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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

14.02.22

Quis o destino que eu sobrevivesse até este dia, dia de São Valentim, moderadamente ileso, excepto umas ligeiras tremuras entremeadas com gritinhos abafados pela almofada quando medito no amor e dificuldade em adormecer sem soltar um Nilo de tristeza para os lençóis. A minha hora há-de chegar, digo eu, diante do espelho, de modo a parecer um garoto barbudo e introspectivo com um pijama pejado de porcos de forma a condizer com o meu gabarito intelectual e não um tipo tomado pela insânia; só espero é que a hora não coincida com a da minha morte. Não seria de estranhar. Sou pouco organizado e não me espantaria que o destino me tivesse marcado o amor para a hora da morte. De facto, seria o episódio indubitavelmente mais marcante da minha vida, e o último, como se tivesse deixado o melhor para o fim. A minha inteligência e beleza exótica — leia-se desespero pausadamente — serão recompensadas. Deus não dorme; todavia, em virtude da idade, é incapaz de escutar as preces dos humanos, muito menos as minhas, que sou, segundo as palavras de Jesus, esse privilegiado, o único homem que não é filho de Deus. E como não dorme ainda piora a situação; é um mouco irritadiço. O problema dos milagres está despachado: não posso contar com eles.

Não é uma tarefa fácil, com a vontade de viver a escassear, porém como alguém tem de prosseguir com a minha vida e, considerando as ofertas no mercado, entendo que sai mais barato se eu tomar conta deste negócio tão pouco apetecível. Não faço a mínima ideia do que quero dizer com isto. Se continuo vivo, se não é uma vitória estrondosa, é pelo menos uma vitória moral. Que, traduzido na moeda corrente, é um valente nada.

A verdade é que, durante a minha vida, levei a cabo muitas experiências no domínio do fracasso amoroso. O amor, segundo a minha ideia, é dotado do poder de enviar toda a nossa vida para uma nota de rodapé, dando-nos a possibilidade mágica de rabiscar de novo o livro da nossa biografia. Por azar, não tenho qualquer génio quer para a escrita quer para o desenho. É só gatafunhos. Não me chateio; ninguém percebe muito bem o que é o amor. Aliás, este procedimento, o rabisco, é tão-só a minha forma de exprimir a minha incapacidade de o compreender.

Imagino-me a esfarelar orégãos para uma salada de tomate, um hábito que ganhei quando saio à noite, enquanto bebo um copito (saliento que o corrector ortográfico trocou-me, vezes sem conta, a palavra ‘copito’ por ‘coito’), não obstante ser considerado um hábito socialmente condenável, sou bastas vezes interpelado por um olhar que oscila entre o meigo e o esfomeado e, em resposta, confortavelmente metido numa farpela de rubor, a qual preludia a indumentária do suor, treinado para salivar diante da febra, como uma nova raça de cão de Pavlov, naquele habitat de silêncio tépido onde homem e mulher praticam ping-pong com os olhares, eis que ela diz: “A forma como tu esfarelas os orégãos enriqueceu-me incomensuravelmente a vida.” A forma de seduzir, respondo eu, confiante do meu acto exuberantemente erótico, mais eficaz que conheço, minha querida.

Descontraímo-nos com xaropadas, frases sem nexo, risos que afloravam a qualquer momento, esfrangalhando-me as piadas, a coisa que eu mais detesto na vida, logo a seguir à fome no mundo. Fiz-lhe ver que era um homem diferente, um papalvo de alto coturno, padecia de um comportamento de idiota, isso era indiscutível, porém invulgar e ela admitiu que nunca vira nada assim. No meu nervosismo, sussurrei-lhe esta salada de tomate é para ti.

Nunca ninguém me disse uma frase tão doce, retrucou, encantada. Os minutos seguintes, como é fácil de ver, abarcaram diversos assuntos, dos mais simples ou mais exigentes, desde que o leitor esteja disposto a prescindir da lógica. Penso, desde essa altura, que falei demasiado. Da salada de tomate até à amizade vão dois grãos de sal. E eu distraí-me com o q.b. Tornamo-nos amigos e eu tive de adiar, de novo, o amor. De resto, ela confessou-me que nunca me iria esquecer, pois nunca havia comido uma salada de tomate às 3 da manhã.

Dia dos Namorados

 

 


Roberto Gamito

14.02.22

A trova entre a bala e o tombo. A mansidão abeira-se do pescoço cheia de dentes. As sílabas parasitas do eco vandalizam a mente arruinada. O nome da amada retrocede até ao anonimato. Biografia passada a limpo, mosaico de figuras sem pés nem cabeça. Golpe embalsamado no poema. Cabeça, a ilha do desnorte. Luz elevada a fóssil. O equívoco regateado pelos corações. Oxalá me miniaturizes o precipício.

Terra do Sempre

 


Roberto Gamito

11.02.22

O longo somatório de zeros que é a vida deprime o animal ocasionalmente vertical. O que nos sobra é o ofício de poeta rezingão, em última instância, fingir intensidade numa casa mortuária. À margem dos episódios outrora marcantes, desenhamos uma aldeia de bonecos e rabiscos, eis o nosso acrescento ao guião do século.

O espanto é quando o mundo nos mostra o forro do casaco pejado de relógios e nos damos conta do aumento de possibilidades. Estar espantado é abrir as portas da perceção ao ignoto, fornecer-lhe as condições necessárias para que ele espevite os neurónios mais dorminhocos. O Homem do século XXI? Deitado será mais útil às gerações seguintes.

Separar o trigo do joio tornou-se um ofício de poucos. O pensamento ou o seu sósia é administrado como quem dá navalhadas à papo-seco na pança mais à mão. O inteligente é um estúpido em formação. Ao imprevisto que te atinge e rasga o plano poderás exclamar: mas eu tinha o papel! Tinha outra ideia para o futuro, mas o mundo não passou cartão.

