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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

13.07.21

Vomitava anualmente resmas de sermões bem-intencionados e insípidos. Incapazes de sair da órbita da obviedade, não passavam de um misto de raiva e patetice enformada em mandamento. Basta, disse uma voz saída da mansarda, bastidor ermo deste século. Um dia os pensadores hão-de cair-lhe em cima sem a burocracia das boas maneiras e levar um pontapé no rabo do pensamento. A profecia não tardou a cumprir-se. Não teve outro remédio senão rolar escada abaixo qual cena de acção. Há quem interprete este episódio como cruel, outros como cirurgia estética. Seja como for, a crista baixou consideravelmente. Podia ter feito melhor? Creio que sim,  bastar-lhe-ia o silêncio robusto. Mas não será pedir muito a uma personagem tão desejosa de estrelato?
Não saiu incólume à descida. Hoje vagabundeia na rua sem mestres nem pupilos com uma cabeça de metal. Cabeça dura, cabeça blindada ao pensamento. Enfim, desgraças que nos deixam na mesma, comentava a velha.

Por pouco não dava com a língua nos dentes e arranjava uma forma bárbara de se expressar. O sangue romperia bravamente pelos interstícios da mão posicionada à frente da boca.
Mas sobre este assunto o melhor é ficarmos calados. Não consintamos que a suposição se transforme em ópio.

Esse cutelo é o orgulho, a menina dos olhos da empatia. Eis a legenda que o acompanhava no museu das certezas.

Todos fingem acreditar na vida, perpetuando assim a fraude. Os abutres discutem por estes dias se há diferença de maior entre o Homem vivo e o Homem morto. Dessa discussão sairá, inevitavelmente, um novo mundo.

Pedaços de carne vadiam à mercê do acaso, experimentado rotas de colisão. Um estrangeiro do costume, bastante legível. Uma cascata de partículas elementares. Oh, meus queridos cabrões, grita vadiamente a vizinha do segundo andar, receio bem já ter registado esta experiência — as colisões — demasiadas vezes. A vossa vida há muito foi expressa em fórmula. Nada do que possam levar a cabo, sóbria ou ebriamente, será catalogado de imprevisível.

Ao passar pela mulher que o conduziria sem problema à loucura, espreme-se todo, com o fito de lhe oferecer o sumo da sua existência; porém umas míseras gotas não serão suficientes de molde a abrandar tamanha sede.

Estou-me borrifando para as convenções da sociedade. A partir de hoje sou um candeeiro malabarista. Puto iluminado, és incapaz de manter os malabares no ar!, comenta um amigo. Sou um candeeiro, diz o candeeiro. És uma inspiração, diz o amigo do candeeiro, que é como quem diz, o bêbedo.

— À medida que envelhecem, os homens vêem com mais nitidez os seus deveres.
— Essa é a razão pela qual passas as tardes sentado no banco a inventariar mamas?
— Sim, é a minha vocação: biólogo especializado na observação de tetas selvagens.
— Mas isso não te pode trazer problemas?
— Pode, todavia ninguém pode pôr um travão na ciência.

Logo que os víveres começam a ser distribuídos, o saco de pichas do outro alegra-se. Só passamos fome se formos tortos, alega o assediador. Detalhes muito...bem, não vamos entrar em detalhes. Não há consentimento para tal, diz o meta-assediador. Meta-meta-tragédia, declara o juiz boçal.

Findo o fricandó, a língua liberta providencia-me uma certeza: de uma forma ou de outra, estamos fodidos.

