Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

24.11.21

Em As Leis da Estupidez Humana, livro de Carlo M. Cipolla, historiador, divide a humanidade em quatro grandes grupos:
1) desamparados, 2) inteligentes, 3) bandidos, 4) estúpidos.

Para vos fornecer a atmosfera do livro, o melhor será recorrer a uma bela citação: “A lei insinua que quer nos movimentemos em círculos de gente distinta ou nos refugiemos entre as tribos coleccionadoras de cabeças da Polinésia, quer nos encerremos num mosteiro ou decidamos gastar o resto das nossas vidas na companhia de mulheres belas e lascivas, temos sempre de enfrentar a mesma percentagem de pessoas estúpidas — percentagem essa que irá sempre ultrapassar as nossas expectativas."

Resumindo em linguajar de taberneiro, há estúpidos a dar com um pau. Não obstante as mais generosas estimativas, eles serão sempre mais. A par dos ratos e baratas, o estúpido é a espécie mais bem sucedida de sempre — preparada para viver em qualquer habitat.

A beleza do fenómeno da estupidez, ao contrário de outros fenómenos, é que não está confinado a coordenadas específicas. Não precisamos de nos locomover para zonas remotas do globo com o fito de observar e documentar o comportamento de uma população de estúpidos no Pólo Norte, nos Alpes ou numa qualquer floresta com meia dúzia de árvores. Onde quer que o Homem tenha chegado o estúpido veio atrás — e prosperará sem entraves.

Primeira lei da estupidez humana: existirão sempre mais pessoas estúpidas do que pensamos. É imediatamente observável, quer para falcões, quer para míopes. Haverá sempre o estúpido incontornável, aquele que manifesta a sua estupidez com alarde e sem sombra de dúvidas. Há-os como a fruta: de todas cores, feitios e sabores. Há o estúpido franco-atirador: aquele que aparenta ser inteligente, mas que no fundo apenas está à espera do momento certo para disparar a sua estupidez letal.
O escrutínio detalhado é, amiúde, um viveiro de estúpidos.
Se nos parecem poucos — e caso não frequentem o twitter —, deve-se muito ao facto de a velocidade do nosso século — a qual mescla estupidez e inteligência na mesma cor.

Segunda lei da estupidez humana: a proporção de pessoas estúpidas é invariável em relação à segmentação intelectual, social e geográfica. A segunda lei pode desconcertar os mais ingénuos. De facto, a estupidez não é característica de um determinado grupo. É comum vê-lo em círculos académicos, círculos onde se pavoneiam artistas postiços, em tabernas, em igrejas, redes sociais e por aí vai. Friso para desmontar virtuosos e racistas de um golpe: a estupidez não depende do grupo. Não é por mudarem de uma taberna para uma universidade que o número de estúpidos diminui.

Mas não avancemos mais, necessitamos da definição de estúpido para não cometermos, enfim, parvoíces. Segundo o autor, estúpido é alguém que prejudica os outros sem procurar qualquer ganho para si mesmo — contrastando com o bandido, o qual ganha algo ao prejudicar-nos. No fim de contas, o estúpido, o qual talvez sonhasse ganhar algo com a sua atitude, não é senão um bandido sem talento.

Terceira lei da Estupidez humana.
Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa perdas a outra pessoa ou grupo de pessoas enquanto ela própria não retira nenhum ganho de acção e pode até incorrer em perdas.

Um dos defeitos das pessoas inteligentes, por norma sensatas, é serem incapazes de perceber o comportamento insensato. Grosso modo, o estúpido rege-se por outras leis. O que revela que o inteligente nunca é tão inteligente quanto pensa: é incapaz de compreender a natureza essencial da estupidez.

O grande desafio da estupidez, como comentado belamente por Maxime Rovere em O Que Fazer dos Estúpidos, é sua obstinação e o seu movimento errático. Além disso, a estupidez tem o condão te possuir nas suas fileiras missionários incansáveis no capítulo da conversão. O não-estúpido está sempre a uma discussão de ser convertido, daí o sucesso dessa religião. A estupidez é imprevisível; enquanto biólogo desses animais, o inteligente não consegue criar um padrão entre palavra, acção e reacção. Nenhuma fórmula é capaz de engaiolar todos os estúpidos.

Chegámos à quarta lei da estupidez humana. Resumidamente, o não-estúpido (supondo a sua existência) subestima sempre o poder destrutivo do estúpido. Mais tarde ou mais cedo, a relação com o estúpido revelar-se-á um erro gigante. A quarta lei está intimamente ligada à quinta: "Uma pessoa estúpida é o tipo mais perigoso que existe”. Dito de outro modo: a pessoa estúpida é mais perigosa que um bandido.

É o estúpido — figura-mor do nosso século — que destruirá o mundo e não o bandido, este não teria nada a ganhar com isso.

Em jeito de achega final, creio que há um detalhe que passou despercebido ao historiador Carlo M. Cipolla e ao filósofo Maxime Rovere. A ficção e os círculos concêntricos de estúpidos. Ao formarem comitivas de estúpidos, a estupidez consegue ficcionar o ganho. Em tempos idos, a ficção do ganho e o ganho seriam abissalmente diferentes. Porém vivemos num mundo conturbadamente pós-moderno, no qual hierarquias e fronteiras foram dinamitadas. A ficção, qual Genghis Khan em cima do cavalo da desinformação, conquista a pouco e pouco todos os terrenos da realidade. Ao fugir desses factos, os quais tanto o angustiam, o inteligente é convertido.

Bem feitas as contas, o estúpido continua a prejudicar-se e a não ganhar nada. Seja como for, não desprezemos o valor da reputação nos círculos de estúpidos.

 

As cinco leis da estupidez humana

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog