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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

31.01.22

A última coisa que o meu avô fez antes de morrer foi votar. Entrego-me ao prazer de ser bombardeado pelas memórias, de assistir, impotente, à despedida de um dos personagens do filme da minha vida. Dado que só existe descanso à sombra da nossa nulidade, aproveito estes minutos onde a morte se arma em editora e nos reorganiza os capítulos da nossa biografia.

A velha pequenina pede um café à Chega, sem princípio, e põe-se a discorrer sobre o mundo com voz de fadista, não quer que ninguém fique de fora da sua palestra, encavalita temas uns nos outros, em associação livre, como se estivesse numa sessão de psicanálise. Segue-se um excerto cru e sem arrebiques, isto é, acabado de pescar.
— Lá num país qualquer, não deixam os outros levarem a vacina, estão a salvar pessoas e crianças; foram buscar imagens de guerra, camiões cheios de cadáveres, e mostraram-nas como se fossem vítimas de covid-19, isto disse-me um senhor que vive em Espanha; eles dizem que é covid-19 eu digo que não é; há dias um casal foi ao Brasil e diz que é mentira, foram lá e não viram nada; a vacina é tudo menos vacina.

Aproveitando o facto de uma coisa ser tudo, excepto vacina, cá vai: a vacina é mentira, verdade, Deus, amor, tema central das nossas xaropadas, veículo do nosso ódio, estandarte das nossas vulnerabilidades, expoente máximo do nosso desentendimento, a guloseima do papalvo e do intelectual, fruto da inquietude antes silente, porta-voz das nossas entranhas, aplauso face às nossas insignificâncias, o infinito degradado pelas alíneas, o antídoto à mercê das nossas horas mais vagas, disparate absoluto, patrono-mor dos tantãs, bandeira dos iluminados, derrapagem rumo à imbecilidade, a perspectiva da perfeição adiada, canalhice fermentada, labirinto de interesses posto a nu, cume dos sábios da preguiça, altar dos apóstolos do azedume, equívoco e epifania às carambolas, baboseira inseparável da vertigem, abafadora das nossas chamas, a aventura grotesca dos aleijados, a causa dos desmiolados, caramba, como sair desta subjectividade que se fragmenta numa chuva de arpões que se abate no nosso lombo?

A vacina, os números das eleições, a pandemia e o caralho que vos foda a todos prestam uma homenagem ao romance de Luigi Pirandello: Um, Ninguém e Cem Mil.

Quanto ao Homem, há mil argumentos a favor e outros tantos a desfavor. Em todo o caso, não há forma de o pôr de pé sem artifícios.

O fanatismo político é uma forma de delírio à qual não estou sujeito. Os resultados das recentes eleições não me surpreenderam. O ódio, o ressentimento, e sobretudo a humilhação têm conquistado muitos adeptos. A lucidez sempre teve muita dificuldade em entrar nesses terrenos. A relação de um homem típico com a política é a de um adolescente com o TikTok. Põe as dores do espírito e da carteira em discurso através de um rol de frases feitas. A subjectividade alucinante, própria de uma sociedade neurótica, é a grande vencedora da noite. Povo, trabalhadores não passam de vocábulos xaroposos na boca dos políticos. Os números da terceira força política não são nada animadores. Estranhamos o primeiro; dissemos não passa daí; um erro: desconversamos acerca dos números de outras eleições, que nada tinham que ver com esta; a performance do “não passarão” não é um feitiço suficientemente forte para deter a cólera — é antes revelador do abismo entre o homem e o político.
As cisternas de cólera estão quase cheias. Não sairemos melhor disto tudo: o grito nunca foi uma escola.

Pandemia, eleições, subjectividade

 


Roberto Gamito

30.01.22

Já não me sobra espaço na cabeça para o amor, nem vontade para direccionar os caprichos de pendor humanista rumo a terrenos mais palpáveis. Cabeça, epicentro de uma multitude de tragédias. Atulhei-a de destroços e terramotos, a memória vandalizou-ma, os episódios a braços com a transfiguração, catedrais-abandonadas-pássaros-silêncio, animais desfigurados pela velocidade e pela ruminação.
O teatro das intensidades — animal desdobrado do amor à cólera — é tão-somente um pretexto para acelerar a nossa perdição.