Queiram desculpar-me, todos estes comportamentos de machão fazem com que sejamos populares junto de certos círculos. Penitencio-me prontamente, gostava de pertencer a este novo círculo de snobs. Será que dá para entrar? Exímio no xadrez da hipocrisia, a personagem brilhava na mesa da boçalidade e do puritanismo com grande à-vontade. De facto, estávamos diante de um prodigioso invertebrado, o maior da sua geração.

prodigioso invertebrado, Roberto Gamito


Roberto Gamito

12.07.21

Não te esforces por ser meu leitor, deixa-me tal como estou: carne pendurada no gancho. Se vês em mim as sobras do naufrágio, não me lances a bóia, tinge antes o oceano de sangue e os tubarões farão o resto. Mais não mereço que um desfecho a várias bocas. Ando às voltas qual compasso furibundo que tenta legar ao mar uma circunferência. Devo confessar-te que sou um especialista em afogamentos. A minha morte, repetida aqui e ali, no campo ou no papel, não sabe o que é repousar.
Ando de tempestade em tempestade à procura da língua.
Aproveito a minha estadia no fundo para anotar os fragmentos da vida em conchas.

A mão, hoje romba, despiu-se de minúcias. Semente bípede no interior da qual o animal pleno arranha as paredes. O metabolismo acelera à beira do precipício e mina os pilares de uma vida longa. Para seduzir as pequenas coisas não nos podemos pôr de bicos de pés.

A máscara alastrou contaminando o teu repertório de gestos. Um olhar gritante, em maiúsculas, que é como quem diz, caricatura de terra ressequida. Dói-me ser o exagero de ontem. Quando a minha língua fértil era hábil em encurtar distâncias, nada cumpri que o esquecimento não possa obliterar numa primeira passagem. Mesmo no auge da solidão, nem de rosto precário à mostra, com as mãos todas à disposição, sou incapaz de vivificar o teu nome sacro. O caminho é uma legenda prolixa de uma queda que há-de vir. Sei de cor os apeadeiros onde fui ultrapassado pela vida. Ao princípio era o advérbio. O modo, a afinação enfadonha de um verbo impontual. Penso que o eclipse nos habituou mal em virtude da sua duração. É natural que me sinta aborrecido pelas profecias, principalmente aquelas cujo fito é ver-me pelas costas. O deserto é o celeiro das sementes da solidão. Nada devemos esperar de verde. As águas salobras da depressão, o suor a pique da ansiedade. Caí em todos os engodos como um magistral parolo. E por isso não me perdoo.

A escrita é um claustro silencioso apinhado de demónios. Eu preferia um horto onde pudesse plantar corações. No fio da navalha: onde afinal vivemos os melhores anos. E era igualmente aí que mergulhávamos, quais funâmbulos suicidas, sem rede nem ficções de amparo. A solidão fez com que os cachalotes nos invejassem. Mergulhávamos nas nossas vidas — as sobras barbarizadas pelo passado — para virmos à superfície meses depois. Destemidos, aprendemos a ir ao fundo sem esperança nem oxigénio. Habituamo-nos a esses lugares destituídos de deuses, digo, onde a luz não chega. Jurámos sepultar esses ensinamentos na memória até ao último dia, acreditando assim acabar com a própria ideia de suicídio. Fugimos ao Diabo pelos atalhos engendrados pelo Caído. Íamos às bifurcações mais célebres a fim de perceber se ainda éramos Homens. O peso da decisão obrigar-nos-ia a romper os fios do bonecreiro. Caíram que nem patinhos, ria o Homem dos Robertos.
Pobres coisas dispostas por fantoches embriagados. Os fios projectam uma sombra a que chamámos liberdade.

Quantas vezes terei de ouvir a tua distância sem conseguir cantá-la? No dia que estiver frente a frente com a morte já nem sei bem o que fazer.

Suicida e a Queda, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.07.21

Antes de ser oficializada em 487-486 a.C como forma literária, a comédia, que sempre existiu, quer em círculos menos polidos, quer em círculos mais sofisticados, era vista como fenómeno marginal. Vista como menor em relação às outras formas literárias bem estabelecidas, a saber: a tragédia e a epopeia, teve de mostrar desde o início o que valia. 

Não seria estranho se pensássemos que, à época, para as castas privilegiadas, a comédia não passava de um azedume murmurado pelos rebeldes das artes. Actualmente, conforme as ocasiões, a comédia é louvada ou estigmatizada, e podemos verificar do nosso camarote, o qual está sempre a uma boa distância para levar uma pedrada, que esse pensamento, o de a achar marginal, não abandonou a mente colectiva. 

