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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.09.22

Na rua a temperatura deve rondar os trinta graus; no coração, zero absoluto. Comenta-se que muito em breve ser-nos-á apresentado outro inferno. Isto para não preocupar por aí além as pessoas e os seus prementes afazeres.

Tenho pensado nos meus inimigos e nos seus gumes analfabetos.
Não importa o que faças num sentido ou noutro, comenta um salmão para o outro. Relaxa, pequeno gafanhoto. Isto um dia acaba.

Aqui jaz um poema
de amor
perfumado ou profanado
por gumes famintos
ei-la, a procissão de linhas curtas
escoltando o nome luminoso
em cima do qual
me interrogo
acerca do sentido disto tudo.

Mudas testemunhas do finar das possibilidades.
Nome gravado a bisturi nas costas de Atlas. Mundo por engano embalsamado. Acrescento ao silêncio da catedral o riso dos mortos, e a isso chamamos imaginação pós-moderna.

Deus está morto, a arte morta está. Urge encontrar um emprego para as mãos que não o suicídio. Devemos, antes de tudo, pôr de parte a hipótese de redenção. Reputo a minha mão de cronista do Rei falhado.

O que é sair do anonimato aos 60 anos? Alguém que precisou dos milénios da imaginação para ascender em apneia de uma pirâmide de cadáveres. O desfecho do amor vacina os homens, o álcool enche-os de inacessibilidade — quem diria, afinal podemos ser uma ilha.

O bailarino é despetalado pela morte a cada passo de dança.
Livre-arbítrio, que a razão e os dias fizeram desaparecer.

O que pensas congela a mutação dos estorninhos. Olha como é belo o bando embalsamado a pairar sobre as nossas cabeças franzinas. Eis que assume a sua derradeira forma — a guilhotina emplumada.

Mais inocentemente diríamos, asa emergida da paixão. Perco-me no vasto campo do início de uma relação.

No tempo uma nuvem de morcegos procurava-me.
Uma frase. Outra frase apétala aproxima-se desejosa de contradizer a anterior. Pôr por escrito os debates com os demónios.

Ser espantosamente fraco e simular a queda de Ícaro ao rés de um candeeiro. Os livros que humanizam — para o que havíamos de estar guardados! Quero ir ao fundo, mas esqueci-me da farda de cachalote noutro tempo.
Que nome pôr a encimar esta cicatriz?

O pensamento é provisório e acolhe uma metrópole de falhas.

E nós, domadores acagaçados do imprevisto, munidos com folhas de cálculo, recorrendo a gráficos e tabelas como quem, de joelhos, vê no vazio um companheiro de sofrimento.

Pouco a pouco somos abalroados por uma demolidora certeza: vamos morrer. Saiamos da sombra, Deus, Diabo e Eu, os três montados na mesma vingança. Insuportável trabalho o da memória, o de diluir em tinas de ácido os traumas. Memória, o nosso algoz privado.

Os mosteiros vazios são locais usados pelo nada para engendrar a sua última jogada. Entre dois passos firmes crescem ervas daninhas. Há flores do mal por toda a parte, mas não há poetas entre os sobreviventes.

No fundo não há ninguém, são miragens indistinguíveis
de humanos. Mas o mais absurdo são os precipícios
tornados sinistros túneis de vento
onde ensaiamos o nosso fim vezes sem conta.

Consenti que me tocassem com os seus dedos cheios de vidros e me ensinassem, na pele, passo por passo, a custo, todavia sem medo, a dança da humanidade. Pomares da ignorância espalhados um pouco por toda a parte dentro dos quais podemos observar a flor dos séculos vindouros. Sôbolos rios que vão para a cona da mãe.

Duchamp
esse cabrão-mor
dei-lhe guarida no meu cérebro
desarrumou-me a casa
trocou tudo de sítio

agora ignoro tudo
não sei onde fica o amor e a casa de banho
o sofá e a ideia de salvação.
O poema há-de continuar noutro sítio,
mas a pagar, que um gajo não se alimenta
de aplausos nem de apupos.

No final dos tempos, Deus será rei sem súbditos de um grande império de mármore.

Fundei um inferno caseiro durante a amnésia do anjo. A salvação conduz-nos a um lugar inabitável, sem ninguém.

