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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

09.12.21

No riso, a dor desaparece. No fundo, o humorista aproveita a surpresa para se enfarpelar de médico e prescreve uma breve ficção apinhada de solavancos. A criação de uma situação cómica como meio terapêutico. Após este ritual, podemos retomar os nossos afazeres de Homem esfarrapado, isto é, permanecer vegetando numa viciante dependência de entretenimento e outras formas de ópio.

Sofro, logo existo, eis a marca do Homem contemporâneo. A dor é a prova de que estamos vivos. Não é uma dor qualquer, é a nossa.
Quais Napoleões tardios, surgem os açambarcadores das dores alheias.  Mais dor, mais dor!
Se adoptássemos a ideia de que o sofrimento é o melhor professor, estaríamos diante dos alunos mais empenhados.
No entanto, a dor, que amiúde torna homens verdes em homens precocemente maduros, tem o condão de obstaculizar o pensamento.
A dor é a legenda do corpo. Cinicamente falando, na dor o homem é livre: ninguém me pode impedir de sofrer, eis um raciocínio de um ser desocupado.

A dor suspende o pensamento. Na dor, o outro desaparece. As palavras afiguram-se rombas, são incapazes de descrever a dor. O grito enquanto dialecto do corpo, dos ossos e da carne. Só o lado animalesco — o grito — é capaz de dizer a verdade. O grito enquanto poesia intraduzível.

 

Grito, Dor e pensamento, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

08.12.21

O Homem é um animal escandalosamente mentiroso. Este raciocínio, perfeitamente defensável — tal como, aliás, o seu contrário — pode terminar num pensamento em relação à fragilidade da palavra. Não obstante o esforço do ser humano, a verdade foge-lhe sempre entre os dedos. Todavia não nos precipitemos a inocentar o Homem, caso contrário teríamos de fechar os tribunais e mandar muito martelinho para o desemprego.

O poeta, se quer merecer o seu nome, deve, em primeiro lugar, perder o pé antes de cantar. O intérprete, seja ele engravatado ou um arúspice, que é como quem diz, uma espécie de sacerdote cujo labor é ler o futuro nas entranhas dos outros, labuta no sentido de iluminar o que a dúvida obscureceu. Em todo o caso, por cada feixe de luz há uma ninhada de sombras que nasce. Se o arúspice é um embusteiro, é questão que não nos compete solucionar, seja como for, ao menos faz um óptimo trabalho ao massajar as miudezas.

A felicidade é a ficção ao alcance de literatos e analfabetos.
Actualmente, em virtude de o Homem não suportar o eclipse, existe a obrigação de conservar o sorriso o maior tempo possível. A simpatia é um exercício de resistência — esboçar o sorriso enquanto o mundo interior é dominado por vândalos.
Ninguém, a não ser os médicos, quer ouvir as crónicas das guerras interiores.

A felicidade é algo incapturável e efémera, qual ave feita de espuma. Em certos momentos-limite (a nossa era está prenhe deles, uns reais, outros ficcionados), guerras, pandemias e picos de desigualdade económica — ser feliz é quase rebelar-se contra a atmosfera colectiva. Só não é punível com pena de prisão porque ainda não é mensurável. No dia em que se inventar a ciência da felicidade, aparelhos para a medir, cientistas tristonhos empenhados a criar a felicidade do zero, o Homem será multado ou preso se for além da felicidade permitida. Num mundo cada vez mais almofadado, a felicidade transforma-se em veneno. O corpo assustadiço é incapaz de conviver com a felicidade do Outro — esse bicho estranho em virtude da felicidade.

