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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

11.03.22

— Concordas com estas palavras?
— Quais?
— Estas: concordas com estas palavras.
— Acho-as admiráveis, todavia careço de paciência para me alongar em justificações.
— Uma justificação breve, não te peço mais.
— Oponho-me com todas as forças a tudo o que saia da tua boca.
— E se for uma ideia brilhante?
— Ainda pior. O ser humano quando possuído por ideias brilhantes torna-se abundantemente chato.
— Então opto pela mediocridade.
— É a escolha acertada, ao menos falamos a mesma língua. Seria uma pena recorrer ao exorcismo da ideia brilhante via crítica mesquinha.
— Há margem para a tentativa de suicídio ou acreditas no regresso da felicidade?
— Margem há sempre, é preciso acreditar e não baixar os braços. Quanto à felicidade, não contava muito com ela, não é de fiar — só nos quer nos momentos bons.

Nesse instante, o padre administrou água benta aos executantes do diálogo e de seguida regressou ao jogo de sueca que havia interrompido.

— Mamarracho não é uma das tuas palavras preferidas?
— Tem dias. Quem é que te contou?
— Quem faz as perguntas aqui sou eu.
— Ai é?
— É.
— Não posso fazer mais perguntas?
— É uma prática a evitar se quiseres manter a nossa amizade.
— Então é mesmo para parar?
— Agradecia que parasses.
— Vou já parar, alguma vez te desobedeci?
— Nunca.

concordas com estas palavras


Roberto Gamito

06.03.22

O nosso frenesim de comunicação leva a que ninguém se ouça verdadeiramente. Urge dar voz a quem não tem voz, todavia esquecemo-nos que é preciso alguém se disponibilizar para o nobre ofício de escutar. Tornamo-nos bichinhos irrequietos à cata de estímulos. Alimentamo-nos de surpresas, de reviravoltas. Somos criaturas do zapping emocional. Não nos demoramos em sítio algum, somos dotados de coração nómada. Ratinhos de laboratório conduzidos pelo labirinto onde o queijo é ficcionado pelos homens de bata. É preciso aumentar a intensidade do electrochoque: o estímulo antigo já não é recebido como estímulo. Um dia morreremos electrocutados com uma surpresa gigantesca. Embeiçados pela pirotecnia de um mundo maravilhosamente colorido e ruidoso, tornamo-nos míopes perante as coisas silentes, rotineiras, desprovidas de gritaria, mas que se fixam cá dentro. O estímulo é um insecto da ordem dos efemerópteros. Bombardeados por informações e estímulos, o mundo transforma-se num fantasma colossal. Nada é firme e palpável, é antes movediço e incapturável.

Objectos e pessoas entram e saem da nossa vida como personagens de vaudeville. Ninguém — sublinhe-se que o objecto e o homem se tornaram quase indiscerníveis — veio para ficar. O amor é uma visita de médico. A nossa indignação face a uma tragédia tem a duração de uma pausa para o tabaco.

Somos fedelhos levados pelo tsunami de informação. A nossa arrogância impede-nos de pedir socorro, a farsa de que está tudo bem impede-nos de realizar o funeral da razão. O agora tonitruante elevado aos píncaros pela informação reclama a nossa atenção em permanência. Somos suricatas hipnotizadas pelas gordas. A nossa verticalidade é sinónimo de vigilância.
Intoxicamo-nos com informações desmembradas, algumas sem cabeça, construímos os nossos relatos em homenagem aos cadáveres esquisitos dos surrealistas.
Banidos do mundo da sabedoria, os sábios procuram refúgio no sopé da informação. O fetichismo dos livros ficou para trás. Convertemo-nos em fetichistas das gordas. O sapiossexual deu lugar ao datassexual. Alegra-me imaginar um encontro amoroso em que o homem seduz a mulher com tabelas e gráficos de excel.

Em boa verdade, tencionamos optimizar o presente. O homem antigo nada tem que ver com o homem contemporâneo. O infomaníaco nada tem que ver com o contador de histórias. Inventariar não é narrar. A história pertence ao domínio do contínuo, ao passo que a informação pertence ao descontínuo. Expectável, vivemos numa época notoriamente atomizada, na qual as ligações são desaconselhadas ou fantasiadas.

