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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

28.02.22

Num ano que já lá vai e a memória não acode houve uma viragem monumental na vida de Carlitos: abandonou o espaço exíguo da barriga da mãe, desistiu do ofício de contorcionista e fez aquilo que à época se chamava nascer. Brindou os presentes com um valente choro de tenor, dos quais pouco há dizer em seu abono senão que respeitaram escrupulosamente o dress code da maternidade: bata, crocs e sensualidade inexistente. Carlitos colheu algumas lágrimas, sorrisos de orelha a orelha e um “finalmente” abafado pela máscara do médico, o qual, segundo as más línguas, tinha um pastel de nata à espera no bar do hospital. Artisticamente falando, o choro não foi merecedor de uma recepção de tal natureza. Noutro contexto, teria sido recebido com gritos, pedradas e apupos embrulhados em palavrões. Felizmente, o recém-nascido foi abençoado com um público fácil. Há artistas que levam uma vida à procura de uma noite dessas. Rezo para que este episódio não fique marcado no seu inconsciente, caso contrário vai pensar que o mundo é fácil e ele um génio do canto. A vida encarregar-se-á de lhe facultar os obstáculos com os quais vamos depurando a nossa visão sobre o nosso valor, em havendo tempo, talento ou paciência para tal.

Mas avancemos nos anos, pois bebés nascem todos os dias, com mais ou menos berros e, não fossem os likes que garantem aos pais nas redes sociais, ninguém se lembraria deles, nem tão-pouco de fazê-los. Vinte anos volvidos após o nascimento, Carlitos abandonou a vida de taberneiro, negócio que havia estado na família desde há séculos. Fora criado como um homem desde que gatinhava numa família de bêbedos e havia quem dissesse, nas alturas em que a coscuvilhice amainava e os temas do dia perdiam o viço, que a árvore genealógica daquela família se assemelhava ao medronheiro. O nosso ex-taberneiro decidiu abraçar o sonho (mas em casa, para não passar vergonhas) e concretizá-lo. Desde os 10 anos que ambicionava ser o merceeiro com mais freguesia da vila. Actualmente, o antigo tasco, ponto de encontro de putanheiros calejados na arte “ai se eu tivesse a tua idade”, assumia-se como taberna gourmet, cujas transformações, a saber: bifanas a saber a sola de sapato de marca branca e o taberneiro não ser um virtuoso do palavrão, transtornaram a antiga freguesia a ponto de promover diálogo e algumas zaragatas. Embora se quisesse manter afastado do passado, Carlitos não pôde desperdiçar a renda baixa da loja ao lado. Entre o passado e o presente de Carlitos havia uma parede, que nem era das mais grossas. Mas já chega de poesia. Assim, à distância, a mudança de vida de Carlitos parece uma parvoíce, capricho próprio de malta jovem, contudo, à época, a mudança foi recebida com um misto de admiração e inveja. Quando pensou ter alcançado a felicidade, essa que só vem a meio dos livros como uma respiração antes da morte, foi surpreendido com a abertura de um hipermercado nas redondezas. A sua freguesia sumiu-se e ficou com a mercearia às moscas e com um ou outro camaleão, os quais sempre foram muito ligados ao comércio tradicional. À medida que o desespero de Carlitos se agudizava, apareciam tabernas, daquelas à antiga, por todo o lado, como se fossem cogumelos. Talvez a humidade da tristeza fosse a causa das tabernas, mas que sabemos nós da vida? Seja como for, continuamos na mesa da taberna a mandar bitaites.

O Sonho de Carlitos


Roberto Gamito

27.02.22


Roberto Gamito

25.02.22

Está um belo dia para dar em maluco. O influencer é a figura capital destes últimos anos, de tal forma importante que em redor dela gravitam uma série de émulos, cópias medrosas, aspirantes e todo um mar de variações que ambiciona alcançar o pedestal da insipez máxima. Movidos pela crença de que é possível fazer dinheiro fácil, a saber: pôr versos de Pessoa como legenda de um nobre mamaçal, ou celebrar o óbvio ululante, o homem contemporâneo abandonou o mundo palpável, usando-o apenas para carregar os seus gadgets. Desembaraçado dos grilhões do homem lúcido, partiu rumo ao mundo fantástico das redes sociais. Por conseguinte, como leva a vida a levitar entre patrocínios, é o animal mais desligado do mundo, move-se e pensa segundo uma lógica só sua. O disparate é o seu idioma. Apesar de temer como ninguém o ridículo, bate recordes nessa modalidade dia sim, dia não. É o atleta do ridículo contra o qual nem o humorista pode competir. Estamos diante de um Mozart, um virtuoso-mor do disparate diante do qual só nos resta ajoelhar.

