Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

20.07.21

Parangonas a feder a sangue, escaramuças montadas no sentido de atrair público, famintos e sequiosos de todas as épocas aproximam-se a fim de participar no ritual de desmantelamento. Se tais iscos mutáveis não existissem, seríamos peixes a boiar de tédio escutando a custo sermões insípidos sobre o lado luminoso do Homem. Tanta luz, tanta luz e eu continuo às escuras. Não te apoquentes, se quiseres ler o teu epitáfio, aproxima-te sem medo, disse o peixe-diabo ao peixe-palhaço.

Invejada pelos porcos, a sua vida não saía da lama. Se acreditássemos nos poderes embelezadores da lama, por esta altura estaríamos diante da criatura mais bonita que alguma vez pisou esta espécie de esfera chamada Terra.

Para enorme desgosto, fui incapaz de dizer o meu nome num tom que a pudesse hipnotizar. Escrevia anualmente folhas e folhas das mais indómitas linhas, porém, quando a situação puxava pela língua, revelava ser um desportista gago no campeonato do engate. Um dia quase acertei; infelizmente, escapei por um triz ao elogio.

Esse cutelo com o qual cortas a biografia é o teu orgulho, pois é com o corte que apadrinhas o sangue.

Ritual de Desmantelamento

 

 


Roberto Gamito

19.07.21

O seu nome espalhava-se pela província ontem vedada qual nódoa ingovernável. Os afónicos ganhavam voz à sua passagem como se se tratasse de um deus fluido; os poetas, mão, os predadores, ardis novinhos em folha. As tribos uniram-se em torno do mesmo medo como pequenos corpos celestes influenciados pela gravidade da estrela. Os detractores, que é como quem diz os bárbaros residentes, tentavam arpoar de olhos fechados a nódoa com uma salva de interpretações, hipóteses, teorias e demais mezinhas com vista a diminuí-la, a abrandá-la e quiçá extingui-la, porém o cachalote líquido prosseguia incólume num oceano só seu. O antigo verbo afundava-se na adiposidade das dúvidas ao descortinar inéditas areias movediças no Homem. O passado finalmente encontrara o seu túmulo. Mais um prego no caixão do oásis. Uma nódoa-nome inflamável ao rés de um fogo posto em poema. Num universo paralelo, volvidos milhões de anos, o imortal acabara de realizar o inventário dos grãos de areia do seu deserto. Mas eis que a tempestade se avizinha para baralhar o trabalho e os dias. Onde há vida, há Sísifos, comentou o sábio que comia uma espetada de escaravelhos-bosteiros, também eles miniaturas de Sísifo.

Conservo os meus relógios — e o mais que logro rapinar — numa gigantesca arca frigorífica. A minha maior ambição é congelar o tempo. Abandonei o meu antigo emprego de oficial das carnes (1) e desde então dedico-me à descurada tarefa de domar a arte do zero absoluto. O cume inatingível, afiançam os cientistas.
A imobilidade absoluta e de caminho transformar o calor, o amor, a paixão, a vida num mito. Trocar as voltas ao senhor Borges. Erigir das minhas cinzas um início como nunca houve. Não descanso enquanto não for o coreógrafo — o bobo-mor — da inércia indevassável. O Universo enquanto palco do tudo e demais ficções.

E agora, quaisquer que sejam as intenções dos vindouros que venham a contribuir para esta miscelânea de ideias aparentemente opostas, esta valsa lenta cumprida em bicos de pés entre o fogo e o gelo, permitir-me-ão que gabe a astúcia macaca deste menino; atirem-me todos os apodos da casta da inveja, mas pelo menos não sou um animal extinto. Ao contrário de muitos espécimes que tropeçam uns nos outros à cata de professor de dança, que é como quem diz, ficcionam a verticalidade e carpem os passos adiados e que, em dias de festa aziaga, fazem as vezes do sacristão e dobram os sinos em honra dos eus que, aqui e ali, abortaram, eu, inspirado por Ovídio, pelos druidas-das-mil-formas, pelos xamãs siberianos — faço lá ideia por onde o transe me conduziu —, eu, qual mongol a cavalo na mais indómita ideia, transfigurei-me num mamute bípede. O meu coração apossou-se de mim, desde a língua à mão, alcançando o lugar de maestro das estações. O gelo e o degelo são obra dele, longe de mim ficar com o crédito de tais façanhas.
O gelo enquanto casulo. Enquanto animal renovado saído do gelo, cumpri o cardápio das metamorfoses de Ovídio. Nada do que é bárbaro me é estranho. E agora?