Ao frequentarmos o delírio dos outros, digo, as suas deixas mais intensas, recebemos a dádiva de assistirmos ao teatro ebuliente do mundo ou, em acreditando na mão poderosa do macho, o teatrinho da testosterona. Por vezes, no seio desse diálogo onde as vozes se anulam sem pernoitarem na paixão, esquecemos os nossos limites, as nossas fraquezas tartamudeadas em confessionários, os nossos calcanhares de Aquiles; sonhamos com dias mais luminosos sem conseguirmos pronunciar o nome do Salvador.

De seguida, o raro transforma-se em guião. O fantoche feito santo sobe a escada da perfeição, começa a falar das grandes palavras compactas, a saber: amor, vida, pátria, morte, vira-se para os humildes, ocos de frases certas, intriga as multidões ababalhadas — e imita os grandes facínoras. No papel, Salvador, na prática, carrasco-mor. Os delírios desaparecerão um dia — mais por cansaço do que por obra feita. Sim, concordo com as palavras de Teresa de Ávila, parece-me que os demónios jogam à bola com a minha alma.
O Bem não é senão um eufemismo para Mal.

A vida é o lugar das nossas quedas, não há voos que nos enobreçam: tudo o que larapio ao destino, gesto que me leva às cordas, é lançado para o monte das coisas intocadas. Apesar do esforço hercúleo, tudo permanece na mesma. Saboreio a mortalidade qual vampiro livresco, alimento-me do meu próprio sangue, organizo-o por tremores e terrores, sou o deus arcaico renascido das cinzas.

Não descarto a hipótese de o Homem ter gosto pela cruz, que tentemos pô-la em discurso e fazer disso carreira. Oxalá as nossas lágrimas nos catapultem até ao pódio do privilégio. Porque, bem vistas as coisas, o Salvador, nome pomposo para uma luz impontual, é tão enfadonho como qualquer bêbedo. Se não formos nós a sair da cruz pelo próprio pé, se o grito não quebrar a maldição e as grilhetas, se formos incapazes de aliviar o fardo com um tonitruante foda-se, estamos bem lixados. Uns e outros — loucos amadores e loucos profissionais agarrados a uma ideia a cheirar a novo, sob a qual se acoita o inferno do mesmo — transmudaram as lágrimas em mel. Sábios do oportunismo, aproveitam o momento de desatenção dos algozes — maldita comoção — para os guilhotinar. Canonizemos os abutres e as hienas, elevemos os cadáveres putrefactos aos píncaros, façamos do mausoléu palco deste festim pantagruélico.

Atentos às flutuações da mente humana, o homem sem maiúscula oscila entre o poeta e o jornalista do mundo interior. Façam para aí os vossos milagres: multipliquem para aí os ateus. Deturpando as palavras de Cioran, se o Homem fosse um ciclope, a palavra servir-lhe-ia de olho. Errata: onde está palavra deve ler-se cegueira.

Não há espaço para o amor, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

28.01.22

Quem nasceu primeiro: o voto ou o influencer? Se vadiarmos pelas redes sociais por estes dias dá a ideia que o influencer inventou a democracia num guardanapo, cinco minutos antes de mais uma sessão fotográfica. Nada o fazia prever: promotores de cremes, divulgadores de banalidades requentadas, papagaios versados em língua inglesa, empresários de filhos bochechudos, capazes de ir até aos confins do útero para monetizar o crescimento do pintelhito com vida, brindam o circo dos papalvos, não com imagens de locais paradisíacos, as tais migalhas para o bico do pobretanas, mas com a democracia — essa coisa pouco fotogénica, pelo menos segundo os padrões do World Press Photo. Ora, eu, enquanto privilegiado não praticante, não tenho voto na matéria, nem voto na luz. Seja como for, não é disparatado comunicar-vos que o influencer pegou no ceptro da condescendência e transformou-se numa espécie de missionário em terras de selvagens. Não sabem o que é o amor? Eu catequizo. Não sabem onde fica a Tailândia? Eu mostro. Ignoram que farpela escolher para um date? Eu auxilio. Não sabem distinguir o bem do mal? Eu doutrino. Não sabem ser verdadeiros e genuínos? Eu ensino-vos, deixem-me só acertar no tom de voz.

Se, na hierarquia dos estúpidos, o influencer ocupa o primeiro lugar, o tal cume reservado os antigos sábios, os quais foram escorraçados pelo Altíssimo por não terem pago as despesas do Nirvana, o sensato é uma figura que não destoa na prateleira dos mitos. Haverá algo mais humilhante para o Homem do que sentir que a voz que vem de cima é a de um boneco cujo cu é disputado por uma multidão de ventríloquos? Trata-se de um cu cantante regateado pelas marcas.

