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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

23.10.22

Usualmente, não temos o menor interesse pela conversa do outro, seja esse outro quem for. Não queremos saber como lhe correu o dia, nem a semana, nem tão-pouco um resumo dos melhores momentos da década. Com a excepção dos cenários em que o engate tenta singrar até à cama, ninguém está minimamente disponível para escutar o outro. Infelizmente, poucos são os que, no início de uma conversa que se afigura longa e entediante, possuem a coragem para verbalizar “Não tenho o menor interesse nas tuas palavras. Hoje já ouvi demasiadas frases no trabalho, careço de cabeça para mais. Gostaria de estar em silêncio, espero que me compreendas”.
 
Todavia há fragmentos de conversa que espicaçam o morto em que nos fomos tornando, a saber: “Tenho de começar a ler.”
Antes de mais, é uma intenção pertencente à família “tenho de começar a ir ao ginásio”. Segundo me contaram, começar a ler, isto é, pegar num livro com intenção de ir além da capa, não requer um esforço sobre-humano. Deslocamo-nos a uma livraria, pegamos num livro, que nem precisa ser dos melhores, um franzino para começar não é mau, compramo-lo ou roubamo-lo, abrimo-lo, começamos na primeira linha e vamos, com pausas ou sem elas, até à última. Parece-me um exercício ao alcance do mais humilde dos Homens.
 
O que impede o Homem de ler? Será que levou a cabo um pacto demoníaco em que uma das alíneas era a impossibilidade de pegar num livro? Faz sentido, o diabo esconde-se nos detalhes e não quer ser surpreendido.
Como as pessoas mais vividas saberão, esse tipo de intenção é uma forma encapotada de exibir a culpa. A pessoa em questão sente-se culpada, crê que devia ler mais, porém nunca irá dar o passo em frente para remediar. Pertence à mesma casta daquelas pessoas que, verbalizando a sua vontade de escrever, perguntam em jeito de acrescento: Como começar?
Esse tipo de perguntas guardam em si já a resposta. Ou é de caras ou é impossível explicar. Alguém que pergunta como começar não pretende começar a escrever, está tão-somente a enganar-se a ele próprio. O mesmo sucede com o tipo que, confrontado com alguém que lê, declara: "Tenho de ler mais".
Não vais, não enganas ninguém.
 
Nisto, recordo-me que, em média, o português lê um livro por ano. Se calhar equivoquei-me, fui precipitado. Provavelmente o nosso país está repleto de pessoas que concretizam “tenho de começar a ler”. No entanto, ficam-se sempre pelo primeiro livro. E a cada ano que passa é como se tentassem novamente, porém não logram ultrapassar esse gigante que é o livro isolado.
 

Tenho de começar a ler


Roberto Gamito

27.09.22

Na rua a temperatura deve rondar os trinta graus; no coração, zero absoluto. Comenta-se que muito em breve ser-nos-á apresentado outro inferno. Isto para não preocupar por aí além as pessoas e os seus prementes afazeres.

Tenho pensado nos meus inimigos e nos seus gumes analfabetos.
Não importa o que faças num sentido ou noutro, comenta um salmão para o outro. Relaxa, pequeno gafanhoto. Isto um dia acaba.

Aqui jaz um poema
de amor
perfumado ou profanado
por gumes famintos
ei-la, a procissão de linhas curtas
escoltando o nome luminoso
em cima do qual
me interrogo
acerca do sentido disto tudo.

Mudas testemunhas do finar das possibilidades.
Nome gravado a bisturi nas costas de Atlas. Mundo por engano embalsamado. Acrescento ao silêncio da catedral o riso dos mortos, e a isso chamamos imaginação pós-moderna.

Deus está morto, a arte morta está. Urge encontrar um emprego para as mãos que não o suicídio. Devemos, antes de tudo, pôr de parte a hipótese de redenção. Reputo a minha mão de cronista do Rei falhado.

O que é sair do anonimato aos 60 anos? Alguém que precisou dos milénios da imaginação para ascender em apneia de uma pirâmide de cadáveres. O desfecho do amor vacina os homens, o álcool enche-os de inacessibilidade — quem diria, afinal podemos ser uma ilha.

O bailarino é despetalado pela morte a cada passo de dança.
Livre-arbítrio, que a razão e os dias fizeram desaparecer.

O que pensas congela a mutação dos estorninhos. Olha como é belo o bando embalsamado a pairar sobre as nossas cabeças franzinas. Eis que assume a sua derradeira forma — a guilhotina emplumada.

Mais inocentemente diríamos, asa emergida da paixão. Perco-me no vasto campo do início de uma relação.

No tempo uma nuvem de morcegos procurava-me.
Uma frase. Outra frase apétala aproxima-se desejosa de contradizer a anterior. Pôr por escrito os debates com os demónios.

Ser espantosamente fraco e simular a queda de Ícaro ao rés de um candeeiro. Os livros que humanizam — para o que havíamos de estar guardados! Quero ir ao fundo, mas esqueci-me da farda de cachalote noutro tempo.
Que nome pôr a encimar esta cicatriz?

