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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

11.03.22

— Concordas com estas palavras?
— Quais?
— Estas: concordas com estas palavras.
— Acho-as admiráveis, todavia careço de paciência para me alongar em justificações.
— Uma justificação breve, não te peço mais.
— Oponho-me com todas as forças a tudo o que saia da tua boca.
— E se for uma ideia brilhante?
— Ainda pior. O ser humano quando possuído por ideias brilhantes torna-se abundantemente chato.
— Então opto pela mediocridade.
— É a escolha acertada, ao menos falamos a mesma língua. Seria uma pena recorrer ao exorcismo da ideia brilhante via crítica mesquinha.
— Há margem para a tentativa de suicídio ou acreditas no regresso da felicidade?
— Margem há sempre, é preciso acreditar e não baixar os braços. Quanto à felicidade, não contava muito com ela, não é de fiar — só nos quer nos momentos bons.

Nesse instante, o padre administrou água benta aos executantes do diálogo e de seguida regressou ao jogo de sueca que havia interrompido.

— Mamarracho não é uma das tuas palavras preferidas?
— Tem dias. Quem é que te contou?
— Quem faz as perguntas aqui sou eu.
— Ai é?
— É.
— Não posso fazer mais perguntas?
— É uma prática a evitar se quiseres manter a nossa amizade.
— Então é mesmo para parar?
— Agradecia que parasses.
— Vou já parar, alguma vez te desobedeci?
— Nunca.

concordas com estas palavras


Roberto Gamito

01.03.22

O tradutor é possivelmente o mestre supremo na arte das desculpas. Traduz uma obra de 50 páginas e desculpa-se em 100. Aqui está o meu trabalho, mas digo-vos já que está uma bela porcaria, eis o resumo das notas introdutórias. Seria impensável o mesmo noutras profissões.
Imaginemos o médico em cenário de cirurgia. Aí está o homem operado, comenta o médico aos familiares, mas digo-vos já que agora tem a pila na testa, também não faz diferença, tem 80 anos. A pila caiu durante a cirurgia e como estava a operar as virilhas decidi pô-la noutro sítio para não atrapalhar. Espero que haja compreensão da vossa parte.

Começo a achar que a morosidade da maioria das traduções se deve ao tradutor precisar de tempo para erigir um monumental pedido de desculpas. Já que foi incapaz de brilhar na tradução, que, segundo as palavras dele, é deficiente por estar cercada de possibilidades, pretende ficar na história da literatura graças às justificações. Se a coisa fosse feita às escâncaras, em vez de prémios para as melhores traduções, existiria prémios para as melhores notas do tradutor — que é um eufemismo pomposo para ‘peço desculpa, fui incapaz de realizar o meu trabalho em condições’.

O prémio de melhor pedido de desculpas de 2021 vai para…António Samuel, que traduziu a comédia perdida de Homero. O trabalho sublime e apatetado — perdoem-me a escolha de palavras — é de inegável valor para as nossas letras. Verteu para português uma das obras fundamentais da literatura universal com um rigor característico de bêbado. O poema original fala de alhos, enquanto a tradução refere-se a bugalhos. Não há qualquer relação de parentesco entre a obra original e a tradução, não acertou numa linha sequer. Se houvesse leitores neste país, seria apedrejado na rua dia sim, dia não. Não obstante a sua mediocridade como tradutor, transcendeu-se no maior pedido de desculpas de que há memória. No decorrer das quinhentas páginas, onde pôs as suas deficiências por extenso num tom barroco e indecifrável, vemos toda a sua veia de caguinchas virtuoso, o que não é de somenos. Este prémio serve para recompensar o seu falhanço estrondoso.

Por decisão conjunta do tradutor, editor e uma pessoa ao calhas, optou-se por um lamiré do texto original, a fim de não pôr o prestígio da obra original e de Homero em causa. Como alguns devem saber, o original encontra-se perdido e ninguém ganha o suficiente no meio literário para inventar. Bem vistas as coisas, temos um pedido de desculpas e uma tradução a uma obra de n páginas que ficou por um parágrafo traduzido, e uma resma de páginas em branco — para encher. Decisão acertada.