Posto este minúsculo intróito, aproximemos a navalha do osso. 

Partiu em desvantagem em relação à tragédia, obrigando-a a desenvolver um espírito competitivo que, a cada festival, se acentuava. Nessa altura, só havia dois festivais na Grécia, um em Janeiro, mais para os da casa, em que era permitido ser mais duro com a política interna, e outro em Março ou em Abril, aberto a todos os estrangeiros, o maior dos dois, quer em público, quer em prémio. 

Cratino foi o primeiro poeta de vulto no mundo cómico, mestre de Aristófanes, o maior comediógrafo da Antiguidade. 

Desde o princípio que o problema da originalidade na comédia se pôs. Aristófanes escreveu sobre aqueles que fazem comédia: “Que vida desgraçada tens levado, infeliz, sempre à cata de temas novos! Como assim?! E tu, que já lambeste os restos de tudo o que é prato?”

Cratino, antiga glória da comédia, era retratado na velhice como acabado para a arte, um eterno forjador de palermices. Morreu com 97 anos, mas antes disso mostrou ao jovem Aristófanes que não estava acabado com a peça A Garrafa, vencendo o aluno no festival. 

Há uma frase, não sei se do teatro de Aristófanes, que define muito bem o que é a comédia: “Depois da vénia, a ironia”. E como a comédia subverte tudo, não está errado se dissermos: “Depois da ironia, a vénia”. Na sua origem, a comédia era sobretudo paródia. As epopeias de Homero, por exemplo, foram parodiadas inúmeras vezes. Todavia havia uma fome enorme para ser diferente.

O ataque pessoal, cujo pai ninguém sabe o nome, foi burilado e levado aos píncaros por Cratino. O roast é um dos seus filhos. Talvez a sátira também, que pode ser vista como uma comédia venenosa. 

Quem foi o primeiro a fazer comédia? Segundo os registos, foi Magnes. “Tocava lira, batia asas, tingia-se de verde como as rãs.” O pai do humor físico ou, se preferirem, o primeiro Steve Martin. Foi grande no início, quando o público era menos exigente. 

(Contudo, como todas as manifestações nunca estão mortas para sempre, basta tirar uma foto panorâmica da comédia, “exigência do público” pode tornar-se um termo ambíguo, para não dizer errado. A exigência do público levar-nos-ia longe.)

Outra figura importante foi Crates. Segundo Maria de Fatima Sousa e Silva, Crates trouxe à comédia algo que até então lhe fora estranho: moderação, equilíbrio e forma. Será Crates o pai do humor? (Segundo Bergson, o humor é a parte mais refinada da comédia.) 

Aristófanes foi o maior do seu tempo porque absorveu os ensinamentos desses três mestres. Já o preocupava a questão do didactismo na comédia, assim como os ofendidos. Curiosamente, as questões que apoquentam quem faz comédia são sempre as mesmas. 

É importante frisar que Aristófanes atravessou um período em que a comédia florescia e outro em que foi quase banida. 

Há quem afirme que as palavras dos comediantes antigos perecem rápido, não podem almejar a eternidade. Aristófanes legou-nos isto, a respeito dos ofendidos: 

“Mandar piadas a essa cambada que para aí anda, não tem nada de censurável: é antes uma homenagem prestada à gente de bem, para quem saiba ver as coisas como são.”

Afinal há coisas que não mudam.

 

A comédia evolui? Roberto Gamito, Crónica.

 

 


Roberto Gamito

05.07.21

Não pertencia à paróquia da miragem; pôs o revólver na boca e desenvencilhou-se da vida. Recusou-se a contribuir com mais um tijolo para esse oásis fictício. Como paga, os crentes não voltaram a dirigir-lhe a palavra a noite inteira. Ao que pude apurar, o cadáver reagiu ao desprezo como um senhor.

Nos arredores deste episódio multiplicam-se os boatos e as versões. A morte enquanto semente de universos paralelos — olha que há coisas! Daí que aquilo que se sabe seja sobretudo cadáveres esquisitos, frutos e enxertos do diz-que-disse.