Sem separar o genial do medíocre, a esquerda da direita, o alto do baixo, o gigante do anão, o morto do vivo, a cana rachada do cantor, o manjerico de Dante estamos a passar um atestado de loucura à humanidade. Não reconhecer as diferenças é um dos primeiros sintomas de que algo de muito errado se passa na mente colectiva.

O Homem está louco quando damos conta que há nele distúrbios na medição do mundo. Eis-nos no epicentro da batalha entre Humor e Narciso. O Narciso crê que o seu mundo é do tamanho do universo, ao passo que o humor põe a sua cabeça no cepo e faz pouco da procissão de liliputianos. A arte — o humor à cabeça como agrimensor das províncias de Narciso — abate-se sobre os ossos da humanidade de supetão. E assim se perde meio metro num estalar de dedos. Ora, num território de gigantes postiços a arte é interdita. O soco no estômago como que nos obriga a curva-nos: perdemos estatura. Levar com o mundo no estômago torna-nos menos fotogénicos — e ninguém merece passar por tamanha aflição.

No feed de Instagram, os retratos sangram pelas feridas do ego e interferem assim nas declarações sensivelmente pacifistas dos evangelistas da empatia. Começo a achar que a mão é a maior ficção de todos os tempos. O Homem não faz nada do que diz, não porque é ocupado, mas porque carece de membros superiores.

Ele e ela são dois. Contabilisticamente falando, é uma frase inatacável. Mas sei de casos, comentará o negacionista das somas, em que é zero. É só uma questão de tempo: a relação não produz um resultado estável. Perto do limiar da tristeza, somamos restos de um com os restos de outro. Cada resultado é um diagnóstico.

Pára de chorar, diz o morto, não compreendes o meu sofrimento. Não mereces ser a minha carpideira. Ninguém é imune à quantidade, gritou o eremita. Como afiançam alguns filósofos contemporâneos, a verdade, o pensamento já não pertencem a este século. O pensamento não é espectacular, a verdade, essa, safa-se in extremis. Não fosse o espectáculo da morte do outro e já nos havíamos matado a todos.

Antes de o universo ser universo — vasto e sem sentido como é —, talvez fosse apenas um ponto. Imagino o início — o ponto — povoado com tudo o que há. O universo absurdamente contorcionista: Deus em cima de um elefante que por sua vez estava em cima de uma tartaruga, todos os animais encavalitados uns nos outros, nenhum espaço por ocupar, a língua, uma mixórdia de vocábulos, música, zumbidos, grunhidos, rugidos, ondas que ao rebentar silenciavam cigarras, cigarras a competir com erupções, sismos com corações. O cérebro do Homem é herdeiro desse ponto. Patrono do mundo onde Deus se acoita no centro da rosa em redor da qual orbitam planetas e dragões.

Nas vésperas do fim, estou dividido entre o nada e a vida.
A verdade final não nos engrandece, só nos dinamita. A vida é uma trajectória de rugas: o início e o fim são assombrosamente distintos. Embarcar na senda pela juventude eterna é cortarmos relações como o mundo. À medida que envelhecemos, a ficção da verticalidade torna-se um fardo e tornamo-nos corcundas.

A nossa é sem dúvida uma época estranha, confusa e sem grandes inícios. Neste panorama pouco animador, excepção feita aos vampiros e demais oportunistas da catástrofe, talvez o pior seja a constatação da profecia de Cioran concretizada — para ele uma verdade absoluta — de que a humanidade não passa de um mal-entendido; de que as pessoas, salvo raríssimas excepções, se encontram espectacularmente desinformadas em plena era da informação, uma vez que só lemos, ouvimos e vemos parangonas que enobreçam o nosso reflexo. Na verdade, mentalmente falidos e derrotados, entrincheirados na comodidade de um refrão infantil segundo o qual a vida é isto, a política é isto, o amor é isto, entre outras bacoradas sincronizadas e fluídas que povoam o ar qual bando de estorninhos estamos desgraçadamente sós.

A estupidez, a qual nunca terminou nem abrandou, é a língua oficial do século. Não é que os inteligentes alguma vez tenham sido demasiado de fiar. O que difere entre o estúpido e o inteligente é o arsenal de manhas e patranhas. O curioso é que, apesar de todas as variantes da estupidez, com ou sem miolo ginasticado, os homens estão empenhados a saturar os seus diálogos — corrijo, monólogos — com termos ingleses, citações da moda, pronunciadas ou escritas, enxertadas com talhadas biográficas, num estilo em que a razão fica irreconhecível, de tão desfigurada que fica com os pontapés, quer da gramática, quer da agenda política. O provincianismo, tão epicamente sovado por Eça de Queiroz, atingiu o zingamocho: povoamos os nossos discursos de termos estrangeiros, não vá o outro chamar-nos inútil ou ignorante. Bem analisada, a frase é incapaz de se pôr de pé: não é por lhe adicionar miríades de próteses inglesas que a ideia é capaz de caminhar rumo às cabeças ocas.
Extintos os poetas, a língua dá à luz uma multidão de cantos nados-mortos.

Eis-nos no seio de uma largada de vocábulos, à grande e à francesa, ou melhor, à grande e à inglesa como se este século não passasse de uma monumental peça do último dadaísta. Dadas as nossas limitações para perceber o que quer que seja, ficamos com os cabelos em pé — felizmente, a calvície assentou arraiais na minha generosa cabeça e já careço de meios para me irritar como em tempos idos — só de imaginar as aulas leccionadas por esses analfabetos grandiloquentes. Inspirado na prática dos nossos pares, repetimo-la nos nossos moldes e damos largas aos queixumes: a internet, essa fábrica de produzir papalvos, essa guilda de bárbaros assustadiços, essa metrópole de parolos e por aí vai. São mil reis a um osso e o osso nem sequer existe.

