem pretexto algum, por causa de tudo e de nada, por uma coisa ou outra, não importa o quê, por uma bagatela, uma denúncia, um arbítrio, um capricho de donzela ofendida, em suma, julgar uma vida atirando uma moeda ao ar.

A odisseia do inumano possui dimensões por desvendar, oculta que está pelas cinzas dos que morreram injustamente, é um caminho longo que atravessa todas as épocas sem excepção. Há sempre alguém a pugnar pela humanidade, adiantará alguém. Não obstante os murmúrios nas margens, o Homem vai sempre no sentido de aperfeiçoar a máquina de tortura. Hitler, cujos números são citados em qualquer documentário ou TikTok, Mao, com os seus 50 milhões de mortos e Estaline e quejandos com os 100 milhões de almas.

Sem dúvida que às cegas, como quando apreciamos vinho depois de bêbedos, não sabemos comentar as frases tontas, a saber: “sairemos deste ou daquele episódio trágico melhores pessoas?”, questiona o pacóvio.
Se há coisa que a História arrumou nas suas enormes e abauladas prateleiras foi tragédias, pelo que podemos dizer, sem medo de errar muito, que a Escola da Tragédia foi incapaz de formar um Homem bom.

Copérnico, plagiador da comédia, afastou o Homem do centro do mundo; Darwin, do cume da evolução; o cancro da pele, do Sol e por fim, o século XXI afastou-nos da ideia de salvação.

O Homem é capaz do melhor, porém, não lhe sai naturalmente, ao contrário do mal. Mesmo as melhores ideias, mesmos os seres humanos mais bem-intencionados são rasos se não levarem em linha de conta que cada projecto de paraíso traz consigo outro inferno.

De que mãos sairá o livro que destruirá as mitologias do século?
E não serão estas mitologias as mesmas de sempre, mas desta vez invulneráveis? Estas e outras questões serão respondidas no meu workshop “O Capitalismo é Mau, mas a inscrição são 300 paus”.

E não será a história da tirania a história da frustração? A frustração e o ressentimento, que há rodos neste século, são viveiros de sátrapas. Hitler foi um pintor frustrado, Mao, um poeta falhado e uma espécie de bibliotecário. Rezemos para que um humorista falhado nunca chegue ao poder, seria o fim do mundo como o conhecemos.

 

Autos-de-fé, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

03.11.21

Em tempos idos, fui crítico das camisas aos quadrados usadas pelos velhotes. Admito a pobreza da minha opinião, não estava a ver o quadro todo. De facto, o velho de camisa aos quadradinhos é uma oportunidade subaproveitada. O velho é um animal que se dá mal com a gravidade, pelo que é comum vê-lo no chão com os ossos partidos a estrebuchar. Das duas, uma: ou ajudamos o velho de modo a que este caia cinquenta metros mais à frente — quanto a mim, trabalhar para o boneco — ou usamo-lo como uma toalha de piquenique. Do ponto de vista ecológico, e a Greta não me deixa mentir, é uma postura irrepreensível — a reutilização do velho.

Certamente já foram acometidos pela vontade de petiscar um panado e um Sumol durante a hora de almoço no meio das ervas. Planear um piquenique tradicional dá muito trabalho, mas o velho de camisa aos quadrados oferece-nos uma solução expedita.

Não é de admirar que o velho se sinta ofendido numa primeira aproximação; de facto, poucas pessoas há com vontade de servirem de banco e de mesa — e é por isso que o mundo está como está. Porém, com um pouco de negociação, e após uma torrente de insultos, o velhote entenderá os benefícios desta nova abordagem à sua farpela. O velho é um bicho exageradamente social, não lhe podemos negar a cavaqueira, estamos com o rabo e o farnel em cima dele, é o mínimo, somos humanos. Proponho esta simbiose entre o velhote e a nossa vontade de merendar em qualquer sítio.

A mensagem será disseminada como um boato numa aldeia e dentro de poucas semanas todos os velhotes do mundo saberão da boa nova. Ó admirável mundo novo! Um mundo em que homens feitos vagabundeiam na rua e os velhos tombam à sua passagem, ansiando que os usem como toalhas. É chegar a uma sala de espera e ver os idosos a tombarem como pinhas. Que visão deliciosa!

Esta ideia é de tal maneira genial que prevejo que a oferta ultrapassará em muito a procura, pelo que a pessoa comum ficará mais selectiva. Um velho pançudo pode ser óptimo se a intenção for bater uma sorna, mas péssimo para pousar copos. Eis a minha contribuição para um mundo melhor.

O velho com a camisa aos quadrados

 


Roberto Gamito

02.11.21

Inspirado na frase de Shiki, poeta japonês, mestre em haikus e em tankas, resolvi aquecer as unhas garatujando uns humildes poemas breves. Citemos, então, a frase: “Sinto a dor e vejo a beleza”.

