Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

14.02.22

Quis o destino que eu sobrevivesse até este dia, dia de São Valentim, moderadamente ileso, excepto umas ligeiras tremuras entremeadas com gritinhos abafados pela almofada quando medito no amor e dificuldade em adormecer sem soltar um Nilo de tristeza para os lençóis. A minha hora há-de chegar, digo eu, diante do espelho, de modo a parecer um garoto barbudo e introspectivo com um pijama pejado de porcos de forma a condizer com o meu gabarito intelectual e não um tipo tomado pela insânia; só espero é que a hora não coincida com a da minha morte. Não seria de estranhar. Sou pouco organizado e não me espantaria que o destino me tivesse marcado o amor para a hora da morte. De facto, seria o episódio indubitavelmente mais marcante da minha vida, e o último, como se tivesse deixado o melhor para o fim. A minha inteligência e beleza exótica — leia-se desespero pausadamente — serão recompensadas. Deus não dorme; todavia, em virtude da idade, é incapaz de escutar as preces dos humanos, muito menos as minhas, que sou, segundo as palavras de Jesus, esse privilegiado, o único homem que não é filho de Deus. E como não dorme ainda piora a situação; é um mouco irritadiço. O problema dos milagres está despachado: não posso contar com eles.

Não é uma tarefa fácil, com a vontade de viver a escassear, porém como alguém tem de prosseguir com a minha vida e, considerando as ofertas no mercado, entendo que sai mais barato se eu tomar conta deste negócio tão pouco apetecível. Não faço a mínima ideia do que quero dizer com isto. Se continuo vivo, se não é uma vitória estrondosa, é pelo menos uma vitória moral. Que, traduzido na moeda corrente, é um valente nada.

A verdade é que, durante a minha vida, levei a cabo muitas experiências no domínio do fracasso amoroso. O amor, segundo a minha ideia, é dotado do poder de enviar toda a nossa vida para uma nota de rodapé, dando-nos a possibilidade mágica de rabiscar de novo o livro da nossa biografia. Por azar, não tenho qualquer génio quer para a escrita quer para o desenho. É só gatafunhos. Não me chateio; ninguém percebe muito bem o que é o amor. Aliás, este procedimento, o rabisco, é tão-só a minha forma de exprimir a minha incapacidade de o compreender.

Imagino-me a esfarelar orégãos para uma salada de tomate, um hábito que ganhei quando saio à noite, enquanto bebo um copito (saliento que o corrector ortográfico trocou-me, vezes sem conta, a palavra ‘copito’ por ‘coito’), não obstante ser considerado um hábito socialmente condenável, sou bastas vezes interpelado por um olhar que oscila entre o meigo e o esfomeado e, em resposta, confortavelmente metido numa farpela de rubor, a qual preludia a indumentária do suor, treinado para salivar diante da febra, como uma nova raça de cão de Pavlov, naquele habitat de silêncio tépido onde homem e mulher praticam ping-pong com os olhares, eis que ela diz: “A forma como tu esfarelas os orégãos enriqueceu-me incomensuravelmente a vida.” A forma de seduzir, respondo eu, confiante do meu acto exuberantemente erótico, mais eficaz que conheço, minha querida.

Descontraímo-nos com xaropadas, frases sem nexo, risos que afloravam a qualquer momento, esfrangalhando-me as piadas, a coisa que eu mais detesto na vida, logo a seguir à fome no mundo. Fiz-lhe ver que era um homem diferente, um papalvo de alto coturno, padecia de um comportamento de idiota, isso era indiscutível, porém invulgar e ela admitiu que nunca vira nada assim. No meu nervosismo, sussurrei-lhe esta salada de tomate é para ti.

Nunca ninguém me disse uma frase tão doce, retrucou, encantada. Os minutos seguintes, como é fácil de ver, abarcaram diversos assuntos, dos mais simples ou mais exigentes, desde que o leitor esteja disposto a prescindir da lógica. Penso, desde essa altura, que falei demasiado. Da salada de tomate até à amizade vão dois grãos de sal. E eu distraí-me com o q.b. Tornamo-nos amigos e eu tive de adiar, de novo, o amor. De resto, ela confessou-me que nunca me iria esquecer, pois nunca havia comido uma salada de tomate às 3 da manhã.

Dia dos Namorados

 

 


Roberto Gamito

11.02.22

O longo somatório de zeros que é a vida deprime o animal ocasionalmente vertical. O que nos sobra é o ofício de poeta rezingão, em última instância, fingir intensidade numa casa mortuária. À margem dos episódios outrora marcantes, desenhamos uma aldeia de bonecos e rabiscos, eis o nosso acrescento ao guião do século.

O espanto é quando o mundo nos mostra o forro do casaco pejado de relógios e nos damos conta do aumento de possibilidades. Estar espantado é abrir as portas da perceção ao ignoto, fornecer-lhe as condições necessárias para que ele espevite os neurónios mais dorminhocos. O Homem do século XXI? Deitado será mais útil às gerações seguintes.

Separar o trigo do joio tornou-se um ofício de poucos. O pensamento ou o seu sósia é administrado como quem dá navalhadas à papo-seco na pança mais à mão. O inteligente é um estúpido em formação. Ao imprevisto que te atinge e rasga o plano poderás exclamar: mas eu tinha o papel! Tinha outra ideia para o futuro, mas o mundo não passou cartão.

Sem separar o genial do medíocre, a esquerda da direita, o alto do baixo, o gigante do anão, o morto do vivo, a cana rachada do cantor, o manjerico de Dante estamos a passar um atestado de loucura à humanidade. Não reconhecer as diferenças é um dos primeiros sintomas de que algo de muito errado se passa na mente colectiva.