Mil Reis a um Osso

 


Roberto Gamito

10.02.22

Se dermos uma vista de olhos pelas publicações deixadas ao abandono nas redes sociais, as quais julgámos pepitas e não passaram de nacos de prosa que não suscitaram interesse nem no carnívoro menos criterioso, vemos uma esmagadora maioria de insultos, frequentemente disparatados, tipo erratas rezingonas cujo fito é restituir a verdade — imagine-se — à piada. Nem sequer há margem para o benefício da dúvida. Afortunadamente, vivemos na Idade de Ouro do Eclipse da razão, é impossível enganarmo-nos: somos acólitos da verdade, da empatia tonitruante, da pessoa e da vida humana e, fintando a lógica, chacinaremos qualquer papalvo que se atravesse no nosso caminho com uma borrasca de redundâncias, frases sem nexo, em suma, seremos animais dotados de uma cólera desafinada, isto é, desajustada tendo em conta o cenário. Faltará pouco para que uma piada seja o motivo pelo qual se inicia uma guerra. Quem riu são os maus, os sisudos os bons. Será apelidada pelos historiadores do futuro como a Guerra do Respeitinho.

Volta e meia dá a impressão de que a única coisa que o homem contemporâneo faz apaixonadamente é queixar-se. Remodelou o mundo, esvaziou-o de oportunidades e de deuses, dinamitou os cumes e extingui as vertigens, chacinou os algozes e tomou o seu lugar e hoje leva a cabo uns biscates e metamorfoseou o globo numa grande sala de espera onde a tensão, burocracia e a maluquice estão entrosadas maravilhosamente.
Admirar o outro? Se for do meu quadrante é impensável. Melhor: ninguém é merecedor de aplausos. Ainda melhor: façam o favor de deixar de respirar, o oxigénio é escasso e é uma crise humanitária vê-lo desperdiçado em humoristas.

Como nos afiançam os livros, a maior desgraça que pode acontecer à Humanidade é alguém sair-se com uma piada. O rei pode esboçar um sorriso e é por aí que o Diabo entra para escavacar uma Era Opulenta. Dizer o bem quando algo está mal ou vice-versa é impensável para quem é primo dos ciclopes, os descendentes marrecos da visão única — os literalistas enfurecidos. Que fresca figura fazem aqueles que, face a uma piada, não fazem nada senão rir. Patéticos — ignoram como obter lucro do humor.

O problema deste filme é que não puxa por mim, não me revejo na identificação, embuste comparável aos maiores da Igreja, e torço o nariz ao Evangelho da Empatia. A arte não é um reflexo. Não me mates, ó grande Narciso, mas a escrita, tal como qualquer arte, é o ofício de turvar as águas. A ambição de fazer das águas calmas — Diógenes, o Cínico talvez dissesse estagnadas — uma espécie de estante de egos é uma forma caquética de fugir à morte.

E outra coisa: o filme não é sobre ti, a morte do artista não tem que ver contigo. Façam o favor de não me relatar o que se passa — grande teatro, sublinhe-se — no vosso coração aquando da morte de um escritor há horas ignorado, que já me chegam as minhas tripas com as suas traquinices a tentar impingir-me gato por lebre no capítulo do amor.

A pose consumista, isto é, a de catraio fanfarrão está presente em todas as esferas. Veja-se o exemplo de Ricardo Araújo Pereira e seus detractores. A piada dele, tal como a de qualquer humorista, pode oscilar entre o medíocre e o genial, porém o problema é outro. A questão é partir do princípio de que quem se atreveu a verbalizar qualquer coisa em tom humorístico pretende vigarizar-nos, afastar-nos da suposta verdade e vender-nos gato por lebre. De chofre, aparecem cachos de árbitros de narizes de empinados com o seu apito, prontos a assinalar as supostas ilegalidades, leia-se piadas.

Eis-nos numa arena de gladiadores singular. A piada presta-se a isso, o habitat ideal para disparatarmos, coordenadas onde pomos a nossa cólera em obra, dado que tanto o indignado como o humorista são da família dos caguinchas. Então, como se o wrestling tivesse tido um filho com o Woody Allen, simulam-se cabeçadas e pontapés e andamos às voltas sem ninguém ir verdadeiramente ao tapete. Uma luta interminável destituída de KO. Ninguém vai ao tapete com um pedido de desculpas. Eis outra forma de luta, enquanto os fanáticos do linchamento simulam pedradas, a vítima teórica simula um carrossel de desculpas. É um ensaio vertiginoso de desculpas, dado que nenhum serve verdadeiramente, nenhuma tentativa alcança a perfeição ambicionada pelo carrasco. Recomendo: espectáculo único para quem está de fora.

Essa atitude contagia um bom número de aspirantes a humoristas, espectadores, e qualquer animal com bigode, os quais, por princípio, se desculpam face a qualquer manifestação de espírito fanfarrão. Desculpa, argumento1; desculpa, argumento2; desculpa, argumento 3; assim até ao infinito. Descendentes de Walt Whitman e Nuno Markl, pais da anáfora medrosa.

Mas regressemos ao RAP para abanarmos a mão ao som desse tema que é a imbecilidade. A este, a turba fanática escrutina-o a cada piada como se fosse um principiante suspeito (manifestações desta empáfia há em qualquer esquina: analfabetos a criticar Melville, gajos que nunca pousaram os olhos num livro a opinar sobre Wallace Stevens, cegos a comentar as cores de Cézanne, e surdos a corrigir Beethoven — esta última não sem razão), os que aprenderam a lucrar com os linchamentos dos humoristas adormecem com o apito nos beiços para soprá-lo ao primeiro falhanço, desejando-o até. O clima é tão tenso que o humorista semeia vírgulas à Teixeira de Pascoaes entre o sujeito e o predicado. A ilegalidade não necessita de existir, basta ser imaginada. Figura deslumbrante esta: o rezingão que não cessa de fantasiar. É preciso ver, filhos de Polifemo, contado ninguém acredita.

Matou-se a piada e com sorte o humorista. Graças a deus temos o fanático das comédias para evitar a cratera da laracha, esse grande asteróide cuspido pelo bobo. Mais uma vez evitou uma catástrofe com o seu ressaibo.