É necessário possuir um ego do tamanho do cosmos de molde a pensar da seguinte forma: caso eu não diga nada, estes labregos com a quarta classe mal tirada até se esquecem de ir votar. Eis a constelação de umbigos enobrecidos pelos números das redes sociais a cuspir pepitas das suas torres de marfim. Na cabeça deles, mudam o mundo; fora do seu mundo, o mundo permanece o mesmo.

Prosseguindo com tiques de vedeta nessa senda do Outro, disfarçamos bem a nossa loucura. Pensam, em nome de um mundo melhor, esmagar o eu, quando, na verdade, não passa de uma sofisticada manobra de diversão. Que grandes sonhos, comparados com os dos influencers, não se revelariam insignificantes. Alexandre, o Grande não é ninguém ao pé de um influencer com um milhão de seguidores, o qual, numa legenda de uma foto de rabo engalanado pelos filtros, educa os seus adeptos analfabetos.
A vontade de doutrinar a toda a hora, levada até aos meandros das sílabas, enoja-me. Desmascara o falso paladino da humanidade. Com efeito, não acredita no Homem, na melhor das hipóteses, vê nele um semi-boneco de plasticina que, graças às suas mãos divinas, tornar-se-á uma criatura apresentável.

Rejeito a sedução de um Eu cantante. A megalomania dos novos conventos apinhados de puritanos cheios de manhas, quando nos bastidores funciona um bordel, dá-me vontade de dinamitar o mundo. Nas palavras de Cioran, o niilista entre os niilistas, quem não admite o seu nada é um doente mental. Creio que estamos diante de um diagnóstico acertado. Malucos a doutrinar malucos: o universo cresce para albergar tanta loucura.

A opinião pública, isto é, os curadores de deuses, deixa-se ludibriar pelo espectáculo das luzes e pelo corrupio de sofrimentos de pacotilha. Mártires por geração espontânea, agendam dores para receberem a bênção do algoritmo. Obrigado, caros influencers, meus excelsos lembretes com pernas.

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Roberto Gamito

27.01.22

É impossível respirar num domínio estranho à metáfora. É vital transportar a urgência do salto para as palavras — elas que vivam a vida que fomos incapazes de alcançar, elas que voem por nós.

Qual moço de recados, o intelectual actual, mais amigo do entretenimento do que da arte, recebe sem entraves as ideias do cliente, mudando a sua postura e preço conforme as ocasiões. As pernas abertas substituíram as mentes abertas. Concedo, é uma atitude muito mais lucrativa. Prodigalizando os seus gemidos, simulando orgasmos de cada vez que ouve um papalvo pronunciar uma baboseira, apressa-se a montar a ponte fantasiosa da empatia, em suma, propõe modelos de comportamento que rivalizam com os de uma gelatina. Adapta-se a tudo como um rato. Se fosse sério, diria: “tudo quanto sei aprendi-o com uma prostituta”.

Embora não perceba peva de humor, especializa-se no riso difícil. Os Homens, para ele, não passam de pichas endinheiradas. Tenta pôr à venda a sua amargura de pacotilha, a qual em tempos já teve mais saída, deitado, ficciona a sua cruz, qual dragão, no topo de uma montanha de dinheiro amiúde sonhada. Foge dos problemas essenciais, dado que é conhecedor desta verdade absoluta: quando alcançamos as profundezas, os problemas conduzem à bancarrota e deixam a fragilidade do intelecto à mostra. Presentemente, ir ao fundo é interdito.

Pintemos o retrato do intelectual contemporâneo. Tudo lhe é hostil: a sua solidão, a intrepidez de rasgar as convenções, os deuses que povoam o silêncio, os demónios que lhe segredam aos ouvidos e o manifesto nada. É um ilustre embusteiro. Ignoro como logra ficcionar a sua verticalidade sem se desfazer em lágrimas. Ele, e os seus confrades mais acanhados, os quais pararam a meio caminho, uma vez que não profetizaram qualquer gratificação no cume, fecundam com esporra importada, isto é, citações, o percurso dos néscios. Ei-los, papagaios armados ao pingarelho, investigadores da superfície e agricultores sem mão, amantes de vertigens desérticas, destituídas de frutos, angariadores de cus ambiciosos, entretidos a transplantar a sua mediocridade para o plano universal.