(1) Se bisbilhotarem os anúncios de emprego por estes dias, hão-de cruzar-se com este poético eufemismo para talhante. Por norma, sou avesso a eufemismos e tudo quanto dilua palavrinhas isoladas em longas perífrases, todavia algum dia teria de dar de caras com uma mui ilustre excepção. Belo nome, oficial das carnes.

 

Oficial das Carnes, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

16.07.21

Amor, paixão, arte, pensamento: fraudulentas maravilhas.
Como são ficções, estas palavras são impróprias para consumo. O louco desbobinou o rol de eus que havia encarcerado no miolo e cada um deles procurou sem demoras o pasto do mundo real.
O Narciso invejava o louco e agarrara-se com unhas e sem dentes ao seu magro eu.

Com génios deste quilate, quem poderá adicionar uma legenda?

No capítulo da inércia, sou uma espécie de Usain Bolt, não fico atrás de ninguém. Há dias descobri que havia ganho diversas medalhas de ouro. Para honrar a minha postura de sedentário, não me desloquei à cerimónia. Não pratico a imobilidade pelos prémios, mas pelo amor à causa. Neste mundo veloz, o sedentário é o maior dos revoltados. Num mundo em que tudo é desfigurado graças à velocidade só o sedentário não abdica da sua forma.

Imagina lá tu que eles ficaram com a ideia de que sabíamos da poda?, diz o louco para outro louco ou para o espelho. Com efeito, basta atirar as palavras quentes do momento para nos levarem a sério. E eu é que sou o louco?, diz o espelho.

Malhemos à vontade no louco até este vomitar a multidão de cacos de personalidade, declarava o homem sensato. Um caco por cada homem. O resto é legado ao mundo. Os aspirantes a faquir hão-de agradecer-nos por isso, continuava o homem sensato.
Uma vez temporariamente ocupados na barbárie, o cérebro aproveitou a carnificina para descansar um pouco.
Deus me acuda, exclamava o louco. Trazer Deus à baila é, receio, uma manifestação de pedantismo, gritou o homem sensato. Narciso persistia no sentimento de inveja. Mesmo à beira da morte o louco não conheceu a solidão.

Fraudulentas Maravilhas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.07.21

O…marimbem-se para o nome da personagem…esse ar competentemente feliz, o qual é um misto de intrepidez e desajuste face à época actual, que o caracteriza em dias de caricaturas elogiosas, apressa-se a entrar na sala maleável das convenções, pois é impensável que se misture com a ralé das ideias isoladas, as quais andam por aí saltando de cabeça em cabeça sem jogarem as unhas a nenhuma agenda política. Como sorri a qualquer tufo nómada, ultrapassa o facto de ser escandalosamente estúpido pela via da simpatia maquinal. A simpatia, assim como o pé-de-cabra, abre-nos muitas portas.

Papando dissabores qual mendigo à solta num banquete, descobriu, sem auxílio de mestres ou canhenhos que agissem como faróis, o caminho certo de entre o novelo de possibilidades. Aos poucos, aprendeu a exteriorizar a ganância segundo a moda, oscilando entre ganas de animal que não larga o osso e a pacatez de um velhote que já viu tudo.

Podia fazer, se houvesse miolo para tal, conjecturas de paraísos artificiais em relação aos próximos anos, que se avizinham macabros. Inúmeros fogachos incapazes de deixar descendência. Perdoem-me o desnorte, mas o incêndio aproxima-se.