Para dissimular a sua estupidez, plagiou o comportamento de um adepto da bola, a saber: basta apontar defeitos à desgarrada, o fora de jogo pode ser e não ser ao mesmo tempo, a lógica banida, a tão propalada empatia não entra, e remata: “aqui não há quem escreva uma piada de jeito”. Ao manifestar-se constantemente insatisfeito, simula um conhecimento que não possui, e os graus académicos surgem à tona da folha branca — eis a beleza do nosso século. Ao fanático do humor, o qual só se ri das piadas dos portugueses se forem traduzidas posteriormente em inglês ou quando é atraiçoado pela memória e as escreve como se fossem suas — ainda há coisas bonitas neste mundo, tanto se lhe dá se está a ser justo ou injusto, se o humorista levou décadas a obrar milagres, a sacar coelhos da cartola onde os demais foram incapazes. É preciso que as cabeças rolem. E se possível, mais que uma vez. Como é magnífica a eterna sede de sangue!

Fanático e a Comédia

 


Roberto Gamito

09.02.22

O corpo caído pode não estar morto. Em redor dele multiplicam-se exemplos da mesma queda. Talvez seja apenas um ensaio para a grande catástrofe. Não podemos cair de qualquer maneira: mesmo na morte, há que ficar bem na foto.

Após tirarem a venda, percebem que os monstros não existem. Voltam a pô-la, afeiçoaram-se a eles. Os monstros do reino interior são as únicas companhias dos eremitas citadinos.
Posfaciar a paixão abortada é estar preparado para afinar o coração. Tudo é simultaneamente antídoto e veneno, além da dose, depende do momento: se estamos fortes ou vulneráveis. Uma paixão na hora errada pode apodrecer o Homem. Literariamente falando, pondo a paixão em livro, o prefácio é o elogio ao antídoto; o posfácio, a crítica ao veneno.

Na cabeça, as ideias estão nos seus aposentos. Antes de serem verbalizadas, procuram farpelas e chapéus que melhor sirvam os seus intentos. Como larápios olímpicos, hão-de vir à tona da língua quase irreconhecíveis. Em correndo bem, hão-de larapiar os cofres das convenções.

O que é para si a felicidade? Não estou a entender, não falo a sua língua, retruca o homem deprimido. São dias e dias mutilados pela respiração.

Nem sempre o tempo nos retira da rua e nos eleva às prateleiras empoeiradas. Da lama ao pó: eis o caminho de um grande aedo. Na arte a glória é acerba.

Não vemos porque, acima de tudo, temos o apetite pelo nosso reflexo. Ver é sair do domínio do umbigo.

Pendurar frases nas paredes do escritório como quem exorciza demónios menores: o trabalho vão, horas desperdiçadas, telefonemas irritantes, pessoas incapazes de erigir um raciocínio, em suma, uma multidão de bárbaros à procura de ternura.

A labuta do bom exegeta é contabilizar as penas do poema: há uma diferença enorme entre uma ave canora e uma ave engessada. Nos bastidores disto tudo, há danças e dancinhas para elevar coxos a atletas, gagos a tenores, medrosos a bobos. O diabo desdobrou-se em milhares de homenzinhos engravatados, os quais regateiam parcelas de alma uns com os outros.

Não suporto que me continues a olhar se não te suscito nada além de lugares-comuns. Nota-se uma certa claustrofobia na lábia do homem contemporâneo. As palavras ditas perigosas são diluídas em eufemismos e perífrases, quando não acompanhadas com aspas. As palavras como feras enjauladas pelas aspas.
O meu nome é hoje uma interminável perífrase, eis o retrato do Homem dos séculos vindouros.

Apesar de a maioria almejar a juventude, a força que lhe é característica desapareceu. Há simulacros de revolta, e é tudo.
Inspirados nas máquinas, há muito tempo que sentimos uma certa aversão — tímida, se sozinhos, tonitruante se em matilha — em relação à singularidade. O único esmaga-nos, reduz-nos ao ponto antes do Big Bang, embora sem ânsias de nos tornarmos tudo. Só descansamos quando o aniquilarmos em vagas sucessivas de lâminas. A beleza do século XXI: podemos linchar dezenas de desgraçados ao mesmo tempo.

O amor é quando o Homem interrompe a trajectória a que muitos chamam destino e pondera outras opções. A ideia volta e meia faz as vezes da paixão: ela aparece-nos chamejante e somos impedidos de dormir durante dias. Dessas insónias retiramos o nosso néctar.

Não tenho uma mão inédita todos os dias. Há dias em que me limito a despentear memórias com a mão esquerda.

Dinastia do Umbigo

 


Roberto Gamito

08.02.22

O gemido, aliado a um nome, pode conduzir-nos às alturas. Humoristicamente falando, estamos diante de um foguetão caseiro. Expandindo a cena cientificamente, teríamos, num hangar algures no meio do frio, cachos de homens a vistoriar a trajectória da paixão. Em correndo bem, aplaudiriam, de calças em baixo, mais uma missão bem-sucedida.

O Deus original tem, nas suas paredes, não escaravelhos ou borboletas, mas deuses menores alfinetados: arrumados de acordo com a sua rareza. Ao lado destes, fraudes e deuses por nascer.
Ele sorri ao ver o padrão de criação-destruição.

O pormenor esfalfa-nos. É preferível extenuarmo-nos a profetizar uma grande obra. Precisamos de nos demorar um pouco mais, não deixar o rosto por pintar. É por meio do pormenor que as formas são resgatadas do nevoeiro.

Entopem a acção com o evangelho da inércia. Alguém tem de construir, a meio de uma carnificina, uma loja na qual se venda silêncio. É aqui que se compram sementes de esperança? Sim, responde o lojista, mas cale-se.