O influencer tem no seu arsenal várias magias, sendo que uma das mais inesperadas é a de tornar aborrecido qualquer tema, até a guerra. Como nele não habita qualquer nexo entre a palavra e a acção, é capaz de condenar quem promove um produto graças à guerra e no segundo seguinte promover a sua marca. Vamos tentar dissecar o raciocínio do bicho. 1) Importa mostrar o mais rapidamente possível, qual político, que estamos contra determinado comportamento, dizê-lo de forma veemente, ainda que nada mude na prática, de seguida, receber os aplausos e insuflar o ego; 2) fazer exactamente aquilo que condenou, dado que só andamos nesta vida para fazer carcanhol. Só o que faltava a indústria bélica ganhar rios de dinheiro em virtude das guerras e eu não aproveitar para ganhar algum com os meus cremes e a minha marca de pijamas, eis o pensamento do influenciador.

Em certas províncias, os apóstolos da virtude não têm mãos a medir: há um concurso para ver quem é que se importa mais com a guerra. O policiamento da virtude atingiu o zénite. Debitam-se obviedades sobre o episódio bélico entre Rússia e Ucrânia, comentam-se as obviedades com outras obviedades, fazem-se piadas óbvias sobre esses comentários e ninguém é capaz de dizer nada que não seja parente do eco.

A minha solidariedade está com o povo ucraniano, corta para “vejam bem esta promoção imperdível”. O povo russo não é todo como o Putin, corta para “vejam este filme”. Não é obrigatório ser uma carpideira a tempo inteiro, mas essa postura fluída é o retrato perfeito do homem do século XXI. Há batalhas de emojis, corações partidos — transformamos a guerra num concerto do Tony Carreira; uma tempestade de emojis a simular a reza, e transformamos as redes sociais numa grande igreja. Mas o quadro do ridículo não acaba aí: os youtubers comentam a guerra — a chamada react — sem saber uma migalha do que se passa. Ficaríamos melhor servidos se o trocássemos por um bêbedo ou por um taberneiro furioso.

A influencer queixa-se, logo após as primeiras horas, que não está a aguentar, segundo ela, a sua saúde mental está a deteriorar-se. Minutos antes, convém sublinhar, mostrou-se solidária com os inocentes. É uma solidariedade à TikTok: no máximo dura 30 segundos. Só consigo sentir empatia durante uma janela de tempo muito curta, caso contrário dou em maluco. Expliquem-me a guerra em dancinhas ou através de memes. Só conseguimos saborear o mundo em finíssimas fatias.

O Carnaval vem em boa altura. Creio que a música “ você acha que cachaça é água? Cachaça não é água não” é a banda sonora ideal para o fim do mundo. Isto só está bom para o Hulk e para as gajas que fantasiam marotices com gajos fardados.

Influencer e a Guerra


Roberto Gamito

24.02.22

O que é concreto apaga o pensamento, ao passo que a abstração acende-o. Cabe-nos a nós, Zés e Joanas-Ninguém, entrarmos à socapa nos maiores museus e vandalizarmos as obras mais conhecidas. Plantar vultos onde ontem havia rostos conhecidos, obrigar as estátuas a regressar ao bloco de mármore, ao casulo das possibilidades, pôr o urinol no seu sítio antigo, já chega de mijar no chão, plantar riscos e bigodes, camuflar o conhecido, baralhar pintores e público e, caso tudo falhe, incendiar tudo. É preferível assim a ver tudo destruído pelo descuido de uma bomba que errou o alvo.

Nos cenários de guerra, a casa transforma-se em crisálida no interior da qual o animal em mutação aguarda a Primavera impontual. Felizmente, a economia naufragou, foi encontrada sem vida na margem de lucro. O Homem será objecto de um processo que o condenará — mas ele defender-se-á brilhantemente a fim de aumentar o grotesco da cena. O mais inocente do homens cumprirá a mais pesada das penas. Eis o cadáver do civil metralhado nas ruas.

No parapeito destes dias, ao rés do qual a cidade arde, e as bombas orquestram uma sinfonia medonha, acode-nos uma ideia: só o idealismo mais ingénuo pode acreditar que o diálogo pode interromper a dança da cólera. Em tempos incertos, onde as balas calam o canto dos pássaros, o Homem acumula no seu arsenal de superstições toda a espécie de deuses e santos.

O problema do século XXI é que nunca foi grande espingarda a discernir vivos de mortos. Contrariando o relatório da autópsia, o déspota levanta-se da maca — o ódio fez as vezes de Jesus. Lázaro renascido graças à cólera. A guerra altera a nossa relação com aquilo que nos esmaga. A revolução coperniciana no modo de encarar a arte é a seguinte: tomava-se “o que nunca poderia ter sido” como ponto fixo e brilhante, tipo estrela, ao redor da qual massas rochosas orbitam povoadas com o seu exército de formigas rezingonas.

Era imprescindível para o seu prestígio como empresário da noite ter casas de fado abertas durante a guerra, nas ruas, nos aeroportos, nos esgotos, em cima das árvores. A guerra tem esse condão: transforma a casa em casa de fados.
Nos anos antes da guerra era uma questão de honra — ou moda — produzir vidas que imitavam porcelana.

As maratonas de sexo, a fornicação típica e a sublimada, eram tentativas vãs de simular o abismo que separava os chorões da nova escola e os chorões da cepa antiga. Em suma, duas escolas de fado distintas.

Regressemos ao início do problema. Com o nascimento do primeiro Homem, a figura do déspota veio à tona do papel com ganas de nos fazer gritar, que data da saída do Paraíso. Começou a afinar-se o que viria a ser o seu mais imutável papel. Esse é o princípio da rivalidade entre a luz e as trevas. Finalmente um motivo sólido para uma querela: o Homem. A guerra leva os seres humanos de volta a um cenário em que o diálogo é visto como supérfluo ou mero capricho. Doravante o idioma oficial é o grito.

Um pouco antes do bombardeamento, o centro comercial é o centro de peregrinação onde o Homem dito descrente se encontra com o objecto. Mercadoria, se preferirem. Em cada objecto procura a peça que falta. Tarefa votada ao fracasso, e todavia continua a pôr peças no lugar deixado pelo coração, qual criança a forçar peças nos buracos errados.

A entronização do reflexo enaltecedor — a grande farsa do século — e o esplendor pirotécnico das distrações fez-nos gatos de olhos arregalados numa retrosaria, embasbacados com esse paraíso de novelos.

A moda prescreve o ritual segundo o qual o ridículo deixará de ser ridículo. O ridículo pode ser medido pela quantidade de fiéis. Muitos seguidores e o ridículo deixa de ser entendido como tal. Daí o frenesi à volta de uma nova moda: urge conquistar fiéis para o ridículo deixar de ser ridículo.

Estaremos a dias de assistirmos às maiores bizarrias de sempre. O sonho da influencer é enxertar nos interesses pessoais negócios, na sua diversão editada o seu entendimento coxo sobre a guerra. O seu papel é o de lucrar a cada disparo. Inesperadamente, é o mesmo sonho do ditador. Se o drama for Lázaro, a influencer é Jesus.

Viajo para conhecer o porquê dos meus passos, escreveu Walter Benjamin. Os tempos são inegavelmente outros. Não é isento de perigos trazer a lume a mediocridade de Narciso. A arte é onde as coisas são libertadas da servidão de serem úteis. Ou será o amor? Ou será uma coisa qualquer da qual ignoro o nome?

A mulher mais bela do mundo é capaz de sabotar uma cidade, fazendo parar o trânsito. Nesse dia tomou-se a decisão de se construírem mais estradas. Não obstante esta medida precipitada, fruto de um fraco entendimento acerca do poder da beleza, a mulher entupiu as principais artérias da cidade.

É original, se bem que nem sempre bonito, o modo como estes anos nos chegaram a nós. Contemporâneos de todas as patetices, embriagados nessa subjectividade manca, a qual pode ser usada como sucedâneo do pensamento, somos despojados de certezas. As nossas magras ilusões não sobrevivem em ambiente de guerra.

Convento a céu aberto, onde as freiras à paisana se juntam nas caixas de comentários para rezar com afinco, isto é, espalhar emojis condizentes com o cenário trágico. Ah, o efeito narcotizante de utilizar o emoji certo no momento certo.

Péssimo jogador, o homem contemporâneo faz as suas jogadas de costas voltadas para o tabuleiro, dado que é incapaz de desviar o olhar do espelho. No grande jogo de dados que é o destino do Homem, a guerra revela a nossa impotência face ao jogo. As temíveis redes sociais, a arena das ambições onde os gladiadores tentam vencer o adversário com bico de pato é um magro entretém quando tudo desaba. E um dia, no auge do desnorte, caiu uma bomba como nenhuma outra semeando um deserto onde ontem havia uma cidade.

Tête-a-tête com a Guerra


Roberto Gamito

23.02.22

A vida, a obra inacabada de Deus.
Raramente descortinamos o trajecto das suas ideias, a forma como mais tarde as há-de articular num edifício cantante. Apesar de independentes, semelhantemente a versos crescidos, são blocos de uma arquitectura monumental. Um novo século não faz nada senão inaugurar novas travessias para o inferno.

Escrever é tão inútil como semear gotas de água na neve. Na cidade dos suicidas, os nomes das ruas eram escritos a sangue. Percorremo-las cabisbaixos, sem olhar para cima, não vá o nosso olhar cruzar-se com mais um pássaro implume.

Pouco ou nada se escreveu sobre a hierarquia dos bobos. Sabemos que, tal como os homens, há pelo menos três categorias: grandes, pequenos e médios. Em todo o caso, é despiciendo pensar em tal, como se houvesse hierarquias no grito, castas entre as migalhas.

