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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

20.01.22

Escrever prende-se com a necessidade de arejar a mão. Conspurcamo-la com tarefas úteis e vagamente lucrativas e esquecemo-nos de a treinar num itinerário de apeadeiros vãos onde nada se concretiza. Embora não rejeite o apetite da turba pela carreira que há-de levá-la aos píncaros, Deus queira que sim, que o mundo não está para pobres, enamoro-me mais facilmente pelo sujeito agarrado ao trabalho inútil.

A história empenha-se unicamente em mudar o rosto e o nome da mesma luta. Durante milénios são separados os carrascos e as vítimas, sendo que, em certos períodos festivos, durante os quais o sangue é elevado a deidade, há uma troca de cadeiras.
Aquilo que o espírito engendra é um rol de qualificações novas; de tempos a tempos o Homem rebaptiza cada migalha do mundo, procurando nos novos apodos um novo começo. E tudo se repete.

Mudamos o nome do mal como mudamos os lençóis da cama. Como imaginar a vida dos outros, quando a nossa parece o centro do universo, cuja força gravitacional atrai todos os átomos do Cosmos? Coro de patetas, grupelhos de anestesiados, bolhas de estúpidos e nós, à parte e com as ideias e as palavras certas, os Esclarecidos. O acaso nunca nos apanhará desprevenidos.

Ao virarmos a cabeça, encontramos uma criatura agarrada aos livros e ao caderno a fervilhar de versos, vemo-lo mergulhar em apneia na folha num mundo injustificável, numa pilha de linhas eufónicas e de desejos cifrados, os quais comunicam quando muito sub-repticiamente com o mundo. De pronto, catalogamo-lo: mais um louco, mergulha mas não pesca peixe algum.
Se somos o centro do universo, como alegam os mais fanáticos narcisistas, se a nossa convicção é prima da verdade absoluta, como tolerar esse exercício fútil da escrita, como deixar passar a paixão posta em discurso dos escribas destituídos de faraó, como consentir que desgraçados semeiem os primeiros grãos de uma utopia numa folha povoada de emendas?

Enquanto o nosso miolo ingénuo e o nosso coração aprendiz se encontrarem hipnotizados por teses umbigocêntricas e nos deleitarmos no universo do nosso próprio reflexo, prosperarão palavras embusteiras como empatia e Outro, vogarão ao sabor do acaso ou da agenda — episódio revelador do nosso falhanço enquanto transmissores de humanidade, o qual, uma vez dissecado na folha, se revelará a atitude mais antiga de sempre.

Viver é um verbo intransmissível porém em parte comunicável.

apetite pelo inutil, Roberto Gamito

 

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