O Homem está louco quando damos conta que há nele distúrbios na medição do mundo. Eis-nos no epicentro da batalha entre Humor e Narciso. O Narciso crê que o seu mundo é do tamanho do universo, ao passo que o humor põe a sua cabeça no cepo e faz pouco da procissão de liliputianos. A arte — o humor à cabeça como agrimensor das províncias de Narciso — abate-se sobre os ossos da humanidade de supetão. E assim se perde meio metro num estalar de dedos. Ora, num território de gigantes postiços a arte é interdita. O soco no estômago como que nos obriga a curva-nos: perdemos estatura. Levar com o mundo no estômago torna-nos menos fotogénicos — e ninguém merece passar por tamanha aflição.

No feed de Instagram, os retratos sangram pelas feridas do ego e interferem assim nas declarações sensivelmente pacifistas dos evangelistas da empatia. Começo a achar que a mão é a maior ficção de todos os tempos. O Homem não faz nada do que diz, não porque é ocupado, mas porque carece de membros superiores.

Ele e ela são dois. Contabilisticamente falando, é uma frase inatacável. Mas sei de casos, comentará o negacionista das somas, em que é zero. É só uma questão de tempo: a relação não produz um resultado estável. Perto do limiar da tristeza, somamos restos de um com os restos de outro. Cada resultado é um diagnóstico.

Pára de chorar, diz o morto, não compreendes o meu sofrimento. Não mereces ser a minha carpideira. Ninguém é imune à quantidade, gritou o eremita. Como afiançam alguns filósofos contemporâneos, a verdade, o pensamento já não pertencem a este século. O pensamento não é espectacular, a verdade, essa, safa-se in extremis. Não fosse o espectáculo da morte do outro e já nos havíamos matado a todos.

Antes de o universo ser universo — vasto e sem sentido como é —, talvez fosse apenas um ponto. Imagino o início — o ponto — povoado com tudo o que há. O universo absurdamente contorcionista: Deus em cima de um elefante que por sua vez estava em cima de uma tartaruga, todos os animais encavalitados uns nos outros, nenhum espaço por ocupar, a língua, uma mixórdia de vocábulos, música, zumbidos, grunhidos, rugidos, ondas que ao rebentar silenciavam cigarras, cigarras a competir com erupções, sismos com corações. O cérebro do Homem é herdeiro desse ponto. Patrono do mundo onde Deus se acoita no centro da rosa em redor da qual orbitam planetas e dragões.

Nas vésperas do fim, estou dividido entre o nada e a vida.
A verdade final não nos engrandece, só nos dinamita. A vida é uma trajectória de rugas: o início e o fim são assombrosamente distintos. Embarcar na senda pela juventude eterna é cortarmos relações como o mundo. À medida que envelhecemos, a ficção da verticalidade torna-se um fardo e tornamo-nos corcundas.

A nossa é sem dúvida uma época estranha, confusa e sem grandes inícios. Neste panorama pouco animador, excepção feita aos vampiros e demais oportunistas da catástrofe, talvez o pior seja a constatação da profecia de Cioran concretizada — para ele uma verdade absoluta — de que a humanidade não passa de um mal-entendido; de que as pessoas, salvo raríssimas excepções, se encontram espectacularmente desinformadas em plena era da informação, uma vez que só lemos, ouvimos e vemos parangonas que enobreçam o nosso reflexo. Na verdade, mentalmente falidos e derrotados, entrincheirados na comodidade de um refrão infantil segundo o qual a vida é isto, a política é isto, o amor é isto, entre outras bacoradas sincronizadas e fluídas que povoam o ar qual bando de estorninhos estamos desgraçadamente sós.

A estupidez, a qual nunca terminou nem abrandou, é a língua oficial do século. Não é que os inteligentes alguma vez tenham sido demasiado de fiar. O que difere entre o estúpido e o inteligente é o arsenal de manhas e patranhas. O curioso é que, apesar de todas as variantes da estupidez, com ou sem miolo ginasticado, os homens estão empenhados a saturar os seus diálogos — corrijo, monólogos — com termos ingleses, citações da moda, pronunciadas ou escritas, enxertadas com talhadas biográficas, num estilo em que a razão fica irreconhecível, de tão desfigurada que fica com os pontapés, quer da gramática, quer da agenda política. O provincianismo, tão epicamente sovado por Eça de Queiroz, atingiu o zingamocho: povoamos os nossos discursos de termos estrangeiros, não vá o outro chamar-nos inútil ou ignorante. Bem analisada, a frase é incapaz de se pôr de pé: não é por lhe adicionar miríades de próteses inglesas que a ideia é capaz de caminhar rumo às cabeças ocas.
Extintos os poetas, a língua dá à luz uma multidão de cantos nados-mortos.

Eis-nos no seio de uma largada de vocábulos, à grande e à francesa, ou melhor, à grande e à inglesa como se este século não passasse de uma monumental peça do último dadaísta. Dadas as nossas limitações para perceber o que quer que seja, ficamos com os cabelos em pé — felizmente, a calvície assentou arraiais na minha generosa cabeça e já careço de meios para me irritar como em tempos idos — só de imaginar as aulas leccionadas por esses analfabetos grandiloquentes. Inspirado na prática dos nossos pares, repetimo-la nos nossos moldes e damos largas aos queixumes: a internet, essa fábrica de produzir papalvos, essa guilda de bárbaros assustadiços, essa metrópole de parolos e por aí vai. São mil reis a um osso e o osso nem sequer existe.