tradutor é um traidor, Roberto Gamito


Roberto Gamito

28.02.22

Num ano que já lá vai e a memória não acode houve uma viragem monumental na vida de Carlitos: abandonou o espaço exíguo da barriga da mãe, desistiu do ofício de contorcionista e fez aquilo que à época se chamava nascer. Brindou os presentes com um valente choro de tenor, dos quais pouco há dizer em seu abono senão que respeitaram escrupulosamente o dress code da maternidade: bata, crocs e sensualidade inexistente. Carlitos colheu algumas lágrimas, sorrisos de orelha a orelha e um “finalmente” abafado pela máscara do médico, o qual, segundo as más línguas, tinha um pastel de nata à espera no bar do hospital. Artisticamente falando, o choro não foi merecedor de uma recepção de tal natureza. Noutro contexto, teria sido recebido com gritos, pedradas e apupos embrulhados em palavrões. Felizmente, o recém-nascido foi abençoado com um público fácil. Há artistas que levam uma vida à procura de uma noite dessas. Rezo para que este episódio não fique marcado no seu inconsciente, caso contrário vai pensar que o mundo é fácil e ele um génio do canto. A vida encarregar-se-á de lhe facultar os obstáculos com os quais vamos depurando a nossa visão sobre o nosso valor, em havendo tempo, talento ou paciência para tal.

Mas avancemos nos anos, pois bebés nascem todos os dias, com mais ou menos berros e, não fossem os likes que garantem aos pais nas redes sociais, ninguém se lembraria deles, nem tão-pouco de fazê-los. Vinte anos volvidos após o nascimento, Carlitos abandonou a vida de taberneiro, negócio que havia estado na família desde há séculos. Fora criado como um homem desde que gatinhava numa família de bêbedos e havia quem dissesse, nas alturas em que a coscuvilhice amainava e os temas do dia perdiam o viço, que a árvore genealógica daquela família se assemelhava ao medronheiro. O nosso ex-taberneiro decidiu abraçar o sonho (mas em casa, para não passar vergonhas) e concretizá-lo. Desde os 10 anos que ambicionava ser o merceeiro com mais freguesia da vila. Actualmente, o antigo tasco, ponto de encontro de putanheiros calejados na arte “ai se eu tivesse a tua idade”, assumia-se como taberna gourmet, cujas transformações, a saber: bifanas a saber a sola de sapato de marca branca e o taberneiro não ser um virtuoso do palavrão, transtornaram a antiga freguesia a ponto de promover diálogo e algumas zaragatas. Embora se quisesse manter afastado do passado, Carlitos não pôde desperdiçar a renda baixa da loja ao lado. Entre o passado e o presente de Carlitos havia uma parede, que nem era das mais grossas. Mas já chega de poesia. Assim, à distância, a mudança de vida de Carlitos parece uma parvoíce, capricho próprio de malta jovem, contudo, à época, a mudança foi recebida com um misto de admiração e inveja. Quando pensou ter alcançado a felicidade, essa que só vem a meio dos livros como uma respiração antes da morte, foi surpreendido com a abertura de um hipermercado nas redondezas. A sua freguesia sumiu-se e ficou com a mercearia às moscas e com um ou outro camaleão, os quais sempre foram muito ligados ao comércio tradicional. À medida que o desespero de Carlitos se agudizava, apareciam tabernas, daquelas à antiga, por todo o lado, como se fossem cogumelos. Talvez a humidade da tristeza fosse a causa das tabernas, mas que sabemos nós da vida? Seja como for, continuamos na mesa da taberna a mandar bitaites.

O Sonho de Carlitos


Roberto Gamito

27.02.22


Roberto Gamito

25.02.22

Está um belo dia para dar em maluco. O influencer é a figura capital destes últimos anos, de tal forma importante que em redor dela gravitam uma série de émulos, cópias medrosas, aspirantes e todo um mar de variações que ambiciona alcançar o pedestal da insipez máxima. Movidos pela crença de que é possível fazer dinheiro fácil, a saber: pôr versos de Pessoa como legenda de um nobre mamaçal, ou celebrar o óbvio ululante, o homem contemporâneo abandonou o mundo palpável, usando-o apenas para carregar os seus gadgets. Desembaraçado dos grilhões do homem lúcido, partiu rumo ao mundo fantástico das redes sociais. Por conseguinte, como leva a vida a levitar entre patrocínios, é o animal mais desligado do mundo, move-se e pensa segundo uma lógica só sua. O disparate é o seu idioma. Apesar de temer como ninguém o ridículo, bate recordes nessa modalidade dia sim, dia não. É o atleta do ridículo contra o qual nem o humorista pode competir. Estamos diante de um Mozart, um virtuoso-mor do disparate diante do qual só nos resta ajoelhar.

O influencer tem no seu arsenal várias magias, sendo que uma das mais inesperadas é a de tornar aborrecido qualquer tema, até a guerra. Como nele não habita qualquer nexo entre a palavra e a acção, é capaz de condenar quem promove um produto graças à guerra e no segundo seguinte promover a sua marca. Vamos tentar dissecar o raciocínio do bicho. 1) Importa mostrar o mais rapidamente possível, qual político, que estamos contra determinado comportamento, dizê-lo de forma veemente, ainda que nada mude na prática, de seguida, receber os aplausos e insuflar o ego; 2) fazer exactamente aquilo que condenou, dado que só andamos nesta vida para fazer carcanhol. Só o que faltava a indústria bélica ganhar rios de dinheiro em virtude das guerras e eu não aproveitar para ganhar algum com os meus cremes e a minha marca de pijamas, eis o pensamento do influenciador.

Em certas províncias, os apóstolos da virtude não têm mãos a medir: há um concurso para ver quem é que se importa mais com a guerra. O policiamento da virtude atingiu o zénite. Debitam-se obviedades sobre o episódio bélico entre Rússia e Ucrânia, comentam-se as obviedades com outras obviedades, fazem-se piadas óbvias sobre esses comentários e ninguém é capaz de dizer nada que não seja parente do eco.

A minha solidariedade está com o povo ucraniano, corta para “vejam bem esta promoção imperdível”. O povo russo não é todo como o Putin, corta para “vejam este filme”. Não é obrigatório ser uma carpideira a tempo inteiro, mas essa postura fluída é o retrato perfeito do homem do século XXI. Há batalhas de emojis, corações partidos — transformamos a guerra num concerto do Tony Carreira; uma tempestade de emojis a simular a reza, e transformamos as redes sociais numa grande igreja. Mas o quadro do ridículo não acaba aí: os youtubers comentam a guerra — a chamada react — sem saber uma migalha do que se passa. Ficaríamos melhor servidos se o trocássemos por um bêbedo ou por um taberneiro furioso.

A influencer queixa-se, logo após as primeiras horas, que não está a aguentar, segundo ela, a sua saúde mental está a deteriorar-se. Minutos antes, convém sublinhar, mostrou-se solidária com os inocentes. É uma solidariedade à TikTok: no máximo dura 30 segundos. Só consigo sentir empatia durante uma janela de tempo muito curta, caso contrário dou em maluco. Expliquem-me a guerra em dancinhas ou através de memes. Só conseguimos saborear o mundo em finíssimas fatias.

O Carnaval vem em boa altura. Creio que a música “ você acha que cachaça é água? Cachaça não é água não” é a banda sonora ideal para o fim do mundo. Isto só está bom para o Hulk e para as gajas que fantasiam marotices com gajos fardados.

Influencer e a Guerra


Roberto Gamito

21.02.22

Escusado será dizer que estamos todos meio queimadinhos dos cornos. À minha frente, à distância de duas mesas, está uma mãe a educar a sua filha enquanto come um palmier de faca e garfo. Está aqui um belo trabalho! De que vale vozear ‘sê uma criatura porreira com os teus semelhantes’ se depois come um palmier de faca e garfo? Tremo só de pensar que adulto será esta criança.

Aproveitando que estou numa maré de saúde, detenhamo-nos na fauna de pastelaria. A velhota a cheirar o bolo de arroz, a senhora que molha a torrada no galão, o velho que fala aos gritos e o palhaço agarrado aos livros. Não queria ser eu a levantar a perdiz do restolho, porém não podemos continuar a ignorar o problema. Presentemente, ninguém come o bolo da forma tradicional, isto é, com as mãos. E isso é preocupante. Faltará pouco — profecia minha — para que um novo costume ganhe adeptos: comer cu de faca e garfo. Seremos todos uma espécie de apóstolo da etiqueta, atravancando a fornicação com rituais de novo-rico.
Burocratizar a foda é uma tragédia: temos de estar alerta.

A outra hipótese, quiçá menos descabida, é a necessidade de fazer render o peixe. Comer à selvagem é devorar um bolo em menos de um foguete, com faca e garfo consigo fazê-lo durar indefinidamente. Consigo racionar o pastel e assim tenho desculpa para ficar alapado numa pastelaria durante horas: estou a consumir. Eu próprio sou adepto dessa técnica de fazer render o peixe no capítulo dos iogurtes. Enquanto gordo praticante, volta e meia preciso de racionar o que ponho no bucho, não vá tornar-me um gordo surrealista pintado por Salvador Dalí, daqueles que derretem à temperatura ambiente. Como gosto de iogurtes, e por minha vontade comia aos packs de 6 de cada vez, arranjei um estratagema — a minha maior obra até à dada — que é usar a menor colher possível. A colher minúscula faz com que me demore no mesmo iogurte, dando a impressão de comer um de uma arroba. Engano o cérebro — por sorte é um daqueles que se deixa ludibriar facilmente — com um iogurte. E além disso faço exercício em virtude do sem-número de colheradas que levei à boca.