A ideia da beleza apesar da dor interessa-me muito. A dor, grande ou minúscula, não deve ser capaz de nos cegar. Caso contrário está tudo perdido.


1.
a criança
abriu os braços
e o mundo expandiu-se

2.
na boca um começo
no começo uma vida
na vida a guilhotina

3.
por entre os pinheiros
o vento apresenta-me
os caminhos inéditos

4.
a rã no tanque
a imaginação e de supetão
o cachalote nadando nele

5.
o cio dos gatos
rasga o silêncio nocturno
em mil e um bocados

6.
uma mão
uma só mão
deita abaixo os muros

7.
velha de joelhos
deus surdo
vida inalterada

8.
há uma ponte
mas o cavalo
não se fia em metáforas

9.
da ponte
avisto um muro —
suicídio

10.
pouco peixe no rio
fome duradoura
tornado atulhado de achigãs

11.
que dimensão
tem o amor
num poema tão breve?

12.
mão a laborar
argila desconfiada
busto desfeito

13.
a brisa sopra
todavia é o tornado
que habita o pensamento

14.
o mundo sempre de costas
quando olhas para ele —
não despertas qualquer interesse!

15.
a Primavera chega
e na mesma tarde
os corvos crocitam

16.
cala-se o poeta
todos regressam a casa
sem palavras

17.
esmago mosquitos
contra as folhas
do tratado de paz

18.
fracasso —
uma cama gigante
para um

19.
livros de guerra no chão
e eu no seio deles
a dormir a sesta

20.
herói sazonal
vitória momentânea
guerra duradoura

21.
escrevo
na companhia
dos dias abortados

22.
competindo pela minha atenção
pardal e criança
ambos aos saltinhos

23.
o poeta sazonal
agarrado à Primavera —
que desilusão!

24.
a sombra
inspirada na sombra da casa
à sombra do poema

25.
paixão recente
nova luz
a entrar pela janela

26.
o mundo antigo
é fresco
para quem se demora

27.
o vento
é uma ave
incapturável

28.
sem necessidade de magia
o poema de amor
pôs a mulher a flutuar

29.
sou acordado
pelo ontem
e adormeço sentado

30.
quando a depressão
foi exorcizada
a vida já lá não estava

Dor e a Beleza, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

01.11.21

Comendo como gente grande as migalhas reservadas aos pardais, ao mesmo tempo que penso na fartura, afasto-me aos saltinhos de temas como a política, economia, sociedade e seus meandros. Não tenho dentes para assuntos tão duros.

A leveza com que encaro o meu fracasso como opinador assanhadamente contemporâneo diz muito sobre a vidinha dum gajo: desprezo pelas deixas vozeadas num tom de tenor e cambalachos nos bastidores dos palcos das ditas causas nobres não me seduzem. Sou mais inactual que um fóssil.

Muitos houve que dividindo a mão raquítica entre a arte e os copos não foram além de uma obra medíocre. Um livrinho a raiar o afónico, recebido pela crítica com céu nublado — que é como quem diz, sem estrelinhas. Mais maduros, já que a madurez, em calhando, também ataca o homem, abdicaram do caminho estéril da arte para se focar num outro, o bem mais promissor caminho da carraspana crónica. Quantos bêbedos famosos não devem a sua fama a tão difícil decisão. Abandonar a escrita em detrimento da bebida não é uma decisão tomada de ânimo leve. Ambas estavam lá no início. No início, não era o verbo, mas o copo de tinto. Em todo o caso, o mundo da bebida continua a oferecer mais oportunidades que a província exígua das artes. Já para não falar das cunhas. No mundo da bebedeira, o aspirante a bêbedo só necessita de vontade e disciplina. Se visto assim, o mundo das cadelas líquidas é possivelmente o último reduto onde a meritocracia consegue prosseguir a sua obra.

Quanto à verdade, procuram-na com avidez, não ficando atrás de filósofos e cientistas. Em obediência a estes novos factos, somos obrigados a remodelar com quadros e flores a nossa opinião em relação aos bêbedos. Num mundo de hipócritas, que os há aos pontapés e debaixo de qualquer pedrinha, o bêbedo é o herdeiro da iluminação, messias cujo labor é oferecer a verdade ao míope — ao sóbrio que nem uma toupeira —, a qual, tal como as saídas das mil boquinhas da ciência e da filosofia, não se percebe nada. Citemos Shiki, poeta japonês, a fim de dar aquele ar de falsa erudição: “Sinto a dor e vejo a beleza”.

Canta um galo, ao longe. Todavia, nestas províncias mais humildes, o dia do bêbedo ser reconhecido como sábio ainda não chegou.

Bêbedo e a verdade, Roberto Gamito

 

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