Mil Reis a um Osso

 


Roberto Gamito

10.02.22

Se dermos uma vista de olhos pelas publicações deixadas ao abandono nas redes sociais, as quais julgámos pepitas e não passaram de nacos de prosa que não suscitaram interesse nem no carnívoro menos criterioso, vemos uma esmagadora maioria de insultos, frequentemente disparatados, tipo erratas rezingonas cujo fito é restituir a verdade — imagine-se — à piada. Nem sequer há margem para o benefício da dúvida. Afortunadamente, vivemos na Idade de Ouro do Eclipse da razão, é impossível enganarmo-nos: somos acólitos da verdade, da empatia tonitruante, da pessoa e da vida humana e, fintando a lógica, chacinaremos qualquer papalvo que se atravesse no nosso caminho com uma borrasca de redundâncias, frases sem nexo, em suma, seremos animais dotados de uma cólera desafinada, isto é, desajustada tendo em conta o cenário. Faltará pouco para que uma piada seja o motivo pelo qual se inicia uma guerra. Quem riu são os maus, os sisudos os bons. Será apelidada pelos historiadores do futuro como a Guerra do Respeitinho.

Volta e meia dá a impressão de que a única coisa que o homem contemporâneo faz apaixonadamente é queixar-se. Remodelou o mundo, esvaziou-o de oportunidades e de deuses, dinamitou os cumes e extingui as vertigens, chacinou os algozes e tomou o seu lugar e hoje leva a cabo uns biscates e metamorfoseou o globo numa grande sala de espera onde a tensão, burocracia e a maluquice estão entrosadas maravilhosamente.
Admirar o outro? Se for do meu quadrante é impensável. Melhor: ninguém é merecedor de aplausos. Ainda melhor: façam o favor de deixar de respirar, o oxigénio é escasso e é uma crise humanitária vê-lo desperdiçado em humoristas.

Como nos afiançam os livros, a maior desgraça que pode acontecer à Humanidade é alguém sair-se com uma piada. O rei pode esboçar um sorriso e é por aí que o Diabo entra para escavacar uma Era Opulenta. Dizer o bem quando algo está mal ou vice-versa é impensável para quem é primo dos ciclopes, os descendentes marrecos da visão única — os literalistas enfurecidos. Que fresca figura fazem aqueles que, face a uma piada, não fazem nada senão rir. Patéticos — ignoram como obter lucro do humor.

O problema deste filme é que não puxa por mim, não me revejo na identificação, embuste comparável aos maiores da Igreja, e torço o nariz ao Evangelho da Empatia. A arte não é um reflexo. Não me mates, ó grande Narciso, mas a escrita, tal como qualquer arte, é o ofício de turvar as águas. A ambição de fazer das águas calmas — Diógenes, o Cínico talvez dissesse estagnadas — uma espécie de estante de egos é uma forma caquética de fugir à morte.

E outra coisa: o filme não é sobre ti, a morte do artista não tem que ver contigo. Façam o favor de não me relatar o que se passa — grande teatro, sublinhe-se — no vosso coração aquando da morte de um escritor há horas ignorado, que já me chegam as minhas tripas com as suas traquinices a tentar impingir-me gato por lebre no capítulo do amor.

A pose consumista, isto é, a de catraio fanfarrão está presente em todas as esferas. Veja-se o exemplo de Ricardo Araújo Pereira e seus detractores. A piada dele, tal como a de qualquer humorista, pode oscilar entre o medíocre e o genial, porém o problema é outro. A questão é partir do princípio de que quem se atreveu a verbalizar qualquer coisa em tom humorístico pretende vigarizar-nos, afastar-nos da suposta verdade e vender-nos gato por lebre. De chofre, aparecem cachos de árbitros de narizes de empinados com o seu apito, prontos a assinalar as supostas ilegalidades, leia-se piadas.

Eis-nos numa arena de gladiadores singular. A piada presta-se a isso, o habitat ideal para disparatarmos, coordenadas onde pomos a nossa cólera em obra, dado que tanto o indignado como o humorista são da família dos caguinchas. Então, como se o wrestling tivesse tido um filho com o Woody Allen, simulam-se cabeçadas e pontapés e andamos às voltas sem ninguém ir verdadeiramente ao tapete. Uma luta interminável destituída de KO. Ninguém vai ao tapete com um pedido de desculpas. Eis outra forma de luta, enquanto os fanáticos do linchamento simulam pedradas, a vítima teórica simula um carrossel de desculpas. É um ensaio vertiginoso de desculpas, dado que nenhum serve verdadeiramente, nenhuma tentativa alcança a perfeição ambicionada pelo carrasco. Recomendo: espectáculo único para quem está de fora.

Essa atitude contagia um bom número de aspirantes a humoristas, espectadores, e qualquer animal com bigode, os quais, por princípio, se desculpam face a qualquer manifestação de espírito fanfarrão. Desculpa, argumento1; desculpa, argumento2; desculpa, argumento 3; assim até ao infinito. Descendentes de Walt Whitman e Nuno Markl, pais da anáfora medrosa.

Mas regressemos ao RAP para abanarmos a mão ao som desse tema que é a imbecilidade. A este, a turba fanática escrutina-o a cada piada como se fosse um principiante suspeito (manifestações desta empáfia há em qualquer esquina: analfabetos a criticar Melville, gajos que nunca pousaram os olhos num livro a opinar sobre Wallace Stevens, cegos a comentar as cores de Cézanne, e surdos a corrigir Beethoven — esta última não sem razão), os que aprenderam a lucrar com os linchamentos dos humoristas adormecem com o apito nos beiços para soprá-lo ao primeiro falhanço, desejando-o até. O clima é tão tenso que o humorista semeia vírgulas à Teixeira de Pascoaes entre o sujeito e o predicado. A ilegalidade não necessita de existir, basta ser imaginada. Figura deslumbrante esta: o rezingão que não cessa de fantasiar. É preciso ver, filhos de Polifemo, contado ninguém acredita.