Para citar Byung-Chul Han, a infoesfera tem cabeça de Jano. Ajuda-nos a ter mais liberdade, mas, ao mesmo tempo, expõe-nos a uma vigilância e a um controlo cada vez maiores.
No mundo onde a eficácia comanda, a verdade tornou-se acessória. O que conta é o efeito a curto prazo. O saltar de uma coisa para outra tornou-nos míopes e ofegantes.

O homem contemporâneo não entende o quão equivocada é a expressão “tenho o mundo completamente ao alcance da minha mão”.
Ao não ficarmos à mercê da voz do outro, ao sermos incapazes de fundar a confiança pela via do olhar, ao tratarmos o outro como objecto dispensável, transfiguramo-nos numa farsa. O mundo não pode ser tocado via smartphone. Segundo Barthes, o tacto é o sentido mais desmistificador de todos, ao contrário da vista, que é o mais mágico. Se não tocamos em nada verdadeiramente, o mundo pode ser todos os mundos, pelo que o tsunami será inesgotável.

Sem olhar o outro directamente nos olhos não há empatia, sem toque não há humanidade. E fechamos com uma bela frase presente no mais recente livro de Byung-Chul Han, Não-Coisas. A ausência do olhar conduz a uma relação perturbada consigo e com o outro.

Phono Sapiens


Roberto Gamito

01.03.22

O tradutor é possivelmente o mestre supremo na arte das desculpas. Traduz uma obra de 50 páginas e desculpa-se em 100. Aqui está o meu trabalho, mas digo-vos já que está uma bela porcaria, eis o resumo das notas introdutórias. Seria impensável o mesmo noutras profissões.
Imaginemos o médico em cenário de cirurgia. Aí está o homem operado, comenta o médico aos familiares, mas digo-vos já que agora tem a pila na testa, também não faz diferença, tem 80 anos. A pila caiu durante a cirurgia e como estava a operar as virilhas decidi pô-la noutro sítio para não atrapalhar. Espero que haja compreensão da vossa parte.

Começo a achar que a morosidade da maioria das traduções se deve ao tradutor precisar de tempo para erigir um monumental pedido de desculpas. Já que foi incapaz de brilhar na tradução, que, segundo as palavras dele, é deficiente por estar cercada de possibilidades, pretende ficar na história da literatura graças às justificações. Se a coisa fosse feita às escâncaras, em vez de prémios para as melhores traduções, existiria prémios para as melhores notas do tradutor — que é um eufemismo pomposo para ‘peço desculpa, fui incapaz de realizar o meu trabalho em condições’.

O prémio de melhor pedido de desculpas de 2021 vai para…António Samuel, que traduziu a comédia perdida de Homero. O trabalho sublime e apatetado — perdoem-me a escolha de palavras — é de inegável valor para as nossas letras. Verteu para português uma das obras fundamentais da literatura universal com um rigor característico de bêbado. O poema original fala de alhos, enquanto a tradução refere-se a bugalhos. Não há qualquer relação de parentesco entre a obra original e a tradução, não acertou numa linha sequer. Se houvesse leitores neste país, seria apedrejado na rua dia sim, dia não. Não obstante a sua mediocridade como tradutor, transcendeu-se no maior pedido de desculpas de que há memória. No decorrer das quinhentas páginas, onde pôs as suas deficiências por extenso num tom barroco e indecifrável, vemos toda a sua veia de caguinchas virtuoso, o que não é de somenos. Este prémio serve para recompensar o seu falhanço estrondoso.