Atacar eufemisticamente o outro é cobardia, não confundam com educação. Atacar um desgraçado vulnerável em turba não é humano, é animalesco. Existir é estar preparado para a pequenez.

No império de Narciso, vários ângulos foram banidos, só o melhor interessa. Por conseguinte, ensaia-se a espontaneidade vezes sem conta. O pior ângulo do outro também nos interessa, caso nos favoreça. Fotografamos os extremos, esquecemos o miolo.

Impingimos legendas a certos episódios dos quais conhecemos apenas fragmentos. Embrulhe-me essa catástrofe nesse jornal da semana passada, vou servi-lo às minhas vizinhas como se fosse peixe fresco. Vai ser de comer e chorar por mais.

Postular o itinerário do olhar é infantil ou digno de ditador.
O livro de auto-ajuda é uma história de catraio adaptada aos ouvidos adultos. Um certo homem embrulhou uma doença numa prosa sem arestas e não disse coisa com coisa. A manobra publicitária de enxertar o final feliz numa catástrofe é uma das grandes invenções da Humanidade, talvez até superior à roda.

A poesia chorona, que grita em vez de cantar, é incapaz de entrar no Homem pelas suas brechas. É recebida com “giro” e despede-se de nós sem deixar legado.

Até a respiração se pode transformar num monstro, numa coisa que incomoda. Gota a gota criamos o dragão, como nos afiançam os manuais de tortura chinesa. Deus ter-se-á aborrecido quando se deu conta que o Homem pode ser enlouquecido de infinitas maneiras.

Escrever sobre a superfície é pôr por extenso o nosso medo. É o simpático método de liquidar a humanidade: como não quero que o mundo me bata a porta, escrevo e em linhas simulo cercos e cadafalsos.

O homem contemporâneo não existe verdadeiramente, está demasiado preocupado em ser filmado segundo um ângulo favorecedor.

Deitado, o homem-estátua aproxima-se perigosamente do morto. Por conseguinte, defender a verticalidade é o seu verdadeiro ofício. Ao contrário dos demais, permanece de pé e não faz alarde da façanha. É um homem fora do seu tempo.

Pôr a morte a um palmo das pessoas e pedir-lhes que digam, por amor de Deus, algo de admirável. Eis o romancista-carrasco.

O nome, um resto que se agiganta até conquistar a capital da memória. O pensamento, a gaiola barroca do animal. Vida, erro solúvel no álcool.

Vivemos como na Idade Média: rezamos para que não nos matem injustamente. O poeta é aquilo que Deus faz ao Homem quando quer ser surpreendido. A questão que faz a arte andar: alguma vez conseguimos surpreendê-Lo?

Até o mais simpático dos homens tem no seu âmago um monstro.
O coração foi vandalizado por um nome e ainda não recuperou. Um dos mistérios do amor. A cidade interior despede-se da sua Idade de Ouro.

A confusão é a vingança nas mãos de um bárbaro aprendiz.

Todos os versos são declarações de guerra, todas as rosas e pássaros envenenados. Se saíres do domínio das convenções, cometerás um atentado ou serás, de súbito, pai de um novo movimento artístico.

No império dos míopes, tudo é e não é ao mesmo tempo. Os enciclopedistas erraram logo à partida: o inventário pressupõe estabilidade. De que vale classificar o animal se ele é um bicho em constante mutação? A mão produz arte, tal como a lâmina. E o seu avesso, tal como a lâmina.

Encaixotámos os escaravelhos e as borboletas, esquecemos o passado de entomólogo, e hoje penduramos frases breves nas paredes. O escaravelho era para nós, a frase para os outros: eis uma mudança decisiva.

Em certos períodos da obra, cada verso do poeta é uma caixa onde é guardado o paraíso ou o inferno. Uma biblioteca inteira não chega para explicar um único olhar. Arranjar marcadores de molde a irmos lendo aos poucos os olhares dos outros.

O silêncio é-nos estranho e vazio porque para investigá-lo é preciso não estar ansioso. Pertencemos a um século que é incapaz de encontrar seja o que for no silêncio.

Só nos entende quem está familiarizado com o sofrimento. O sofrimento como afinação do entendimento. A alegria como viveiro de mal-entendidos.

Para onde corre o medo se imaginar no meu corpo milhares de portas abertas? Para onde olha o Narciso se o espelho for proibido?

A pequenez é varrida para baixo do tapete, juntamente com os deuses, a nossa verdadeira dimensão causa-nos uma certa claustrofobia. Muda de assunto, por favor, não cortes o efeito do ópio.

Como a vida é bela, se vista num poema.

Evangelho do Kamikaze

 


Roberto Gamito

07.02.22

O Homem contemporâneo (indivíduo em teoria informado, ponderado, perdoem-me o gracejo, hábil na metamorfose) vê-se, sem surpresa, capturado pelas artimanhas da ganância humana. Que haja jornalistas ou ensaístas a abraçar a imbecilidade de que o Homem é um ser a caminho da bondade é algo com o qual nunca hei-de compactuar. Os períodos de paz são tão-somente um respirar fundo colectivo antes do abismo. Mudamos, quando muito, o aspecto das nossas patifarias, mas no fundo permanecemos iguais, bárbaros até ao tutano. Levantemos o malhete com o qual o juiz profere sentenças e fechemos, de uma vez por todas, o assunto.

Um século novo é sempre um século novo: se não consentirmos a sedução da mentira de que nos serve avançar no tempo? A crueldade é a única coisa que muda ao longo dos séculos: subtiliza-se, torna-se labiríntica. Ao tornarmos a salvação burocrática, a crueldade ganhou ares de invencível. Com a agravante de que, ao subtilizar-se, a crueldade torna-se crónica. Um detalhe: presentemente o algoz não se identifica como algoz mas como amigo. Essa é a beleza deste século.