O pensamento é provisório e acolhe uma metrópole de falhas.

E nós, domadores acagaçados do imprevisto, munidos com folhas de cálculo, recorrendo a gráficos e tabelas como quem, de joelhos, vê no vazio um companheiro de sofrimento.

Pouco a pouco somos abalroados por uma demolidora certeza: vamos morrer. Saiamos da sombra, Deus, Diabo e Eu, os três montados na mesma vingança. Insuportável trabalho o da memória, o de diluir em tinas de ácido os traumas. Memória, o nosso algoz privado.

Os mosteiros vazios são locais usados pelo nada para engendrar a sua última jogada. Entre dois passos firmes crescem ervas daninhas. Há flores do mal por toda a parte, mas não há poetas entre os sobreviventes.

No fundo não há ninguém, são miragens indistinguíveis
de humanos. Mas o mais absurdo são os precipícios
tornados sinistros túneis de vento
onde ensaiamos o nosso fim vezes sem conta.

Consenti que me tocassem com os seus dedos cheios de vidros e me ensinassem, na pele, passo por passo, a custo, todavia sem medo, a dança da humanidade. Pomares da ignorância espalhados um pouco por toda a parte dentro dos quais podemos observar a flor dos séculos vindouros. Sôbolos rios que vão para a cona da mãe.

Duchamp
esse cabrão-mor
dei-lhe guarida no meu cérebro
desarrumou-me a casa
trocou tudo de sítio

agora ignoro tudo
não sei onde fica o amor e a casa de banho
o sofá e a ideia de salvação.
O poema há-de continuar noutro sítio,
mas a pagar, que um gajo não se alimenta
de aplausos nem de apupos.

No final dos tempos, Deus será rei sem súbditos de um grande império de mármore.

Fundei um inferno caseiro durante a amnésia do anjo. A salvação conduz-nos a um lugar inabitável, sem ninguém.

 

Império de Mármore


Roberto Gamito

25.09.22

Venho à tona do texto, espevito para as ruas apinhadas de nomes, pessoas mergulhadas nos ecrãs, à marrada com os postes, duplos falhados de Neo, os quais acolhem no peito um ror de balas e facadas nas costas, zaragatas em flor, crianças que alternam entre o choro e o sorriso como se fossem loucas, cafés superlotados de esboços de assassinos e quem sabe a voragem que nos há-de engolir a todos.

Sorrio estimulado pela primeira frase. Ingenuamente, sou catapultado para alguns períodos da minha biografia, agradeço a solicitude da insânia, todavia fico de fora das cidades muralhadas. Ver-me-ão as memórias como mongol que não descansará enquanto não as vir consumidas pelo fogo? Sacrificar tudo, a mais cómoda forma de idolatrar Deus.

Em cidade alguma o amor prosperou; invade-me o sossego de reconhecer o fim como personagem secundário num sem-número de conversas sem importância. Ninguém viu a morte sentar-se à mesa de cada família. A hospitalidade sem critérios lixou-nos.

Os dedos apertando os pescoços das memórias mais dolorosas, de seguida, feitos vampiros, havemos de lhes beber o sangue.

Isto de dia; à noite era tudo muito mais preocupante.

Quando tinha fome levantava-me do ataúde da minha depressão, embriagava-me com o brilho postiço da lua e erigia do meu desespero os meus minúsculos deuses — daí resultava uma cor única, capaz de esmagar com a sua canção o quadro mais encorpado.

Despiu-se à minha frente
estava eu a meio do poema
de supetão metamorfoseado
na ígnea pele dela escrevi
de um só fôlego o que se segue:

Não falarei de como escapei ao inferno, não confessarei como encontrei portas em paisagens abstractas; há quem me conheça como insólita província inescapável. Ignoro se há mapas para alcançar o núcleo do Homem.

Sempre me intrigou os conventos ou mosteiros rente ao mar. Será que as freiras e os monges precisam de fechar os olhos e imaginar um coração a bater ao rés do seu peito solitário, de conceber um vaivém de ancas divinas, aptas a leccionar o amor prático?

Encaixoto a exposição, digamos, artística e movo-a para o futuro. O fresco de moldes realistas reduzido a um esboço abstracto. Quem é a memória senão a musa que sob os seus mil ardis tem o sonho secreto de ser pintora?

A falta de paciência distorce o dicionário de uma ponta à outra, não ignorando os vocábulos mais comerciais, num estalar de dedos — a isto as gentes medievas apodariam magia.

Sobre as mesas instalam-se bichos esquartejados pela ciência.
Ei-las, as marés de fantasmas.

Aqui, entre as minhas mãos, o inferno teve um lugar.
O furacão helicoidal gera acasos de improviso. Os pacientes, a uma distância bem medida do psicólogo, sentados em sofás que já ouviram tudo.

Agora que não resta nada senão o cadáver divino, peço ao deus da escrita isto: Não me perturbes com os teus pedidos, não me exijas mais sacrifícios, a memória já me dá dilúvio pela barba.

Ah, o debandar maravilhoso das possibilidades quando jovem, as mãos vazias de caminhos a assaltar frases alheias à procura de alguma luz. O vício atira-nos para o seio de um quadro vazio e, risivelmente, a nossa presença não se faz sentir. Apesar do nosso infinito desconsolo, a tela branca permanece imperturbável.

O último suspiro das estrofes
o regresso de gatas aos teus lábios
pelos caminhos ínvios da memória
beijo o rosto habitado de lacunas.

O corpo que demos como perdido nos nevoeiros das relações falhadas. A queda é tão lenta que se confunde com o voo — eis a beleza da vida.

Na folga do corvo
qualquer bicho pressagia.

Recebe nas pupilas esfomeadas
bem longe do desespero até pareces criança
as notas de rodapé do cenário idílico
paisagens hoje consumidas
devoradas gulosamente cerce às pernas da amada.

Sacodes a esperança da farpela de palhaço, atiras-te às lâminas qual canário ao alpista. Eis a procissão de facas por onde os episódios biográficos foram sendo desmantelados. Desse dia chegou-te um braço numa caixa parcialmente negra.

Terás de reconstruir a rosa
pétala a pétala
como quem joga as mãos ao fogo
para resgatar uma cidade inteira.

Hoje tenho tentado ser feliz, porém sem resultados. Quero que tudo soe áspero e trágico, sem necessidade de comentários adicionais ou jornalistas. Quero que bebam o mundo sem intermediários. Então repetirei: o meu labor é a queda.
Em todo o caso, o mundo insuflava as frases, via nelas cidades grávidas de sentido.

 

o meu labor é a queda


Roberto Gamito

18.09.22

No coração dela
quem sabe a morada
derrotado pela vida
de rastos
agarrado de unhas e dentes
ao último sorriso
o homem.
 
Um par de estalos, isso é lá forma de começar seja o que for.
Perto da ermida arruinada, o noitibó inspecciona o teu desespero. Que bico demoníaco vem a ser esse?
 
Fugir do gelo como quem foge ao diabo. Não obstante no início ser sempre melhor, nada melhorará a tua condição de derrotado.
A isso se designa destino.
Tudo há-de recomeçar noutra velocidade
pretextando que já tiveste a tua dose de sorte
tempo para aprender a falhar adultamente.
 
A farpela de bobo com que foste urdindo os posfácios das tragédias assenta-te que nem um casulo. Não podes deixar de reparar que Stańczyk é cada vez mais um retrato do teu desassossego.
 
O palco enfada-te
sonhas cada vez mais com a arena
ó bárbaro reformado pela civilização
sonhas cada vez mais com o sangue
os arquivos inconcluídos da cólera
 
O senhor-cujo-nome-não-cabe-no-poema
matou-se
ao atirar-se para as entrelinhas de um poema
a quem os críticos apodarão de eterno
doravante enjaulado na palavra louco
ainda hoje, caso abram na página certa
vê-lo-ão em queda escoltado
por uma procissão de gritos.
 
O fardo persiste demasiado leve. Urge que o esqueleto desabe
qual explosão meticulosa, tipo edifício outrora magnífico
despedindo-se da sua verticalidade de supetão.
 
Se levada ao extremo, que é como quem diz, às raias do inconcebível, a burocracia é capaz de semear o infinito entre dois passos.
A biografia assoma-se à ponta dos dedos, faz das falangetas janelas. Não me recordo de grande parte da minha vida. Ignoro se fui raptado pelo tempo na infância e devolvido anos mais tarde, velho, rabugento e peludo. Buscávamos nos lábios tresmalhados talvez a intermitente anestesia.
Calma, respirem um pouco, não entrem na odisseia com tanta sede.
 
Repito:
vasculhávamos num mar de lábios
anestesia para o coração
redemoinhos onde a carne
tinha aulas de canto
 
anos depois
a inércia seria um Napoleão
conquistando um por um
os passos ulteriores.
 
Doravante os dias afigurar-se-ão como rituais dedicados à deusa Inércia.
 
Os dentes-de-leão decapitados
pelo sopro inocente da criança
a morte é sempre o desejo
de algo mais, ó suicidas em flor.
 
Já te agrilhoa o exército liliputiano de incertezas. Desejas que esta comédia negra termine.
 
A folha despovoada paralisa-te
qual medusa caseira.
 
Fecha os portões do castelo.
Pendura a farpela de bobo no trono.
Deixa o rei lá fora a ganir
as suas fingidas proezas
que a memória colectiva
há-de carcomer.
 
Sentes o formigueiro de lâminas a percorrer-te o corpo? Ou são antes átomos de esquecimento a colidir nas frágeis aspirações de grandeza, ó meu modesto acelerador de partículas?
 
As metáforas filtradas
pelos razoáveis exegetas
tantos gumes e perfumes
embotados e sem remédio
para que chegassem
às goelas e aos narizes
mais necessitados
sob a forma de animais mansos.
 
Morte para quem dilui a fúria em notas de rodapé.
 
Em todo o caso, a arte — deixem-me respirar, é capaz de demorar, sou asmático — não é o escudo polido de Atena. Seja como for, o que não faltam são Medusas por essas esquinas a petrificar os tomates dos heróis mais espantadiços.
 
Trago a cabeça de Deus na sacola, tenho petrificado legiões de uma assentada. Valeu a pena esperar este tempo todo, o nono círculo só me trouxe coisas boas. De repente, a cidade não nos pertence. Mudaram as pessoas do costume de sítio. Até podia ser uma coreografia de dança contemporânea não estivesse a morte a sondar-nos desde a primeira fila.
 
Cospe para o cadáver divino mais à mão e dá este dia por perdido. Um corpo morto na pista do baile. Coisas que acontecem quando a gente se diverte, diz uma velha.
 
Como me sinto? Estou a trabalhar no centro de areias movediças, evocando a dança da destruição. Garatujo este poema sabendo que vou morrer. Como é que achas que me sinto? Mergulhar na folha é uma viagem sem regresso, uma simulação de inferno.
 
Passaste por mim e não disseste nada. Respondo: sou um neutrino.
 
Enojam-me
os bárbaros
que trocam a arena
pelo catecismo
bobos da corte
com medo de perder a cabeça
mal molham os pés
na margem do inferno.
 
Vai para dez anos que não frito batatas em casa.
Como-as fora, sempre que posso. À parte isto, continuo sem sonhos.
 
Mas querem algo mais ao rés da carne, não é? Não seja por isso.
 
Falámos durante a noite inteira numa língua animalesca, uma que não domino, o amor. Confessou-lhe: querida fêmea, sou analfabeto no capítulo das intensidades, se quiseres saber mais, dou-te o número do meu terapeuta. Ele tem os meus espinhos documentados como deve ser.
Em todo o caso, ela prosseguiu, qual necromante diante do cadáver com o fito de o resgatar ao reino dos mortos.
 
Nada disto tem importância. Seja qual for o mês sugerido pelo calendário, o tempo das colheitas já passou.
 
As avarias do tesão
que as cometas
com ou sem mentiras
com o pau enfarpelado
de bobo da corte.
 
Mas só tenho dois guizos na cabeça, falta-me um, pensará o leitor. Esse rigor será a tua desgraça, digo-te eu.
Mas nem só de foda e amor vive um homem. Segurem-se.
 
Uma das amigas de escola morreu faz vinte anos, recordo-me da sua cara dotada de uma tristeza cinematográfica. Naquela altura ainda não se falava de depressão.
 
Pensaste ter arranjado forma de exorcizar
o demónio perene da depressão
graças aos beijos de uma paixão inesperada.
Coisas de putos, coisas de coração analfabeto.
 
Neste circo
onde palhaços e ursos se revezam
nos números de ilusionismo
da economia global
corte no pessoal
dois terços de mulher afadigam-se
fazem o trabalho de uma inteira.
 
O terço que falta tornou-se descrente nos holofotes.
 
O espectáculo tem de continuar. Cai o pano.
 

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Roberto Gamito

18.09.22

O vinho escorre-lhe pelos beiços, tipo bosquejo de cascata. É poesia, e da boa, comenta o aspirante a narrador. O pau eriça-se; pronto, está cumprida a vontade de Deus, vozeia o bêbado residente. Não me consigo compatibilizar com esta nova leva de fedelhos: fizeram tábua rasa do tesão. Entre as deixas dos personagens ouve-se uma espécie de eco: É esta vida que levamos.

Verticalizando o pau
dentro das possibilidades
graças aos andaimes do calor

Esqueçam, não é suficiente para encetar o poema. Não me fodas, retrucou o bêbado, já vi obras começarem por menos.

É uma pena, murmura, não passamos de um exercício de estilo, condenados a perecer num papel amachucado pela raiva.
Também quis ser Diderot por um dia, perder-me e afadigar-me em enciclopédias e paródias. Ouve-se um disparo; não há vítimas. Os jornalistas regressam a casa de mãos vazias. Falsa partida, o árbitro pede que regressemos aos nossos lugares. O melhor é não abusar da sorte, vestir as mesmas roupas e pronunciar as deixas do costume, fazer da vida o refrão da estagnação.

Parece evidente que a fuga é uma ilusão como qualquer outra, eis o legado de Sísifo. Estou fodido e sem tesão para a escrita, grita um epígono de Pessoa parido por estes dias que não lembram ao Diabo. E nisto passa a vida, e vamos ficando mais parecidos ao tríptico de Francis Bacon, dor e fome da cabeça aos pés, a tentar mascarar a infância com líricas mancas e desasadas. Ao menos Ícaro morreu na queda. Não tivesse morrido e ter-se-ia transformado em poeta maldito. Do que nos livrámos! Qualquer imbecil serve se o propósito for estragar uma vida, comentou uma mulher de cona calejada.