Precisaríamos de uma camioneta de caixa aberta apinhada de escribas se quiséssemos levar a cabo um balanço das conquistas intelectuais que tiveram lugar após este acontecimento charneira. Porém, os dias passam e com eles chega a diluição do ensinamento. Consequentemente, há aspectos dessa sensibilidade perdida que hoje, renovada em bagatela, está mais próxima da magia. Eu digo que o mundo é isto, logo, ao pronunciar estas palavras supremas, o mundo não tem remédio senão metamorfosear-se ao meu gosto.

Na província mais próxima, à qual a história chegou já na forma de livro de bolso, alcançamos uma verdade de algibeira. A ideia de que se pode dizer qualquer coisa conclusiva sobre o que quer que seja é claramente absurda — não digam isto em voz alta.

Em certa medida o coração continua indisponível e o cérebro continua parado por falta de peças. No entanto, como não há escapatória, urge trabalhar com o que temos — com as tripas. O resultado está à vista de todos — mesmo dos míopes. Perante estas alternativas, falhar por pouco ou falhar por muito, a nossa opção acaba por ser uma questão de instinto, um pressentimento a raiar a revelação. E, embora seja absurdo que um leigo possa sequer fazer conjecturas sobre temas tão herméticos, a verdade é que os Homens não têm mãos a medir. É raro o dia sem o lançamento do barrote — a avaliação posta em discurso ou em livro — para a pira do esquecimento. Amanhã já ninguém se lembrará de nós.

A morte? Sim, mas. Qualquer pessoa que tenha pelo menos o interesse amadorístico pela vida poderá dizer-vos um punhado de citações, o qual visa agrilhoá-la na gaiola do futuro distante. São as nossas armas — que risíveis, diria o sage, caso existisse.

O amor, quando chega a desoras, a minutos de concluirmos o perfil psicológico do precipício, não nos fornece o atrito necessário para adiar a queda. Ao contrário dos boatos enfatizados pelos finais felizes (bonito oxímoro), o resultado da sua chegada não é de cortar a respiração.
Cortar a respiração é o meu departamento — riposta a morte.

Não desprezo que a carne, ao ser posta em fogo, pode conduzir-nos ao píncaros, monumentalizando o momento. O desenlace confere-nos a certeza: somos um tornado de apetites, uns pobres animais de argila moldados pelas mãos da banalidade. Volta e meia, todavia, avançamos rumo ao outro a cavalo no beijo, mais uma tentativa de tornar o coração acessível ao outro.

Num dos capítulos desta história, o coração era um dramaturgo do abstracto cujo olhar era bastante penetrante, capaz de ver coisas onde elas não existem, capaz de resgatar do episódio perfumes que esbracejam nos poços da província da insensatez. Mais tarde, já sem calor nem pressão, numa temperatura incapaz de gerar cobiça ou medo ou apóstolos, o ser humano procede à geologia desse troço biográfico. Emana desse estudo uma assombração muito particular.

Coração, dramaturgo do abstracto

 


Roberto Gamito

01.07.21

Esquecidos de como utilizar a palavra, adultos pertencentes a um grupo de risco — a franja que usa em demasia o facebook —, pedem socorro socorrendo-se de emojis. Estão autorizados a reflectir sobre o desfecho desta história hoje em aberto.

Numa época em que o pensamento se encontra em perigo, ameaçado do exterior por um fanatismo performático e um herético anti-intelectualismo, e minada, por dentro, no seu próprio santuário, por sequazes pernetas e paladinos do lamiré, não é de esperar que logremos alcançar um fim de que nos orgulhemos mais tarde.
Assim sendo, um grupo de acólitos da sinapse e senhores das ideias feitas — é o que se consegue arranjar por estes dias —, ofereceram-se, nesta hora de perdição que a província dos cumes atravessa, para fundar uma nova escola de pensamento. Um vazio por preencher, alega o professor chamado Vácuo. O costume, riposta o Dr. Detractor.
A notícia do definhamento do pensamento espalhou-se pelo mundo, pelo que acorreram estúpidos de todo o lado, da terra, do mar, não esquecendo o ar. Espécies de homens jamais catalogadas disputavam os despojos da carcaça com grande afã sem dar mostras de hesitação. Íamos entrar numa era de restos.