Matou-se a piada e com sorte o humorista. Graças a deus temos o fanático das comédias para evitar a cratera da laracha, esse grande asteróide cuspido pelo bobo. Mais uma vez evitou uma catástrofe com o seu ressaibo.

Para dissimular a sua estupidez, plagiou o comportamento de um adepto da bola, a saber: basta apontar defeitos à desgarrada, o fora de jogo pode ser e não ser ao mesmo tempo, a lógica banida, a tão propalada empatia não entra, e remata: “aqui não há quem escreva uma piada de jeito”. Ao manifestar-se constantemente insatisfeito, simula um conhecimento que não possui, e os graus académicos surgem à tona da folha branca — eis a beleza do nosso século. Ao fanático do humor, o qual só se ri das piadas dos portugueses se forem traduzidas posteriormente em inglês ou quando é atraiçoado pela memória e as escreve como se fossem suas — ainda há coisas bonitas neste mundo, tanto se lhe dá se está a ser justo ou injusto, se o humorista levou décadas a obrar milagres, a sacar coelhos da cartola onde os demais foram incapazes. É preciso que as cabeças rolem. E se possível, mais que uma vez. Como é magnífica a eterna sede de sangue!

Fanático e a Comédia

 


Roberto Gamito

28.01.22

Quem nasceu primeiro: o voto ou o influencer? Se vadiarmos pelas redes sociais por estes dias dá a ideia que o influencer inventou a democracia num guardanapo, cinco minutos antes de mais uma sessão fotográfica. Nada o fazia prever: promotores de cremes, divulgadores de banalidades requentadas, papagaios versados em língua inglesa, empresários de filhos bochechudos, capazes de ir até aos confins do útero para monetizar o crescimento do pintelhito com vida, brindam o circo dos papalvos, não com imagens de locais paradisíacos, as tais migalhas para o bico do pobretanas, mas com a democracia — essa coisa pouco fotogénica, pelo menos segundo os padrões do World Press Photo. Ora, eu, enquanto privilegiado não praticante, não tenho voto na matéria, nem voto na luz. Seja como for, não é disparatado comunicar-vos que o influencer pegou no ceptro da condescendência e transformou-se numa espécie de missionário em terras de selvagens. Não sabem o que é o amor? Eu catequizo. Não sabem onde fica a Tailândia? Eu mostro. Ignoram que farpela escolher para um date? Eu auxilio. Não sabem distinguir o bem do mal? Eu doutrino. Não sabem ser verdadeiros e genuínos? Eu ensino-vos, deixem-me só acertar no tom de voz.

Se, na hierarquia dos estúpidos, o influencer ocupa o primeiro lugar, o tal cume reservado os antigos sábios, os quais foram escorraçados pelo Altíssimo por não terem pago as despesas do Nirvana, o sensato é uma figura que não destoa na prateleira dos mitos. Haverá algo mais humilhante para o Homem do que sentir que a voz que vem de cima é a de um boneco cujo cu é disputado por uma multidão de ventríloquos? Trata-se de um cu cantante regateado pelas marcas.

É necessário possuir um ego do tamanho do cosmos de molde a pensar da seguinte forma: caso eu não diga nada, estes labregos com a quarta classe mal tirada até se esquecem de ir votar. Eis a constelação de umbigos enobrecidos pelos números das redes sociais a cuspir pepitas das suas torres de marfim. Na cabeça deles, mudam o mundo; fora do seu mundo, o mundo permanece o mesmo.

Prosseguindo com tiques de vedeta nessa senda do Outro, disfarçamos bem a nossa loucura. Pensam, em nome de um mundo melhor, esmagar o eu, quando, na verdade, não passa de uma sofisticada manobra de diversão. Que grandes sonhos, comparados com os dos influencers, não se revelariam insignificantes. Alexandre, o Grande não é ninguém ao pé de um influencer com um milhão de seguidores, o qual, numa legenda de uma foto de rabo engalanado pelos filtros, educa os seus adeptos analfabetos.
A vontade de doutrinar a toda a hora, levada até aos meandros das sílabas, enoja-me. Desmascara o falso paladino da humanidade. Com efeito, não acredita no Homem, na melhor das hipóteses, vê nele um semi-boneco de plasticina que, graças às suas mãos divinas, tornar-se-á uma criatura apresentável.

Rejeito a sedução de um Eu cantante. A megalomania dos novos conventos apinhados de puritanos cheios de manhas, quando nos bastidores funciona um bordel, dá-me vontade de dinamitar o mundo. Nas palavras de Cioran, o niilista entre os niilistas, quem não admite o seu nada é um doente mental. Creio que estamos diante de um diagnóstico acertado. Malucos a doutrinar malucos: o universo cresce para albergar tanta loucura.

A opinião pública, isto é, os curadores de deuses, deixa-se ludibriar pelo espectáculo das luzes e pelo corrupio de sofrimentos de pacotilha. Mártires por geração espontânea, agendam dores para receberem a bênção do algoritmo. Obrigado, caros influencers, meus excelsos lembretes com pernas.

marta-rastovac-2ADlx1RIT7o-unsplash.jpg

 


Roberto Gamito

22.01.22

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.