Dando aos pedais, saltamos de século em século, artifício que te faz compreender a longevidade da cólera e seus períodos de hibernação. O século XI, por exemplo, ensina-nos que a miséria extrema é tão-somente um pretexto para nos metamorfosearmos em canibais. Outro dia, a meio da pronunciação do seu nome, dei-me conta que não a amava. Felizmente, há mil maneiras de desperdiçar a vida, a isso damos o nome de livre-arbítrio. Em todos os lugares as mesmas personagens, em simultâneo protagonista e figurante, consoante o ponto de vista. Só quero que me esqueçam o melhor que conseguirem. Façam de conta que nunca existi. Por amor de Deus, há séculos que a memória não tem um dia de folga. Substituam-na, por favor. A arte não passou de um engano, a tentativa ridícula de engavetar e alfinetar o que nunca esteve parado.

O romancista que levas para a cama fez carreira com palavras de menino traumatizado. Cabrão, não tem vergonha nenhuma. A forma como tenta em vão sair do buraco dava um livro. Não há faísca, não há gumes nem perfumes. Sem perfumes, estamos condenados ao presente. O mundo é tão murcho e fedorento como um cachalote encalhado.
E isto tudo porque me furtei à escrita do poema.

Os declives são teimosos, não descansam enquanto não me virem a rebolar até a sepultura. Como se nos importássemos.

Não é possível que este seja eu, dizemos nós todos diante do espelho. Acabem com os tribunais, podem dizer que fui eu o culpado de tudo.

Estes tempos reservam pouca margem para Utopias, o espaço foi ocupado por prateleiras e ninharias. A obsolescência e a sua lógica expansionista, talvez isto fizesse rir Napoleão.

Já houve um tempo em que tudo isto me arrepiava. No que me toca, honrei o legado de Atlas e de Actéon ao mesmo tempo.

Seja como for, não podemos continuar indefinidamente a dançar entre fojos.

Voltar costas ao poema
quando o poema aparecer
não passar cartão à sua voz.

Não há nada a temer.

O inferno
o cume da organização.
Tudo no sítio.

Abusar do destino


Roberto Gamito

18.09.22

Estava estendido na valeta a pensar na morte. Um costume que herdara dos tempos de cadáver em que o amor me escorraçara sem embaraço de uma relação estável. Sonhei que me levavam para a morgue, qual faraó levado em ombros, serpenteando à fresca entre as dunas graças à força de meia dúzia de escravos. Tanta coisa para no fim acabar como morada de vermes.

Ao menos se acordasse cortado às fatias, encharcado em sangue e sem nome, num quadro de Francis Bacon, onde as formas estão desfocadas pela asma e fizesse da tela a gaiola do meu grito.

E eis-me aqui agora, vivo, a descrever minuciosamente como se não tivesse visto o fim nos teus olhos de ex-vivo. Sabia que os abutres não tardariam. A arte é fraco repelente nestas circunstâncias. Sobravam-nos os dias para fantasiar como tudo poderia ter sido de outra maneira. Ajeitei o pescoço no cepo, saboreando a paisagem que me calhara à frente dos olhos e esperei. Todavia a guilhotina não veio.

Falo de amor num poema, ou nos vários com que alimento o fogo, já começam a haver pessoas que não sabem quem é. Descrevo-o de uma ponta à outra como posso, não ignorando as miudezas, mas do outro lado raramente encontro a reacção esperada. Sim, retrucam, em tempos conheci alguém com esse nome. Que é feito dele? Herdeiros das suas sobras, contentamo-nos a enxertá-lo à queima-roupa com universos paralelos. Não é a mesma coisa. Esse amor analógico, feito de suor e sangue, é coisa do passado. Eis-nos na era digital, onde o peso é um holograma. Os gigantes e os anões ora levitam, ora ficcionam o seu legado. Ignoro quando é que foi a última vez que nos sentámos a conversar sobre raízes. Os tempos são outros, é preciso desocupar as mesas, há uma fila de referências à porta à espera, desde Dante a Tifeu, desde Xibalba a Gilgamesh, do Tártaro até ao Céu, amontoados de cidades vazias compactadas no mesmo destino; esperam os seus cinco minutos de fama, durante os quais se alimentarão do nosso minúsculo miolo. Estou consciente disso, é preciso arranjar espaço para novas levas de ninharias. A cabeça não é senão armazém mutante apinhado de bagatelas.

Tenho a sensação de que a minha obra é perecível, disse um ex-poeta, uma espécie de réptil saído das peles secas de Lucílio, diante do cadáver de Séneca. Nunca aceitem conselhos de suicidas.

Ex-vivo


Roberto Gamito

20.08.22

Desconfio do Homem, o qual possui mais anos de manha que de escrita. Essa criatura ocasionalmente vertical faz de tudo para vender a sua história, para manter viva a sua reputação ascensional. Há dias veio-me uma ideia à memória. Nada do que vou dizer a seguir tem fundamento, é apenas uma sensação, como se costuma dizer por estes dias.
 
Há uma tensão antiga entre o Homem e a comédia. Aristófanes referiu-se ao problema umas poucas de vezes nas suas peças. Havia comediógrafos a desaparecer misteriosamente ao parodiar poderosos e por aí diante. O bobo está sempre com um olho no rei e outro na guilhotina. A vida do bobo está sempre presa por arames. O que muda de época para época é a forma de assassinar o bobo.
 
Há obras literárias perdidas (em princípio para sempre), contudo há, aos meus olhos, uma propensão para o Homem se esquecer das obras de pendor cómico. Ou uma propensão para as fazer desaparecer, se formos mais cínicos. Um exemplo célebre é a comédia de Homero, Margites, a qual narraria as peripécias de um estúpido olímpico. O que me levanta suspeitas ao mesmo tempo que me proporciona um esboço do Homem. A Ilíada enaltece o Homem enquanto criatura de sangue, enquanto a Odisseia narra a viagem simultaneamente interior e exterior de um homem, Ulisses. Assalta-me a ideia de que o Homem prefere ser falado como máquina de guerra ou desnorteado a ser apelidado de estúpido. Com efeito, ninguém é lembrado por ser estúpido.
Este é apenas um exemplo entre muitos, a obra Satyricon, de Petrónio, o qual terá sido próximo do imperador Nero, chegou ao nosso tempo bastante mutilada. Segundo certas fontes, o original seria um livro enorme, provavelmente maior que o Quixote.
 
Outro exemplo: a parte relativa à comédia da poética de Aristóteles foi perdida. Homero, provavelmente o maior poeta de todos os tempos, Petrônio, a par de Apuleio, o pai do romance picaresco, e Aristóteles, um dos maiores vultos da filosofia ocidental.
 
Será que foi intencional? A comédia foi mutilada porque o Homem não queria ser recordado como animal risível?
 
Escrita em 20-8-2020

Relação do Homem com a comédia


Roberto Gamito

19.08.22

Volta e meia emerge a consciência de que o mundo não é como nós o imaginámos e dá-se uma espécie de revolução coperniciana. Por trás do véu do mundo engessado, vislumbram-se novos mundos. Seja a causa uma paixão recém-adquirida, seja um evento traumático, o olhar modifica-se repentinamente, que é como quem diz, o mundo revela-se outro.
Achar que sabemos tudo é sempre uma armadilha. Só o amor pelo conhecimento desfaz esse delírio de grandeza. Numa palavra, o mundo ignorado é imensamente superior ao mundo conhecido.
 
Homero criou uma personagem chamada Margites, que sabia tudo, mas sabia tudo mal. Não rejeitaríamos a ideia de que as redes sociais estão pejadas de Margites. Margites seria a personagem central de um livro com o mesmo nome, cujo autor terá sido, tanto quanto se sabe, Homero. Uma comédia que, segundo as palavras de Aristóteles, ombrearia em qualidade com a Odisseia e a Ilíada. Dela temos apenas míseros fragmentos.
 
Já no passado o problema entre o que se sabe verdadeiramente e o que se julga saber estava presente, embora hoje se ponha com avantajada dramaticidade.
A nossa lógica de zapping é uma renúncia a qualquer aprendizagem activa. Se nos distanciarmos, damos conta que cada um de nós faz figuras involuntariamente cómicas quando fala. Dotados de meia dúzia de factos esfarrapados, discorremos sobre o tema como se fôssemos uma sumidade. Que egos insuflados que nós temos!

Como não nos detemos em nada, somos escravos daquilo que nos aparece à frente. O que nos aparece à frente nas redes aparece graças ao algoritmo, baseado nas nossas interações anteriores. Ou seja, o mundo que se nos atravessa à frente é progressivamente menor, de forma a corresponder aos nossos gostos. O resultado: ficamos escravos do óbvio. Cruzamo-nos com o já visto, com aquilo que nos agrada, em suma, nada do que vemos é capaz de nos causar fricção. Engaiolados nesse mundo sem atritos, tornamo-nos arrogantes. Achamos que aquele microcosmos é o universo. Ao depararmos com um universo contrastante, não conseguimos esconder a raiva. Se nós estamos certos, o outro é inimigo. A certeza é absoluta, logo não há lugar para o diálogo.
O problema reside na nossa relação com a aprendizagem e com tudo o que exige esforço. A palavra é um dos exemplos.