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Roberto Gamito

18.02.22

Partilho da crença de que a maneira de falar nos fornece um belo retrato do miolo. Não obstante a qualidade da tradução, há que evidenciá-lo, passar as carambolas a limpo, verter o metal fundente da cachola para a língua é um processo no mínimo imperfeito. Seja como for, fornece-nos uma imagem segura do que se passa cá dentro. Do outro lado da barricada, perdoem-me a minúcia, mas não é descabido analisar este pormenor, a grandiloquência com tiques teatrais pode igualmente facultar-nos a mesma imagem. A preguiça intelectual, a qual se pavoneia papagueando as bacoradas mais em voga, dispensando o pensamento (jogada inesperadamente inteligente, dado que o cérebro é um electrodoméstico que consome demasiada energia) não é mais nem menos danosa que o barroquismo armado ao pingarelho associado às migalhas. Cumpre-se sempre uma de duas profecias: 1) o Homem aproxima-se da figura do poeta, encontra as palavras certas, embora a verdade lhe faça caralhadas do alto da torre de marfim, profecia de Agostinho da Silva, melhor dizendo, vai às cordas do humanamente possível de maneira a dizer o máximo com o mínimo de palavras; 2) o pensamento transforma-se em coisa de museu, profecia de Byung-Chul Han, e todo o discurso se torna parente de um refrão de música brasileira, daqueles apinhados de palavras desconexas e onomatopeias.

No entanto, como nada pode ser esclarecido com dois ou três palpites de taberneiro, necessitamos de afinar o modelo do mundo de tempos a tempos. Há factores que contribuem para o barroquismo ou para o vácuo, sendo o mais proeminente o cansaço. Quantas e quantas vezes já me aconteceu estar de tal maneira esporrado de miolo — no Baixo Alentejo esporrado significa também cansado até dizer chega, não conheço outro termo que lhe chegue aos calcanhares — e pôr os pés pelas mãos, armar-me em contorcionista quando de mim esperavam um tenor calejado. O cansaço só me faz passar vergonhas. Quanto a vocês não sei, mas a mim o cansaço retira-me habilitações literárias. Houve dias em que, graças ao cansaço, não tinha mais que a quarta classe. É preferível largar os livros e os estudos e dormir mais uma hora. De que me vale palmilhar a Biblioteca de Alexandria se depois estou demasiado afadigado para falar e pensar sobre as minhas descobertas? Proponho mais descanso e menos livros.

Como já foi dito por pessoas interessantes e humoristas, se um político ou aspirante a tal usa o refrão nauseante “portugueses e portuguesas”, sei, de fonte segura, que é um embusteiro amiúde fanfarrão e um caguinchas ignorante da gramática. Se escreve “amig@s”, além de estúpido, é também merecedor de um carnaval de chapadas no focinho. Apreciações da minha lavra, evidentemente, há quem se erice se não semearmos um ‘x’ ou um ‘@‘ em palavras que já nos deram tantas alegrias. No fundo, somos iguais: gatos assanhados a disfarçar o cio, uns e outros a ensaiar danças contemporâneas às tantas da noite.

O discurso dos hóspedes deste século leva-me a acalentar, quando muito, um resíduo de esperança. Tal como todas as grandes parvoíces, é um processo imparável. Uma batalha perdida.
O que tenho vindo a observar, à distância, postura não muito sapiente da minha parte, dado que sou míope, porém não me quero envolver com a malta deste século, ou seja, observo estes anos do último miradouro do século XX, são várias tendências deprimentes: o pedantismo postiço, a inclinação para o cadáver esquisito por parte de surrealistas desprovidos de imaginação, a afectação espontânea, os trejeitos de genialidade, esta última tão bem descrita por Javier Marías.

De cada vez que ouço ou leio um influencer armado em escritor, que os há aos magotes, e parece não haver crítico capaz de desparasitar as prateleiras dessa praga, a falar sobre poesia, tenho vontade de me alistar no Daesh. A fanfarronice misturada com o não faço puto de ideia do que é a poesia levam-me aos arames. É com cada fanfarronada que os génios até dançam samba no caixão. Resultado: uma subjectividade típica de ignorante barbudo. Detenhamo-nos neste aparte: até a barba foi desprestigiada por estes dias. Quem diria que um dia teríamos esta espécie improvável: o barbudo analfabeto, que é como quem diz, o hipster. Resumidamente, o hipster tenta compensar a sua falta de cultura com bigodes e patilhas disparatadas.