Por decisão conjunta do tradutor, editor e uma pessoa ao calhas, optou-se por um lamiré do texto original, a fim de não pôr o prestígio da obra original e de Homero em causa. Como alguns devem saber, o original encontra-se perdido e ninguém ganha o suficiente no meio literário para inventar. Bem vistas as coisas, temos um pedido de desculpas e uma tradução a uma obra de n páginas que ficou por um parágrafo traduzido, e uma resma de páginas em branco — para encher. Decisão acertada.

tradutor é um traidor, Roberto Gamito


Roberto Gamito

28.02.22

Num ano que já lá vai e a memória não acode houve uma viragem monumental na vida de Carlitos: abandonou o espaço exíguo da barriga da mãe, desistiu do ofício de contorcionista e fez aquilo que à época se chamava nascer. Brindou os presentes com um valente choro de tenor, dos quais pouco há dizer em seu abono senão que respeitaram escrupulosamente o dress code da maternidade: bata, crocs e sensualidade inexistente. Carlitos colheu algumas lágrimas, sorrisos de orelha a orelha e um “finalmente” abafado pela máscara do médico, o qual, segundo as más línguas, tinha um pastel de nata à espera no bar do hospital. Artisticamente falando, o choro não foi merecedor de uma recepção de tal natureza. Noutro contexto, teria sido recebido com gritos, pedradas e apupos embrulhados em palavrões. Felizmente, o recém-nascido foi abençoado com um público fácil. Há artistas que levam uma vida à procura de uma noite dessas. Rezo para que este episódio não fique marcado no seu inconsciente, caso contrário vai pensar que o mundo é fácil e ele um génio do canto. A vida encarregar-se-á de lhe facultar os obstáculos com os quais vamos depurando a nossa visão sobre o nosso valor, em havendo tempo, talento ou paciência para tal.

Mas avancemos nos anos, pois bebés nascem todos os dias, com mais ou menos berros e, não fossem os likes que garantem aos pais nas redes sociais, ninguém se lembraria deles, nem tão-pouco de fazê-los. Vinte anos volvidos após o nascimento, Carlitos abandonou a vida de taberneiro, negócio que havia estado na família desde há séculos. Fora criado como um homem desde que gatinhava numa família de bêbedos e havia quem dissesse, nas alturas em que a coscuvilhice amainava e os temas do dia perdiam o viço, que a árvore genealógica daquela família se assemelhava ao medronheiro. O nosso ex-taberneiro decidiu abraçar o sonho (mas em casa, para não passar vergonhas) e concretizá-lo. Desde os 10 anos que ambicionava ser o merceeiro com mais freguesia da vila. Actualmente, o antigo tasco, ponto de encontro de putanheiros calejados na arte “ai se eu tivesse a tua idade”, assumia-se como taberna gourmet, cujas transformações, a saber: bifanas a saber a sola de sapato de marca branca e o taberneiro não ser um virtuoso do palavrão, transtornaram a antiga freguesia a ponto de promover diálogo e algumas zaragatas. Embora se quisesse manter afastado do passado, Carlitos não pôde desperdiçar a renda baixa da loja ao lado. Entre o passado e o presente de Carlitos havia uma parede, que nem era das mais grossas. Mas já chega de poesia. Assim, à distância, a mudança de vida de Carlitos parece uma parvoíce, capricho próprio de malta jovem, contudo, à época, a mudança foi recebida com um misto de admiração e inveja. Quando pensou ter alcançado a felicidade, essa que só vem a meio dos livros como uma respiração antes da morte, foi surpreendido com a abertura de um hipermercado nas redondezas. A sua freguesia sumiu-se e ficou com a mercearia às moscas e com um ou outro camaleão, os quais sempre foram muito ligados ao comércio tradicional. À medida que o desespero de Carlitos se agudizava, apareciam tabernas, daquelas à antiga, por todo o lado, como se fossem cogumelos. Talvez a humidade da tristeza fosse a causa das tabernas, mas que sabemos nós da vida? Seja como for, continuamos na mesa da taberna a mandar bitaites.

O Sonho de Carlitos


Roberto Gamito

27.02.22


Roberto Gamito

25.02.22

Está um belo dia para dar em maluco. O influencer é a figura capital destes últimos anos, de tal forma importante que em redor dela gravitam uma série de émulos, cópias medrosas, aspirantes e todo um mar de variações que ambiciona alcançar o pedestal da insipez máxima. Movidos pela crença de que é possível fazer dinheiro fácil, a saber: pôr versos de Pessoa como legenda de um nobre mamaçal, ou celebrar o óbvio ululante, o homem contemporâneo abandonou o mundo palpável, usando-o apenas para carregar os seus gadgets. Desembaraçado dos grilhões do homem lúcido, partiu rumo ao mundo fantástico das redes sociais. Por conseguinte, como leva a vida a levitar entre patrocínios, é o animal mais desligado do mundo, move-se e pensa segundo uma lógica só sua. O disparate é o seu idioma. Apesar de temer como ninguém o ridículo, bate recordes nessa modalidade dia sim, dia não. É o atleta do ridículo contra o qual nem o humorista pode competir. Estamos diante de um Mozart, um virtuoso-mor do disparate diante do qual só nos resta ajoelhar.

