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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

11.12.20

Para muitos de nós, foi-se tornando progressivamente mais difícil perceber qual o sentido de estar vivo. As desvantagens são evidentes, numerosas e bem documentadas. Toda a lógica de que a vida é um milagre se esboroa, aos poucos ou de uma vez, na idade adulta. É muitíssimo embaraçoso — ainda que seja um espectáculo mui notável — assistir a um adulto com os seus quarenta e poucos a discursar sobre as delícias de estar vivo. Não é necessário ter estudos por aí além para nos darmos conta de que estamos diante de um farsante. Se não for um vendedor de banha da cobra, é um adulto acriançado pela doutrina do positivo. Embora seja incapaz de nos converter, incréus que somos no poder divino da vida, apreciamos a sua loucura sem recriminações.

A essência da vida é amarrar-nos as mãos, encasular-nos numa camisa-de-forças, pôr-nos um açaime, frustrar as nossas vontades, sejam elas de que pendor for, pôr obstáculos altos no caminho desta criatura trôpega e ensarilhada. É nestas condições que partimos amiudadas vezes em direcção à felicidade ou ao amor. Dizer que a vida é melhor que a morte é um insignificante prémio da consolação.

Uma vida em que não se passa uma quantidade de tempo digna de nota a fantasiar com a morte, além de invulgar, é pouco saudável. O facto de a morte estar à mão de semear alivia-nos e consola-nos. Confere-nos mais uma dose de esperança para enfrentar o combate desleal que a vida nos arranjou com o mundo.
Não é mentira se disser que somos demasiado franzinos para ganhar um combate. Não apostem no Homem, estamos condenados à derrota. Lamento muito, mas não poderíamos, simplesmente, dar um tempo, diríamos nós à vida se ela fosse uma entidade.

O percurso do Homem é um caminho juncado de pequenos fracassos. Ignoremos as grandes derrotas. Um homem típico sai de casa com a cabeça apinhada de esperança rumo a um encontro amoroso e regressa, horas mais tarde, destroçado, a um sítio de onde, umas horas antes, tinha saído a levitar em virtude das borboletas no estômago. Não recomendo a vida a ninguém, mas, até ver, não há alternativas melhores. Contentemo-nos então com o que há nas tristes prateleiras da existência.

 

vida, Roberto Gamito

 

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