As religiões determinavam — e ainda determinam em algumas coordenadas — o certo e o errado, não segundo a razão e o senso comum mas segundo um rol de dogmas decididos por homens de indumentárias imaculadas que dizem interpretar correctamente as palavras e a vontade da Luz. Com ou sem Deus, este é o guião: arranjar um manual de normas de molde a facilitar as manobras da casta superior. Perdoem-me o salto: os bancos são viveiros de carrascos engravatados. Escandaliza-me a forma como agrilhoam pessoas a empréstimos intermináveis. Choca-me que tentem impingir-nos que são de confiança quando, durante décadas, não só permitiram o endividamento, como o encorajaram e o fomentaram com um sem-número de créditos. A forma como nos deixamos engodar cegamente só prova que o Dinheiro é mesmo o novo Deus. Além disso, há uma relação de poder assimétrica entre o banco e o enfermo — o cliente. O banco é um rico transformado em instituição: é forte com os fracos e fraco com os fortes.
É vítima ou carrasco consoante o clima económico. Ei-lo actor versátil deste teatro em chamas.

Esvaziadas as carteiras, o cliente transforma-se em ratazana e é despejado. Tanto faz expulsar do seu lar uma velhota de 90 anos que aguarda a última molécula de oxigénio, como uma família com cinco catraios aos guinchos. O pontapé no cu não discrimina pobres. Esvaziados de homens, os sítios deterioram-se, transformam-se em ginásios onde se treina o vandalismo, e são desmantelados de cima a baixo até só restar as paredes. Ou então tornam-se locais de ocupas e sem-abrigo. E se estivermos a pintar erradamente os bancos como maus da fita? E se eles não passam, afinal, de filantropos que querem o nosso bem?

De facto, a família que foi despejada pelo banco por não pagar as prestações, pode regressar como sem-abrigo. Representa uma poupança assinalável para o agregado familiar, incentiva o contacto com outras realidades — é como viajar sem sair do bairro. Não haver electricidade dá oportunidade aos cinco catraios de explorar o mundo antes do advento das redes sociais — o que é sempre salutar. Como é possível enganarmo-nos tanto? Os bancos vêem-nos como um peso e limitam-se a vandalizar-nos as carteiras — errado! São nossos amigos, podemos confiar sem medo.

Em Defesa dos Bancos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.02.22

Como começar a pensar pela própria cabeça? Recorrer a pessoas, estranhas e conhecidas, quartos ou quadros, folhas em branco, árvores e perfumes, penas e guilhotinas: eis algumas hipóteses.

A paixão como vereda estreita onde o discurso prolixo se despede dos seus barroquismos. Interessa-me isto: por que caminho regressamos ao estádio animal. Que itinerário escolhemos quando vamos da humanidade à animalidade? Seguimos a via da cólera ou a da fornicação? Mas antes há que responder: de que forma sai o Homem do silêncio? Tranquilo ou ofegante: eis tudo.

Tangentes da nova escola, que tocam de raspão mas alardeiam profundidade. Profetas e poetas da tangente. Nuvem de arpões mansos.

A imaginação parte de um pormenor, ingressa nele com ganas, fá-lo ganhar volume, dentes e asas e só descansa quando dele brotar um monstro. A obra do olhar, a sua actuação sobre a paisagem ou um corpo. Eis a missão da arte: fazer de um olhar, de uma rosa, de uma paisagem uma porta.

Em certos funerais, o mínimo choro pode dinamitar uma cidade. Há uma tensão à beira da explosão. Os segundos são frágeis: o mínimo choro, soluço, sílaba pode trazer ao mundo uma nova geração de carpideiras. Diante da morte, o choro metamorfoseia-se em dinamite.

Há, no eufemismo, tão caro ao século XXI, um instinto de defesa, o qual denuncia o medo da palavra. O Homem acredita ter descoberto a fórmula para diluir a noite: só precisa de continuar a falar.

No fundo, Duchamp copiou as crianças desarrumadas. Pôr o vulgar fora-de-sítio é o desporto predilecto dos catraios. Eis uma forma de nos escaparmos a reprimendas: não sou desarrumado, sou artista.

Ser artista é pôr algo num sítio imprevisto. Seja o amor numa folha antes em branco ou o urinol numa exposição. A paixão arromba-me o coração e a mente e origina uma desarrumação duchampiana. Tudo muda de sítio, tudo é retirado artisticamente do contexto. Ser artista ou amante, que neste caso vai dar ao mesmo, é testar os limites das convenções. É urgente transformarmo-nos na cousa amada.

Na margem de uma praia remota, o cachalote, vazio como um pneu furado, foi cortado aos pedaços para que as crianças e os poetas consigam transportá-lo em cantigas. A falta de compromisso com o gigante, que é como quem diz, o empobrecimento que condena os grandes voos. Actualmente, não há carapau que dê à costa e permaneça inteiro nas nossas falas. É preciso tornar o mundo mastigável. O enorme necessita de ser desmantelado de molde a não assustar os animais timidamente verticais.

Se não existe espaço para mim no palco, sou obrigado a fundar outro inferno.

O quadro habitado de personagens mudas — uma espécie de febre que cada um traduz à sua maneira. Quem exibe hoje o gosto de permanecer à espera diante de um quadro sem se envergonhar? O quadro do qual despertam socos e pontapés.

Entre um quadro e outro, o homem segreda à sua parceira: Beijo-te, hospedo a minha expedição de expectativas no teu olhar. Que ridículo, retardatário no capítulo do namoro; já ninguém se expressa assim. Quando visto de fora, o Homem é apenas um Homem. Se visto de dentro, uma guerra de pequenos demónios abafada pela verticalidade. Imagino uma exposição constituída por Homens a braços com os seus fantasmas.

A tristeza e a dor dos outros pode ser engaiolada num poema ou num quadro, já a nossa é um animal esquivo, pensa alguém diante de uma tela em branco.

Uma frase para pendurar em todas as paredes do mundo. Que frase seria? Quero que os artistas se fodam, eis um exemplo.

Ninguém está verdadeiramente perdido: se bem lido, o itinerário circular desenha no deserto o mapa do teu inconsciente.