 

Império de Mármore


Roberto Gamito

25.09.22

Venho à tona do texto, espevito para as ruas apinhadas de nomes, pessoas mergulhadas nos ecrãs, à marrada com os postes, duplos falhados de Neo, os quais acolhem no peito um ror de balas e facadas nas costas, zaragatas em flor, crianças que alternam entre o choro e o sorriso como se fossem loucas, cafés superlotados de esboços de assassinos e quem sabe a voragem que nos há-de engolir a todos.

Sorrio estimulado pela primeira frase. Ingenuamente, sou catapultado para alguns períodos da minha biografia, agradeço a solicitude da insânia, todavia fico de fora das cidades muralhadas. Ver-me-ão as memórias como mongol que não descansará enquanto não as vir consumidas pelo fogo? Sacrificar tudo, a mais cómoda forma de idolatrar Deus.

Em cidade alguma o amor prosperou; invade-me o sossego de reconhecer o fim como personagem secundário num sem-número de conversas sem importância. Ninguém viu a morte sentar-se à mesa de cada família. A hospitalidade sem critérios lixou-nos.

Os dedos apertando os pescoços das memórias mais dolorosas, de seguida, feitos vampiros, havemos de lhes beber o sangue.

Isto de dia; à noite era tudo muito mais preocupante.

Quando tinha fome levantava-me do ataúde da minha depressão, embriagava-me com o brilho postiço da lua e erigia do meu desespero os meus minúsculos deuses — daí resultava uma cor única, capaz de esmagar com a sua canção o quadro mais encorpado.

Despiu-se à minha frente
estava eu a meio do poema
de supetão metamorfoseado
na ígnea pele dela escrevi
de um só fôlego o que se segue:

Não falarei de como escapei ao inferno, não confessarei como encontrei portas em paisagens abstractas; há quem me conheça como insólita província inescapável. Ignoro se há mapas para alcançar o núcleo do Homem.

Sempre me intrigou os conventos ou mosteiros rente ao mar. Será que as freiras e os monges precisam de fechar os olhos e imaginar um coração a bater ao rés do seu peito solitário, de conceber um vaivém de ancas divinas, aptas a leccionar o amor prático?

Encaixoto a exposição, digamos, artística e movo-a para o futuro. O fresco de moldes realistas reduzido a um esboço abstracto. Quem é a memória senão a musa que sob os seus mil ardis tem o sonho secreto de ser pintora?

A falta de paciência distorce o dicionário de uma ponta à outra, não ignorando os vocábulos mais comerciais, num estalar de dedos — a isto as gentes medievas apodariam magia.

Sobre as mesas instalam-se bichos esquartejados pela ciência.
Ei-las, as marés de fantasmas.

Aqui, entre as minhas mãos, o inferno teve um lugar.
O furacão helicoidal gera acasos de improviso. Os pacientes, a uma distância bem medida do psicólogo, sentados em sofás que já ouviram tudo.

Agora que não resta nada senão o cadáver divino, peço ao deus da escrita isto: Não me perturbes com os teus pedidos, não me exijas mais sacrifícios, a memória já me dá dilúvio pela barba.

Ah, o debandar maravilhoso das possibilidades quando jovem, as mãos vazias de caminhos a assaltar frases alheias à procura de alguma luz. O vício atira-nos para o seio de um quadro vazio e, risivelmente, a nossa presença não se faz sentir. Apesar do nosso infinito desconsolo, a tela branca permanece imperturbável.

O último suspiro das estrofes
o regresso de gatas aos teus lábios
pelos caminhos ínvios da memória
beijo o rosto habitado de lacunas.

O corpo que demos como perdido nos nevoeiros das relações falhadas. A queda é tão lenta que se confunde com o voo — eis a beleza da vida.

Na folga do corvo
qualquer bicho pressagia.

Recebe nas pupilas esfomeadas
bem longe do desespero até pareces criança
as notas de rodapé do cenário idílico
paisagens hoje consumidas
devoradas gulosamente cerce às pernas da amada.

Sacodes a esperança da farpela de palhaço, atiras-te às lâminas qual canário ao alpista. Eis a procissão de facas por onde os episódios biográficos foram sendo desmantelados. Desse dia chegou-te um braço numa caixa parcialmente negra.

Terás de reconstruir a rosa
pétala a pétala
como quem joga as mãos ao fogo
para resgatar uma cidade inteira.