Os monstros vão ao encontro dos grandes caçadores, e não o contrário. Na embriaguez da escrita, o teu nome espraiou-se qual nódoa até preencher o poema. Esta prosa é o efeito de uma miríade de naufrágios, muitas braçadas dadas em vão rumo a um lugar nenhum. Na margem deste texto, o homem desbrava territórios virgens nos quais até agora só pululava o pesadelo.

O desejo de novidade apressa o pó, o qual cai em cima dos recém-chegados mal façam as apresentações. Fruto de diversas intermitências, semáforo nómada que oscila entre o aceso e o apagado. A última frase é a legenda de um quadro que nunca chegou a vir à tona da tela branca.

No quadro ao lado, o homem nada tranquilamente no mar de cadáveres que foi sendo, as várias versões testadas durante a vida, as abortadas, as imaginadas, todas as possibilidades postas em cadáver repousam sem expressão quais peixes envenenados. E todavia ele nada.

O século XXI é pródigo a gerar deuses de passagem. Nem para os deuses temos tempo. O verdadeiro método de prestigiar um deus é: imaginá-lo num combate com o poeta maldito. Abrir uma casa de apostas, esperar pelo desenlace e escrever a crónica dessa pugna.

Já ninguém sabe escrever um poema que nos afaste da ideia de suicídio. Eis o capital na arte de larachear: surpreender o abismo com o outro tipo de queda. Substituir o grito pelo riso — eis o papel do humor. Seja como for, a tragédia mantém-se intacta. Toda a actividade artística mais não é do que a tentativa gorada de fugir à morte. Ante tais descrições, apetece-nos incendiar o museu. Não há nada nele que nos ensine a rota da salvação. E há quem chame isto templo.

Recuemos para terrenos mais respiráveis. Mamas e cus, e eu armado em Aldous Huxley, vendo nelas e neles substâncias estupefacientes capazes de ampliar a visão e abrir, de chofre, as portas da percepção.

Aquele livro, aquele filme, aquele poeta, aquela citação, aquela jarra, aquele quadro, aquela pessoa, aquele animal — precisas de ver tudo isto, dizemos nós ao primeiro coitado que cair nas malhas da nossa conversa, garanto-te que a vida vai tomar um rumo se seguires à risca esta receita. A hipertrofia das recomendações asfixia os textos, os homens, as obras e o mais. Urge consumir o outro sem auxílio de legendas. Seja como for, o outro permanecer-nos-á inacessível.

O mais profundo sonho do artista: exorcizar o mal do passado, de tal modo que as memórias ressurjam com novo fôlego e nos ensinem, de uma vez por todas, a sair da pedra graças a um novo estremecimento. O drama barroco de esculpir cidades em migalhas.

Somos um animal que se confunde com a paisagem, a simpatia ou hipocrisia como meio de camuflagem, não obstante, barragem onde se acumula a cólera, essa deusa fluída.

O ser humano actual espera ansiosamente pelo segundo que, com ardil, a palavra se irá soltar da sua boca de molde a elevá-lo aos píncaros. O homem contemporâneo é na verdade medieval: só consegue pensar em termos de magia.

O tédio é a fronteira que separa o presente do futuro, isto se trocarmos a cabeça do artista por um prisma e registarmos a decomposição da luz branca. Acordava sempre com a mesma frase na cabeça: sou contemporâneo de um sem-número de tragédias. Dá a ideia que o século XXI é a zona de passagem das tropas do XX para o XXII.

Após a morte de Deus, ficámos muito pobres de experiências redentoras. Armamo-nos em ventríloquos deste e daquele, tentamos endireitar em conversa a vida deste e daquele, porém não é a mesma coisa. Deus foi o maior ventríloquo de todos os tempos, ficaram os bonecos.

Recuar ao passado, mesmo se for com o objectivo de resgatar quadros esquecidos, não poderá ser entendido como profanação?
Se assim for, a memória é a musa cujo papel é recordar-nos do nosso fado de larápio. Entretanto, confraternizo com os deuses que hão-de vir no mundo entre a intenção e a concretização.

O problema foi o progressivo endeusamento do norte, futuro, se detestarem rosas. Se nos dissessem que o futuro é, a par de Deus, a maior ficção inventada pelo Homem, não teríamos forma de desmentir e teríamos de arranjar forma de prosperar no aqui e no agora, neste reino de cacos.

Tornei-me áugure e arúspice, do voo e das tripas tirei as minhas lições. Apesar da febre da higienização, o Homem não consegue disfarçar o nojo que sente diante do espelho, o que temos é um século inteiro a cheirar a mofo.

Não me contento com o som e com a fúria, pretendo — reconheço a ousadia — inspirar-me no jazz onde o ruído se emancipa. Emancipar o sangue, cortar-lhe o vínculo que o ligava à obra de Homero. Afastar o sangue do cerco e da jornada. Tentar uma nova via para o canto. Mas que sei eu disto tudo? Não passo de um papagaio numa câmara anecoica a falar-vos sobre os Ecos do Homem.