A polícia manda-nos encostar o carro.
Polícia da felicidade: Boa noite.
Pessoa feliz: Muito boa noite.
Polícia da felicidade: Ui, vejo que temos um caso grave. Não se importa de responder a um inquérito?
Pessoa feliz: Disponibilizo-me sem entraves, adoro preencher inquéritos.
Polícia da felicidade: O caso é mais grave do que eu pensava. Amigo, você não está capaz de viver em sociedade.
Pessoa feliz: É por causa da minha poupa?
Polícia da felicidade: Não, a poupa está no limite, mas passa, mas a sua felicidade não está condizente com o ego colectivo. Então o mundo está como está, a esfarelar-se todo, são guerras, é a pandemia, são as desigualdades económicas, as alterações climáticas, a extinção dos sapos e você aparece-me com um sorriso desses? Estou em condições de o pôr na choldra.
Pessoa feliz: Não faça isso, tenho filhos para criar e canários para alimentar.
Polícia da felicidade: Então prometa-me que ao sair daqui vai para a taberna tecer comentários azedos sobre os nossos políticos, rematando cada frase com “isto assim não pode continuar!”
Pessoa feliz: Não minto, não vai ser fácil, mas pelos meus filhos abdico de ser feliz.
Polícia da felicidade: Pode ir, mostrou-se arrependido, que isto sirva de exemplo.

Em jeito de achega final, a felicidade pode ser entendida como uma incompatibilidade entre os nossos interesses e os dos outros. Dentro desta linha, aconselho a infelicidade a quem deseja permanecer camuflado e sem problemas na sociedade.

Pensar, bárbaro costume que põe o homem em sarilhos é a coisa mais debilitante e nociva, causa doenças e confere-nos rótulos amesquinhadores, isto é, a forma mais rápida de nos expulsarem da festa dos nossos dias. Estamos aqui à beira de uma proposta, em tom satírico, daquilo que podemos designar como venenos: pensamento e felicidade.

O Homem deixou de pensar e curou-se, eis o que dirão os médicos do futuro. Em caso de doença, a verdade surge como um punhal. Jaspers disse algo como “o médico só tem o direito de dizer a verdade se o paciente aguentar”. Ora, presentemente, vivemos numa altura em que ninguém sabe lidar com a verdade. Assim sendo, de que vale saber a verdade se não a podemos contar a ninguém. Desconfio que a medicina transformar-se-á num workshop de um fim-de-semana. Não há necessidade de acertar, de dizer a verdade, só interessa manter a mentira viva.

Regressemos à palavra. A palavra afasta o Homem da verdade; quanto mais agarrado ao seu estatuto enobrecedor, mais mentiroso é o Homem. Não obstante conseguirmos ludibriar o outro com discursos envernizados, há habitantes do nosso corpo que nos desmascaram, a saber: sangue, fezes e urina.

Face a esta inquietante verdade, fica difícil contra-argumentar os artistas contemporâneos que vêem na merda a sua matéria-prima. Ao contrário da palavra, a urina e as fezes são mensageiros incorruptíveis da verdade.

A análise à urina oferta-nos uma espécie de relatório do mundo interior do Homem. O interior é decomposto em substâncias e números. A urina é péssima amiga, não saber guardar segredos. Enchemos o bandulho, cometemos loucuras no campeonato gastronómico, seja doces, seja fritos, e ela desmascara-nos, contrariando a nossa ladainha: “Não, senhor doutor, eu não comi fritos, eu é mais brócolos e favas.”

Mija neste boião e dir-te-ei quem és.

Felicidade, palavra, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

07.12.21

Nasce a piada. Num ápice, surge o discurso sobre o humor que gera por sua vez um discurso sobre o discurso e por aí vai. Assistimos de mãos e pés atados — embora possamos contribuir à nossa maneira em cada uma dessa novas vagas de interpretação — à tradução por parte de intérpretes míopes — não há outros.
Supondo que o humor sobrevive no discurso apesar de se afastar do centro, isto é, da piada que lhe deu origem, pese embora mais raquítico, temos um desporto elevado à potência n.

Encarcerada no centro, a piada revela a sua natureza primeva, o seu pendor para a queda, e aproxima-se da figura do Diabo no nono círculo de Dante. Humoristas de primeiro círculo, de segundo círculo,... humorista do nono círculo. Do centro para a periferia, os intérpretes de natureza assustadiça, não vá a piada rachar-lhes o mundo em dois, diluem a eventual maldade que a piada possa transportar. É um desperdício lúdico que pode ganhar contornos competitivos. Enceta-se o concurso: “Achas que sabes desmantelar a piada?” Surgem homens de todos os quadrantes da estupidez para a desmembrar. Regozijam-se nesse ritual como pequenitas hienas. Todavia não riem.

Com a lente errada, a piada surge apinhada de erros. A lente certa dar-nos-ia o seu propósito, porém isso não gera gritos e avalanches — tão ao gosto do Homem contemporâneo. O processo torna-se muitas vezes circular e respostas à piada metamorfoseiam-se, num ápice, em novas perguntas. Eis-nos chegados ao âmago da natureza humana: persistimos náufragos, não há nada de sólido neste oceano imenso que é a vida.

Uma das críticas mais frequentes em relação à piada danosa é esta ser mais do mesmo. A dinâmica é simples: ataca-se o lugar-comum com mais lugares-comuns. Amputa-se a sua estatura com rótulos mesquinhos. A estranheza não é bem-vinda, venha ela de onde vier, seja da piada, seja da interpretação. Mais uma vez o medo que a piada suscita no Narciso. Urge encasular a estranheza num sudário de miragens, não vá o reflexo benfazejo esfumar-se.

O intérprete pitosga esqueceu-se da natureza do bobo: profundamente subversiva. Se à primeira vista parece um lugar-comum, é porque tal foi o desejo do laracheador. O derradeiro propósito do humorista? Introduzir, camuflada, a novidade no armazém dos lugares-comuns e imolá-la com uma fagulha de surpresa. De supetão, incendiar a arquitectura das vossas certezas…
Mas até o incêndio pode ser interpretado, diluído, enjaulado num porquê — eis o jogo infinito.

A Piada é o Diabo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

06.12.21

A velocidade adultera tudo. Dá-nos a percepção errada do tamanho, mescla cores e divisórias, alucina-nos com visões de grandeza. A ideia reconfortante de ir de um sítio A para um sítio B num período gradualmente mais pequeno. Se ilimitada, o caminho enquanto montra de pontas soltas é ridicularizado. O tempo torna-se incapaz de separar o sítio A do sítio B.
A simultaneidade de todas as coisas — eis-nos doravante a habitar a cabeça de Deus.

Nascemos entre dois tiros de partida. Curar-nos-emos da nossa faceta de atleta na condição de permanecermos quietos. Horizontalmente quedos. Em todo o caso, a imobilidade não é sinónimo de avanço. Urge encontrar a velocidade ideal para gerar pensamentos. Teoricamente, cada ser humano terá a sua.

Fazer uma listagem de movimentos, movimentos exteriores e movimentos da mente. Que ligações há entre os dois? Inventariar as danças exteriores e as danças da mente. Equacionar um salão de bailes onde as pessoas ensinam outras a pensar. Locais onde o ser humano pudesse comprar novos passos.

Pensamento engessado não é pensamento. Curar-nos-emos do óbvio na condição de nos afastarmos da multidão. À nossa frente, surge-nos a montanha. Se lhe queremos dinamitar a altura, basta devorá-la. Abandonar o arsenal de pensamentos úteis, à mão de todos, do qual nos devemos afastar e entregarmo-nos a experiências inéditas.

Do salão de bailes que é a tua mente, vê se escolhes o teu par — a ideia — mais importante, que é como quem diz, que dê mostras de querer dançar até de madrugada. Evitarás assim o ridículo de chorar quando, ao perguntares: “dar-me-ia a honra de uma dança?” o eco te responder um valente “não!”

Pensamento e Saão de Bailes

 


Roberto Gamito

04.12.21

O sábio basta-se a si mesmo, escreveu Séneca, o qual chafurdava na abastança, em Cartas a Lucílio. Cinicamente falando, poderíamos aventar a hipótese de estarmos diante do antepassado da célebre frase que os ricos lançam aos pobres: “o dinheiro não traz felicidade”.

No mesmo livro, outra frase: “depender apenas de si próprio para não depender da sorte”. A sorte, filha do acaso e do português, dado que não tem horas certas para chegar, é caprichosa. É ingénuo pôr todas as fichas na sorte, tal como a esperança, baseia-se numa promessa venenosa.