Principiei a entabular com o meu verdugo conversas inócuas, como quem reencontra um amigo, deixando-o, sem querer, enormemente amedrontado, uma vez que era a primeira vez que uma vítima lhe dirigia a palavra. Nunca lhe passara pela cabeça que é possível criar ligações antes do golpe. Inicialmente, a maneira como fitava o meu pescoço causava-me profundíssima dor, porém, à medida que nos aproximávamos da versão final do nosso laço, comecei a entender o lado dele, trabalho é trabalho e cabe-me a mim, enquanto recém-amigo, não o atrapalhar. De pronto, pus a cabeça no cepo, todavia ele recuou. Surpresa das surpresas, havia-se afeiçoado ao meu parlapié. Em boa verdade, não catapultei a língua até aos cumes da poesia, trabalhei com a prata da casa, frases feitas e perguntas de quem não tem nada para dizer, porém tal surtiu um efeito inesperado. Segundo me contou, nunca havia sentido tamanho entusiasmo. Ao pé da morte quotidiana, que o punha ansioso, a monotonia da tagarelice desenxabida afigurava-se-lhe uma bênção. As coisas que uma pessoa aprende quando a morte se aproxima.

Posteriormente, separei as palavras afiadas das rombas, pondo as últimas em cárceres situados no fundo da alma. E por acaso titubeei? Acaso a minha admiração pela noite diminuiu? Acaso me encaracolei numa pose de submisso? Inesperadamente, voei por cima de uma constelação de fojos que laboriosamente criei, em tempos idos, com o fito de me capturar vivo ou morto.

paladinos da lamiré, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

30.06.21

Foi deplorável ver como as frases mais medrosas se escapuliram à socapa do texto com a chegada dos censores.
Desistiram da pugna, enfiaram-se em pardieiros sem luz nem norte para beberem as suas cervejas inspiradas no sabor do mijo.
Quanto às oportunistas, mais expeditas que as medrosas, partiram, feitas sanguessugas, em busca do seu cu de ouro.

Aquele que admira coisas ficticiamente altas é um estúpido a abater. Eis a razão pela qual me aventurei rumo a mares jamais vindimados, com o mais barrigudo dos respeitos, pondo o oportunista-contorcionista no topo da minha lista, obrigando a vetusta caça grossa a recuar para o papel de figurante.

Enoja-me o hábito de lisonjear e rastejar de todos aqueles que ao pé de um novo holofote de metamorfoseiam em mosquitos. Se, ao resmungarmos numa língua vera a falta de coisa para o coração trincar, aparecesse logo alguém disposto a uma conversa estufada com batatinhas a murro. Em todo o caso, a estatura que o mundo teimava em atribuir-nos, deu-nos muitos e bons loucos.

Éramos sete ou nenhumas pessoas, e acabava aí as semelhanças, a cavaquear sem açaimes com a musa capturada. Como é, filha, vais contribuir para a demanda ou temos de continuar a gritar?

Na ausência de Deus, qualquer candeeiro Lhe faz as vezes. O oportunista apaparica-o com os melhores acepipes que o tempo pode comprar, com vista a uma vida melhor. O lado humano, as células da verticalidade, acotovelam-se no meio das metásteses da servidão até o seu atrofiamento ser completamente irreversível. Se a vida é uma máquina de gerar precipícios, o oportunismo é uma máquina de produzir quadrúpedes sem coração.

Oportunista-contorcionsita, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

30.06.21

Não gostei da atitude da divindade. Encarreguei um amigo mútuo de comunicar a minha decisão ao númen da forma mais amistosa possível, dizendo-lhe que tinham surgido perturbações insanáveis na nossa relação e era impraticável continuarmos amigos. E foi esse momento que fez a luz desabrochar.