Deuses de Passagem, Roberto Gamito


Roberto Gamito

22.02.22

Nas esplanadas vêem-se os últimos espécimes verticais desta era de sobras.

Conheço uma sala afastada do centro, longe dos olhares curiosos e ávidos de boatos. Deseja encontrar-se comigo num sítio onde nos podemos agredir sem o empecilho de terceiros nem a grandiloquência das variações levadas a cabo pelas testemunhas?

A rua espreguiça-se graças ao comércio. À noite, encolhe graças ao vaivém nervoso do bêbedo. A rua simula o coração.
Do alto da torre, as pessoas cá em baixo transformam-se em formigas. Suicido-me e durante a queda as formigas readquirem a sua antiga forma. A procissão de migalhas humanizada pelo suicídio de quem se atira do alto.

A paixão, vocacionada para o disparate, arredonda-nos por excesso. Nada de extraordinário, tão-somente outra manifestação do fascínio pelos precipícios.

Apesar disso, o bárbaro persiste no armário a tirar notas.

O galão arrefece, vigiado pelo olhar inocente — ou faminto? — do catraio. Lá fora a guerra é encetada com ganas de ficar para a História.

Uma mesa para os maiores, outra para os menores e uma terceira para quem hesita entre categorias. A dor crónica de quem se senta na mesma mesa menor, faça sol ou chuva, faça ou não proezas dignas de génio. O destino é como ter lugares marcados.

Já é altura de deslindar o que se acoita no coração de um homem colérico.

A casa é um pavilhão multiúsos em miniatura. Há folia, bailes, banquetes, desporto, teatro e o mais.

A linha a fazer as vezes da cicatriz. Em lugar algum encontrei aquilo que perdi. A frase, ricamente povoada de cadáveres, simula uma capital vandalizada pela escoada piroclástica. Cada verso uma Pompeia.

Os anos passam e o discurso, outrora prolixo e inchado de certezas, dá lugar às ruínas cantantes, caso a veia poética se interponha entre nós e o mundo. Reduzir ao essencial, o ofício de espremer cadáveres com o fito de lhes beber o sumo.

O Diabo foi possuído pelo demónio da depressão. Os poetas malditos, sua única freguesia, estão a caminhar para a mansidão. Do nono círculo de Dante chega-nos um choro que abalroa o canto das sereias. Conheço um quarto humilde, sussurro à mulher, onde nos podíamos seduzir sem recurso a adjectivos. Uma sedução pejada de verbos seria do teu agrado, excelsa donzela?

Somos o somatório das despedidas e pouco mais.

A relação acabou. Aí disse adeus, não apenas à mulher com a qual partilhei a tumultuosa província dos lençóis que a fome enrodilha, burlada pelo tempo até não sobrar nenhum detalhe que possa povoar a mais magra das molduras, oh, a fotografia-memória da qual nos pudéssemos orgulhar quando a vida nos visitasse, mas também as cenas que dinamitei pela minha falta de jeito como actor.

Este século é solo pouco propício ao sonho. É difícil alimentá-lo numa terra de doidos.

Terra de Doidos


Roberto Gamito

21.02.22

Escusado será dizer que estamos todos meio queimadinhos dos cornos. À minha frente, à distância de duas mesas, está uma mãe a educar a sua filha enquanto come um palmier de faca e garfo. Está aqui um belo trabalho! De que vale vozear ‘sê uma criatura porreira com os teus semelhantes’ se depois come um palmier de faca e garfo? Tremo só de pensar que adulto será esta criança.

Aproveitando que estou numa maré de saúde, detenhamo-nos na fauna de pastelaria. A velhota a cheirar o bolo de arroz, a senhora que molha a torrada no galão, o velho que fala aos gritos e o palhaço agarrado aos livros. Não queria ser eu a levantar a perdiz do restolho, porém não podemos continuar a ignorar o problema. Presentemente, ninguém come o bolo da forma tradicional, isto é, com as mãos. E isso é preocupante. Faltará pouco — profecia minha — para que um novo costume ganhe adeptos: comer cu de faca e garfo. Seremos todos uma espécie de apóstolo da etiqueta, atravancando a fornicação com rituais de novo-rico.
Burocratizar a foda é uma tragédia: temos de estar alerta.

A outra hipótese, quiçá menos descabida, é a necessidade de fazer render o peixe. Comer à selvagem é devorar um bolo em menos de um foguete, com faca e garfo consigo fazê-lo durar indefinidamente. Consigo racionar o pastel e assim tenho desculpa para ficar alapado numa pastelaria durante horas: estou a consumir. Eu próprio sou adepto dessa técnica de fazer render o peixe no capítulo dos iogurtes. Enquanto gordo praticante, volta e meia preciso de racionar o que ponho no bucho, não vá tornar-me um gordo surrealista pintado por Salvador Dalí, daqueles que derretem à temperatura ambiente. Como gosto de iogurtes, e por minha vontade comia aos packs de 6 de cada vez, arranjei um estratagema — a minha maior obra até à dada — que é usar a menor colher possível. A colher minúscula faz com que me demore no mesmo iogurte, dando a impressão de comer um de uma arroba. Engano o cérebro — por sorte é um daqueles que se deixa ludibriar facilmente — com um iogurte. E além disso faço exercício em virtude do sem-número de colheradas que levei à boca.