O faro está aguçado como nunca. Há muito que não era joguete do rastro de perdizes postiças. As aparatosas quedas desse Ícaro armado em Super Mário com múltiplas vidas pertencem ao passado — imperador inderrubável de tudo quanto é valioso. As desajeitadas tentativas de voar são hoje apócrifas.

Quando são enumerados os maiores caídos da História, o seu nome vem forçosamente à baila, é demasiado grande para ser esquecido. Contudo, os biógrafos das suas múltiplas vidas encarregaram-se de pintar esses quadros com cores mais alegres, deslocando a verdade para o estaleiro das obras inacabadas. Seja qual for a margem escolhida para o acampamento, seja ela a verdade ou a mentira, há uma faca afiada à nossa espera.

Como explicar que D., o novo deus que ia fazer as folgas do dinheiro, tivesse desistido de erigir o novo Paraíso que já havia sido apalavrado? Estes novos deuses com fôlego demasiado humano não duram nada, somos obrigados a comprar um novo todas as semanas, sentenciava o sumo pontífice dessa religião onde os deuses nos ouviam por turnos.

Época de caça, peixe fresco, carne trepidante — tudo paleio de predador. Mete-te com alguém do teu tamanho, diz um pequenote para outro pequenote.

Por outro lado, além do cenário onde o negro foi pintado sobre o negro, ainda havia homens sonhadores. A título de exemplo, o ditador daqueles anos tinha o sonho de transformar o homem de carne e osso em bonequinho. Enchia-os de chumbo. Sem sucesso. E todavia persistia. Um exemplo.

Época de Caça, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

14.07.21

Para homens pouco abonados, que é como quem diz, com poucos meios, melhor dizendo, sem tomates, quero dizer, sem um terço do corpo, dado que o número de magia correu mal, é impossível torrar uma nota de conto por cada mulher que se senta à mesa com fins de arejar a marotice. Aqui entra o discernimento ou, se preferirem, o jogo de azar.

Fui eu que criei o meu mundo e dele só tirei benefícios. Acaso já me viram por aí, a altas horas da noite, refiro-me aos escassos dias onde cometi a imprudência de não me embebedar, a fazer alarde de tal? Meus amigos, é possível engendrar um mundinho e permanecer calado. Ninguém é obrigado a pavonear-se.

Ninguém, repito, ninguém, e repito novamente dado que tenho ADN de papagaio, ninguém parte do princípio de que um jantar em sítio neutro é caracterizado por uma demorada cerimónia imaculada; em boa verdade, os suados engulhos, os improvisos em cima do joelho, longe de constituírem um brilharete, e a pompa de apresentar o pénis à mulher numa prosa perfumada. Tiros no escuro à luz da vela?, desculpem a recaída na poesia.

Quando vejo com estes olhos fatigados como toda a fome da sociedade está, entre nós, corrompida pela entediante copiosidade, achegas que engrossam a conversa ao sabor dos ditames da moda, sinto-me estrangeiro. Cabrões, burocratizaram o canibalismo entre pessoas adultas. Em tempos idos, era impensável o manobrador do pénis preludiar a travessa das carnes com um rodízio de verduras.

O pénis tem sido pouco estudado. Quanto mais fome tem, mais engrossa. É um animal inspirador que não passa cartão à lógica.
Ao pé dele, os poetas malditos parecem meninos de coro.

Isso, mais do que todas as nossas magras vitórias, dado que a alface não enche a barriga, atrela-se a uma ideia mais amarga da vida. Andamos aqui a rondar carcaças há muito vandalizadas por necrófagos e a fazer render o fiapo de carne entalado entre os dentes. Foi um repasto excelente e encheu-me a pança: eis o que não podemos dizer por estes dias.

Quando nu, penso com os meus botões tatuados no peito que a vida, se lhe dessem uma oportunidade, podia ser outra coisa.
Não sou crente mas.
O nome de Deus vem à baila de vez em quando, no decorrer da foda — que me atrapalha e desmotiva. Então um gajo labuta a anca como um lunático para depois Outro ficar com os louros? Isso faz-se?
Nem na fornicação há justiça. O pénis não merecia este fado.