Depender tão-somente de nós próprios é igualmente uma jogada arriscada. Por outro lado, como escreveu Novalis, estamos sós com tudo aquilo que amamos. Mas estaremos verdadeiramente sós? No início, temos homem e obra, no entanto, à medida que os laços se estreitam, da mesma maneira que o homem influencia a obra a obra influencia o homem. A escassos centímetros da folha — a presença simultânea de todas as coisas e a tensão de uma decisão que se avizinha. Não sei onde acaba a mão do poeta e onde começa a folha.

Tal como o rico acredita ser das dimensões das suas posses, o artista crê ser da dimensão da sua obra. Quando o homem apodrecer, o rosário de obras cercá-lo-á qual linha de giz numa cena de crime: eis a sua verdadeira estatura.

O rico que é enterrado com os seus pertences: sou pequeno, porém quero que me vejam partir como um gigante.

No caso do poeta, a sua tentativa é verter para o papel a sua dimensão oculta, não através do artifício dos pertences, mas de poemas. Eu sou da dimensão dos meus poemas. Todavia a dimensão do poema é dependente da interpretação. Para uns, o poeta terá metro e meio, para outros, quilómetros.

Tal como num antigo suplício, o artista está atado a um cadáver, eis a tortura-ginásio gerada graças ao convívio com a morte.
O cadáver esquisito ao qual estamos atados é composto por: influências, demónios, possibilidades abortadas, passado, infância, o espinho do futuro impontual. E no entanto este Atlas franzino move-se…

Queira ou não queira, no fim será um homem só. Enquanto artista, experimenta um ou vários olhares únicos. Seremos escorraçados de um grupo se conseguirmos ver algo de significativamente diferente. Eis a definição de grupo: conjunto de pessoas que partilham a mesma visão. O grupo não admite flutuações no dogma. Das duas, uma: ou separa-se do grupo ou aceita ver o que o grupo vê.

A visão do grupo legisla em cima do joelho a ligação entre as palavras. Nesse cenário, a poesia sai empobrecida. Desligado da obrigação das fórmulas fixas, porque estas emperram a cinética da imaginação, o poeta é convidado a sair.

Sou da dimensão da minha obra

 


Roberto Gamito

03.12.21

Em tempos sombrios, o homem é engodado por pirilampos oportunistas. Melhor dizendo, o cadáver de Deus é reaproveitado como marioneta-farol. No caso de sermos ingénuos, diremos: a luz é sempre uma luz. No caso de sermos cínicos, questionar-nos-emos sobre quem comanda a luz.

O Homem é o cadáver esquisito coligido por várias gerações. Tem uma parte subornável, uma parte risível, uma parte medrosa, uma parte heróica, uma parte fluída, uma parte rígida, uma parte animalesca, uma parte cínica, uma parte romântica. Cada uma dessas partes tem a cabeça a prémio: não são apenas frágeis, flutuantes, províncias que podem ser atacadas, destruídas ou convertidas noutras partes.

Nenhuma lei determina o fim da sede de sangue nem tão-pouco extingue o animal que habita em cada um de nós. A lei é, a par de Deus, a maior ficção criada pelo Homem. Segundo Nietzsche, a lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Como vivemos num século em que o Homem é inábil em mastigar verdades mais duras, talvez seja útil amolecer a frase anterior: a aplicação da lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Se assim é, a justiça é uma ficção. Se a lei é incapaz de reparar injustiças, torna-se uma espécie de doença colectiva, pois a doença, nas palavras Deleuze, separa-me também daquilo que posso. É uma selva injusta: há animais livres a matar animais acorrentados.

Em O Homem que era Quinta-Feira, Chesterton, admirável prosador e ironista, chegou primeiro que o século XXI à encruzilhada desarmante: “Não acreditam que o crime criou o castigo, mas sim que o castigo criou o crime”.

A lei é o açaime educado que, ao ser plantada no mundo dos Homens, permite um certo grau estabilidade com o outro, permite a comunicação e o comércio e, no limite, agrilhoa o animal interior — por outras palavras, adia a sede de sangue.
A cobardia ou o cansaço permitem que a nova lei assente arraiais.
A lei torna-se assim, quase perversamente, uma área controlada, como um infantário, um dique que impede a expressão torrencial da força.