O influencer tem no seu arsenal várias magias, sendo que uma das mais inesperadas é a de tornar aborrecido qualquer tema, até a guerra. Como nele não habita qualquer nexo entre a palavra e a acção, é capaz de condenar quem promove um produto graças à guerra e no segundo seguinte promover a sua marca. Vamos tentar dissecar o raciocínio do bicho. 1) Importa mostrar o mais rapidamente possível, qual político, que estamos contra determinado comportamento, dizê-lo de forma veemente, ainda que nada mude na prática, de seguida, receber os aplausos e insuflar o ego; 2) fazer exactamente aquilo que condenou, dado que só andamos nesta vida para fazer carcanhol. Só o que faltava a indústria bélica ganhar rios de dinheiro em virtude das guerras e eu não aproveitar para ganhar algum com os meus cremes e a minha marca de pijamas, eis o pensamento do influenciador.

Em certas províncias, os apóstolos da virtude não têm mãos a medir: há um concurso para ver quem é que se importa mais com a guerra. O policiamento da virtude atingiu o zénite. Debitam-se obviedades sobre o episódio bélico entre Rússia e Ucrânia, comentam-se as obviedades com outras obviedades, fazem-se piadas óbvias sobre esses comentários e ninguém é capaz de dizer nada que não seja parente do eco.

A minha solidariedade está com o povo ucraniano, corta para “vejam bem esta promoção imperdível”. O povo russo não é todo como o Putin, corta para “vejam este filme”. Não é obrigatório ser uma carpideira a tempo inteiro, mas essa postura fluída é o retrato perfeito do homem do século XXI. Há batalhas de emojis, corações partidos — transformamos a guerra num concerto do Tony Carreira; uma tempestade de emojis a simular a reza, e transformamos as redes sociais numa grande igreja. Mas o quadro do ridículo não acaba aí: os youtubers comentam a guerra — a chamada react — sem saber uma migalha do que se passa. Ficaríamos melhor servidos se o trocássemos por um bêbedo ou por um taberneiro furioso.

A influencer queixa-se, logo após as primeiras horas, que não está a aguentar, segundo ela, a sua saúde mental está a deteriorar-se. Minutos antes, convém sublinhar, mostrou-se solidária com os inocentes. É uma solidariedade à TikTok: no máximo dura 30 segundos. Só consigo sentir empatia durante uma janela de tempo muito curta, caso contrário dou em maluco. Expliquem-me a guerra em dancinhas ou através de memes. Só conseguimos saborear o mundo em finíssimas fatias.

O Carnaval vem em boa altura. Creio que a música “ você acha que cachaça é água? Cachaça não é água não” é a banda sonora ideal para o fim do mundo. Isto só está bom para o Hulk e para as gajas que fantasiam marotices com gajos fardados.

Influencer e a Guerra


Roberto Gamito

24.02.22

O que é concreto apaga o pensamento, ao passo que a abstração acende-o. Cabe-nos a nós, Zés e Joanas-Ninguém, entrarmos à socapa nos maiores museus e vandalizarmos as obras mais conhecidas. Plantar vultos onde ontem havia rostos conhecidos, obrigar as estátuas a regressar ao bloco de mármore, ao casulo das possibilidades, pôr o urinol no seu sítio antigo, já chega de mijar no chão, plantar riscos e bigodes, camuflar o conhecido, baralhar pintores e público e, caso tudo falhe, incendiar tudo. É preferível assim a ver tudo destruído pelo descuido de uma bomba que errou o alvo.