Fado do Pénis

 


Roberto Gamito

13.07.21

Vomitava anualmente resmas de sermões bem-intencionados e insípidos. Incapazes de sair da órbita da obviedade, não passavam de um misto de raiva e patetice enformada em mandamento. Basta, disse uma voz saída da mansarda, bastidor ermo deste século. Um dia os pensadores hão-de cair-lhe em cima sem a burocracia das boas maneiras e levar um pontapé no rabo do pensamento. A profecia não tardou a cumprir-se. Não teve outro remédio senão rolar escada abaixo qual cena de acção. Há quem interprete este episódio como cruel, outros como cirurgia estética. Seja como for, a crista baixou consideravelmente. Podia ter feito melhor? Creio que sim,  bastar-lhe-ia o silêncio robusto. Mas não será pedir muito a uma personagem tão desejosa de estrelato?
Não saiu incólume à descida. Hoje vagabundeia na rua sem mestres nem pupilos com uma cabeça de metal. Cabeça dura, cabeça blindada ao pensamento. Enfim, desgraças que nos deixam na mesma, comentava a velha.

Por pouco não dava com a língua nos dentes e arranjava uma forma bárbara de se expressar. O sangue romperia bravamente pelos interstícios da mão posicionada à frente da boca.
Mas sobre este assunto o melhor é ficarmos calados. Não consintamos que a suposição se transforme em ópio.

Esse cutelo é o orgulho, a menina dos olhos da empatia. Eis a legenda que o acompanhava no museu das certezas.

Todos fingem acreditar na vida, perpetuando assim a fraude. Os abutres discutem por estes dias se há diferença de maior entre o Homem vivo e o Homem morto. Dessa discussão sairá, inevitavelmente, um novo mundo.

Pedaços de carne vadiam à mercê do acaso, experimentado rotas de colisão. Um estrangeiro do costume, bastante legível. Uma cascata de partículas elementares. Oh, meus queridos cabrões, grita vadiamente a vizinha do segundo andar, receio bem já ter registado esta experiência — as colisões — demasiadas vezes. A vossa vida há muito foi expressa em fórmula. Nada do que possam levar a cabo, sóbria ou ebriamente, será catalogado de imprevisível.

Ao passar pela mulher que o conduziria sem problema à loucura, espreme-se todo, com o fito de lhe oferecer o sumo da sua existência; porém umas míseras gotas não serão suficientes de molde a abrandar tamanha sede.

Estou-me borrifando para as convenções da sociedade. A partir de hoje sou um candeeiro malabarista. Puto iluminado, és incapaz de manter os malabares no ar!, comenta um amigo. Sou um candeeiro, diz o candeeiro. És uma inspiração, diz o amigo do candeeiro, que é como quem diz, o bêbedo.

— À medida que envelhecem, os homens vêem com mais nitidez os seus deveres.
— Essa é a razão pela qual passas as tardes sentado no banco a inventariar mamas?
— Sim, é a minha vocação: biólogo especializado na observação de tetas selvagens.
— Mas isso não te pode trazer problemas?
— Pode, todavia ninguém pode pôr um travão na ciência.

Logo que os víveres começam a ser distribuídos, o saco de pichas do outro alegra-se. Só passamos fome se formos tortos, alega o assediador. Detalhes muito...bem, não vamos entrar em detalhes. Não há consentimento para tal, diz o meta-assediador. Meta-meta-tragédia, declara o juiz boçal.

Findo o fricandó, a língua liberta providencia-me uma certeza: de uma forma ou de outra, estamos fodidos.

Queiram desculpar-me, todos estes comportamentos de machão fazem com que sejamos populares junto de certos círculos. Penitencio-me prontamente, gostava de pertencer a este novo círculo de snobs. Será que dá para entrar? Exímio no xadrez da hipocrisia, a personagem brilhava na mesa da boçalidade e do puritanismo com grande à-vontade. De facto, estávamos diante de um prodigioso invertebrado, o maior da sua geração.

prodigioso invertebrado, Roberto Gamito


Roberto Gamito

09.07.21

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.

Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.

De Roberto Gamito e suas vozes.

____

túnel de vento Roberto Gamito

Ep 467 - São Judas, Humor e a Pose Consumista, Génio e Medíocre

Apeadeiros da conversa:

.Amestrar paredes.
.As duas Ceias.
.O abismo entre a palavra e a acção.
.Cabana da felicidade.
.David e Golias.
.Sócrates teve a vida facilitada.
.Falar o bem não é sinónimo de praticar o bem.
.São Judas.
.Olhar múltiplo e uma nesga de realidade.
.Humor, a burla, a pose consumista.
.O Génio e o Medíocre.

 

Podem escutar-me o episódio e seguir-me aqui:

 


Roberto Gamito

09.07.21

Corpo em revolução, figura parva ou geométrica. Redondo ou quadrado, carne para uso, descarte ou disparate. De quanta obsolescência serão dignas as minhas frases? Linhas que aos demais não assentam, nem à justa nem à larga, nem em prosa nem tão-pouco em verso. Lá vão elas rumo aos bastidores da tratantada com as tetas bem apertadas de molde a não desarmonizarem a eufonia, as sílabas, acotovelando-se no meio do texto íngreme e a raiar o inútil, as sílabas, o mundo enquanto lugar de caça e fuga, as sílabas.

Poder ser que seja um acto louco, mas ajo de acordo com o pulsar do texto: eis a minha crença mais arreigada. Já de rastos ou a meio da queda, sintonizava a vida com o respirar da literatura. Éramos, cada um à sua maneira, dois animais aflitos a braços com o fim.

Que mal pode haver em querer escrever e carecer de começo de língua inédita? Ao rés da folha, desenteso ao fitar o inferno do mesmo. Outrora, desentendíamo-nos ao primeiro verso, poeta e leitor dois bichos singularizados pelo desnorte. Um poema perfeito é uma paixão recém-chegada. Salvo o calor e suas múltiplas acepções, não entendemos peva. De joelhos, aquiescemos face à língua ígnea e estrangeira.

Choquei alguns acólitos do gelo, alguns paladinos de coração emperrado, alguns cruzadinhos de espada romba. Morte ou vida é-me igual ao litro, grito ao sacristão. Doravante o sino dobrará sem porquê.

Amor. Terei eu pé mesmo se o tema teimar em aprofundar-se ao ser desnovelado na língua em solavancos tépidos? Nas minhas costas, o mundo.

Disparate: emendar o que quer que seja quando nada é certo. Enumerem, caso haja tempo para futilidades, os sábios que se cruzaram convosco até então. O animal amolece, nada duro e durável. Tento entender a trajectória dos projécteis adiados.

A sedutora 4x4, adaptada a qualquer terreno, fez mais uma vítima. Retirei peso ao seu negrume, confesso-me.
Ao ruminar o que terá acontecido longe do radar das minhas pupilas, as hormonas decidiram entrar-me pela prosa adentro, qual rusga, insuflando-me os verbos outrora flácidos.

Amor ou morte? A ganância tomou conta das mãos indecisas. Nem ouro nem poesia. Temi as consequências, o retorno a um início primevo, desta vez de mãos vazias e afónicas.

Imaginava-me de pés e mãos atados, encimado por um carnaval de flechas desejosas de se abaterem sobre mim. Voar é um exercício vão quando o céu principia a dar mostras de querer ruir.

A carne, a eterna suspeita. De um lado os idólatras, do outro, os iconoclastas. Sou um entre a multidão de anónimos. Espero pacientemente a minha vez de arder na pira. Palavras demasiado concludentes. Em tempos idos, fui ensinado a deixar o mundo de fora da língua. Não digas isto, isto e isto. Então falo do quê?, respondia. Ninguém me sabia responder, o gato finalmente comera-a.