Se o pensamento se assoma à ponta da língua, fazem marcha-atrás e arrumam o discurso na trivialidade. Escravo da visão literal, o intelectual fica cercado pelo seu próprio ego. Epígonos estéreis do primeiro papagaio virtuoso. Depois de tais palavras sobre o intelectual e seus filhos, uns e outros tão maravilhosamente amontoados na pilha dos inúteis, creio termos adquirido o direito à banalidade sem nos sentirmos culpados.

Intelectual contemporâneo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

26.01.22

Quando nos damos conta de que nenhuma motivação humana é compatível com o infinito, que fomos ludibriados com a suposta ligação com o Altíssimo, que não foi suficiente aquecermo-nos no interior putrefacto do cadáver de Deus, de que não vale a pena encetar a dança com um gesto derradeiro, que é impossível fugir da guilhotina perdigueira, a qual paira em cima dos nossos actos, o cérebro, feito em papa, já não logra esconder a sua loucura. As palavras claudicam e regressamos à animalidade.

Já não tendo lugar no seio da ficção, escorraçados pela verdade ríspida, sozinhos, qual Adão amputado da sua Eva, olhamo-nos no espelho sem nos reconhecermos. O teu nome é, na verdade, o teu pseudónimo. Tu és um outro que ignoras. A estupefacção tumultua a respiração mas logo se regulariza, arrefeces e endureces nas mãos do imprevisível. Efémero de plasticina, experimentas o cardápio da rigidez.

Agarrando o papel de medroso, personagem com mais saída neste século, tudo passa a conspirar contra ti. O cinismo virou-se contra o cínico, és vitima da subjetividade desdobrada em carrascos. Semeias cadafalsos em cada pegada.

Prometidos aos abutres e às horas silenciosas da última horizontalidade, o quotidiano ensina-nos danças bafientas que apodrecem a nossa verticalidade. Ante a promessa de salvação, resolvemos encetar um questionamento perpétuo, afugentando anjos à paisana. No pino da demência, projectamos os nossos desígnios febris — o tal exército de febres — sobre uma migalha. Doravante cuidadores dessa migalha, cremos ver nela uma semente de cosmos. Trata-se de uma agressão perpétua ao insignificante.

A noite humilha as nossas ficções e obriga-nos a considerar o precipício. Desarmados de sonhos, eis-nos submetidos aos apetites das musas tornadas hienas, subservientes face à sua fome. Mantermo-nos de pé quando cercados de mandíbulas ababalhadas é uma espécie de fanatismo.

O coração distancia-se do mundo, o cérebro torna-se eremita e o estômago metamorfoseia-se na biblioteca dos projectos abortados. Esta estagnação de órgãos, esta bomba-relógio nas faculdades, ensinar-te-á o itinerário da cólera. O desabrochar da sede de sangue revela o homem verdadeiro face ao qual o nosso conhecimento, pilhas e pilhas de lérias, se releva ridículo.

Itinerário da Cólera

 


Roberto Gamito

25.01.22

Se cometêssemos a ousadia de inventariar os comediantes mais intrépidos de todos os tempos, aqueles que aproximaram a sua cabeça do cepo em virtude da sua arte, teríamos de pensar em personagens como Swift, Rabelais, Aristófanes. Nestes três grandes encontraríamos ainda uma réstia de amizade para com as convenções, tal não acontece com Diógenes, o Cínico.

Diógenes, apelidado de cão celeste por um poeta da sua época, Sócrates louco por Platão, o cínico por excelência, é o santo padroeiro do escárnio. Ele sim podia dizer que era o comediante da verdade. Nunca houve nem haverá outro como ele. A sua verdadeira demanda era o rosto humano acoitado sob as máscaras. Procurava avidamente o monstro que o Homem tenta engaiolar numa teia de farsas.

Diógenes está nos antípodas do século XXI. Nós, contemporâneos das sobras, somos acólitos da pose, enquanto Diógenes a suprimiu por completo. O cinismo dele não é o cinismo da nova escola, o cinismo da fragilidade, quer dizer, o cinismo típico de consumista. O cinismo de Diógenes não é um escudo, é uma espada.

