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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

17.02.22

A timidez impede-me de ligar para o aspirante a verdugo a altas horas da noite com o fito de o convidar para excessos. O bom do vício, arena dentro da qual álcool e fornicação andam de mãos dadas aos pinotes, quais duas cabrinhas folionas, não entra. O maior excesso ao qual podemos recorrer é — observe-se a ousadia — cuspir umas piadas. Se hipócritas, a relação com o aprendiz de verdugo funciona às mil maravilhas, quase a raiar o idílio. O problema — inverosímil em virtude de nos passearmos turisticamente neste século de miolos afadigados — é pensarmos pela nossa própria cabeça. E se o homem, no pino do seu delírio, salta do molde da convenção como metal fundente e leva a cabo um comentário à legenda tida como dogma? Temos a burra e restante família nas couves. Além do acto iconoclasta de pegar na marreta e bramir “alto e pára o baile”, o comentário é já de si, a menos que seja um judeu a fazê-lo, apropriação cultural. Abstenho-me de comentar seja o que for, não sou judeu, não faço tenções de o ser nas próximas vidas, pelo que não sou a criatura mais indicada para opinar por escrito. As minhas humildes origens só me permitem apanhar e calar e comer nos dias santos. Mamar as escrituras e sucedâneos sem acrescentos da minha lavra, não impor-lhe erratas nem adendas. Quando muito, vestir o fato de papagaio e ser acólito do eco e andar para aí descansado a papaguear as baboseiras mais em voga.

Uma das características mais nocivas do nosso tempo é o medo posto por extenso, seja sob a forma de aspas, redundâncias, eufemismos, perífrases e por aí vai. A diluição da tensão verbal é sintoma da relação conturbada com a palavra. Tenho, portanto, de ser escrupuloso ao máximo na hora de beneficiar a turba burra de algozes com epítetos, não vá a guilhotina tombar-me nos punhos e ser obrigado a finalizar o texto com os cotos em sangue. Há uma personagem com muita saída por estes dias: o virtuoso histriónico e hiperbólico ao pé do qual antigos sábios e santos parecem canalhas. Se aterrássemos neste século vindos sabe-se lá de onde, por exemplo, escorraçados do paraíso ou da cona da mãe, ficaríamos com a impressão que o bem só é bem se for gritado ao megafone. É a sociedade do grito na qual o sensato é posto no saco dos mimos — e com isto já fica tudo dito sobre o olho de lince da nova casta de virtuosos.

Há dias, estava eu nas minhas lides de escrita, que é como quem diz, a tropeçar nos vocábulos de molde a provocar uma faísca, com o focinho enterrado em livros e cadernos, qual perdigueiro viciado nas minudências do pó — ai meu Deus, para o que havia de estar destinado este rapaz! —, a cofiar esta barbinha de esquerdalho asmático, a gingar este bigodinho nada fotogénico em virtude da comichão, quando, finalmente posso contar-vos algo com pés e cabeça, vejo uma mulher abeirar-se do meu coração com a carne aperaltada para o desastre, expressão muito literata, quase enfadonha, ralhou-me o péni mais tarde — pénis à Cláudio Ramos, não esquecer que é o homem do téni — me marimbo nas croniquetas e na versalhada e transformo o meu olhar em batedores liliputianos cujo o labor seria, doravante, percorrer o corpo da fêmea em busca de um sítio para pernoitarmos juntamente com as ideias mais acesas; farejei, não escondo, o atractivo decote como quem procura as musas no fundo de um poço. A boçalidade, amiúde condenada por esse bando de censores que nos impedem de simular o pecado, é saudável para a postura, isto contou-me uma enfermeira que me tratou do inchaço do príncipe do baixo ventre. Eu, que pouco sei da vida e ainda menos sobre a morte, endireitei a postura, adiei a marreca característica de quem é parvo o suficiente para esfrangalhar o esqueleto em leituras e, mais saudável, com o fôlego no máximo, mudei-me para aquele olhar hospitaleiro e magiquei uma epopeia de ancas dançarinas, a qual me ocuparia nos próximos tempos.

A ver se o humor morre, Roberto Gamito

 

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