O rei dos oportunistas palmilhava a estrada do sucesso com a sua corte de sequazes que, espante-se, massajava-lhe os nobres tintins sem descanso.

Ninguém me ensinou a afogar — tudo o que ignoro aprendi sozinho.
Respirar para tão pouco. Cá estamos, camaradas náufragos, neste mar vindimado pelo medo.

Desisto da minha condição de estátua. Inicio a dança, faço as pazes com o movimento. Não é comum depararmo-nos com uma magia consumada que não aproveite o momento para mamar da teta dos holofotes.

Tardava o confronto com o tempo. Entretanto, ia-se entretendo a lutar contra espantalhos e pardais. Se quiseres ser homem-estátua, pára, se continuares assim, a andar feito parvo, não vais a lado nenhum.

Não temo a morte, tenho um ataúde à sua medida à sua espera em cada esquina do texto. Como afiançam os místicos, não é o Homem que entra no templo, é o templo que entra no Homem.

Terei de me assumir inábil para lidar com o amor. Já o tive nas mãos mas…
Volta para a direita, volta para esquerda, hesitação, simulo a volta para a direita e volto para a esquerda. Um tiquetaque obnóxio, uma tentativa de abrir o cofre da alma e pôr o Homem — o que poderia ter sido se a plenitude fosse alcançável — diante do Tempo vertebrado para avaliação.

Uma vez descalçada a bota que é confeccionar o primeiro verso, o poema anda sozinho, quase sem ajuda. As sílabas que colho da mão suada: frutos em botão.

Constato que o hábito recente deixara o monge inacabado.
Ao contrário do que nos foi ensinado nas redes sociais, é impossível reduzir o Homem a uma característica. Resumir um ser humano a uma palavra é um acto criminoso, sem direito a redenção, ó cruzadinhos da empatia.

O que é afinal o Homem? Animal exemplar, domesticado em dias de festa — sexo! —, de pronto solto no seu habitat penumbroso apinhado de olhos inquisidores.

A luz fraqueja diante das palavras maiores. Os anjos não se pronunciam. Esta manhã, graças ao nervosismo face à situação que me poderia pôr em cheque — e logo eu que nunca tive queda para rei —, aprendi, enquanto remexia as nádegas na cadeira, o samba da sala de espera — dança que, quanto a mim, merecia outro prestígio.

Suspeitem de asas tão franzinas. Estou certo de já ter passado por esta ideia. Por sorte, a cabeça será outra e a frase, resultante da observação, sairá noutros moldes. Não me questionem se tal constitui um ganho. Sim, distraio-me com o que estiver mais à mão.

Fugir ao medo? Com o calor que está? Não sejas estúpido. Aninha-te aqui e vamos lá ver se há material para erigir uma história de amor. Finda a fornicação, posso ocupar-me de outros assuntos. Não houvesse período refractário e o homem nunca teria inventado a burocracia. Sem período refractário não haveria Kafka, pensei eu após a ejaculação.

Não sei formular um pedido de socorro sem parecer uma causa perdida. Não sei pedir ajuda sem que me dêem extrema-unção.

O passado é fértil. Tanto é uma barragem contra fantasmas como se transmuda num viveiro deles.

A desconfiança tomou conta das minhas definições. Tento fintar o cinismo, todavia ele arranja constantemente forma de entrar a pés juntos na frase. Combatê-lo com ironia é engrandecê-lo. As armas para nos defendermos dele ou estão extintas ou ainda não foram inventadas.

As cabeças dos gigantes derrotados. Tê-las à cabeceira, sob a forma de rosário, é, a espaços, reconfortante.
À parte isso, sou, incontestavelmente, farinha do mesmo saco. Porém, ao estar em contacto com os meus semelhantes, fui impelido rumo à singularização. Não me peçam mais explicações, não estão em idade de compreender a minha jornada.

A abstracção de decantar a música cantada ao coração numa noite como nenhuma outra. Prosa atafulhada de inseguranças, perífrases atrás de perífrases, o nada mais copioso possível.