Ao contrário do fandango actual, isto é, o círculo de legitimação onde papagaios engalanados disparam um discurso leproso e a roda contínua de afagos mantém o grupo de embusteiros coeso, Diógenes mantinha-se à margem. Que monstro aos olhos de quem anseia manter a farsa da reputação de pé! Quantos falsos profetas e falsos sábios tremeram só de saber que Diógenes se aproximava? Quantos reis viram a sua coroa evaporar ante o olhar do cínico? Quantos ricos viram a sua riqueza liquefazer-se após um comentário do cão celeste? Quantos poetas se suicidaram após se darem conta que o seu canto nada tinha que ver com o Homem?

Diógenes não papava grupos. Sem mestres nem discípulos, era o sumo pontífice do Homem no templo do Deus desconhecido. A hipocrisia é a religião inimiga das evidências.
Se há algo imutável no homem é que este nunca teve coragem de aceitar a sua verdadeira imagem e que sempre recusou as verdades sem contemplações. Enfarpelamos a nossa ignorância com barroquismos, confundimos verticalidade com pose. Coleccionamos poses com o fito de ocultar os ângulos mortos da nossa fragilidade. Dois mil e tal anos de ecos, oriundos de santos e ascetas, papagaios e pernetas, de nómadas e de cabeças sedentárias mesclaram-se e deram origem ao edifício das nossas certezas. É uma catedral presa por arames, no interior da qual, qual Diabo no nono círculo de Dante, fermenta o animal colérico chamado Homem.

Por vezes sou assaltado pela ideia de que as línguas são longos rituais de encantamento que visam adormecer o bicho que repousa no interior deste labirinto de máscaras. Tentar blindar-nos de uma verdade cegante é tudo quanto o Homem almeja da palavra. Não é destituído de graça que o maior conhecedor dos seres humanos, Diógenes, tenha sido apelidado de cão: farejou onde os outros não encontraram nada — perdoem-me o gracejo.

Não me tapes o Sol, disse Diógenes a Alexandre, o Grande. É necessário regressar do inferno da loucura para estar à altura desta deixa. Talvez não seja descabido recordar um episódio menos conhecido do Cínico. Ao entrar em casa de um sujeito abastado, em que tudo brilhava de tão limpo, foi-lhe recomendado: “Sobretudo, não cuspas para o chão.” Diógenes, que estava com ganas de cuspir, lançou-lhe o cuspo para a cara, que era o único lugar sujo que tinha encontrado. Quem é que nunca sentiu vontade de, a meio de uma festa de ricos alheados, cuspir oceanos de saliva nas suas carantonhas e só descansar quando o cuspo fizesse as vezes do dilúvio? Somos ridiculamente prudentes, equacionamos cenários onde podemos tirar lucros da nossa subserviência. Pomos cu, coração e cérebro a render: eis-nos chulos dos nossos neurónios.

Diógenes, o homem do tonel e da lanterna, o homem que procurou o homem bom, o homem que se masturbava em praça pública e dizia: “Quem me dera que bastasse também esfregar a barriga para se deixar de ter fome”. O sábio que punha a nu as fragilidades da sociedade apenas com uma sarapitola. Foi falsificador de moedas na juventude, e daí para a frente empenhou-se a despir o homem dos seus vernizes enaltecedores.

O Homem que não se curvou diante ninguém, fez pouco de Alexandre, o Macedónio, Platão e de qualquer rico que lhe aparecesse à frente. Não propôs nada. A sua postura não é um modelo edificante, foi um homem sem pose. Foi o primeiro e o último da sua escola. O Sócrates louco fez rir, fez pensar, mas sobretudo desmascarou o Homem — eis a comédia plena.

Diógenes, o cão celeste

 


Roberto Gamito

24.01.22

Inaptos para abarcar todos os pontos de vista, os mundos paralelos que se acotovelam à nossa volta, confinados dentro da esfera dos nossos dogmas, aconchegados na nossa cegueira ideológica, enclausurados dentro do horizonte do intelecto, do desejo, do princípio manco ou maratonista, os Homens são criaturas inescapavelmente míopes. Prostituta solícita de um sem-número de ideias, casa-se com todas as opiniões, pavoneia-se com raciocínios emprestados.

Enquanto protegido pela carapaça das suas certezas, o ser humano actua no mundo e prospera; todavia, quando se liberta da tirania do seu trilho guionado, perde-se, tumultua-se e arruína-se. E envergonha-se disso. Emancipado das ilusões que faziam dele uma marioneta contorcionista, sem curiosidade quanto aos próximos passos, o Homem torna-se peixe morto a boiar ao sabor dos acontecimentos.