Nos cenários de guerra, a casa transforma-se em crisálida no interior da qual o animal em mutação aguarda a Primavera impontual. Felizmente, a economia naufragou, foi encontrada sem vida na margem de lucro. O Homem será objecto de um processo que o condenará — mas ele defender-se-á brilhantemente a fim de aumentar o grotesco da cena. O mais inocente do homens cumprirá a mais pesada das penas. Eis o cadáver do civil metralhado nas ruas.

No parapeito destes dias, ao rés do qual a cidade arde, e as bombas orquestram uma sinfonia medonha, acode-nos uma ideia: só o idealismo mais ingénuo pode acreditar que o diálogo pode interromper a dança da cólera. Em tempos incertos, onde as balas calam o canto dos pássaros, o Homem acumula no seu arsenal de superstições toda a espécie de deuses e santos.

O problema do século XXI é que nunca foi grande espingarda a discernir vivos de mortos. Contrariando o relatório da autópsia, o déspota levanta-se da maca — o ódio fez as vezes de Jesus. Lázaro renascido graças à cólera. A guerra altera a nossa relação com aquilo que nos esmaga. A revolução coperniciana no modo de encarar a arte é a seguinte: tomava-se “o que nunca poderia ter sido” como ponto fixo e brilhante, tipo estrela, ao redor da qual massas rochosas orbitam povoadas com o seu exército de formigas rezingonas.

Era imprescindível para o seu prestígio como empresário da noite ter casas de fado abertas durante a guerra, nas ruas, nos aeroportos, nos esgotos, em cima das árvores. A guerra tem esse condão: transforma a casa em casa de fados.
Nos anos antes da guerra era uma questão de honra — ou moda — produzir vidas que imitavam porcelana.

As maratonas de sexo, a fornicação típica e a sublimada, eram tentativas vãs de simular o abismo que separava os chorões da nova escola e os chorões da cepa antiga. Em suma, duas escolas de fado distintas.

Regressemos ao início do problema. Com o nascimento do primeiro Homem, a figura do déspota veio à tona do papel com ganas de nos fazer gritar, que data da saída do Paraíso. Começou a afinar-se o que viria a ser o seu mais imutável papel. Esse é o princípio da rivalidade entre a luz e as trevas. Finalmente um motivo sólido para uma querela: o Homem. A guerra leva os seres humanos de volta a um cenário em que o diálogo é visto como supérfluo ou mero capricho. Doravante o idioma oficial é o grito.

Um pouco antes do bombardeamento, o centro comercial é o centro de peregrinação onde o Homem dito descrente se encontra com o objecto. Mercadoria, se preferirem. Em cada objecto procura a peça que falta. Tarefa votada ao fracasso, e todavia continua a pôr peças no lugar deixado pelo coração, qual criança a forçar peças nos buracos errados.

A entronização do reflexo enaltecedor — a grande farsa do século — e o esplendor pirotécnico das distrações fez-nos gatos de olhos arregalados numa retrosaria, embasbacados com esse paraíso de novelos.

A moda prescreve o ritual segundo o qual o ridículo deixará de ser ridículo. O ridículo pode ser medido pela quantidade de fiéis. Muitos seguidores e o ridículo deixa de ser entendido como tal. Daí o frenesi à volta de uma nova moda: urge conquistar fiéis para o ridículo deixar de ser ridículo.

Estaremos a dias de assistirmos às maiores bizarrias de sempre. O sonho da influencer é enxertar nos interesses pessoais negócios, na sua diversão editada o seu entendimento coxo sobre a guerra. O seu papel é o de lucrar a cada disparo. Inesperadamente, é o mesmo sonho do ditador. Se o drama for Lázaro, a influencer é Jesus.

Viajo para conhecer o porquê dos meus passos, escreveu Walter Benjamin. Os tempos são inegavelmente outros. Não é isento de perigos trazer a lume a mediocridade de Narciso. A arte é onde as coisas são libertadas da servidão de serem úteis. Ou será o amor? Ou será uma coisa qualquer da qual ignoro o nome?

A mulher mais bela do mundo é capaz de sabotar uma cidade, fazendo parar o trânsito. Nesse dia tomou-se a decisão de se construírem mais estradas. Não obstante esta medida precipitada, fruto de um fraco entendimento acerca do poder da beleza, a mulher entupiu as principais artérias da cidade.