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Roberto Gamito

18.02.22

Partilho da crença de que a maneira de falar nos fornece um belo retrato do miolo. Não obstante a qualidade da tradução, há que evidenciá-lo, passar as carambolas a limpo, verter o metal fundente da cachola para a língua é um processo no mínimo imperfeito. Seja como for, fornece-nos uma imagem segura do que se passa cá dentro. Do outro lado da barricada, perdoem-me a minúcia, mas não é descabido analisar este pormenor, a grandiloquência com tiques teatrais pode igualmente facultar-nos a mesma imagem. A preguiça intelectual, a qual se pavoneia papagueando as bacoradas mais em voga, dispensando o pensamento (jogada inesperadamente inteligente, dado que o cérebro é um electrodoméstico que consome demasiada energia) não é mais nem menos danosa que o barroquismo armado ao pingarelho associado às migalhas. Cumpre-se sempre uma de duas profecias: 1) o Homem aproxima-se da figura do poeta, encontra as palavras certas, embora a verdade lhe faça caralhadas do alto da torre de marfim, profecia de Agostinho da Silva, melhor dizendo, vai às cordas do humanamente possível de maneira a dizer o máximo com o mínimo de palavras; 2) o pensamento transforma-se em coisa de museu, profecia de Byung-Chul Han, e todo o discurso se torna parente de um refrão de música brasileira, daqueles apinhados de palavras desconexas e onomatopeias.

No entanto, como nada pode ser esclarecido com dois ou três palpites de taberneiro, necessitamos de afinar o modelo do mundo de tempos a tempos. Há factores que contribuem para o barroquismo ou para o vácuo, sendo o mais proeminente o cansaço. Quantas e quantas vezes já me aconteceu estar de tal maneira esporrado de miolo — no Baixo Alentejo esporrado significa também cansado até dizer chega, não conheço outro termo que lhe chegue aos calcanhares — e pôr os pés pelas mãos, armar-me em contorcionista quando de mim esperavam um tenor calejado. O cansaço só me faz passar vergonhas. Quanto a vocês não sei, mas a mim o cansaço retira-me habilitações literárias. Houve dias em que, graças ao cansaço, não tinha mais que a quarta classe. É preferível largar os livros e os estudos e dormir mais uma hora. De que me vale palmilhar a Biblioteca de Alexandria se depois estou demasiado afadigado para falar e pensar sobre as minhas descobertas? Proponho mais descanso e menos livros.

Como já foi dito por pessoas interessantes e humoristas, se um político ou aspirante a tal usa o refrão nauseante “portugueses e portuguesas”, sei, de fonte segura, que é um embusteiro amiúde fanfarrão e um caguinchas ignorante da gramática. Se escreve “amig@s”, além de estúpido, é também merecedor de um carnaval de chapadas no focinho. Apreciações da minha lavra, evidentemente, há quem se erice se não semearmos um ‘x’ ou um ‘@‘ em palavras que já nos deram tantas alegrias. No fundo, somos iguais: gatos assanhados a disfarçar o cio, uns e outros a ensaiar danças contemporâneas às tantas da noite.

O discurso dos hóspedes deste século leva-me a acalentar, quando muito, um resíduo de esperança. Tal como todas as grandes parvoíces, é um processo imparável. Uma batalha perdida.
O que tenho vindo a observar, à distância, postura não muito sapiente da minha parte, dado que sou míope, porém não me quero envolver com a malta deste século, ou seja, observo estes anos do último miradouro do século XX, são várias tendências deprimentes: o pedantismo postiço, a inclinação para o cadáver esquisito por parte de surrealistas desprovidos de imaginação, a afectação espontânea, os trejeitos de genialidade, esta última tão bem descrita por Javier Marías.

De cada vez que ouço ou leio um influencer armado em escritor, que os há aos magotes, e parece não haver crítico capaz de desparasitar as prateleiras dessa praga, a falar sobre poesia, tenho vontade de me alistar no Daesh. A fanfarronice misturada com o não faço puto de ideia do que é a poesia levam-me aos arames. É com cada fanfarronada que os génios até dançam samba no caixão. Resultado: uma subjectividade típica de ignorante barbudo. Detenhamo-nos neste aparte: até a barba foi desprestigiada por estes dias. Quem diria que um dia teríamos esta espécie improvável: o barbudo analfabeto, que é como quem diz, o hipster. Resumidamente, o hipster tenta compensar a sua falta de cultura com bigodes e patilhas disparatadas.

