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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

04.08.22

Não obstante os dias esburacados pelas traças da memória, dias cujas temperaturas oscilam entre o fresco e o calor vulcânico, os quais são termos muito derreados do ponto de vista do uso quotidiano, e, como se não bastasse, que as coisas más possuem sempre lábia para se fazer acompanhar dos parceiros mais singulares, inadequados do ponto de vista científico, o país lá vai andando a cavalo, qual mongol paciente e figurante no massacre, numa placa tectónica, à deriva, agarrado à bóia da História, ao sabor do vento, essa mão calejada e etérea que nos salga como lágrimas, mais para lá do que para cá, uma vez que é para a morte que mundo e homem se encaminham, vogando qual jangada de pedra, para piscar o olhinho a Saramago, nadando amadoramente segundo teorias de uns e de outros, as quais aprendemos custosamente na escola ou na vida, supondo distinguíveis os dois, digamos, estabelecimentos. Movemo-nos sem alarde nem megafones, com passadas miúdas e quem sabe decididas, quase imperceptíveis, passeamo-nos por cima das brasas, o manto, para surripiar um termo da geologia, como se o país fosse um grande faquir patrulhando enigmaticamente a superfície do inferno sem cuspir uma palavra, de olhos fechados, batendo uma e outra vez com a cabeça na porta fechada do paraíso. Andar por cima do inferno já é uma proeza superior, outros que a comentem e que a interpretem, quando deixarem de se sentir maravilhados pela pequena façanha de Jesus, o que caminhou por cima das águas, pensará o país. Mesmo que falássemos, mesmo que fizéssemos uso do grito, ninguém nos ouviria. A maldição de Babel atingiu o seu cume, o seu fim: cada homem fala uma língua diferente. A comunicação é agora impossível ou sempre o foi; seja como for, actualmente, carecemos de dúvidas, e é por isso que a diplomacia e os almoços de convívio são tão urgentes. Ao menos mantemos a boca ocupada entre pitéus e beijinhos. À falta de amor ou poesia para o cantar, é tudo o que temos neste momento.

A vida é sofrimento, é andar em cima de brasas, e com o tempo, em calhando encontrar o caroço da experiência, é aprender a tornar o processo mais suportável e tirar partido disso. Construí a minha vida em cima das brasas, diria o homem comum, se não lhe tivessem surripiado a voz. Não falamos nada daquilo que queríamos falar. Somos aquele louco da anedota iraniana que, quando alguém lhe pergunta a razão do seu silêncio, riposta “Não vejo ninguém que possa dar-me resposta”. Não me venham com histórias, sejam elas maiúsculas ou minúsculas ou mesmo sem h. Os hospícios fecharam um pouco por todo o mundo. Numa primeira leitura, poderíamos ler levados a pensar que o número de loucos diminuiu grandemente nos últimos anos. Num olhar mais atento, que nem precisa ser dos melhores, um olhar de fato de treino, um olhar daqueles que usamos em casa, percebemos que, ao contrário dos hospícios, as redes sociais são sítios onde os malucos podem gritar sempre que lhes apetece. Convém relembrar que isso lhes era vedado no manicómio. Havia uma duração a partir da qual o grito tinha de ser abolido, seja por injecções, cacetada, electrochoques ou por outras formas que o homem lá foi arranjando, ao longo dos séculos, para lidar com o outro-mor, o louco. Os loucos, como os homens ditos normais, supondo que esses não foram inventados por uma deidade com pouco que fazer com o fito de tapar um buraco num poema já esquecido, procuram o melhor para a sua vida. Não os consigo condenar.

 

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