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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.05.21

Que é feito do desgosto amoroso já sublimado? Eis que restam, ilegíveis, as cinzas de muitos arraiais de despedida. Um homem sem valor facturado no espectáculo da carnificina. Por aqui permanecemos ingénuos, quais cães recém-vadios rondando a presa. Antes da despedida inescapável, uma ou duas frases memoráveis.

A obra podia começar por aí, todavia carecemos de tempo para a encorpar em vários volumes. A morte, apesar de perceber como ninguém o valor da arte, não vai em cantigas.

Por fora homens, por dentro abutres ocultando o jejum.
De joelhos, uns metros antes da pira, estudamos o chão sem canhenho que nos guie até às raízes da salvação.

O que é feito do passo antes apetecido? Quem diria que a fome é susceptível de evaporar. Outrora sapos de anca frenética
saltando de cama em cama
e nelas exprimimos as cruzes
para de seguida as incendiar.

A cada piso o diagnóstico perde adjectivos, ornamentos. Na descida às catacumbas, a prosa transfigura-se em poesia. Tudo se torna flagrantemente claro.

Agora, sobre um chão de promessas quebradas, sobre os estilhaços dos caminhos não percorridos, sobre as carcaças daqueles que fomos sendo ao longo da vida, futuro mártir dançando num piso de mártires pretéritos. Narciso louco e colérico bailando na casa de espelhos em ruínas.

Alumiados pelas mãos em brasa, as quais foram durante muito tempo guardiãs de uma chama mínima, blindando a esperança das ameaças exteriores, opondo à tempestade, o canto íngreme dos náufragos, o cadáver dos nossos dias mais memoráveis.

Já à beira do fim, escutamos ao longe o mundo em uníssono, o marulhar das ondas, o crepitar dos escaravelhos espezinhados, as árvores ganhando voz graças ao vento, o estalar de um osso que deu tudo à bailarina, o canto de cisne do bácoro que recebeu a navalhada no bucho, as últimas palavras do poeta, o barulhinho de uma compra registada, um obrigado a cavalo de um ‘vai-te embora”, um amo-te rasgado por um rugido, o regougar de um raposa de fábula, o grito lancinante de Dido. De seguida, adivinhamos o perfume certo no seio de um exército de cheiros.
Assim que deslindamos a senda que nos conduz ao Tempo Perdido, alcança-nos o golpe fatal.

 

Abutres ocultando o jejum, Roberto Gamito

 

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