N’A Mancha Humana, de Philip Roth, obtemos um retrato que define com particular pertinência os nossos tempos. “Não consigo aprender, logo deve haver algo de errado naquilo que quero aprender”. Se somos perfeitos, o mundo criado pelo algoritmo assim o ditou, o problema não está em nós.
 
 
escrito em 19 de Agosto de 2020

As Sobras de Homero


Roberto Gamito

15.08.22

Por estes dias em que as praias algarvias perdem a sua antiga fama de cenário idílico ao receberem sem restrições temperaturas pouco amigáveis, dignas de um trailer cujo intuito fosse apresentar a diversidade climatérica do mundo a um demónio estrangeiro, ou seja, vai do calor desértico ao frio glacial num estalar de dedos, o qual nem necessita de ser divino, uma vez que o homem já pôs o seu dedo burguês e gorduroso no tempo e escavacou a bom escavacar as estações, agarrando com mérito todos os papéis da biodiversidade animal, o Algarve recebe ventos e os seus caprichos, coisas que, parecendo que não, só fomentam uma ida descansada à praia sem rabugices, dias em que tentamos comer uma bola de berlim em passo de fugida, duplamente assados da cabeça aos pés pela areia e pelo sol que nos atravancam o caminho para a felicidade, enquanto tentamos evitar que um guarda-sol, que anda no ar estúpido e alegre como um papagaio-de-papel, nos bandarilhe severamente o lombo magistral que tanto nos custou a criar. E já esquecendo as algas, que este ano embirraram com o areal algarvio. Estas, as algas, assemelham-se a lisboetas naufragados da nau do quotidiano acabados de dar à costa, parece é que tudo delas. Das algas. Respirando fundo, ganhando fôlego para mais uma ficção, que é como quem diz, vendo pelo lado positivo, o facto de o areal ser por estes dias gagamente verde pode permitir aos futebolistas de praia, praticantes desse, como direi, desporto camponês, partindo do principio que o futebol é o rei, se entreguem de unhas e dentes à prática do paleio com a bola e descubram, entre peixe que por lá estrebucha e algas, uma nova forma de desfrutar do sushi.

Porém, não foi isto que nos trouxe cá, apesar de a canoa do escárnio ter servido belamente a sua missão. É tempo de a deixar vogar no lago plácido do marasmo. O que me indigna até à penugem dos neurónios, e faz com que gere sinapses dignas de um ditador, é o facto de as rendas neste país denominado por muitos entendidos como Portugal estarem cada vez mais proibitivas. Praticam-se preços de tal maneira altos que, se uma pessoa não catapultar a carreira até aos 35 anos, e, tendo recorrido a todo o tipo de estratagemas, seja pela via do mérito, seja pela via do boca ou do ânus, se estiver impedido de ganhar um milhão de euros mensais, a melhor coisa a fazer é ponderar o suicídio. Um suicídio modesto, nada de teatros caros e espalhafatosos, que a vida não está para grandes loucuras. Chegará a um ponto em que os portugueses terão de pegar no que conseguiram poupar durante uma vida e comprar umas braçadeiras em segunda-mão e emigrar para o Oceano Atlântico, onde poderão prosperar como amigos dos golfinhos, excepto as mulheres pequenas, que, como se sabe, são descritas como sardinhas por alguns provérbios e os golfinhos, como é alertado pelos biólogos contemporâneos, levam-nos muito a sério, aos provérbios, sendo que, o mais provável, é que a mulher sardinha seja comida por esses simpáticos cetáceos (simpáticos, o tanas, têm é boa imprensa; até os tubarões têm medo deles) sem poder apresentar queixa, já que o oceano, como Portugal, é uma terra — sim, introduzi deliberadamente uma chalaça — sem lei nem roque.
Adoptando uma postura mais séria, até porque a de carpideira não me traz saúde às cruzes, faltará pouco para o sem-abrigo principiar a lucrar e poder arrendar, tudo dentro da lei, como é evidente, o seu cartão polivalente, o qual é uma espécie de caravana onde as rodas foram substituídas por umas muito robustas duas perninhas.

Cá para mim que não percebo nada do mundo, e como tal reúno todas as características de um bom comentador, a inflação de preços no mercado imobiliário em Portugal deve-se a uma competição onde todos os sítios em Portugal querem alcançar os valores praticados na Quinta do Lago, onde, segundo o Público, comprar casa de dez milhões já é coisa banal. Dito de forma mais poética, a Quinta do Lago é a musa que inspira os preços das casas, contentores e restantes palhotas a subirem de preço, a serem, em suma, mais do que são. Dito ainda de outro modo, a Quinta do Lago é, mesmo sem saber, uma espécie de guru motivacional para o mercado imobiliário em Portugal. Aqui é que bate o ponto: alguém que pratica uma banalidade ao comprar uma casa de dez milhões não é bem português. Um português típico, no qual eu me incluo com a minha carteira enfezada, é aquele que pondera durante quinze dias se compra um corneto. Uma decisão mal tomada e empecilhamos uma vida inteira.

Todos sabemos que a lei, ou uma das suas mil e uma interpretações, cada cabeça sua sentença, já diz o povo, é mais dócil com o pessoal cheio de graveto. A lei gosta de dar a patinha ao bilionário. Sociologicamente falando, tenho para mim que o bilionário é o consumista depurado, aperfeiçoado ao limite. Cheio de tiques, embirrações, postura infantil face a tudo o que mexe, com uma diferença: entre aquilo que o bilionário quer e a sua consumação tende a não haver burocracia. O bilionário quer um edifício demolido: mobiliza-se logo um arsenal de mordomos para o fazer, o mais prontamente possível. E tal não impressiona ninguém. Se o dinheiro é o novo deus, como já foi dito e redito por autores nos últimos séculos, então o bilionário é o novo faraó, aquele que mantém uma relação privilegiada com Ele. Quanto aos restantes, empacotados na pose consumista, tipos que choram ao ver o preço dos pinhões, resta-lhes berrar e trabalhar que nem cães a fim de obter um bocadinho de céu, visto que a terra nos foi negada.