Fui assaltado por recordações dos velhos tempos, tempos deliciosos em que as horas passadas a conversar sabiam a pato.
E agora, quaisquer que sejam os intérpretes que venham a contribuir para esta mixórdia de chatices, permitir-me-ão que me gabe que eu, pelo menos, segui a minha vida como se nada fosse. Ênfase no nada.

A propósito: como alguns leitores são mais lentos de miolo, posso também dizer-vos que isto mudou a forma como eu me relaciono com o mundo. Antes de tomar a decisão de pôr termo a esta relação espinhosa, consenti que o azedume tomasse conta de mim. Por esses dias era comum ver-me no campo a dar pontapés nas flores, como que me vingando na obra perfumada do Criador.

Isto é sempre a mesma merda, diz um beduíno ao deserto. O camelo aproveitou a pausa para esvaziar a bexiga. A sua pequena contribuição no sentido de transformar o deserto num oásis.
Tal ofensor é, no que à etiqueta diz respeito, um palhaço extremamente enfático e inútil. O deserto manteve-se imperturbável — está feito um adulto. Em tempos não muito recuados, ter-lhe-ia brindado com uma tempestade de areia capaz de lhe pôr os olhos a pedir perdão.

Prostituta: Metia-a na boca com tanta elegância, que acabei por lhe conquistar o coração. Chorei quando me contaram, sou um romântico intratável.

A única inovação que admitia na escrita era o estilo avalanche, ao qual se entregava com grande entusiasmo. O objectivo: soterrar de supetão o que há pouco se pavoneava.

Embora não seja preciso especificá-la de tão óbvia que é, a moral desta história é que há uma caterva de coisas desagradáveis que, em sociedade, somos obrigados a engolir. A sociedade, deuses inclusos, é um monstro de mil e uma pichas ávidas de ejacular na boca dos acocorados. Saltemos então de picha em picha de molde a assegurar a continuidade da nossa cabeça.
Já que assim é, façamo-lo com um sorriso.

mil e uma pichas da sociedade

 


Roberto Gamito

29.06.21

Mão: Acorda, dorminhoco, o teu trabalho está por confeccionar.
Há dias, estava eu vencido no topo de uma pirâmide de cadáveres liquidados pelas emendas, uma vozinha veio ter comigo e disse-me: “Quando um homem tem este tipo de animais a habitar-lhe a cabeça é um perfeito disparate tentar escapar-lhe”. Não se volta a repetir, comuniquei-lhe.

O meu nome espalhou-se pelos quatro cantos do mundo e hoje toda a gente se chama Palhaço. Tenho (e por esse dom me congratulo com intermitente gratidão) a capacidade de dividir o mar de lérias em dois. Moisés da intrujice guiando as sinapses rumo à Terra Prometida.

O besugo deixara-me embasbacado; nunca me passara pela cabeça que o peixe tomasse a liberdade de me dirigir a palavra.

Não devemos julgar os palhaços de forma gratuita ou apressada.
Há palhaços relativos e indiscutíveis.

Quando falo de indiscutíveis, refiro-me a palhaços que são palhaços em qualquer cenário, nos bastidores e no palco, na companhia de quem quer que seja, online ou offline, de manhã à noite, do berço até à cova, da embriaguez até à sobriedade e vice-versa, calados ou de língua prolixa, de pé ou de cócoras, cândidos ou de quatro, com ou sem maquilhagem. Os relativos, como está bem de ver, são palhaços em determinadas situações da vida e em determinados contextos. Em suma, são palhaços quando lhes convém. Palhaços interesseiros ou palhaços por vocação: eis as duas tribos.

Palhaços relativos e palhaços indiscutíveis, Roberto Gamito

 

 

 


Roberto Gamito

29.06.21

Morte. Essa que tenho nos braços já não é. O mágico recompõe a mulher cortada com o cuspo das palavras mancas e mágicas. Segundo o mágico desencantado, não vale a pena viver pela metade. Não adianta muito abanares a cabeça — a dança não passa pela negação.