A lei é um tranquilizante, mais ou menos potente, disparado contra a fera que é o Homem. O seu fito é acalmar o nosso instinto violento que domina as relações entre seres humanos.
Todavia não tem um efeito duradoiro. O que a lei faz é adiar e não eliminar o instinto animalesco. As doses aumentam, porém a resistência do animal ao tranquilizante também. Até que chega o dia em que o animal apouca o efeito do tranquilizante e a lei se esfuma.

A lei tem como antepassado e herdeiro a violência. A lei é uma pausa entre duas carnificinas. É um recobrar de forças, um afiar de lâminas, é um afinar da barbárie.
O desejo de paz não é suficientemente grande para suplantar a sede de sangue.
A lei não opera no Homem uma conversão moral. Apenas torna o bárbaro mais paciente. Acreditar que a lei consegue domar a lâmina é uma narrativa ilusória.

No entanto, nem nos períodos de paz a violência é abolida.

Ortopedia moral, mais uma vez Foucault, isto é, endireitar o que é violento, porém endireitar é sempre uma operação violenta. O endireita não é senão um algoz de folga. Por ora contenta-se em provocar a dor no outro. Se obtivéssemos a caixa negra destes últimos anos, veríamos a ortopedia moral como ginásio onde espezinhamos os Homens e, indo mais longe, uma violência educada. Uma versão mais subtil da pena de morte que, nas palavras de Gonçalo M. Tavares, é um assassinato educado. Em suma, a lei é um viveiro de perversões subtis, até chegar o dia em que tudo se torna mais claro.

Crime e Castigo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

02.12.21

Sem ousadia estaríamos condenados a repetir o eco mais em voga. Falar, dialogar, escrever com excessiva prudência é prestar vassalagem ao eco, à norma, ao molde. No tocante à arte é um beco sem saída.

Demoro-me nos arredores da certeza. Ausculto disfarçado de médico o peito inchado do eco, palmilho as suas fileiras de lés a lés com o fito de perceber o que organiza os seres humanos, e eis a conclusão: o medo — um medo sem rosto. Se o eco não cresce até perder o rasto da sua origem, estamos diante de um problema. Pensar é engrossar uma ideia, uma frase, é acrescentar anéis concêntricos à árvore raquítica. Se o eco repele novos acrescentos, é seguro postular que enfrentamos um dogma ou algo que se lhe aparente. Pensar é o comércio de ideias, acrescentar frases à frase inicial, que é como quem diz, é desfigurar o eco e engrandecê-lo, parodiá-lo, testar os seus limites.

O Homem contemporâneo, animal assustadiço, está assombrado pelo fantasma da oportunidade perdida. Entretém-se em simulacros, eleva papagaios a messias e por aí vai.
Uma única verdade absoluta, afirma Hannah Arendt, se pudesse existir, representaria a morte de todas as discussões, ou seja, o fim da amizade, e por conseguinte o fim da humanidade.

Sempre que o Homem se convence que alcançou algo aparentado a uma verdade absoluta ingressamos nos palcos da barbárie. É uma questão de tempo até se afiar as lâminas. Em nosso auxílio vem Camus. “O cutelo converte-se em raciocinador; a sua função consiste em refutar. A guilhotina refuta as críticas; é a contra-argumentação do Estado”. Começam paladinos da virtude e acabam no papel de algozes.

As conclusões estão intimamente ligadas à nossa forma de olhar. Se há apenas uma conclusão significa que a biodiversidade de olhares se reduziu e se abeira da extinção. Olhar único é o mesmo que dizer cegueira. Ao contrário da cegueira, digamos, clássica, esta é uma cegueira arrogante. Um cego convencido que vê. Pelo olhar podemos desenhar um retrato acertado do observador. Podemos inventariar os seus medos, as suas obsessões, as suas falhas, os seus sonhos, em suma, no que entra e no que fica de fora do olhar habita o Homem.

Qualquer olhar único é equivocado e dá azo a mal-entendidos. Qualquer fenómeno minúsculo a que se dê muita atenção torna-se num elefante. Perder a noção da dimensão das coisas é um dos sintomas de um pensamento doente. Outro é tentar impedir a ligação. As ideias são como átomos: procuram a estabilidade. Não confundamos com cristalizações. No respeitante às ideias, essa procura pela estabilidade nunca cessa.