Nunca pensei que uma série sobre a vida de uma redação de um telejornal australiano na década de oitenta me pudesse despertar interesse, não é um tema que me diga muito, todavia eis-me colado ao ecrã interessado nas personagens da série The Newsreader, escrita por Niki Aken. A personagem principal, uma pivot em ascensão, interpretada por Anna Torv, é uma figura soberba. O epíteto mulher magnética assenta-lhe que nem uma luva: os olhares são atraídos como que magicamente assim que entra em cena. Um carisma que deixa o público em transe. Apesar de ser um gigante diante da câmara, é uma mulher à beira da derrocada. Detalhemos o fardo: a ansiedade, os problemas familiares, os mexericos graúdos da redacção competem, qual lobos famintos, pelo seu miolo. Dale Jennings, numa posição mais humilde na hierarquia do canal, dá os primeiros passos diante da câmara.

Embora a primeira tentativa saia uns furos abaixo do pretendido, ele não desiste, embora o vejam como uma carta fora do baralho. Ao lado de Helen, personagem interpretada maravilhosamente por Torv, está um pivot experiente com uma trajectória que vai no sentido contrário. Enquanto ele está numa posição ingrata, isto é, apesar de tudo o que deu ao canal, como que o obrigam a arrumar as botas, a fazer parte da mobília, ela está numa posição de ascensão. Não é uma trajectória isenta de gritos: é recordada pelos superiores que a subida tem um preço. Os gritos são abundantes, o nervosismo e o milagre de tudo correr bem apesar do clima de manicómio. Frise-se o episódio em que Helen oscila entre o dentro e o fora, o que passa lá para casa e o que acontece quando a pivot não aparece no ecrã e orla o colapso nervoso, porém, quando é chamada a enfrentar o público, consegue sempre reunir forças para se exibir no seu melhor.

Mas concentremo-nos no episódio quatro chamado Um Passo mais Perto da Loucura. Cautela, seguem-se alguns spoilers, sendo que estes podem ser apresentados segundo outra ordem que não a que aparece na série.

O pivot experiente, Geoff, é acometido por um princípio de enfarte, é visto por um médico na sua própria casa, uma vez que os mexericos de jornais sobre a sua condição física não lhe seriam benéficos. É-lhe aconselhado descanso, apesar de estrebuchar, aceita descansar uns dias. Temos a cena em que Helen está em casa com Dale, recém-namorados, e ela prepara um jantar para o primeiro encontro com a mãe de Dale. Segue-se um diálogo sobre a melhor forma de confeccionar a carne. Intromete-se um detalhe: o guião que ela tinha para o encontro com a mãe de Dale deixa de servir e os nervos começam a vir ao de cima. A calma desaparece de um momento para o outro. Marimba-se na carne. Mais tarde descobre que terá de apresentar o telejornal sem a companhia do seu par, Geoff. Dale é chamado à recepção, há uma mulher que deseja falar com ele. É a irmã de Helen, que desconhece. Fala-lhe sobre o pai de ambas, que está a morrer de cancro e na recusa de Helen em ver o pai, pede-lhe que a convença. Dale dá-se conta da face oculta da namorada. Confronta-a com isso sem saber muito bem o que dizer e ela não reage muito bem. Dale é enviado para documentar uma cena sem importância num bar.