Observemos, qual biólogo, a ninhada deste século: o activista ecléctico, o esquerdista teatral, os filhos do Trump, isto é, os poetas da baboseira, o humorista assustadiço, o artista marreco, o pensador sem cabeça, o espalha-brasas polivalente (antes de importarmos a palavra bully era este o termo utilizado), o apóstolo enfurecido da empatia, o paladino do óbvio, o cientista do palpável, o negacionista, o pseudo-intelectual, o pseudo-gigante, estúpidos de todos os sabores e o liliputiano em bicos de pés. Peguemos com jeitinho no pseudo-intelectual e atiremos o resto pelo penhasco. São os que açambarcam com afectação típica de actriz de novela qualquer termo inglês como se fosse a pedra filosofal, como se antes de eles descobrirem o vocábulo na língua do novo deus, o denominado por ele jamais tivesse existido onde quer que fosse. Teríamos de citar Eça de Queirós de manhã à noite a fim de perceber os novos voos do provincianismo que sempre nos caracterizou. O apego doentio pelo francês passou para o inglês. No português é que ninguém lhe pega. Há a crença de que, se enxertarmos a nossa frase anémica com vocábulos ingleses, a nossa deixa será entendida como brilhante. De uma assentada, mascara o óbvio e a ausência de ideias. Uma das consequências, raramente abordadas pelos vigilantes da língua, é que há muita gente que sabe pronunciar correctamente os termos ingleses e, todavia, quando se encontra com o termo português, esse embate provoca-lhe estranhamento.

Não será descabido abrandarmos a marcha e comermos uma bucha no apeadeiro da marotice. Palpita-me que as gerações mais novas já não fornicam em português. Por milhares de vezes fui espectador do seguinte espectáculo posto em discurso: o português carece de vocábulos capazes na esfera da fodanga. A segunda coisa que pensei, sendo que a primeira foi o suicídio: estamos irremediavelmente perdidos. Que país é este que vota o caralho e a cona ao ostracismo? Não quero ser obrigado a foder em estrangeiro.
Não quero viver num país que viu nascer Bocage, O Pauzinho do Matrimónio e agora sente pudor em vir-se na língua lusa. Sinto que falta uma espécie de activista da cona e do caralho para combater eficazmente o preconceito.

Eis-nos chegados ao tema da crónica. O novo pedante. Em tempos idos, o pedante era um gajo chato, porém sabia muito de muita coisa, hoje é apenas chato e vazio. Hoje não se lê, decora-se nomes de escritores; hoje não se tenta adentrar no filme, surripiamos uma frame, tipo homenagem ao tumblr, porém sem a parte boa que é a pornografia; não se interpreta um poema, sublinha-se um verso, utiliza-se a subjectividade como muleta de molde a não ter de responder a nada, carece-se de opinião sobre tudo ou então citamos o rabugento estrangeiro mais à mão, não vá alguém chatear-se e perdermos seguidores — a maldição do século.

Vamos lá ver uma coisa, como diz o bardo eleito pelo povo, o conhecimento, o pensamento — e a arte por arrasto — dão trabalho. No entanto, não abdicamos da aura — queremos continuar a ser apodados de instruídos, pensadores, poetas, artistas e o mais que se lembrarem sem suar nem queimar pestanas. Em todo o caso, ninguém liga, estamos todos embrenhados neste zapping de doidivanas, a saltar de coisa em coisa qual sapo em ácidos, quando vemos um filme não vemos o filme, estamos nas redes e o mais, abrimos um livro de poesia não com a vontade de nos perdermos mas com a preocupação de sacar a melhor fotografia para o Instagram, vemos citações de pendor existencialista a servir de legenda a rabudas — não critico, bela aliança —, mas se tentássemos fazer sumo com o homem contemporâneo seria um trabalho votado ao fracasso. Seriam necessários dias para obter meia dúzia de pingas. Eu, que nunca saí deste mundo para ir a Marte, digo-vos: falta rigor aos filhos do século XXI, isso vi eu num filme iraniano ou num poema ou numa citação que acompanhava um culto mamaçal.