Os versos são trajectos sérios e maravilhosamente inúteis. Surgem de sítios imprevistos, como becos ou cadafalsos, no seio das coisas caladas, e ridicularizam, por momentos, a profecia do eclipse da razão.

Com mais ou menos humanidade, há uma verdade que permanece imutável: pedir é inútil se nasceste nas coordenadas erradas. Ter o berço no sítio certo dita uma vida. O local onde se nasce: metros quadrados decisivos. Apesar do teatro humanitário, as desigualdades adaptam-se como ratos a qualquer cenário.

Após uma obra que lhe saiu do pêlo, o aedo cogita: não me posso dar ao luxo de desperdiçar mais oxigénio. Cada verso tem de dar ares de guilhotina, cada poema um barril de pólvora. Quero matar um sem-número de exegetas, quer trazer o inferno às estantes dos livros empoeirados.

Não nos precipitemos, ainda não acabei de morrer e já me estão a pedir — médicos convencionais e médicos autodidactas — que ressuscite. Calma, uma morte de cada vez.

Engaiolar o abismo é um processo viciante. E o mais difícil é fazê-lo sem sorriso de lunático, sem povoar a orla do vulcão de frases sem nexo. Deixem-me procurar a paz na orla de um vulcão em actividade. Não me policiem as órbitas: sou um asteróide indeciso e o fogo tranquiliza-me. Talvez o Homem seja, afinal, filho do Diabo. Sobra-nos isto: enfraquecer Deus ou o Diabo expandindo-os numa obra sem palavras a mais. Existir é estar preparado para ser deixado de lado. A verdade é o prémio da propaganda vencedora.

Não me vês, não finjas que não és míope. E não há nada que se possa fazer quanto a isso: não posso ser o ditador que obriga o teu olhar a seguir determinado trilho. O Eu não é partilhável através da visão.

O progresso é uma história para adultos que estão a vivenciar a sua segunda infância. A palavra dita à beira do caixão é coisa para se infiltrar numa rocha e fragmentá-la. Não sou o tipo de animal que escolhe os grandes portões mas as entradas secretas. Abandonei o perfume e as madalenas, em vez disso ponho o dinamite em circulação através das minhas palavras. O meu sonho é destruir um século inteiro. E também isto: perceber o desespero do leitor que se deu conta que está a soletrar uma explosão, camuflada num pássaro canoro.

Se vamos ser conservadores em relação aos doentes, ouvi eu na televisão. Frase do nosso tempo. Noutros tempos seria suficiente para iniciar uma guerra. Há, nesta delicadeza caquética, uma obscenidade. Ao que parece, o corpo foi retalhado em colunas de excel. Há doentes que merecem abordagens conservadoras; outros, vanguardistas. Se é para morrer nas mãos do disparate, alcunhem-me de enfermo vanguardista. Morreu de quê? Morreu a tentar ser manifestamente diferente. Até onde chega a habilidade de ocultar a barbárie no discurso? Alegam que somos sofisticados, não canibais, porém vemos o Homem fatiado em todas as parangonas.

A medo avança por aí. E podemos, é claro, ver em qualquer trajecto a demanda de um louco. Se o mundo está irremediavelmente perdido, de que nos vale sair do sítio? A vida é um peso interpretável de mil e uma maneiras. Não há balanças erradas nem certas; contudo, todos os homens têm o mesmo peso. Sem amor, a língua ficaria despovoada de intensidades. Calarmo-nos ou falarmos seria igual ao litro. A vida é o sítio onde o erro começa e acaba, um grito que cavalgamos a horas certas ou a desoras, sem final definido, pese embora a morte nos desminta.

Escrever é sujar lucidamente a folha. Invadi-la com uma miríade de fantasmas e aves de mau agouro. Fica de noite, portanto.

Tenho precipícios nos pés, mas ainda não aprendi a cair. Naquele rosto já não há nada que nos faça sonhar, comenta uma personagem de um romance. É liquidá-lo antes que ponha em dúvida a nossa bateria de certezas, riposta uma pessoa de carne e osso. Corrijo: tenho princípios nos pés, eis o que penso noutros dias mais luminosos. Mas entretanto o punhal já iniciou o seu trabalho nas minhas tripas.

O poeta é impróprio para consumo, resta-nos atirá-lo ao lixo, amachucá-lo sem dó nem piedade. Pode ser que a sua agonia seja capaz de nos educar. Ainda não há canhenhos da barbárie suficientemente explícitos que permitam ao Homem ver-se ao espelho. Daí as dúvidas, daí as escolas do delírio. Em todas as coisas há uma semente de ópio. Dou-vos autorização para me despertarem do torpor se souberem do paradeiro do paraíso.

Se nos tornamos iguais, o Homem torna-se paisagem. Forçamos ligações, forçamos sinónimos, forçamos abraços. A diplomacia afasta-nos da verdade: não há duas palavras iguais.

A amizade é baixar a guarda, confessar a localização da vera porta pela qual o outro ingressará em nós. O parecer colonizou a maioria dos verbos: as portas são hoje fictícias — daí as cabeçadas, quais pardais nos vidros.

O estar parado é desaconselhado. Faltará pouco para se abaterem os homens-estátua. Estar parado é incompatível com a Sociedade das Febres. O ser humano usa uma parafernália de recursos para adiar a catástrofe do silêncio. A paixão — ouvi dizer, não confirmo nem desminto, dado que sou filho deste século — ou a sua ausência faz com que o silêncio possa ser por vezes magnífico e outras vezes hediondo. Não estamos todos no mesmo sítio — como se apregoa ingenuamente. Felizmente, o início é coisa do passado. Minto, o tempo ainda não tinha sido inventado.

Sem a noção de espaço, não havia nada, não haveria prateleiras para pôr tanta mentira. Não poderia haver artistas nem público, nem Duchamp nem detractores de Duchamp, nem casa nem mundo selvagem. Cuidado com o que desejam, pode sair-vos caro.