Tertúlia de Mentirosos com Rui Cruz

Hupo Pinto. Realizador.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
Censura diluída?, segurança e pedantismo, pedantismo lisboeta, piada e o twitter, o mundo flutuante da arte, o poder do estatuto, Mozart e o comentário no YouTube, a miopia do génio, o circo do ego, o rescaldo do roast, produtores de conteúdo precários, o mundo da Twitch, Humor, Homem e narcisismo, comédia sem surpresa, Dave Chappelle, comediantes de textos e comediantes de aparato, Zelig e Woody Allen, Riso de Mozart, artista infeliz, escrever crónicas, o mundo dos podcasts, Adam Sandler 100% FRESH, solo Como Todos Fazem, o próximo solo, sociedade da estatística.

(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.


Roberto Gamito

16.01.22

Ó néscio, rabujam vocês, ó tu cuja mão afónica se entrega ao bailarico da descrição e pintas o mundo de cores cadavéricas, tu enganas e reduzes os homens a pilhas de bagatelas. Acaso não há por aí um magote de figuras inspiradoras que te ensinem a verticalidade heróica? À luz dos critérios actuais, vocês nem sequer existem, dado que não falam coloquialmente. Frases como “a tua nudez irá iluminar-me, mesmo havendo a possibilidade de ser pronunciada por um escroto mais inspirado — a testosterona enquanto musa ignorada —, os pais e os fiscais da ficção proíbem-nos tais galanteios barrocos. Em suma, citando um velhote cá do sítio, o último sábio residente que passa recibos, sendo que o resto da turma do cume são sábios precários obrigados a vergar a mola e aconselhados a ver na sabedoria um biscate sem fins lucrativos — demasiada batata, pouca carne. Está aqui um caldinho!

Encheram-nos os bolsos de promessas e musicaram-nos o esqueleto com pancadinhas nas costas, seguimos as pessoas erradas até aos sítios certos. A mãe levava-lhe um tupperware de bons conselhos semana sim, semana não e mesmo assim ingressou na má vida. Que é como quem diz, atrás da rata de Hamelin, uma fila pirilau de flautistas reformados. Concordo, esta crónica dá guarida ao disparate. Agora caladinhos que nem ratos que o meu coração vai cantar o fado.

Que lides mais estranhas são estas em nossa casa?, pergunta o cérebro ao coração apaixonado. O homem, o qual fazia gato-sapato do cérebro para não tropeçar no primeiro vigarista que lhe aparecesse à frente, dirigiu-se cavalheirescamente à mulher: “Princesa de garra afiada, posso adicionar uma quantidade generosa de chouriço à sua vida?” Ao que a pretensa princesa ripostou, sou vegetariana. É o que eu digo, a mulher actual é imune ao romantismo. O século XXI é um terreno estéril no tocante à plantação de amor e de nabos. Como homem feio e solitário, isto é, agricultor caseiro, que passa a vida a enterrar o nabo em ficções, exijo um subsídio hábil em cobrir as despesas da minha fome.

E depois? Enquanto poeta-sapateiro armado em menino de ginásio tenho cabedal para um único poema. Eis as sobras em discurso.
Ao darem-se conta do engodo, os átomos da fila metamorfosearam-se num ápice sem auxílio de fadas. Do balcão para a pista de dança, o orçamento da imaginação não dá para mais.
Eis a magia da zaragata: indivíduos aparentemente civilizados transformados em animais graças ao álcool. A magia existe é preciso é saber procurá-la. Finda a rixa, distribuídos os papo-secos pelos carenciados, o velho sábio legenda o quadro: demasiada batata, pouca carne.

demasiada batata, pouca carne

 


Roberto Gamito

14.01.22

Desafortunadamente, o mundo das letras e por arrasto o das carnes estão a ficar doentiamente chatos. De há uns tempos para cá, é raro ver uma ratita alegre e um piçalho folgazão a espreguiçarem-se sem rédeas numas linhas de texto sacrílegas.
Pôr Jesus por extenso, que é como quem diz, ressuscitar Lázaros de baixo ventre com meia dúzia de palavras: eis um labor digno a que poucos se devotam. Ai meu Deus, o que pensarão de nós. Resultado: uma população de colhões e clítoris ou clitóris agrilhoada, obrigada a discursar numa língua sem pinga de tesão. Esta mão e a sua entourage pouco dada à pureza — refiro-me aos neurónios, não sejam porcalhões — dar-nos-á um nobre contributo: uma palmada nas nádegas do mundo com vista a espicaçá-lo e a catapultá-lo para as paradisíacas margens do prazer.

Seguem-se alguns fragmentos, os quais oscilam entre o relato e a ficção mais disparatada.

Mesmo nas barbas do abade, a freira entregava-se a um esfrega-esfrega sem parança. Segundo o ornitólogo, a pássara estava na muda da pena. Deus é amor, comentou a freira ao dar-se por satisfeita.

Num aposento menos religioso, o homem de picha brincalhona malhava com amor a cona húmida. Tudo isto acompanhado de gritos e deixas: “Fode-me, caralho, mais depressa! Fodes-me como se eu fosse de porcelana. Não metes o suficiente, gemia a fêmea. É o que tenho, ripostava o macho, onde é que vou arranjar mais caralho a umas horas destas — está tudo fechado ao Domingo.”
Em todo o caso, introduziu-lha na racha cantante, mergulhou-a até ao fundo, como se procurasse uma civilização perdida, e ela, não sei se séria, se a gracejar: “como é longa e traquinas”.
E vieram-se por inteiro.