Observemos, qual biólogo, a ninhada deste século: o activista ecléctico, o esquerdista teatral, os filhos do Trump, isto é, os poetas da baboseira, o humorista assustadiço, o artista marreco, o pensador sem cabeça, o espalha-brasas polivalente (antes de importarmos a palavra bully era este o termo utilizado), o apóstolo enfurecido da empatia, o paladino do óbvio, o cientista do palpável, o negacionista, o pseudo-intelectual, o pseudo-gigante, estúpidos de todos os sabores e o liliputiano em bicos de pés. Peguemos com jeitinho no pseudo-intelectual e atiremos o resto pelo penhasco. São os que açambarcam com afectação típica de actriz de novela qualquer termo inglês como se fosse a pedra filosofal, como se antes de eles descobrirem o vocábulo na língua do novo deus, o denominado por ele jamais tivesse existido onde quer que fosse. Teríamos de citar Eça de Queirós de manhã à noite a fim de perceber os novos voos do provincianismo que sempre nos caracterizou. O apego doentio pelo francês passou para o inglês. No português é que ninguém lhe pega. Há a crença de que, se enxertarmos a nossa frase anémica com vocábulos ingleses, a nossa deixa será entendida como brilhante. De uma assentada, mascara o óbvio e a ausência de ideias. Uma das consequências, raramente abordadas pelos vigilantes da língua, é que há muita gente que sabe pronunciar correctamente os termos ingleses e, todavia, quando se encontra com o termo português, esse embate provoca-lhe estranhamento.

Não será descabido abrandarmos a marcha e comermos uma bucha no apeadeiro da marotice. Palpita-me que as gerações mais novas já não fornicam em português. Por milhares de vezes fui espectador do seguinte espectáculo posto em discurso: o português carece de vocábulos capazes na esfera da fodanga. A segunda coisa que pensei, sendo que a primeira foi o suicídio: estamos irremediavelmente perdidos. Que país é este que vota o caralho e a cona ao ostracismo? Não quero ser obrigado a foder em estrangeiro.
Não quero viver num país que viu nascer Bocage, O Pauzinho do Matrimónio e agora sente pudor em vir-se na língua lusa. Sinto que falta uma espécie de activista da cona e do caralho para combater eficazmente o preconceito.

Eis-nos chegados ao tema da crónica. O novo pedante. Em tempos idos, o pedante era um gajo chato, porém sabia muito de muita coisa, hoje é apenas chato e vazio. Hoje não se lê, decora-se nomes de escritores; hoje não se tenta adentrar no filme, surripiamos uma frame, tipo homenagem ao tumblr, porém sem a parte boa que é a pornografia; não se interpreta um poema, sublinha-se um verso, utiliza-se a subjectividade como muleta de molde a não ter de responder a nada, carece-se de opinião sobre tudo ou então citamos o rabugento estrangeiro mais à mão, não vá alguém chatear-se e perdermos seguidores — a maldição do século.

Vamos lá ver uma coisa, como diz o bardo eleito pelo povo, o conhecimento, o pensamento — e a arte por arrasto — dão trabalho. No entanto, não abdicamos da aura — queremos continuar a ser apodados de instruídos, pensadores, poetas, artistas e o mais que se lembrarem sem suar nem queimar pestanas. Em todo o caso, ninguém liga, estamos todos embrenhados neste zapping de doidivanas, a saltar de coisa em coisa qual sapo em ácidos, quando vemos um filme não vemos o filme, estamos nas redes e o mais, abrimos um livro de poesia não com a vontade de nos perdermos mas com a preocupação de sacar a melhor fotografia para o Instagram, vemos citações de pendor existencialista a servir de legenda a rabudas — não critico, bela aliança —, mas se tentássemos fazer sumo com o homem contemporâneo seria um trabalho votado ao fracasso. Seriam necessários dias para obter meia dúzia de pingas. Eu, que nunca saí deste mundo para ir a Marte, digo-vos: falta rigor aos filhos do século XXI, isso vi eu num filme iraniano ou num poema ou numa citação que acompanhava um culto mamaçal.

Comunidade Cultura e Arte, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.02.22

A timidez impede-me de ligar para o aspirante a verdugo a altas horas da noite com o fito de o convidar para excessos. O bom do vício, arena dentro da qual álcool e fornicação andam de mãos dadas aos pinotes, quais duas cabrinhas folionas, não entra. O maior excesso ao qual podemos recorrer é — observe-se a ousadia — cuspir umas piadas. Se hipócritas, a relação com o aprendiz de verdugo funciona às mil maravilhas, quase a raiar o idílio. O problema — inverosímil em virtude de nos passearmos turisticamente neste século de miolos afadigados — é pensarmos pela nossa própria cabeça. E se o homem, no pino do seu delírio, salta do molde da convenção como metal fundente e leva a cabo um comentário à legenda tida como dogma? Temos a burra e restante família nas couves. Além do acto iconoclasta de pegar na marreta e bramir “alto e pára o baile”, o comentário é já de si, a menos que seja um judeu a fazê-lo, apropriação cultural. Abstenho-me de comentar seja o que for, não sou judeu, não faço tenções de o ser nas próximas vidas, pelo que não sou a criatura mais indicada para opinar por escrito. As minhas humildes origens só me permitem apanhar e calar e comer nos dias santos. Mamar as escrituras e sucedâneos sem acrescentos da minha lavra, não impor-lhe erratas nem adendas. Quando muito, vestir o fato de papagaio e ser acólito do eco e andar para aí descansado a papaguear as baboseiras mais em voga.

Uma das características mais nocivas do nosso tempo é o medo posto por extenso, seja sob a forma de aspas, redundâncias, eufemismos, perífrases e por aí vai. A diluição da tensão verbal é sintoma da relação conturbada com a palavra. Tenho, portanto, de ser escrupuloso ao máximo na hora de beneficiar a turba burra de algozes com epítetos, não vá a guilhotina tombar-me nos punhos e ser obrigado a finalizar o texto com os cotos em sangue. Há uma personagem com muita saída por estes dias: o virtuoso histriónico e hiperbólico ao pé do qual antigos sábios e santos parecem canalhas. Se aterrássemos neste século vindos sabe-se lá de onde, por exemplo, escorraçados do paraíso ou da cona da mãe, ficaríamos com a impressão que o bem só é bem se for gritado ao megafone. É a sociedade do grito na qual o sensato é posto no saco dos mimos — e com isto já fica tudo dito sobre o olho de lince da nova casta de virtuosos.

Há dias, estava eu nas minhas lides de escrita, que é como quem diz, a tropeçar nos vocábulos de molde a provocar uma faísca, com o focinho enterrado em livros e cadernos, qual perdigueiro viciado nas minudências do pó — ai meu Deus, para o que havia de estar destinado este rapaz! —, a cofiar esta barbinha de esquerdalho asmático, a gingar este bigodinho nada fotogénico em virtude da comichão, quando, finalmente posso contar-vos algo com pés e cabeça, vejo uma mulher abeirar-se do meu coração com a carne aperaltada para o desastre, expressão muito literata, quase enfadonha, ralhou-me o péni mais tarde — pénis à Cláudio Ramos, não esquecer que é o homem do téni — me marimbo nas croniquetas e na versalhada e transformo o meu olhar em batedores liliputianos cujo o labor seria, doravante, percorrer o corpo da fêmea em busca de um sítio para pernoitarmos juntamente com as ideias mais acesas; farejei, não escondo, o atractivo decote como quem procura as musas no fundo de um poço. A boçalidade, amiúde condenada por esse bando de censores que nos impedem de simular o pecado, é saudável para a postura, isto contou-me uma enfermeira que me tratou do inchaço do príncipe do baixo ventre. Eu, que pouco sei da vida e ainda menos sobre a morte, endireitei a postura, adiei a marreca característica de quem é parvo o suficiente para esfrangalhar o esqueleto em leituras e, mais saudável, com o fôlego no máximo, mudei-me para aquele olhar hospitaleiro e magiquei uma epopeia de ancas dançarinas, a qual me ocuparia nos próximos tempos.

A ver se o humor morre, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

14.02.22

Quis o destino que eu sobrevivesse até este dia, dia de São Valentim, moderadamente ileso, excepto umas ligeiras tremuras entremeadas com gritinhos abafados pela almofada quando medito no amor e dificuldade em adormecer sem soltar um Nilo de tristeza para os lençóis. A minha hora há-de chegar, digo eu, diante do espelho, de modo a parecer um garoto barbudo e introspectivo com um pijama pejado de porcos de forma a condizer com o meu gabarito intelectual e não um tipo tomado pela insânia; só espero é que a hora não coincida com a da minha morte. Não seria de estranhar. Sou pouco organizado e não me espantaria que o destino me tivesse marcado o amor para a hora da morte. De facto, seria o episódio indubitavelmente mais marcante da minha vida, e o último, como se tivesse deixado o melhor para o fim. A minha inteligência e beleza exótica — leia-se desespero pausadamente — serão recompensadas. Deus não dorme; todavia, em virtude da idade, é incapaz de escutar as preces dos humanos, muito menos as minhas, que sou, segundo as palavras de Jesus, esse privilegiado, o único homem que não é filho de Deus. E como não dorme ainda piora a situação; é um mouco irritadiço. O problema dos milagres está despachado: não posso contar com eles.

Não é uma tarefa fácil, com a vontade de viver a escassear, porém como alguém tem de prosseguir com a minha vida e, considerando as ofertas no mercado, entendo que sai mais barato se eu tomar conta deste negócio tão pouco apetecível. Não faço a mínima ideia do que quero dizer com isto. Se continuo vivo, se não é uma vitória estrondosa, é pelo menos uma vitória moral. Que, traduzido na moeda corrente, é um valente nada.

A verdade é que, durante a minha vida, levei a cabo muitas experiências no domínio do fracasso amoroso. O amor, segundo a minha ideia, é dotado do poder de enviar toda a nossa vida para uma nota de rodapé, dando-nos a possibilidade mágica de rabiscar de novo o livro da nossa biografia. Por azar, não tenho qualquer génio quer para a escrita quer para o desenho. É só gatafunhos. Não me chateio; ninguém percebe muito bem o que é o amor. Aliás, este procedimento, o rabisco, é tão-só a minha forma de exprimir a minha incapacidade de o compreender.

Imagino-me a esfarelar orégãos para uma salada de tomate, um hábito que ganhei quando saio à noite, enquanto bebo um copito (saliento que o corrector ortográfico trocou-me, vezes sem conta, a palavra ‘copito’ por ‘coito’), não obstante ser considerado um hábito socialmente condenável, sou bastas vezes interpelado por um olhar que oscila entre o meigo e o esfomeado e, em resposta, confortavelmente metido numa farpela de rubor, a qual preludia a indumentária do suor, treinado para salivar diante da febra, como uma nova raça de cão de Pavlov, naquele habitat de silêncio tépido onde homem e mulher praticam ping-pong com os olhares, eis que ela diz: “A forma como tu esfarelas os orégãos enriqueceu-me incomensuravelmente a vida.” A forma de seduzir, respondo eu, confiante do meu acto exuberantemente erótico, mais eficaz que conheço, minha querida.

Descontraímo-nos com xaropadas, frases sem nexo, risos que afloravam a qualquer momento, esfrangalhando-me as piadas, a coisa que eu mais detesto na vida, logo a seguir à fome no mundo. Fiz-lhe ver que era um homem diferente, um papalvo de alto coturno, padecia de um comportamento de idiota, isso era indiscutível, porém invulgar e ela admitiu que nunca vira nada assim. No meu nervosismo, sussurrei-lhe esta salada de tomate é para ti.

Nunca ninguém me disse uma frase tão doce, retrucou, encantada. Os minutos seguintes, como é fácil de ver, abarcaram diversos assuntos, dos mais simples ou mais exigentes, desde que o leitor esteja disposto a prescindir da lógica. Penso, desde essa altura, que falei demasiado. Da salada de tomate até à amizade vão dois grãos de sal. E eu distraí-me com o q.b. Tornamo-nos amigos e eu tive de adiar, de novo, o amor. De resto, ela confessou-me que nunca me iria esquecer, pois nunca havia comido uma salada de tomate às 3 da manhã.

Dia dos Namorados

 

 


Roberto Gamito

11.02.22

O longo somatório de zeros que é a vida deprime o animal ocasionalmente vertical. O que nos sobra é o ofício de poeta rezingão, em última instância, fingir intensidade numa casa mortuária. À margem dos episódios outrora marcantes, desenhamos uma aldeia de bonecos e rabiscos, eis o nosso acrescento ao guião do século.

O espanto é quando o mundo nos mostra o forro do casaco pejado de relógios e nos damos conta do aumento de possibilidades. Estar espantado é abrir as portas da perceção ao ignoto, fornecer-lhe as condições necessárias para que ele espevite os neurónios mais dorminhocos. O Homem do século XXI? Deitado será mais útil às gerações seguintes.

Separar o trigo do joio tornou-se um ofício de poucos. O pensamento ou o seu sósia é administrado como quem dá navalhadas à papo-seco na pança mais à mão. O inteligente é um estúpido em formação. Ao imprevisto que te atinge e rasga o plano poderás exclamar: mas eu tinha o papel! Tinha outra ideia para o futuro, mas o mundo não passou cartão.

Sem separar o genial do medíocre, a esquerda da direita, o alto do baixo, o gigante do anão, o morto do vivo, a cana rachada do cantor, o manjerico de Dante estamos a passar um atestado de loucura à humanidade. Não reconhecer as diferenças é um dos primeiros sintomas de que algo de muito errado se passa na mente colectiva.

O Homem está louco quando damos conta que há nele distúrbios na medição do mundo. Eis-nos no epicentro da batalha entre Humor e Narciso. O Narciso crê que o seu mundo é do tamanho do universo, ao passo que o humor põe a sua cabeça no cepo e faz pouco da procissão de liliputianos. A arte — o humor à cabeça como agrimensor das províncias de Narciso — abate-se sobre os ossos da humanidade de supetão. E assim se perde meio metro num estalar de dedos. Ora, num território de gigantes postiços a arte é interdita. O soco no estômago como que nos obriga a curva-nos: perdemos estatura. Levar com o mundo no estômago torna-nos menos fotogénicos — e ninguém merece passar por tamanha aflição.

No feed de Instagram, os retratos sangram pelas feridas do ego e interferem assim nas declarações sensivelmente pacifistas dos evangelistas da empatia. Começo a achar que a mão é a maior ficção de todos os tempos. O Homem não faz nada do que diz, não porque é ocupado, mas porque carece de membros superiores.

Ele e ela são dois. Contabilisticamente falando, é uma frase inatacável. Mas sei de casos, comentará o negacionista das somas, em que é zero. É só uma questão de tempo: a relação não produz um resultado estável. Perto do limiar da tristeza, somamos restos de um com os restos de outro. Cada resultado é um diagnóstico.

Pára de chorar, diz o morto, não compreendes o meu sofrimento. Não mereces ser a minha carpideira. Ninguém é imune à quantidade, gritou o eremita. Como afiançam alguns filósofos contemporâneos, a verdade, o pensamento já não pertencem a este século. O pensamento não é espectacular, a verdade, essa, safa-se in extremis. Não fosse o espectáculo da morte do outro e já nos havíamos matado a todos.

Antes de o universo ser universo — vasto e sem sentido como é —, talvez fosse apenas um ponto. Imagino o início — o ponto — povoado com tudo o que há. O universo absurdamente contorcionista: Deus em cima de um elefante que por sua vez estava em cima de uma tartaruga, todos os animais encavalitados uns nos outros, nenhum espaço por ocupar, a língua, uma mixórdia de vocábulos, música, zumbidos, grunhidos, rugidos, ondas que ao rebentar silenciavam cigarras, cigarras a competir com erupções, sismos com corações. O cérebro do Homem é herdeiro desse ponto. Patrono do mundo onde Deus se acoita no centro da rosa em redor da qual orbitam planetas e dragões.

Nas vésperas do fim, estou dividido entre o nada e a vida.
A verdade final não nos engrandece, só nos dinamita. A vida é uma trajectória de rugas: o início e o fim são assombrosamente distintos. Embarcar na senda pela juventude eterna é cortarmos relações como o mundo. À medida que envelhecemos, a ficção da verticalidade torna-se um fardo e tornamo-nos corcundas.

A nossa é sem dúvida uma época estranha, confusa e sem grandes inícios. Neste panorama pouco animador, excepção feita aos vampiros e demais oportunistas da catástrofe, talvez o pior seja a constatação da profecia de Cioran concretizada — para ele uma verdade absoluta — de que a humanidade não passa de um mal-entendido; de que as pessoas, salvo raríssimas excepções, se encontram espectacularmente desinformadas em plena era da informação, uma vez que só lemos, ouvimos e vemos parangonas que enobreçam o nosso reflexo. Na verdade, mentalmente falidos e derrotados, entrincheirados na comodidade de um refrão infantil segundo o qual a vida é isto, a política é isto, o amor é isto, entre outras bacoradas sincronizadas e fluídas que povoam o ar qual bando de estorninhos estamos desgraçadamente sós.

A estupidez, a qual nunca terminou nem abrandou, é a língua oficial do século. Não é que os inteligentes alguma vez tenham sido demasiado de fiar. O que difere entre o estúpido e o inteligente é o arsenal de manhas e patranhas. O curioso é que, apesar de todas as variantes da estupidez, com ou sem miolo ginasticado, os homens estão empenhados a saturar os seus diálogos — corrijo, monólogos — com termos ingleses, citações da moda, pronunciadas ou escritas, enxertadas com talhadas biográficas, num estilo em que a razão fica irreconhecível, de tão desfigurada que fica com os pontapés, quer da gramática, quer da agenda política. O provincianismo, tão epicamente sovado por Eça de Queiroz, atingiu o zingamocho: povoamos os nossos discursos de termos estrangeiros, não vá o outro chamar-nos inútil ou ignorante. Bem analisada, a frase é incapaz de se pôr de pé: não é por lhe adicionar miríades de próteses inglesas que a ideia é capaz de caminhar rumo às cabeças ocas.
Extintos os poetas, a língua dá à luz uma multidão de cantos nados-mortos.

Eis-nos no seio de uma largada de vocábulos, à grande e à francesa, ou melhor, à grande e à inglesa como se este século não passasse de uma monumental peça do último dadaísta. Dadas as nossas limitações para perceber o que quer que seja, ficamos com os cabelos em pé — felizmente, a calvície assentou arraiais na minha generosa cabeça e já careço de meios para me irritar como em tempos idos — só de imaginar as aulas leccionadas por esses analfabetos grandiloquentes. Inspirado na prática dos nossos pares, repetimo-la nos nossos moldes e damos largas aos queixumes: a internet, essa fábrica de produzir papalvos, essa guilda de bárbaros assustadiços, essa metrópole de parolos e por aí vai. São mil reis a um osso e o osso nem sequer existe.

Mil Reis a um Osso

 

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