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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

03.05.24

A história já não interessa. Numa manhã de julgamento, o algoz suspirava tipo panela de pressão do alto do seu metro e meio com a sua farpela, de um negro por estrear, incluíndo capuz, o qual o votava ao azedo anonimato, isto, se visto com a nossa lente contemporânea, na indumentária nunca facilitou, aí perdeu sempre a cabeça, o que diriam de mim se aparecesse com farpela desbotada, há que ter brio no nosso ofício, tem os seus inconvenientes, dir-nos-ia se nos cruzássemos com o carniceiro num café, espanta amizades, no entanto é óptimo se tivermos um funeral após o trabalhinho, vamos directos para o cemitério sem mudar de roupa, cogitava ele de si para si enquanto senhores com a cabeça a descoberto palravam do alto de um palco improvisado, há pouco tractor atestado de palha, a lengalenga da justiça, conceito tão mutante que podia ingressar na escola dos X-Men, e, eis o importante a reter, parceiro de uma lâmina calejada no ponto final. Pensamentos vindos sabe-se lá de onde ocupavam-lhe a mente e assim montava o baile mental onde as memórias dançavam ao som de um acordeão cacofónico. Ouvem-se aplausos após a cabeça tombada — é para isto que querem viver mais, murmura o algoz.

Um sem-conto de personagens estrebucham em salas onde só a burocracia medra, design inteligente, três cadeiras e está montado o labirinto, entoam uma pilha de veredictos num tom esganiçado de fadista decadente, sentadinhos e quedos quais regicidas domesticados pelo ordenado mínimo, com o cu semeado na cadeira desconfortável qual vida de pobre, isto a fim de não perderem o lugar — o triste jogo das cadeiras —, porém com um dedinho em riste qual maestro cheio de varizes, o qual conduz uma banda de fantasmas. Seres catrapiscados por forcas sedutoras que chegam atreladas a dívidas que, ao contrário de Deus, nunca nos perdem de vista. A fazer fé nas palavras do narrador, são santos; se acreditar nas palavras do literalista, sátrapas de gola alta.

Continuamos as mesmas pessoas com as palavras de sempre, como actores engaiolados num grande sucesso. De tantos solavancos, a ordem antiga extraviou-se. Há dias em que só principio frases com adeus, como quem espatifou os olhos na leitura de compêndios de sabedoria irrevogável e vem à janela para se despedir dessa galeria de quadros cínicos, económico-abstractos com um ou outro pirete — como manda a tradição dos iluminados. Exegetas vêem hieróglifos onde os taberneiros vêem apenas números.
A diferença que a educação faz na apreciação de um cenário.
Discutem-se atrasos, propõem-se adiamentos — muita lábia para que tudo permaneça o mesmo pântano.

Receoso de me levantar mais torto, já me aconteceu armar a zaragata por não gostar da disposição dos tremoços no pires, bem como o episódio onde fui fulminado pela combinação de cores de um pelotão de ciclistas, os maiores produtores de poluição visual, que bebem minis de licra, comportamento que deve constituir crime em meia dúzia de países, tudo isto me irrita e enxerta mãos pelo lombo, visto que a raiva é o leito de onde exumamos os recalcamentos — e reparem, são bichos esfaimados sem vocação para as simpatias da vida adulta.

 

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