O que importa é fazer amor
ora nas torres de marfim
encontrar entretém numa punhetita
ora num chavascal animado
por uma turba de conas famintas.

Como adorador de fanesga,
introduz a gaita
e seja nossa a tua música.

Será sempre uma distracção frutífera apresentar ao outro o que se acoita sob a farpela. Não há necessidade de votar a cona ao anonimato. Se há fome de celebridade, é encorajá-la a perseguir esse sonho.

Entretanto, num quarto numa dessas vilas de nome orelhudo, ouvia-se: “Lambe o néctar testicular, minha linda, pois amanhã apetecer-te-á esporra e eu posso já cá não estar". A mulher comparava a picha do parceiro com as que havia guardado na arca da memória e suspirou: ”Esta cona já viu melhores espécimes, enfim, é trabalhar com o que temos”. E todavia ela contorce-se, como diria Galileu se tivesse trocado a Física pelo mundo da pornografia. A porta de casa abre-se e o tesão sublima-se, passa de sólido a gasoso. O calmeirão foge com passinhos de bailarina com a picha tesa na mão, ao passo que a cona desolada cantará elegias que atravessarão os séculos. Foda interrompida é tragédia merecedora de todas as nossas lágrimas. Venham-se até se converterem em animais, até se esquecerem que sabem falar, não consintam menos que isso.

As fodas abortadas pela ingenuidade ou pela falta de traquejo na arte do engate amanhã roer-te-ão os tomates, meu caro homenzinho inexperiente. Propagandeia o vergalho, o teu moço de recados solícito, sem descanso, faz com que a agenda cresça em horas para acomodar fodas de última hora.

Enquanto as carpideiras choravam o enterro do caralho, o menino da cidade moveu-se para o campo à procura de cona biológica.
O que só prova que a malta nova liga muito à alimentação.

Quando ela ficou tesa como um cadáver, a princesa de anca travessa sovou o mangalho com a fenda palpitante. Malhou com tal fervor que fez lembrar um ferreiro da Idade Média. Só química nesta relação! De seguida, mamou esforçadamente o mangalho para deleite do homem. Por todo o lado espirravam moles de descendentes, por assim dizer, jaziam esporrados pelos quatro cantos do quarto vários projectos de futuras civilizações.

A queda do êxtase ocasionou alguns pensamentos pouco dignos, a saber: o almoço de amanhã, ter de levar o carro à revisão entre outras bagatelas. O homem tentava animar o soldado esforçado recorrendo à memória, bisbilhotando a secção das conas de colecção, na caixa e por abrir, de molde a não desvalorizar.

Após extenuantes negociações, a cona apossou-se do fundibulário murcho. E ensacou, tipo esquilo, caralho e colhões na bochecha. Não me perguntem se tal é possível, estou a vender o peixe ao mesmo preço que mo venderam.

O nível da esporra continuava a subir, os noticiários não passavam outra coisa. Ai o aquecimento global a chegar ao reino das cuecas húmidas. As terras foram conquistadas a pouco e pouco por cursos de sémen. As castores abandonaram os rios convencionais e mudaram-se para o rio argênteo — e os mais galhofeiros foram a correr construir um dique.

Reunidas na cave de uma cona experiente, as conas aprendizes formaram a guilda do pipi. Ao longo de séculos, este grupo secreto tentou engendrar uma prática que muitos julgaram impossível. Grosso modo, um pontapé nos tomates que, além de provocar a proverbial dor, obrigava o homem a esporrar-se. Se bem feito, isto é, se todos os colhões do mundo fossem brindados ao mesmo tempo com esse pontapé, o planeta seria inundado de leite de macho. Tal como nas esmolas, cada um contribuiria com a sua pinguinha.

Em menos de um ai, as mulheres dos quatro cantos do mundo (nessa altura o mundo era demasiado quadrado para ser redondo) abeiraram-se dos homens que viam naquela aproximação um prelúdio de festa rija, desabotoaram-lhes as calças, apoderam-se dos colhões ingénuos, sopesando-os qual merceeiros, e vá de pontapé nos abonos. Reza a lenda que, após o dilúvio, até o deserto começou a dar fruta.

Dilúvio de esporra, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

13.01.22

Amadurecem os frutos da imaginação quando passam pelo crivo do desejo. Eis uma frase descabida sobre a qual não vou acrescentar pevide. Mudemos de mão. Estava eu a roçar os colhões na corcunda da velha quando, de chofre, fui assaltado por um bando de ideias brincalhonas. Eu, líder indestronável dos palermas, encabeçando com lérias bandos de patos bravos, ia dotar o muro velho, pintalgado de palavras de ordem, de mais uma camada de esporra. A estafada metáfora, o muro, merecia um novo recomeço — e eis-me disponível, de piçalho no ar, fazendo jus à celebre frase segundo a qual o homem é um animal político. De rostos escancarados pelo pecado, as mulheres humedeciam-se à custa de poesia sacana que joeiravam, à sorrelfa, da conversa dos machos de braguilha entrevada. Cercadas de rebotalho, e com a cona em condições de semear arroz, fechavam os olhos e imaginavam os homens e os caralhos em falta.

Bem perto dali, a picha vegetava nas calças, qual guerreiro após longa batalha. Depois de ter pelejado com uma turbamulta de cricas assanhadas, consentiu que a vitória o murchasse e começou a escrever as suas crónicas. Citemos uma nesga do livro que há-de ficar bem enterrado nos anais da História. “Um jacto de esperma que, após cumprir a sua trajectória, a qual surpreendeu físicos teóricos, purificou a cara da fêmea que cantarolava um refrão animalesco.”