Mas…não vim ao mundo com o fito de moer palavras adultas e diluí-las em frases mansas, de pacote. A língua selvagem descansa. Ao entrar em casa, penduro-a, por fim, não na folha, mas no cabide, como coisa que só faça sentido ser usada na rua.

Peso infinito sobre os ombros. Já disse ao médico uma ou duas vezes. Não há meio do teste de ADN chegar, não me espantava nada que fosse filho de Atlas. Que vida é esta afinal? Carregar o cosmos às costas — façanha ao alcance de tão poucos — e suplicar ajuda às sanguessugas para que me cocem os tomates. O gigante mirra a cada súplica. Dentro de pouco tempo poderá ser derrubado por qualquer um: eis o destino dos grandes.

Tenho os dias pretéritos como reféns na memória. Sinto que levei a cabo um crime imperdoável que não cessa de engrossar.

Na folha, dou as voltas que o mundo não deu. Cada um foi para seu lado; um permanece no tabuleiro, o outro, comido.

Martelei-lhe a carne, conta a mulher A à mulher B, mas nem por isso ficou mais tenro — continuou, aliás, duríssimo. Mistério que intrigava todos os talhantes com que se cruzara.

Poeta: Planeio cada pormenor como quem arquitecta uma catedral.
Escrever ajuda-nos a exercitar a mão, que é por onde a humanidade abre o leque dos mundos possíveis.

O meu marido deixou de me procurar, comentou a mulher à amiga. Cessaram as buscas, fui dada como morta. E agora? O que faço eu à minha vida?

Para muitos, a vida é andar em manada, de mamada em mamada, um tudo ou nada de quatro ou de joelhos.

Este lugar, que assumiríamos meu, será, postumamente, ocupado por um sismo.

Corpo em revolução, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

08.07.21

A vida encarregava-se de lhe dar festinhas ásperas no lombo.
Qual festinhas, qual quê, era bordoada de três em pipa que até os ossos cantavam admiravelmente. Não, amigos, não enveredei pelos arrabaldes do exagero. Segundo o seu biógrafo, houve um osso que lhe saiu do corpo e enveredou pela carreira de tenor. Prova de que todos os autóctones daquele mundo, salvo os homens-estátua, esses têm sempre muito que fazer, cumpriam com zelo os seus deveres pedagógicos. Volta e meia, R., o nome da nossa personagem, cometia a ousadia de sair à rua com um sorriso nos lábios — que ingénuo. Espera aí que eu já te digo, pensava o transeunte. Isso faz-se?, pensava outro. O mundo está a ruir por todos os lados e este bandalho tem coragem de disseminar a sua alegria pelas artérias da cidade deteriorada. Ó meu grande bandalho, rugia a turba recém-formada pelo boca-a-boca, espera aí que eu já te fodo, vais ver o que sucede com indivíduos como tu! Não tens vergonha?!, entoava a turbamulta, a desencaminhar as crianças para o mundo da felicidade. Que lindo espectáculo. Vais levar tantas e tão boas que doravante os talhantes inspirar-se-ão em ti aquando do procedimento de fazer carne picada.

Ao cabo das mais extraordinárias bordoadas da História do Homem, a música, hóspede dos píncaros, foi relegada para segundo lugar no campeonato das artes. Aquela cena de pancadaria passou a ser conhecida como as Mil e Uma Chibatadas no Lombo, historieta que os pais contavam aos catraios quando estes, possuídos pelo espírito do entusiasmo, eram incapazes de dormir. Remédio santo.
O adulto pôde finalmente ser adulto sem interferências. Até dava gosto ser pai.

E, para coroar os efeitos artísticos da rixa épica, surgiram escritores vindos dos quatro cantos do mundo — nessa altura o planeta ainda era a duas dimensões. Por questões financeiras, surgiu uma miríade de alternativas. Havia tantas versões desse espancamento seminal como Homens no mundo.