Portugal, aos poucos, está a tornar-se aquela loja de luxo onde podemos entrar mas não podemos tocar nem comprar nada, por muito que nos esfalfemos e nos levemos ao limite. Este país já não é para nós. Se ainda cá estamos, e não nos escorraçaram, é porque somos nós que garantimos os serviços mínimos.

o preço dos lotes no céu


Roberto Gamito

06.08.22

Homens, estamos a ficar fartos dos prazeres fáceis do mundo contemporâneo, a saber, pornografia e Instagram de mulheres cujos seios apetitosos (se os olhos comem, os dos homens estão sempre de pança cheia) nos levam a comentar a sua actividade virtual com frases descabidas do género: "tu inspiras-me", "és a luz da minha vida" e assim por diante até invocarmos toda uma literatura de cordel capaz de provocar rubor no mais Chagas de entre todos os Chagas. Como escrevia o outro estudioso, nada muda, as verdades actualizam-se e é preciso estar

— isto é um acrescento da minha lavra — de olhinho bem aberto para não comprarmos teorias usadas a preço de novas.

"És a luz da minha vida" é uma expressão degenerada e higiénica da frase "mandas grandes faróis". Embora grande parte dos teólogos discordem, "és a luz da minha vida" é pôr as mamas a ocupar o lugar de Deus. Nada a apontar, é um raciocínio ao qual não oferecerei resistência, até porque o raciocínio é meu. Um gajo anda no terreno e sabe como as coisas se processam. Se as mamas tornam os homens melhores então merecem o papel do Deus, de Jesus e dessa pandilha cujo intuito é salvar o homem. As mamas salvam. Estampem isso numa t-shirt.
É claro que, pegando no início no texto, carecemos de registos de que o homem possa ter dito na sua história algo como "estou farto de mamas, preciso de parar de olhar para elas, caso contrário vou acabar na desgraça." Nunca houve um homem saturado de mamas, ao ponto de até o feed do Instagram o deixar indiferente.

Antes de adentrar no raciocínio anterior, acho que não é totalmente descabido catapultar uma ideia. Criar um "mamómetro", um dispositivo que permitiria ao homem saber, no recato do seu lar, o grau dependência de que padece relativamente às mamas. Pois tal pode vir a ser problemático.
De momento não me preocupo com espécimes masculinos que teriam alcançado patamares de excelência se não tivessem perdido décadas inteiras a vistoriar tetas, não, esses ficarão para outro texto. Interessa-me, sim, os casos extremos, teóricos, uma vez que não conheço nenhum caso.

De Paracelso chega-nos a frase catita, a dose faz o veneno. Se assim é, há um nível a partir do qual as mamas se transformam em veneno (não veneno simbólico, isso já foi reportado pela poesia). Um veneno à séria. Então vamos lá atacar as mamas, salvo seja.
Imagino alguém a dar as últimas numa cama sob o olhar atento de um médico, o qual ignora o que está a acontecer ao seu doente, uma vez que a medicina está muito atrasada para se bater de igual para igual neste terreno pantanoso.
E eis que o morto-vivo declara: Senhor doutor, eu vi demasiadas mamas. Isso envenenou-me. Devia ter parado enquanto era tempo, agora é demasiado tarde. Sabe lá quantos telepatas eu enlouqueci. A minha vida gravitou em torno das tetas, esse foi, declaro sem medo, o meu sol.
No fundo, tornei-me no melhor olheiro de tetas do mundo. Podia ter ganho rios de dinheiro com isso, mas isto é como a droga, se uma pessoa principia a consumir está tudo estragado. Com efeito, sou um devoto das tetas.
Não é preciso ser nenhum Newton, respondeu o médico, para saber que você entrou no plano inclinado da desgraça e não há forma de impedir que vá parar ao outro mundo.
Quer dizer ou fazer alguma coisa antes de morrer, continuou o médico.

Pretendo deixar uma dica aos vindouros, o meu legado para os beneficiários de um antídoto que há-de vir. Cá vai.
Entram num sítio atafulhado de mulheres, arranjam, mal entrem, uma boa posição estratégica a fim de examinar o território, como um chefe de uma tribo ou um predador, e de seguida podem passar a noite a vistoriar fruta com um ar particularmente delicioso. E não me lixem, não estou a coisificar as mulheres. Fruta é fixe, faz bem, você é um profissional da saúde não me deixa mentir.
Mas isso já nós sabemos, retrucou o médico.
Então a minha vida não teve qualquer significado, finalizou o devoto das tetas, fechando os olhos.

O textinho acabou: estou saturado de mamas.
 

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