O pensamento é bastas vezes diminuído e estropiado, em sítios mal frequentados, substituído por simulacros esfarrapados, de molde a que os embusteiros subam mais um degrau no estatuto.
Qual é o lado risível disto tudo? Cegos para a ironia e para a metáfora (convém relembrar que etimologicamente metáfora significa o transporte de um lado para outro, o salto, se preferirem, ou ainda, a não obrigação de percorrer todos os milímetros entre o ponto A e o ponto B); crêem ser galgos nas pistas da literalidade tão em voga nesta Sociedade do Cansaço, quando na verdade estão de mãos e pés atados à cadeira da sua cegueira.

Com a literalidade o mundo perde espessura, o leque de visões diminui drasticamente, por conseguinte a razão é criogenizada numa hierarquia. Surge, portanto, a ditadura da visão única. Que é como quem diz, o eclipse da razão.

Ditadura da Visão Única

 


Roberto Gamito

01.12.21

Virás do céu profundo ou surges do abismo,
Beleza?!
O teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

O poema de Baudelaire elucida-nos quanto à beleza, é simultaneamente paradisíaca e infernal. Embriaga e é fluída como o vinho. Em linguajar de taberneiro, a beleza foi e será pau para toda a obra, seja na filosofia, seja na poesia. Tanto agarrou o papel de norte como de demónio a ser exorcizado.
A relação homem-beleza é suficiente para medir a pulsação do século, oferece-nos um belo retrato da nossa ingenuidade, da nossa descrença, clarifica a nossa relação com as coisas terrenas e aéreas.

A beleza é ponte e engodo. Façamos uma pequena paragem, mas não nos deviemos do assunto central da crónica.

A beleza é uma província onde tudo é outra coisa. Estranhíssimo, não é? A beleza tem o condão de fuzilar o raciocínio, recordem-se, por exemplo, da última vez em que se apaixonaram. A beleza convida o Homem a entrar nos seus domínios, porém o cinismo fica amiúde à porta. Se unida à paixão e ao desejo, a beleza atordoa-nos num misto de caos e ordem, obriga o poeta a novas combinações na língua e na mão, força-o a escolher caminhos antes empoeirados, dados como extintos, e dá nova vida ao mundo. O olhar desdobra-se graças à beleza.

Para citar Gonçalo M. Tavares, a fealdade argumentativa não convence: feio é o que não me convence, belo é o que me arrebata, o que me conquista. Os perigos da grandiloquência espreitam a cada esquina do discurso. A beleza é a mais eficaz das esparrelas.
Dito de outra forma, o belo é um engodo para observadores, o feio, um repelente.

Facilmente somos convencidos a aderir num clube se convidados pela beleza, ao contrário do feio, do qual queremos distância.
Nietzsche alerta o homem contemporâneo, o qual está embeiçado pela beleza pirotécnica, soar bem e pensar bem não são sinónimos. Focarmo-nos na beleza e descurarmos a fealdade é ser míope.

Mas por que raio queremos estreitar laços com a beleza e afastarmo-nos da fealdade? A fealdade dá-nos uma imagem da decadência, de finitude, põe em discurso debilmente cantado a nossa morte, ao passo que a beleza é uma ilha prenhe de possibilidades.

A beleza, afiançam-nos poetas e escritores, é uma espécie de luz. Os mais belos são os predilectos da luz. Grosso modo, o belo são as sobras de Deus. Ao aproximarmo-nos perigosamente do belo, corremos o risco de cegar. A emoção é um perto de mais.
Como Lhansol escreveu “chorar em vez de ver”. Chorar interfere na visão. Perto de mais é deixar de ver, eis um dos perigos da beleza. Porém o feio não é isento de perigos. Numa manobra oposta à da beleza, o feio afasta-nos, obriga-nos a ver à distância.

Se demasiado perto da beleza, seremos engolidos por ela, se demasiado afastados da fealdade, não veremos nada. O pensamento ideal é aquele que dança entre a beleza e a fealdade. Um passo para a frente e um passo para trás até não restar mais passos ao dançarino.

O belo não é sinónimo de verdade, nem o feio é sinónimo de praga.

O Feio e o Belo

 

 

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