Reza a lenda que o macho endiabrado tatuou uma cruz no escroto. Segundo o parecer de gente entediada e por conseguinte à cata de boatos, a sua ambição era proporcionar ao parceiro de cama uma foda santa. Outro personagem esgalhava pívias nas pausas do tabaco — nunca conseguia estar parado: o que lhe valeu uma promoção na indústria pornográfica.

A pandemia — perdoem-me o salto inesperado, mas eu não consigo estar parado — transformou o mundo num estúdio de filmes pornográficos: estamos com os colhões na mão. E cá estamos, nervosos, de calças em baixo, à espera que alguém peide um pequeno equívoco para içarmos o cadáver da humanidade das águas estagnadas.

Formigueiro nos colhões, picha entorpecida.
E a Joana? A Joana teve por várias vezes a honra de me ir às trombas. Mas isso são águas passadas. Hoje somos pessoas diferentes, de colhões e cona domesticados. Há quem, mais medroso, se veja obrigado a preencher inquéritos antes de erigir o pau. Ao rés do guichet de uma nova repartição pública, há quem negoceie paus feitos, sendo que a resposta é sempre a mesma: o sistema está em baixo, passe cá amanhã. A burocracia apossou-se do tesão. Longe vão aos tempos onde a fama do vergalho tinha o condão de levar o homem muito longe, nem que fosse a toque de porrada. Presentemente, tiramos senhas e tentamos sossegar a flauta selvagem com a patranha: “Calma, és a seguir”.


simon-lee-zA66MV4EyXc-unsplash.jpg

 


Roberto Gamito

12.01.22

Ao contrário de outras crónicas tendentes a afagar educadamente os neurónios mais exigentes, revelando-lhes o princípio de uma profundidade outrora oculta, este texto às três pancadas presta-se à folia vertiginosa, que é como quem diz, vamos discorrer marotamente sobre o reino ebuliente do baixo ventre, quando em contacto com as oportunidades certas. Justifica-se que tome estas e outras precauções, não para exibir o lado puritano armado ao pingarelho, tão ao gosto do Homem contemporâneo, mas porque tal constitui uma chance de despertar uma horda de pequenos Lázaros em horário de trabalho — nunca me perdoaria que tal acontecesse.

O Altíssimo é amor, pelo que Deus é o sponsor desta crónica.
E cá vai, mais uma vez, este gato travesso no seu obstinado funambulismo humorístico que o há-de acompanhar até se extinguir a centelha que o põe de pé.

As crónicas do piçalho, livro com muita saída — e entrada — num desses séculos em que os historiadores trocaram o apontar de episódios relevantes pela imemorial arte de coçá-los, começava nestes preparos: “vivi na obscuridade e sem um tostão, e volta e meia conhecia a luz, sendo que a luz era tão-somente a distância que me separava da noite onde o meu mestre me enceleirava da fenda hospitaleira. Apesar de ser um livro merecedor dos nossos mais rasgados elogios, optemos, antes, por uma questiúncula que já acometeu todos os homens: O que é que me eriçará mais espontaneamente a picha? Não é de estranhar que homens de todas as eras e coordenadas tenham partido à aventura, o chamado aventureiro de portinhola aberta, com o fito de hierarquizar os estímulos que cutucam o marsapo. Se o estímulo for uma espécie de Jesus, isto é, vulto luminoso capaz de levantar um morto, então estaremos em condições de estabelecer uma espécie de espectro da luz. Quanto mais intensa for a luz, mais rapidamente despertará o nabo. Não será descabido declarar que a ciência não tem passado cartão aos temas que interessam ao homem minúsculo.

Bem sei que há grandes fatias da civilização que se estão bem marimbando para a felicidade do pénis abstracto. Se assim é, vou abreviar a história do contabilista e da beata. Para beata era uma bela mulher, tinha uma saia levantada, nem muito nem pouco, exactamente onde o tesão se engendra e deixa espaço para a imaginação cultivar as suas imagens escaldantes. O seu caralho, teso qual português de classe média, disponibilizou-se para o labor mal foi pendurado o quadro sexual no miolo. Com efeito, em breve estariam a fornicar a bom fornicar. Sim, minha linda, gemeu o contabilista à beata, venho-me assim que preencher os papéis. Deus me perdoe, mas que bela piça!, gritou cristãmente a beata. Vá, minha luminosa fodilhona, vem-te depressa que amanhã é dia de trabalho e não podemos ficar toda a noite nisto.

Enquanto isso, os anões — porque não?! — vinham-se onde podiam, uns nas orelhas, outros nos sapatos, outros em cuecas que povoavam o chão do quarto. Não me perguntem como é que os anões ingressaram no quarto. Possivelmente — uma teoria da minha lavra —, atraídos pelo cagaçal da fodanga.

O velho, que fora aquecer a beata para o contabilista, e se fosse outro teria começado a história por aqui, avesso a segundas vezes, passou de actor a comentador pornográfico.
Num banco ao rés da cena infernal, havia cachos de mulheres com as cuecas em pantanas, umas davam à língua, outras ao dedo, ensaiando os primeiros acordes no clitóris. Artur, tímido de nascença, não achando nada mais interessante para fazer, decidiu passar o tempo a punhetear a sua chouricinha da felicidade. Os mais entendidos na velhacaria, apodam-na de sarapitola de adulto.
O adulto está ao corrente da volatilidade do tesão — é preciso agarrá-lo, não vá ele fugir e nunca mais voltar. Levantou-se, deu umas voltas, e enquanto pensava na vida, perseverou a punhetear-se enquanto dizia: “ainda há coisas boas na vida”.