Animais bípedes dotados de armadura. Blindados da cabeça aos pés, sentem-se protegidos das flechas do quotidiano. No entanto, a chuva ácida escarnecerá a bom escarnecer de tanta protecção.

O teu nome, ontem redescoberto pelo gemido, é uma escarpa a pique. Uma certa personagem cujo nome não retive tinha uma relação de amor com a montanha até as mãos começarem a fraquejar. Esperar é a mais dura prova de resistência. O subir ao pé do esperar não passa de um entretém de gaiatos.

A comédia agarrou a gravidade pelos cabelos e fornicou-a por trás. Vocês, hóspedes deste século, fãs do mexerico corpulento, estão autorizados a efabular gradamente sobre o episódio.

Aprendi a dançar perto de explosivos, mas suspeito que não me serve de nada. Ao entrar no mar, perdemos o pé. Cabe-me a mim o destino de garatujar o norte num século arruinado onde a luz vê no holofote um irmão. A minha vocação, pensa o semimessias, deve ser anunciada à paisagem toda cabeças em moldes de grande eloquência. Entrementes, ninguém sabe bem o que dizer.

Amo-te, diz ele. Pois bem, retruca a matemática, gostaria saber em que cálculos se baseia para tecer tal afirmação.

A mão tão prematuramente destilada (oh tão jubilosa tarefa) em verso. Administrar ao branco da folha o correctivo da palavra. O risível raspanete do Homem ao retrato de Deus.

Poder-se-ia acrescentar numerosos exemplos para clarificar que, em tempos de escassez, o homem procura Deus em todas as coisas.
Quando um palhaço brilha no palco, há outro que o amaldiçoa nos bastidores.

Comédia fode a gravidade, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

28.06.21

A ferida ingressa cambaleante na casa de espelhos — uma máquina de produzir seres humanos.

Julgo que há uma suspeição generalizada sobre a mão indómita. E se ela, no pico do seu não querer saber, nos rasga o mundo em dois?

Só acredito na ideia que nasce sem destino. A outra, a com agenda, é um nado-morto, que é como quem diz, como o dicionário nos elucida, foi dado à luz sem vida.

A cólera que lhe habitava o subterrâneo da pele não o ia impedir de tentar ser humano. Ia seguir o conselho do vulto: cantar a horas certas ou a desoras.

Silêncio. Puta que pariu esta deixa, ouviu-se. Minha personagem, estamos a passear-nos no palco da vida o melhor que sabemos, pedia-lhe uma certa contenção. Em todo o caso, tudo se enevoará no porvir.

É a poesia que desencalha deuses, que os impede de morrer na praia, cogita o Diabo numa espreguiçadeira enquanto aproveita o pior que o mundo tem para oferecer.

Ponho tudo o que sou no poema, comunicou o poeta à flor surda, lego aos exegetas a labuta de desempacotar o cosmos.

O mundo não tarda será outra coisa — o melhor é adormecer com a caneta na mão. A escrita é tramada, tanto nos pode conduzir aos píncaros, como ao mais inescapável dos abismos. Se tivesse de adivinhar, diria que a queda está em curso. Outro Ícaro? Não me faças rir. Receio que, desta vez, o nome será outro.

Meu amigo demónio, o que sabe você dessas lâminas ébrias jamais pronunciadas? Não quero, como Satã, criar um incidente diplomático com as luzes. Todavia a situação actual é insustentável. Alguém tem de se chegar à frente de molde a enfrentar o infinito.

Não chore, leitor, veja a situação pelo lado positivo: não há ninguém com quem competir. Deus está morto, o carrasco, que pode ter sido Nietzsche, Darwin, Freud ou um algoz mais humilde deixou-nos a braços com o doloroso rescaldo.

Poema isto, poema aquilo. Cale-se, aceite que a vida o transcende, comunica o psicólogo ao poeta. Nada contra, só gostaria de acrescentar uma humilde adenda às palavra de Simone Weil. Não prefiro infernos reais a paraísos postiços. Reais ou fictícios, prefiro sítios frescos.