Hoje tenho tentado ser feliz, porém sem resultados. Quero que tudo soe áspero e trágico, sem necessidade de comentários adicionais ou jornalistas. Quero que bebam o mundo sem intermediários. Então repetirei: o meu labor é a queda.
Em todo o caso, o mundo insuflava as frases, via nelas cidades grávidas de sentido.

 

o meu labor é a queda


Roberto Gamito

18.09.22

No coração dela
quem sabe a morada
derrotado pela vida
de rastos
agarrado de unhas e dentes
ao último sorriso
o homem.
 
Um par de estalos, isso é lá forma de começar seja o que for.
Perto da ermida arruinada, o noitibó inspecciona o teu desespero. Que bico demoníaco vem a ser esse?
 
Fugir do gelo como quem foge ao diabo. Não obstante no início ser sempre melhor, nada melhorará a tua condição de derrotado.
A isso se designa destino.
Tudo há-de recomeçar noutra velocidade
pretextando que já tiveste a tua dose de sorte
tempo para aprender a falhar adultamente.
 
A farpela de bobo com que foste urdindo os posfácios das tragédias assenta-te que nem um casulo. Não podes deixar de reparar que Stańczyk é cada vez mais um retrato do teu desassossego.
 
O palco enfada-te
sonhas cada vez mais com a arena
ó bárbaro reformado pela civilização
sonhas cada vez mais com o sangue
os arquivos inconcluídos da cólera
 
O senhor-cujo-nome-não-cabe-no-poema
matou-se
ao atirar-se para as entrelinhas de um poema
a quem os críticos apodarão de eterno
doravante enjaulado na palavra louco
ainda hoje, caso abram na página certa
vê-lo-ão em queda escoltado
por uma procissão de gritos.
 
O fardo persiste demasiado leve. Urge que o esqueleto desabe
qual explosão meticulosa, tipo edifício outrora magnífico
despedindo-se da sua verticalidade de supetão.
 
Se levada ao extremo, que é como quem diz, às raias do inconcebível, a burocracia é capaz de semear o infinito entre dois passos.
A biografia assoma-se à ponta dos dedos, faz das falangetas janelas. Não me recordo de grande parte da minha vida. Ignoro se fui raptado pelo tempo na infância e devolvido anos mais tarde, velho, rabugento e peludo. Buscávamos nos lábios tresmalhados talvez a intermitente anestesia.
Calma, respirem um pouco, não entrem na odisseia com tanta sede.
 
Repito:
vasculhávamos num mar de lábios
anestesia para o coração
redemoinhos onde a carne
tinha aulas de canto
 
anos depois
a inércia seria um Napoleão
conquistando um por um
os passos ulteriores.
 
Doravante os dias afigurar-se-ão como rituais dedicados à deusa Inércia.
 
Os dentes-de-leão decapitados
pelo sopro inocente da criança
a morte é sempre o desejo
de algo mais, ó suicidas em flor.
 
Já te agrilhoa o exército liliputiano de incertezas. Desejas que esta comédia negra termine.
 
A folha despovoada paralisa-te
qual medusa caseira.
 
Fecha os portões do castelo.
Pendura a farpela de bobo no trono.
Deixa o rei lá fora a ganir
as suas fingidas proezas
que a memória colectiva
há-de carcomer.
 
Sentes o formigueiro de lâminas a percorrer-te o corpo? Ou são antes átomos de esquecimento a colidir nas frágeis aspirações de grandeza, ó meu modesto acelerador de partículas?
 
As metáforas filtradas
pelos razoáveis exegetas
tantos gumes e perfumes
embotados e sem remédio
para que chegassem
às goelas e aos narizes
mais necessitados
sob a forma de animais mansos.
 
Morte para quem dilui a fúria em notas de rodapé.
 
Em todo o caso, a arte — deixem-me respirar, é capaz de demorar, sou asmático — não é o escudo polido de Atena. Seja como for, o que não faltam são Medusas por essas esquinas a petrificar os tomates dos heróis mais espantadiços.
 
Trago a cabeça de Deus na sacola, tenho petrificado legiões de uma assentada. Valeu a pena esperar este tempo todo, o nono círculo só me trouxe coisas boas. De repente, a cidade não nos pertence. Mudaram as pessoas do costume de sítio. Até podia ser uma coreografia de dança contemporânea não estivesse a morte a sondar-nos desde a primeira fila.
 
Cospe para o cadáver divino mais à mão e dá este dia por perdido. Um corpo morto na pista do baile. Coisas que acontecem quando a gente se diverte, diz uma velha.
 
Como me sinto? Estou a trabalhar no centro de areias movediças, evocando a dança da destruição. Garatujo este poema sabendo que vou morrer. Como é que achas que me sinto? Mergulhar na folha é uma viagem sem regresso, uma simulação de inferno.
 
Passaste por mim e não disseste nada. Respondo: sou um neutrino.
 
Enojam-me
os bárbaros
que trocam a arena
pelo catecismo
bobos da corte
com medo de perder a cabeça
mal molham os pés
na margem do inferno.
 
Vai para dez anos que não frito batatas em casa.
Como-as fora, sempre que posso. À parte isto, continuo sem sonhos.
 
Mas querem algo mais ao rés da carne, não é? Não seja por isso.
 
Falámos durante a noite inteira numa língua animalesca, uma que não domino, o amor. Confessou-lhe: querida fêmea, sou analfabeto no capítulo das intensidades, se quiseres saber mais, dou-te o número do meu terapeuta. Ele tem os meus espinhos documentados como deve ser.
Em todo o caso, ela prosseguiu, qual necromante diante do cadáver com o fito de o resgatar ao reino dos mortos.
 
Nada disto tem importância. Seja qual for o mês sugerido pelo calendário, o tempo das colheitas já passou.
 
As avarias do tesão
que as cometas
com ou sem mentiras
com o pau enfarpelado
de bobo da corte.
 
Mas só tenho dois guizos na cabeça, falta-me um, pensará o leitor. Esse rigor será a tua desgraça, digo-te eu.
Mas nem só de foda e amor vive um homem. Segurem-se.
 
Uma das amigas de escola morreu faz vinte anos, recordo-me da sua cara dotada de uma tristeza cinematográfica. Naquela altura ainda não se falava de depressão.
 
Pensaste ter arranjado forma de exorcizar
o demónio perene da depressão
graças aos beijos de uma paixão inesperada.
Coisas de putos, coisas de coração analfabeto.
 
Neste circo
onde palhaços e ursos se revezam
nos números de ilusionismo
da economia global
corte no pessoal
dois terços de mulher afadigam-se
fazem o trabalho de uma inteira.
 
O terço que falta tornou-se descrente nos holofotes.
 
O espectáculo tem de continuar. Cai o pano.
 

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Roberto Gamito

18.09.22

O vinho escorre-lhe pelos beiços, tipo bosquejo de cascata. É poesia, e da boa, comenta o aspirante a narrador. O pau eriça-se; pronto, está cumprida a vontade de Deus, vozeia o bêbado residente. Não me consigo compatibilizar com esta nova leva de fedelhos: fizeram tábua rasa do tesão. Entre as deixas dos personagens ouve-se uma espécie de eco: É esta vida que levamos.

Verticalizando o pau
dentro das possibilidades
graças aos andaimes do calor

Esqueçam, não é suficiente para encetar o poema. Não me fodas, retrucou o bêbado, já vi obras começarem por menos.

É uma pena, murmura, não passamos de um exercício de estilo, condenados a perecer num papel amachucado pela raiva.
Também quis ser Diderot por um dia, perder-me e afadigar-me em enciclopédias e paródias. Ouve-se um disparo; não há vítimas. Os jornalistas regressam a casa de mãos vazias. Falsa partida, o árbitro pede que regressemos aos nossos lugares. O melhor é não abusar da sorte, vestir as mesmas roupas e pronunciar as deixas do costume, fazer da vida o refrão da estagnação.

Parece evidente que a fuga é uma ilusão como qualquer outra, eis o legado de Sísifo. Estou fodido e sem tesão para a escrita, grita um epígono de Pessoa parido por estes dias que não lembram ao Diabo. E nisto passa a vida, e vamos ficando mais parecidos ao tríptico de Francis Bacon, dor e fome da cabeça aos pés, a tentar mascarar a infância com líricas mancas e desasadas. Ao menos Ícaro morreu na queda. Não tivesse morrido e ter-se-ia transformado em poeta maldito. Do que nos livrámos! Qualquer imbecil serve se o propósito for estragar uma vida, comentou uma mulher de cona calejada.