É original, se bem que nem sempre bonito, o modo como estes anos nos chegaram a nós. Contemporâneos de todas as patetices, embriagados nessa subjectividade manca, a qual pode ser usada como sucedâneo do pensamento, somos despojados de certezas. As nossas magras ilusões não sobrevivem em ambiente de guerra.

Convento a céu aberto, onde as freiras à paisana se juntam nas caixas de comentários para rezar com afinco, isto é, espalhar emojis condizentes com o cenário trágico. Ah, o efeito narcotizante de utilizar o emoji certo no momento certo.

Péssimo jogador, o homem contemporâneo faz as suas jogadas de costas voltadas para o tabuleiro, dado que é incapaz de desviar o olhar do espelho. No grande jogo de dados que é o destino do Homem, a guerra revela a nossa impotência face ao jogo. As temíveis redes sociais, a arena das ambições onde os gladiadores tentam vencer o adversário com bico de pato é um magro entretém quando tudo desaba. E um dia, no auge do desnorte, caiu uma bomba como nenhuma outra semeando um deserto onde ontem havia uma cidade.

Tête-a-tête com a Guerra


Roberto Gamito

23.02.22

A vida, a obra inacabada de Deus.
Raramente descortinamos o trajecto das suas ideias, a forma como mais tarde as há-de articular num edifício cantante. Apesar de independentes, semelhantemente a versos crescidos, são blocos de uma arquitectura monumental. Um novo século não faz nada senão inaugurar novas travessias para o inferno.

Escrever é tão inútil como semear gotas de água na neve. Na cidade dos suicidas, os nomes das ruas eram escritos a sangue. Percorremo-las cabisbaixos, sem olhar para cima, não vá o nosso olhar cruzar-se com mais um pássaro implume.

Pouco ou nada se escreveu sobre a hierarquia dos bobos. Sabemos que, tal como os homens, há pelo menos três categorias: grandes, pequenos e médios. Em todo o caso, é despiciendo pensar em tal, como se houvesse hierarquias no grito, castas entre as migalhas.

Os monstros vão ao encontro dos grandes caçadores, e não o contrário. Na embriaguez da escrita, o teu nome espraiou-se qual nódoa até preencher o poema. Esta prosa é o efeito de uma miríade de naufrágios, muitas braçadas dadas em vão rumo a um lugar nenhum. Na margem deste texto, o homem desbrava territórios virgens nos quais até agora só pululava o pesadelo.

O desejo de novidade apressa o pó, o qual cai em cima dos recém-chegados mal façam as apresentações. Fruto de diversas intermitências, semáforo nómada que oscila entre o aceso e o apagado. A última frase é a legenda de um quadro que nunca chegou a vir à tona da tela branca.

No quadro ao lado, o homem nada tranquilamente no mar de cadáveres que foi sendo, as várias versões testadas durante a vida, as abortadas, as imaginadas, todas as possibilidades postas em cadáver repousam sem expressão quais peixes envenenados. E todavia ele nada.

O século XXI é pródigo a gerar deuses de passagem. Nem para os deuses temos tempo. O verdadeiro método de prestigiar um deus é: imaginá-lo num combate com o poeta maldito. Abrir uma casa de apostas, esperar pelo desenlace e escrever a crónica dessa pugna.

Já ninguém sabe escrever um poema que nos afaste da ideia de suicídio. Eis o capital na arte de larachear: surpreender o abismo com o outro tipo de queda. Substituir o grito pelo riso — eis o papel do humor. Seja como for, a tragédia mantém-se intacta. Toda a actividade artística mais não é do que a tentativa gorada de fugir à morte. Ante tais descrições, apetece-nos incendiar o museu. Não há nada nele que nos ensine a rota da salvação. E há quem chame isto templo.

Recuemos para terrenos mais respiráveis. Mamas e cus, e eu armado em Aldous Huxley, vendo nelas e neles substâncias estupefacientes capazes de ampliar a visão e abrir, de chofre, as portas da percepção.