Nisto, há um estrondo e vemos a equipa a cair com espalhafato. Saem do bar onde decorriam as gravações e dão-se conta que foi uma bomba. A adrenalina está no máximo, é a oportunidade perfeita. Estão no sítio certo à hora certa, são os primeiros dos primeiros a chegar ao local. Entretanto corta para a redacção, Helen está uma pilha de nervos e eis que a mãe de Dale entra em cena: ela havia combinado apresentar-lhe os estúdios. A meio disto, chegam telefonemas a avisar do atentado bombista. Helen sugere-lhe que descanse no seu gabinete. Há tentativas de chamar a equipa de Dale, mas não há respostas. O pior não está descartado. Antes da gravação, o tipo do som entra em pânico, mas lá se conseguiu acalmar. Na redacção, ignorando que Dale está em cima do acontecimento, (ou mesmo estando, já deu provas de ser uma pessoa que murcha diante das câmaras), decide-se enviar outra dupla para o local. Uma moça que espera há três anos por esta oportunidade e um jornalista mais vocacionado para o desporto que pode vir a ser o substituto de Geoff. Ao dar-se conta do atentado, Geoff interrompe as férias que não chegaram a começar e dirige-se para a redação. Para ele, é impensável abandonar o país neste momento. A segunda dupla chega perto do hospital com o fito de documentar os testemunhos dos feridos. Corre bem, mas dão-se conta de que o seu carro está trancado por uma viatura de outro canal. Estão impossibilitados de chegar à redação a horas. Ao ver o fracasso estampado na novata, o tipo do desporto pega na cassete e desata a correr até à redacção. Do outro lado, a equipa de Dale envia a cassete com o que haviam gravado com a máxima urgência. O jornalista corredor chega esbaforido, mas a tempo de acompanhar os cortes necessários antes de ir para o ar. A peça da dupla jornalista do desporto-novata foi um êxito, uma primeira oportunidade que pode frutificar em muitas mais. O clima amoroso entre os dois intensifica-se. A peça de Dale foi de tal forma surpreendente que deixou todos colados ao ecrã. Mãe e restante redação ficaram boquiabertos com a prestação de Dale diante daquele cenário. Como se isto não bastasse, ainda deu tempo para Dale e o gajo da câmara se envolverem. Dale desculpou-se com as bebidas, mas obteve a resposta: nem sequer bebemos. Corta para a casa da mulher magnética, Helen, onde ela profetiza um futuro risonho, a partir daqui tudo vai ser diferente para Dale.

Que episódio alucinante, mas não termina aqui. Corta para a casa de Geoff. A mulher dele prepara descansadamente o jantar. Ouve-se uma buzina. Estranho. Ela desce e dá com o marido no carro, que havia chegado sem ter dado conta, a ter um enfarte. Mas também não acaba aqui. Surgem os oportunistas do enfarte que, aproveitando o gigante no chão, aceleram o processo de saída de Geoff. A mulher do pivot experiente garante que ele deseja dar um entrevista exclusiva ao The Sun. Episódio perfeito.

newsreader, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

23.01.22

O exercício poético não é fecundo; é apenas entretenimento para as unhas. O ofício de juntar palavras que poucas vezes se encontram numa linha, de transformar a tragédia em canto, de sublimar o grito numa brisa é somente exorcismo subtil, um afloramento do mundo interior de jaez metamórfico. Entendo perfeitamente o poeta, exclama o leitor de nariz empinado. Se assim for, o poeta ficou a meio caminho: expiou as suas máscaras da superfície e não o seu rosto precário. Os verdadeiros problemas sucedem quando a mão regressa do encontro com o inominável e, apesar do formigueiro de hesitações, de minúsculos medos que borbulham na mente, é incapaz de ingressar na folha com segurança. Os verdadeiros problemas — a verdadeira arte, digamo-lo sem receio de cometer uma barbaridade — só começam depois de termos calcorreado de gatas ou esgotado essa primeira poesia.

A mão vazia do poeta generoso é a que me interessa. O rescaldo do espectáculo é mais revelador que o pino da pirotecnia. Veja-se o caso do humorista. No palco, um ser todo ginga e palavras certeiras; afastado do riso, e ficamos na companhia de um leproso, um homem a cair os pedaços. Esse encontro liquidar-nos-ia a estatura fictícia como a qual nos pavoneamos no mundo num estalar de dedos. Não passamos de uma migalha emplumada, a qual pode ser comida ou espezinhada a qualquer momento. Evitamos a todo custo o contacto com essa verdade derradeira.

O cinismo contemporâneo, não o da corrente filosófica, que o tempo não está para grandes pensamentos, mas o de pacotilha, rebaixou tudo o que mexe à categoria de pretexto. Há uma espécie de ironia da fragilidade. Ironizo para me proteger; careço de dentes para mastigar o mundo tal como ele é. Só me sinto inspirado por um tipo de Homem: aquele que compreendeu a sua monumental nulidade, que consentiu que o nada corresse de marreta nas veias e mesmo assim, sem discípulos nem mestres, avançou rumo à folha branca.

Reconheço a utilidade da estratégia do novo cínico. A humanidade vive turisticamente no seio dos acontecimentos que a aniquilam. Ou abraçamos a farsa de sermos levados em ombros pela turba nervosa e sempre sequiosa de sangue, ou a vida torna-se irrespirável. Que venha então a coroa de cuspo gerada pelo palavrório dos carrascos nómadas.

