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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

24.02.21

Como gajo prevenido que sou, trago sempre comigo uma fita métrica, dessa forma posso medir o tesão que o mundo me suscita. Dois mil e vinte um, mesmo para uma criatura que viva habitualmente com as calças enfunadas, é um ano que não favorece a alegria na zona da braguilha. Em tempos de confinamento, os animais de circo terão de permanecer engaiolados nas calças. Desafortunadamente, os malabarismos de carnes cessaram por tempo indeterminado.

Às carambolas dentro de casa, numa coreografia de dançarina reformada e perneta, vagabundeamos de divisão em divisão, amiúde bêbedos, simulando aquela vez em que apanhámos uma piela colossal e calcorreamos às tantas da noite um pomar com as calças na mão.
Derretidos em cima do sofá como quem foi morar para um quadro do Salvador Dalí, perguntamos o que será de nós; o futuro, esse eterno sacana, assobia para o lado. No pino do tédio, fitamos a fruteira de longe e encetamos estimativas. Estimo, dizemos, que estão 4 maçãs, 3 bananas (fora o estimador) e um fruto exótico cujo nome não me recordo. Contamos a olho. A inércia transformou-nos numa lapa, a qual trocou o clima agreste da rocha pelo aconchego do sofá e da mantinha, que sobrevive à conta de Uber Eats e Netflix.
Mas a miopia não é grande conselheira no tocante às estimativas. Pensando melhor, a esta distância tanto pode ser uma fruteira, como um anão vestido de cores garridas a fazer table dance na mesa da cozinha.

O que vivemos fica na cabeça e na cabeça se transforma; percorre, como se costuma dizer, o seu caminho. Com efeito, a memória raramente deixa as coisas como estavam. Para ela, os episódios biográficos necessitam de constante aperfeiçoamento.
Vemos a sua obra, mas não compreendemos a artista. A razão pela qual a memória empreende o que empreende. Será ela míope ou virtuosa? Antigamente, em situações análogas, as musas punham-nos uma miríade de alucinações nas mãos e cabia-nos a nós vertê-las para o papel, qual ritual de exorcismo levado a cabo por um contabilista, sentado e imperturbável.

Não maltrato o presente, nem tão-pouco o passado. Para quê? Eles estarão a dias de se metamorfosearem noutra coisa.

 

às carambolas, Roberto Gamito

 

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