Aquele livro, aquele filme, aquele poeta, aquela citação, aquela jarra, aquele quadro, aquela pessoa, aquele animal — precisas de ver tudo isto, dizemos nós ao primeiro coitado que cair nas malhas da nossa conversa, garanto-te que a vida vai tomar um rumo se seguires à risca esta receita. A hipertrofia das recomendações asfixia os textos, os homens, as obras e o mais. Urge consumir o outro sem auxílio de legendas. Seja como for, o outro permanecer-nos-á inacessível.

O mais profundo sonho do artista: exorcizar o mal do passado, de tal modo que as memórias ressurjam com novo fôlego e nos ensinem, de uma vez por todas, a sair da pedra graças a um novo estremecimento. O drama barroco de esculpir cidades em migalhas.

Somos um animal que se confunde com a paisagem, a simpatia ou hipocrisia como meio de camuflagem, não obstante, barragem onde se acumula a cólera, essa deusa fluída.

O ser humano actual espera ansiosamente pelo segundo que, com ardil, a palavra se irá soltar da sua boca de molde a elevá-lo aos píncaros. O homem contemporâneo é na verdade medieval: só consegue pensar em termos de magia.

O tédio é a fronteira que separa o presente do futuro, isto se trocarmos a cabeça do artista por um prisma e registarmos a decomposição da luz branca. Acordava sempre com a mesma frase na cabeça: sou contemporâneo de um sem-número de tragédias. Dá a ideia que o século XXI é a zona de passagem das tropas do XX para o XXII.

Após a morte de Deus, ficámos muito pobres de experiências redentoras. Armamo-nos em ventríloquos deste e daquele, tentamos endireitar em conversa a vida deste e daquele, porém não é a mesma coisa. Deus foi o maior ventríloquo de todos os tempos, ficaram os bonecos.

Recuar ao passado, mesmo se for com o objectivo de resgatar quadros esquecidos, não poderá ser entendido como profanação?
Se assim for, a memória é a musa cujo papel é recordar-nos do nosso fado de larápio. Entretanto, confraternizo com os deuses que hão-de vir no mundo entre a intenção e a concretização.

O problema foi o progressivo endeusamento do norte, futuro, se detestarem rosas. Se nos dissessem que o futuro é, a par de Deus, a maior ficção inventada pelo Homem, não teríamos forma de desmentir e teríamos de arranjar forma de prosperar no aqui e no agora, neste reino de cacos.

Tornei-me áugure e arúspice, do voo e das tripas tirei as minhas lições. Apesar da febre da higienização, o Homem não consegue disfarçar o nojo que sente diante do espelho, o que temos é um século inteiro a cheirar a mofo.

Não me contento com o som e com a fúria, pretendo — reconheço a ousadia — inspirar-me no jazz onde o ruído se emancipa. Emancipar o sangue, cortar-lhe o vínculo que o ligava à obra de Homero. Afastar o sangue do cerco e da jornada. Tentar uma nova via para o canto. Mas que sei eu disto tudo? Não passo de um papagaio numa câmara anecoica a falar-vos sobre os Ecos do Homem.

Deuses de Passagem, Roberto Gamito


Roberto Gamito

22.02.22

Nas esplanadas vêem-se os últimos espécimes verticais desta era de sobras.

Conheço uma sala afastada do centro, longe dos olhares curiosos e ávidos de boatos. Deseja encontrar-se comigo num sítio onde nos podemos agredir sem o empecilho de terceiros nem a grandiloquência das variações levadas a cabo pelas testemunhas?

A rua espreguiça-se graças ao comércio. À noite, encolhe graças ao vaivém nervoso do bêbedo. A rua simula o coração.
Do alto da torre, as pessoas cá em baixo transformam-se em formigas. Suicido-me e durante a queda as formigas readquirem a sua antiga forma. A procissão de migalhas humanizada pelo suicídio de quem se atira do alto.

A paixão, vocacionada para o disparate, arredonda-nos por excesso. Nada de extraordinário, tão-somente outra manifestação do fascínio pelos precipícios.

Apesar disso, o bárbaro persiste no armário a tirar notas.

O galão arrefece, vigiado pelo olhar inocente — ou faminto? — do catraio. Lá fora a guerra é encetada com ganas de ficar para a História.