Dando aos pedais, saltamos de século em século, artifício que te faz compreender a longevidade da cólera e seus períodos de hibernação. O século XI, por exemplo, ensina-nos que a miséria extrema é tão-somente um pretexto para nos metamorfosearmos em canibais. Outro dia, a meio da pronunciação do seu nome, dei-me conta que não a amava. Felizmente, há mil maneiras de desperdiçar a vida, a isso damos o nome de livre-arbítrio. Em todos os lugares as mesmas personagens, em simultâneo protagonista e figurante, consoante o ponto de vista. Só quero que me esqueçam o melhor que conseguirem. Façam de conta que nunca existi. Por amor de Deus, há séculos que a memória não tem um dia de folga. Substituam-na, por favor. A arte não passou de um engano, a tentativa ridícula de engavetar e alfinetar o que nunca esteve parado.

O romancista que levas para a cama fez carreira com palavras de menino traumatizado. Cabrão, não tem vergonha nenhuma. A forma como tenta em vão sair do buraco dava um livro. Não há faísca, não há gumes nem perfumes. Sem perfumes, estamos condenados ao presente. O mundo é tão murcho e fedorento como um cachalote encalhado.
E isto tudo porque me furtei à escrita do poema.

Os declives são teimosos, não descansam enquanto não me virem a rebolar até a sepultura. Como se nos importássemos.

Não é possível que este seja eu, dizemos nós todos diante do espelho. Acabem com os tribunais, podem dizer que fui eu o culpado de tudo.

Estes tempos reservam pouca margem para Utopias, o espaço foi ocupado por prateleiras e ninharias. A obsolescência e a sua lógica expansionista, talvez isto fizesse rir Napoleão.

Já houve um tempo em que tudo isto me arrepiava. No que me toca, honrei o legado de Atlas e de Actéon ao mesmo tempo.

Seja como for, não podemos continuar indefinidamente a dançar entre fojos.

Voltar costas ao poema
quando o poema aparecer
não passar cartão à sua voz.

Não há nada a temer.

O inferno
o cume da organização.
Tudo no sítio.

Abusar do destino


Roberto Gamito

18.09.22

Estava estendido na valeta a pensar na morte. Um costume que herdara dos tempos de cadáver em que o amor me escorraçara sem embaraço de uma relação estável. Sonhei que me levavam para a morgue, qual faraó levado em ombros, serpenteando à fresca entre as dunas graças à força de meia dúzia de escravos. Tanta coisa para no fim acabar como morada de vermes.

Ao menos se acordasse cortado às fatias, encharcado em sangue e sem nome, num quadro de Francis Bacon, onde as formas estão desfocadas pela asma e fizesse da tela a gaiola do meu grito.

E eis-me aqui agora, vivo, a descrever minuciosamente como se não tivesse visto o fim nos teus olhos de ex-vivo. Sabia que os abutres não tardariam. A arte é fraco repelente nestas circunstâncias. Sobravam-nos os dias para fantasiar como tudo poderia ter sido de outra maneira. Ajeitei o pescoço no cepo, saboreando a paisagem que me calhara à frente dos olhos e esperei. Todavia a guilhotina não veio.

Falo de amor num poema, ou nos vários com que alimento o fogo, já começam a haver pessoas que não sabem quem é. Descrevo-o de uma ponta à outra como posso, não ignorando as miudezas, mas do outro lado raramente encontro a reacção esperada. Sim, retrucam, em tempos conheci alguém com esse nome. Que é feito dele? Herdeiros das suas sobras, contentamo-nos a enxertá-lo à queima-roupa com universos paralelos. Não é a mesma coisa. Esse amor analógico, feito de suor e sangue, é coisa do passado. Eis-nos na era digital, onde o peso é um holograma. Os gigantes e os anões ora levitam, ora ficcionam o seu legado. Ignoro quando é que foi a última vez que nos sentámos a conversar sobre raízes. Os tempos são outros, é preciso desocupar as mesas, há uma fila de referências à porta à espera, desde Dante a Tifeu, desde Xibalba a Gilgamesh, do Tártaro até ao Céu, amontoados de cidades vazias compactadas no mesmo destino; esperam os seus cinco minutos de fama, durante os quais se alimentarão do nosso minúsculo miolo. Estou consciente disso, é preciso arranjar espaço para novas levas de ninharias. A cabeça não é senão armazém mutante apinhado de bagatelas.

Tenho a sensação de que a minha obra é perecível, disse um ex-poeta, uma espécie de réptil saído das peles secas de Lucílio, diante do cadáver de Séneca. Nunca aceitem conselhos de suicidas.

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