Em teoria, devíamos ficar achincalhados ao ver o mundo dos negócios a multiplicar em boatos e versões a história original. Contudo, tal comportamento ganancioso originou um estranho efeito. Cada Homem à face da Terra tinha hoje uma história com a qual se identificava perfeitissimamente.
Daquele episódio de rija pancadaria — com fins pedagógicos, defendeu-se a turba mais tarde, para ensinar o bem à antiga, continuava —, nasceu uma prole de zaragatas, festinhas e pugilato verbal posto em texto e em discurso. Metafórica ou literal, ninguém escapava à omnisciente bordoada da vida. Uns tempos depois, R. foi elevado à condição de santo numa cerimónia que, para simplificar, apodaríamos de arraial de porrada. Coloquialmente, fora baptizado de Santo Padroeiro da Bordoada no Lombo. O Homem havia renascido.

Nem mais felizes nem mais tristes do que antes; em todo o caso, o Homem aprendera a conviver com a sua dor. Bispos dessa religião, o Bordoanismo, professavam que o Homem não é uma lebre. Esta, ao ser acossada pelos cães ou pelos tiros dos caçadores, refugia-se no primeiro buraco se lhe depara à frente, qual homem que sai à noite com pénis esfaimado. Acabara-se a era dos medrosos. Um pouco por todo o mundo, à excepção das conas e dos rabos, os buracos ficaram sem hóspedes.

Ao ler esta crónica, o leitor dirá: Você é estúpido com satisfatórias intermitências, as quais usa, imagine-se, para ser inteligente. Ai é, retruco eu. Ó bandalho, espera aí que eu já te conto das boas!

 

Bordoada de três em pipa, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

06.07.21

A frase encurralou-me, obstinada e com os dentes de fora, nas suas ruas apinhadas de vocábulos. E foi esse estar entre a espada e a parede que me fez desabrochar. Mas isso não é nada — exclamarão alguns num tom de arruaceiro. Que os porteiros desta crónica expulsem os indivíduos que possam vir a provocar tal desacato.

O orgasmo enquanto veneno mortal — leva-nos desta para melhor.

Eu, que sou perfeito em todas as vertentes da minha imbecilidade, sou um implacável inimigo da vaidade e odeio profundamente os que, pondo o seu narcisismo por extenso, se auto-elogiam copiosamente. Enfatizo, num tom de indisfarçável satisfação, que sou parvo. Aliás, sou um dos melhores representantes da espécie e tenho, com certeza, todas as aptidões que costumam governar a parvoíce.

E não caiamos na tentação de ceder a esse vulgar preconceito segundo o qual os párocos detractores — os pretensos adversários da parvoíce — são um grupo bem posicionado em matéria de inteligência. Em vez de descobrirmos a careca aos párocos, optamos por choramingar e a tecer louvores apressados para que parem de nos maltratar. Atiramo-nos a eles, denegrindo-os com os elogios mais sumarentos ao alcance de um parvo. Na boca do parvo, o elogio sai marreco.

O parvo confesso e o pároco detractor da parvoíce são irmãos.
Creio que isso já é castigo suficiente; peço-vos, irmãos da parvoíce, que não insistam mais na zaragata — é uma estupidez.

Se nós tivéssemos o mesmo pedigree intelectual que o tipo sensato, a disputa teria morrido ali. No entanto, o parvo é mais curioso que Eva. Suplico a todos os bispos da sensatez que me desculpem, comentou o parvo, mas se parasse agora iria macular a minha natureza. O pároco detractor aquiesceu. Não demorou nada até outra zaragata ocupar o lugar da antiga. Oxalá nunca acabe, pensaram.

Vimos, ao longo da História, vários parvos que, por um motivo ou por outro, se afastaram do caminho sinuoso da estupidez para acolherem com agrado o caminho da rectidão. Felizmente não foi o caso. E, coro ao dizê-lo, tal é uma inspiração.

O caminho sinuoso da parvoíce, Roberto Gamito

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Sigam-me

Partilhem o blog