Comunidade Cultura e Arte, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.02.22

A timidez impede-me de ligar para o aspirante a verdugo a altas horas da noite com o fito de o convidar para excessos. O bom do vício, arena dentro da qual álcool e fornicação andam de mãos dadas aos pinotes, quais duas cabrinhas folionas, não entra. O maior excesso ao qual podemos recorrer é — observe-se a ousadia — cuspir umas piadas. Se hipócritas, a relação com o aprendiz de verdugo funciona às mil maravilhas, quase a raiar o idílio. O problema — inverosímil em virtude de nos passearmos turisticamente neste século de miolos afadigados — é pensarmos pela nossa própria cabeça. E se o homem, no pino do seu delírio, salta do molde da convenção como metal fundente e leva a cabo um comentário à legenda tida como dogma? Temos a burra e restante família nas couves. Além do acto iconoclasta de pegar na marreta e bramir “alto e pára o baile”, o comentário é já de si, a menos que seja um judeu a fazê-lo, apropriação cultural. Abstenho-me de comentar seja o que for, não sou judeu, não faço tenções de o ser nas próximas vidas, pelo que não sou a criatura mais indicada para opinar por escrito. As minhas humildes origens só me permitem apanhar e calar e comer nos dias santos. Mamar as escrituras e sucedâneos sem acrescentos da minha lavra, não impor-lhe erratas nem adendas. Quando muito, vestir o fato de papagaio e ser acólito do eco e andar para aí descansado a papaguear as baboseiras mais em voga.

Uma das características mais nocivas do nosso tempo é o medo posto por extenso, seja sob a forma de aspas, redundâncias, eufemismos, perífrases e por aí vai. A diluição da tensão verbal é sintoma da relação conturbada com a palavra. Tenho, portanto, de ser escrupuloso ao máximo na hora de beneficiar a turba burra de algozes com epítetos, não vá a guilhotina tombar-me nos punhos e ser obrigado a finalizar o texto com os cotos em sangue. Há uma personagem com muita saída por estes dias: o virtuoso histriónico e hiperbólico ao pé do qual antigos sábios e santos parecem canalhas. Se aterrássemos neste século vindos sabe-se lá de onde, por exemplo, escorraçados do paraíso ou da cona da mãe, ficaríamos com a impressão que o bem só é bem se for gritado ao megafone. É a sociedade do grito na qual o sensato é posto no saco dos mimos — e com isto já fica tudo dito sobre o olho de lince da nova casta de virtuosos.

Há dias, estava eu nas minhas lides de escrita, que é como quem diz, a tropeçar nos vocábulos de molde a provocar uma faísca, com o focinho enterrado em livros e cadernos, qual perdigueiro viciado nas minudências do pó — ai meu Deus, para o que havia de estar destinado este rapaz! —, a cofiar esta barbinha de esquerdalho asmático, a gingar este bigodinho nada fotogénico em virtude da comichão, quando, finalmente posso contar-vos algo com pés e cabeça, vejo uma mulher abeirar-se do meu coração com a carne aperaltada para o desastre, expressão muito literata, quase enfadonha, ralhou-me o péni mais tarde — pénis à Cláudio Ramos, não esquecer que é o homem do téni — me marimbo nas croniquetas e na versalhada e transformo o meu olhar em batedores liliputianos cujo o labor seria, doravante, percorrer o corpo da fêmea em busca de um sítio para pernoitarmos juntamente com as ideias mais acesas; farejei, não escondo, o atractivo decote como quem procura as musas no fundo de um poço. A boçalidade, amiúde condenada por esse bando de censores que nos impedem de simular o pecado, é saudável para a postura, isto contou-me uma enfermeira que me tratou do inchaço do príncipe do baixo ventre. Eu, que pouco sei da vida e ainda menos sobre a morte, endireitei a postura, adiei a marreca característica de quem é parvo o suficiente para esfrangalhar o esqueleto em leituras e, mais saudável, com o fôlego no máximo, mudei-me para aquele olhar hospitaleiro e magiquei uma epopeia de ancas dançarinas, a qual me ocuparia nos próximos tempos.

A ver se o humor morre, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

16.02.22

O movimento deixou de ser o objectivo; em vez disso fortaleceram-se as estratégias de propagandear o futuro movimento. O homem-estátua grita que um dia será maratonista.

Ninguém é imune ao grito. A primeira palavra após o bramido é decisiva: é teatro ou não é teatro? Há na espera uma delicadeza raramente elogiada. Por que espera aquele que podia estar em qualquer parte do mundo?

O mundo escondeu os seus podres, diz uma hiena a outra. Já não pertencemos a este século, prossegue o necrófago. Aquilo que era efémero porque humano foi banido e agora é quadro de museu.

Antes de o mundo ser mundo — estranho e povoado de possibilidades —, talvez houvesse apenas uma palavra dentro da qual se acoitava o infinito. Sentimos falta dessa arrumação.

Uma vida a endireitar demónios é cansativo, diz o paciente ao psicanalista. A cabeça do homem contemporâneo é um congresso de demónios ilustres, comentou o psicanalista, isto é, rebentos do eu.

A estupidez é um diplomata sem talento: a sua tentativa de aproximar dois povos sai gorada.

O início e o final são duas formas distintas de pronunciar nada.

Neste panorama pouco animador, talvez o pior seja a constatação de que os bolos fazem as vezes dos messias. O bolo salvar-nos-á?, pergunta a velha ao padre. Não fale de boca cheia, riposta o pastor-fabulista à ovelha do seu rebanho.

Diálogo de Hienas

 

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