Que Deus nunca ouça a prece dos ingénuos. Ninguém é educado para ver nas setas pássaros em queda, a não ser o bárbaro com inclinações poéticas, mais raro que deuses, que vê na sua morte uma oportunidade para sorrir.

Catálogo de movimentos

 


Roberto Gamito

04.02.22

O Homem do século XXI abarca o mundo pela rama, é um Leonardo da Vinci de fugida e em tudo tem êxito. Como Terêncio, nada do que é humano lhe é estranho. Em suma, é contemporâneo de um sem-número de delírios.

Nas redes sociais ou na televisão, é vê-lo a injectar vigor em raciocínios mancos, a ornamentar com artifícios ideias rombas com o à-vontade de um sábio. O seu palavreado é magnífico, grandes construções positivas — mas sem sal.
Em chegando perto dos arquivos do sangue, não descansa enquanto não os diluir em contradições. Não compreende a cólera, não compreende o Homem.

A tragédia é sistematizada, é-lhe retirada a cabeça e as patas de molde a tornar-se mais mastigável, ou mesmo passada em revista, emendada, as dores arredondadas por defeito ou por excesso consoante as vontades. O objectivo é tornar a mágoa num post de circulação corrente. Ao dar-se conta do sucesso, é acometido por uma epifania. Da manufactura da ansiedade até à indústria do grito é um tirinho. Inesperadamente, sobe na vida graças à escada de lágrimas de crocodilo.

O público ciclópico (dinastia do literal) engrandece-o, resgata-o da invisibilidade, a pior maldição deste século e eleva-o aos píncaros da genialidade. Este cadáver esquisito nascido da necessidade da turba passa a oscilar entre o positivismo mastodôntico e o niilismo de pacotilha. Mais: alimenta-se disso.

O influencer — figura central destes últimos anos — é um pensador desnorteado, necrófago de citações franzinas, infinitamente coxo e maravilhosamente cego. Explora a sua cabeça com medo de encontrar alguma réstia de lâmina. Sorri para tudo como se fosse apresentadora de um programa da manhã. Coligiu os ecos e chamou-lhe obra, apropriou-se daquilo que todos fazem e envernizou-o, passou o antigo para outro formato. Retira prazer em liquidar o duplo sentido ao transplantá-lo para imagens. Não muda o urinol de sítio, se está aqui é por alguma razão, comenta. Maneja Deus e o Diabo como um rico os talheres: com gestos calculados sem pingo de humanidade.

A cobardia é o seu modus operandi, nunca ataca um problema de frente; inspirado em danças populares, anda às voltas e voltas e é incapaz de entrar no seu âmago.

Profundamente apoético, crê ver nas marcas um verso, num anúncio um poema. Nada o estremece verdadeiramente. Os seus suspiros são reflectidos, bem enquadrados e fotografáveis. Os seus ódios são elogios mascarados; as suas exasperações, birras de crianças bigodudas. Não tem preferências nem preconceitos, vai ao sabor da corrente, qual salmão após a desova. É um santo fabricado pelos holofotes e pelos números. Diz-se um espírito livre e, sem se deixar abater pela contradição, aproveita todos os segundos para pregar a xaropada mais em voga. Agarra-se a todas as verdades estrangeiras, preferencialmente aquelas frases curtas repletas de palavras da moda. É o cu manso de todos os ventríloquos. Os seus passos, assim como o ‘pensamento’ e o sorriso, são oportunidades de negócio.
O seu maior sonho é monetizar cada canto da sua Odisseia em frangalhos.

Homem do século XXI, roberto gamito

 


Roberto Gamito

03.02.22

O diálogo compreende, no seu jogo, impostores e devotos, os gestos práticos e os teóricos, os papagaios e os poetas. Eis-nos diante um desfile de ortodoxias e heresias, as quais espicaçam à vez a cobiça do Homem. A vida do Homem é saqueada e vandalizada; depois, as suas ruínas passam a ser objecto de estudo e, adornadas com legendas e aparato crítico, adquirem uma auréola de imprescindíveis, de santidade prática, em suma, as sobras do Homem transformam-se em locais de peregrinação. Mas antes disso o Homem precisa morrer. No final, suplicamos milagres ao cadáver que assassinámos.

Não podemos evitar ser contemporâneos dos nossos suspiros, de sermos, pura e irrefutavelmente, do nosso tempo. Há o perigo de nos acoitarmos no passado e não estarmos presentes no agora quando o futuro nos alcançar. Atormentar-nos-íamos se o futuro, ao chegar ao dia marcado, não desse connosco e deixasse uma carta a dizer que tentou. Como idiotas com goelas de tenor, exaltamos os nossos martírios, dando cambalhotas sobre as nossas magras proezas. Seja um Dante ou um Zé-Ninguém, o Homem vive à procura das palavras certas: sonha com o dia em que conseguirá expressar o seu nada. E aqui estamos nós, a tirar partido desse espectáculo incompleto.

Permanecemos deitados nos nossos problemas e percorremos mentalmente o novelo da nossa biografia. O desfalque absoluto não é algo que apoquente a humanidade laboriosa. Resignam-se às migalhas da vida na pausa do tabaco; aguardam por melhores dias e regressam à lengalenga do suor e das lágrimas. Nas palavras de Cioran, a esperança é uma virtude dos escravos. Os pensamentos voam entre o agora e o depois e são incapazes de encontrar uma saída. Nas nossas memórias, um arquivo de dias monótonos e inúteis. O nosso olhar é uma escada de lágrimas pela qual subimos até à forca.

Vingarmo-nos pressupõe um pingo de vida. As horas apinhadas de preocupações, o dinheiro que não chega, a energia que escasseia, o olhar que definha: não estamos à altura da nossa revolta. Dissequem as palavras de quem quer que seja: a grandiloquência actual é inseparável da inércia.

nos bastidores do nada, Roberto Gamito

 

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