Uma mesa para os maiores, outra para os menores e uma terceira para quem hesita entre categorias. A dor crónica de quem se senta na mesma mesa menor, faça sol ou chuva, faça ou não proezas dignas de génio. O destino é como ter lugares marcados.

Já é altura de deslindar o que se acoita no coração de um homem colérico.

A casa é um pavilhão multiúsos em miniatura. Há folia, bailes, banquetes, desporto, teatro e o mais.

A linha a fazer as vezes da cicatriz. Em lugar algum encontrei aquilo que perdi. A frase, ricamente povoada de cadáveres, simula uma capital vandalizada pela escoada piroclástica. Cada verso uma Pompeia.

Os anos passam e o discurso, outrora prolixo e inchado de certezas, dá lugar às ruínas cantantes, caso a veia poética se interponha entre nós e o mundo. Reduzir ao essencial, o ofício de espremer cadáveres com o fito de lhes beber o sumo.

O Diabo foi possuído pelo demónio da depressão. Os poetas malditos, sua única freguesia, estão a caminhar para a mansidão. Do nono círculo de Dante chega-nos um choro que abalroa o canto das sereias. Conheço um quarto humilde, sussurro à mulher, onde nos podíamos seduzir sem recurso a adjectivos. Uma sedução pejada de verbos seria do teu agrado, excelsa donzela?

Somos o somatório das despedidas e pouco mais.

A relação acabou. Aí disse adeus, não apenas à mulher com a qual partilhei a tumultuosa província dos lençóis que a fome enrodilha, burlada pelo tempo até não sobrar nenhum detalhe que possa povoar a mais magra das molduras, oh, a fotografia-memória da qual nos pudéssemos orgulhar quando a vida nos visitasse, mas também as cenas que dinamitei pela minha falta de jeito como actor.

Este século é solo pouco propício ao sonho. É difícil alimentá-lo numa terra de doidos.

Terra de Doidos


Roberto Gamito

21.02.22

Escusado será dizer que estamos todos meio queimadinhos dos cornos. À minha frente, à distância de duas mesas, está uma mãe a educar a sua filha enquanto come um palmier de faca e garfo. Está aqui um belo trabalho! De que vale vozear ‘sê uma criatura porreira com os teus semelhantes’ se depois come um palmier de faca e garfo? Tremo só de pensar que adulto será esta criança.

Aproveitando que estou numa maré de saúde, detenhamo-nos na fauna de pastelaria. A velhota a cheirar o bolo de arroz, a senhora que molha a torrada no galão, o velho que fala aos gritos e o palhaço agarrado aos livros. Não queria ser eu a levantar a perdiz do restolho, porém não podemos continuar a ignorar o problema. Presentemente, ninguém come o bolo da forma tradicional, isto é, com as mãos. E isso é preocupante. Faltará pouco — profecia minha — para que um novo costume ganhe adeptos: comer cu de faca e garfo. Seremos todos uma espécie de apóstolo da etiqueta, atravancando a fornicação com rituais de novo-rico.
Burocratizar a foda é uma tragédia: temos de estar alerta.

A outra hipótese, quiçá menos descabida, é a necessidade de fazer render o peixe. Comer à selvagem é devorar um bolo em menos de um foguete, com faca e garfo consigo fazê-lo durar indefinidamente. Consigo racionar o pastel e assim tenho desculpa para ficar alapado numa pastelaria durante horas: estou a consumir. Eu próprio sou adepto dessa técnica de fazer render o peixe no capítulo dos iogurtes. Enquanto gordo praticante, volta e meia preciso de racionar o que ponho no bucho, não vá tornar-me um gordo surrealista pintado por Salvador Dalí, daqueles que derretem à temperatura ambiente. Como gosto de iogurtes, e por minha vontade comia aos packs de 6 de cada vez, arranjei um estratagema — a minha maior obra até à dada — que é usar a menor colher possível. A colher minúscula faz com que me demore no mesmo iogurte, dando a impressão de comer um de uma arroba. Engano o cérebro — por sorte é um daqueles que se deixa ludibriar facilmente — com um iogurte. E além disso faço exercício em virtude do sem-número de colheradas que levei à boca.

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