Metade deste trabalho vão é consentir que o mundo abalroe a escrita estagnada, o outro é sobreviver ao desastre e obrigá-lo a colidir connosco novamente a conta-gotas.
Há várias décadas que os dicionários assinalavam a sinonímia entre homem e analfabeto. Mesmo que quisesse, não vos consigo dizer onde li tal ideia.

No ano passado, ao folhear o Livro que não li, converti-me ao ateísmo. Já não tenho idade nem saúde para estar de joelhos.

O filho da puta, tal como Deus, é imutável. Alcançou o estado de perfeição no seu ofício, o mundo não lhe pode ensinar mais nada — que inspirador!

Pôs a vida mais baixo e apaixonou-se pelo ruído. O deus cansado viu ali a oportunidade para passar a batata quente a outro desgraçado.

A prosa ferida pela emenda do intelectual de pacotilha, o que nos calhou na rifa deste século de papagaios. Chamámos a ambulância, mas o mal estava feito.

O amor é uma sorte corpulenta que veio para ficar.
Nem pensar que me arrancam daqui, eis-me no lugar onde o norte singra. Levei décadas a encontrá-lo, inventei-o à custa de incinerar noites e eclipses.

Numa das divisões do quotidiano, duas pessoas ensaiavam com ganas as deixas insípidas do costume. A desculpa, o Hermes do casamento cuja incumbência é entregar mensagens lacónicas, era um bumerangue ricocheteando nas suas bocas.

É melhor estar atento às ruas, ao aparecimento dos primeiros peixes-voadores — está no tempo deles. Não se pode pedir mais à fantasia nem os dias.

A determinação regressara-lhe ao olhar para provocar tumulto — musas, daimons, deuses, demónios cirandavam à sua volta. O Homem sem máscara, o buraco negro à volta do qual as inspirações de outrora gravitavam antes do seu último colapso.

A dor estava a escapar por onde podia. Era dor do andar ao olhar.

A noite rebelde, a qual resiste à gaiola da arte, impressiona-me, mas não me amedronta. E todavia. Urge enfrentá-la, não há outro caminho. Primeiro tenho de perceber o que a luz me está a tentar dizer. Dar cabo do canastro aos dias também é uma hipótese.

Escrever é assassinar o universo sem dar muita bandeira.
Escrever é matarmo-nos sem dar muita bandeira. E podia continuar por aí fora se vida houvesse para mais.

O mar desculpava-se onda sim, onda não. Porra, sou incapaz de construir um verso com isto. A sua vida era um compêndio de deixas dos seus filmes preferidos, a sua vida, um filme chamado Adiado Cadáver Esquisito.

A mão, sob a influência de uma paixão recente, arma-se em estrangeira. Ignoro que fogo é esse que povoa a folha de hieróglifos façanhudos. O fogo não veio para cantar nem para criar, veio para destruir. Vem fazer as folgas do Deus colérico.

Actualmente, sei quem sou. E antes? Não faço ideia. O silêncio está a anos-luz dessas xaropadas da arte contemporânea.
Isto é sobre o quê? Isto? Que isto? Sem as certezas, o poema é a dúvida passada a limpo. Proeza ao alcance de poucos.

Em que posso ser inútil? O Homem simulou o Paraíso o melhor que pôde. O que sabe você dessas demandas?, questionou uma personagem assomando-se da gaveta dos textos inacabados. Mal ouviu o guia turístico falar sobre a obra, o Homem percebeu o embuste.

Ia cair até dar, o humor não ajuda ninguém — carece de mãos. Ainda havia nele todas as vozes. Essa certeza desoladora deu-lhe para gargalhar. Há dias, contaram-me que a Esperança é a mãe do Quixote.

O que contarão desse homem? O que escreveu? O que iluminou, o que escureceu? Resta-nos cair com as mãos atrás das costas, não vá a sorte intrometer-se na jornada.

 

Em que posso ser inútil, Roberto Gamito

 

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