Peguemos no exemplo da música, a arte mais manobrável para se encetar o seguinte pensamento. Quando diante do espelho, seja ele literal ou imaginado, a música mergulha para lá das raízes das máscaras e retorna à superfície com o nosso rosto verdadeiro, de supetão surpreende-nos a imagem de uma criatura desconhecida. Mas cedo os efeitos desse encontro se dissipam e se relevam nulos. Apressamo-nos a escutar a música uma e outra vez até ela perder o seu poder sobre nós, melhor dizendo, o tempo suficiente para as máscaras alcançarem essa profundidade até então desconhecida. Apesar da música, a máscara regressa ao reflexo. Até ao dia em que, mais frágeis ou mais seguros da nossa ficção, reencontramos a mesma música, a mesma mas simultaneamente outra, dado que se aperfeiçoou na distância — e reencontramo-nos novamente, vulneráveis e sem sorriso.

Mão vazio, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

22.01.22

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.

Tertúlia de Mentirosos com Rui Cruz

Hupo Pinto. Realizador.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
Censura diluída?, segurança e pedantismo, pedantismo lisboeta, piada e o twitter, o mundo flutuante da arte, o poder do estatuto, Mozart e o comentário no YouTube, a miopia do génio, o circo do ego, o rescaldo do roast, produtores de conteúdo precários, o mundo da Twitch, Humor, Homem e narcisismo, comédia sem surpresa, Dave Chappelle, comediantes de textos e comediantes de aparato, Zelig e Woody Allen, Riso de Mozart, artista infeliz, escrever crónicas, o mundo dos podcasts, Adam Sandler 100% FRESH, solo Como Todos Fazem, o próximo solo, sociedade da estatística.

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Roberto Gamito

21.01.22

Por que diabo o nosso reflexo carece de interesse, de vigor, de actualidade e se parece tão pouco connosco? Para onde é que se escoaram as marcas — sorriso e olhar — da juventude?
As reservas de calorias de que dispúnhamos para forjar o futuro reduziram-se a cinzas.

Como resposta à cidade incendiada, cultivamos os atributos de um deus colérico. Engaiolamo-Lo no pensamento e rezamos para que Ele nunca venha à tona das nossas mãos.
A maioria expia, por meio do espectáculo, a vida mumificada transportada de um lado para o outro.

Já não procurando a luz, superior aos pretextos que nos convidam a sentar e a observar os simulacros de salvação, entrega-se sem réstia de esperança ao bailado nocturno.

Entusiasta dos asteróides, eles que tombem por toda a parte e nos doutrinem com um inferno à mão de semear, procurando trilhos onde os demais vêem novelos, terras que os corações alucinados não frequentam, emancipado do suor e da patranha, livre do peso da servidão, do sorriso maquinal a horas certas e do aperto de mão para encetar pontes fictícias, não sendo o talento o seu forte nem tão-pouco o amor, regressa sem mestres ao início da sua desolação.

Face à celebração ululante do óbvio, no decorrer da qual uma procissão de papagaios se depena ao professar obviedades monossilábicas, sem o exercício recorrente do espasmo acompanhado que é sintonizar a carne com o seu semelhante, sem ser capaz de soletrar paixão sem recorrer ao tique de elevar o estandarte da sua tribo, está condenado a ser asfixiado pela consciência.

A procura do nirvana no óbvio a que certos budistas da nova escola recorrem enoja-me a ponto de querer dinamitar o universo. Doutrinar o outro com o raso é o diagnóstico de uma mente colectiva falida, para sempre desfalcada.
Pôr a alegria pelas goelas abaixo como se fôssemos catraios nas primícias da domesticação parece-me um empreendimento apocalíptico. Não contem comigo para os vossos caldinhos.

Recuo ante a farsa copiosa de que é o melhor para todos.
As mil e uma redundâncias, eufemismos e oxímoros são sinais de que o pensamento está prestes a extinguir-se.
Que pecado cometeste para agora fazeres de conta que o sofrimento não existe? Faças o que fizeres, os ecos dessa dor perseguir-te-ão até aos extremos da tua ficção positiva. Quando muito, as pequenas alegrias, quais pequenas fagulhas, inserem-se como vírgulas na respiração humana, breves pausas antes do ponto final. Todos os seres estão mortos: mas quantos o reconhecem?

Estamos todos mortos, Roberto Gamito

 

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