Um gajo vestido de burro, cujo nome não interessa para a história, o qual estava na pausa do tabaco, dado que o quarto há muito se havia metamorfoseado num apinhado bar em virtude de uma fadinha embriagada que, ao ver a cena a pegar fogo, percebeu que era necessário expandir o espaço a fim de lhe fornecer verosimilhança. E o gajo vestido de burro? O gajo enfarpelado de burro pensou: Não é tarde nem é cedo, vou deixar de fumar. Assim sendo, aproveito estes dez minutos para exercitar maravilhosamente o sacana — e lançou-se sobre uma cona desocupada que andava, segundo os anúncios de emprego fixados numa das paredes do estaminé, a pedir colaboradores. Ao dar-se conta do homem-burro, latiu de prazer, qual alegre cadela fodilhona. Hospitaleira — porra!, ainda há quem saiba receber —, meteu-o entre as pernas, protegendo-o do frio que grassava naquela noite de chavascal.

Há detractores que alegam que a história está mal contada, que se iniciara no bar e não havia fada nenhuma — enfim, gentalha que não acredita na existência da fadinha da fodinha. Segundo a versão desses bandidos, uma mulher deslumbrante, cujas carnes eram dignas de figurar naqueles talhos cheios de marketing frequentados por ricos, apareceu e contaminou o bar de olhares famintos. Nisto, ouviu-se um inchar de mil piças.

Entrementes, começou a dar o jornal da noite, o que caiu qual guilhotina em cima do pescoço daquela cena. De facto, a situação económica do país é pouco estimulante e extingue mesmo o mais resistente tesão. As mulheres cessaram as guitarradas na pevide, a agricultura de nabos cessou, as pichas regressaram às cuecas, os anões foram exportados para um conto infantil, o homem-burro regressou ao seu part-time de mascote, o velho continuou a ser velho, o contabilista mergulhou nos seus papéis, e a beata agradeceu a Deus, em suma, o regresso à pasmaceira — eis o desfecho do episódio.

Será que não há outra versão, questiona o leitor enquanto toca xilofone com a pila. Há um desfecho apócrifo segundo o qual houve uma fusão à la Power Rangers, melhor dizendo, gerou-se um Megazord de Pichas, tipo obelisco cabeçudo que avançou rumo ao gajedo com ganas de lhes estancar o desejo de uma vez por todas. Todavia parece-me pouco credível. Uma coisa é acreditar na fada da fodinha, outra bem diferente é acreditar na união entre os homens.

Fada de Marotice, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.01.22

Senhores e senhoras, meninos e meninas, palhaços licenciados e palhaços autodidactas, teólogos da velha e da nova escola, evangelistas e microevangelistas, vândalos e fazedores, leitores e míopes, pedreiros do cânone e construtores apócrifos, caguinchas notáveis e caguinchas em princípio de carreira, parvos eternos e parvos provisórios, taberneiros de lábia treinada e taberneiros calados, leitores de poesia e leitores ávidos de gordas, dançarinos e atletas de atoleiro, hienas e cadáveres putrefactos, alquimistas e homens de mãos atadas, fodilhões e puritanos, demónios dos círculos infernais e anjos dos círculos correctos, caçadores e presas esventradas, novos e extintos, vigilantes de incubadoras e fiscais de desertos interiores, clientela amorfa e vendedores linguarudos, humoristas manetas e público surdo, Lázaros dorminhocos e Jesus armado em carapau de corrida, histéricos e cultores do entusiasmo nulo, devotos e despertos, negacionistas e colaboracionistas, autores de todas as coisas e papagaios uruguaios, oportunistas versáteis e peças de engrenagem, activistas de sofá e activistas de poltrona, burros em dias de festa e burros sem mais apodos, tragediógrafos amadores e tragediógrafos imortais, comediógrafos das pequenas coisas e comediógrafos das grandes, descendentes das sobras e herdeiros da abastança, felizardos e portugueses, incréus e crentes, fanáticos e carpideiras, intelectuais reformados e intelectuais de fazer de conta, poetas de casa de banho e poetas de manjericos, discípulos do norte e pupilos do desnorte, iluminados e apagados, escravos e homens eventualmente livres, vigiados e vigilantes, pais adoptivos e filhos por conceber, crucificados de pacotilha e Cristos de fim-de-semana, grávidas de ideias e prosadores enfadonhos, carteiristas infalíveis e criaturas que põem os pés pelas mãos, funâmbulos de fios de raciocínio e ecos emplumados, sonhadores e acocorados, infalivelmente imortais e tragicamente mortais, camaradas de gráficos de excel e sacerdotes do palpite, aprendizes em coisas de baixo ventre e vagas prostitutas calejadas, românticos e cínicos, ser humanos e youtubers, líderes isolados e turbas aos saltos, sujeitos despojados de eu e compinchas insuflados de eu, inquilinos da verdade e clandestinos, purificadores e conspurcadores, virtuosos presos por arames e criaturas devotadas ao pecado, terapeutas gagos e pacientes impacientes, criaturas horizontais e animais verticais, jornalistas pornográficos e cronistas contidos, zaragateiros e árbitros estagiários, cromos repetidos e cromos repetidos, apóstolos do afrouxamento e paladinos da intensidade, testemunhas e sinistrados, grandes achados e pequenas migalhas, contemporâneos da morte de Deus e saudosistas da luz cantante, artistas e ofendidos peço que me escutem: careço de tema para a crónica de hoje.

Império dos Chatos, Roberto Gamito

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog