Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

17.01.22

Na mesma linha, o autor x e o autor y, empacotados como clássicos, vindos da província estrangeira da literatura, comunicam em torno da mesma ideia puída, guiados por uma mão tempestuosa. A loucura de pregar o óbvio nunca me seduziu. A velocidade com que diploma fanáticos enfurece-me: é um precipício almofadado, sem arestas cortantes, que não nos impede de cair. A morte talvez nos pudesse ensinar alguma coisa. O grito não é uma escola. Se a ideia é passar um século aos gritos ao menos inscrevam-se em aulas de canto. Esta repetitiva porque breve arte de seduzir os humanos com bagatelas é o último esforço para que haja refrães universais. Mas para quê? Para nos curarmos de que doença?

Só alguém vertical sem seguidores à vista, dado que à sua volta vivem um sem-número de círculos de lume que impedem a crença de se aproximar, pode ofender um século impunemente. Como argumentar com um homem que escolheu para si o papel de Diabo? Como refutar um homem que arde sem ambicionar o depois? Como dinamitar um homem cuja língua foi apadrinhada pela Morte?

É um bárbaro canoro, eis a conclusão precipitada, um homem que aprendeu a ziguezaguear o labirinto da farsa com o Minotauro. Todo o progresso vai no sentido de civilizar a agonia. Nas palavras certeiras de Cioran, a vida cria-se no delírio e desfaz-se no tédio. Nestes anos em que a alegria me visitou como quem visita um familiar no lar, isto é, esporadicamente e sem se demorar, o tédio buscou inspiração na minha ausência de afazeres pirotécnicos. O Homem — o maiúsculo e o minúsculo — apinha os minutos de espectáculos para que o tédio não singre. Temos medo daquilo que o tédio poderia dizer de nós. E se nos legendasse de cadáveres, não adiados mas pontuais? E se a vida não passasse de uma farsa gerada pelo delírio? Conversarmos sem parança, não consentimos que o silêncio se espreguice entre as deixas de um diálogo atabalhoado. O tédio revelar-nos-ia sem vernizes, monstros sem dentes nem garras. De facto, tentamos enganar a fome com alimentos de faz de conta. O coração definha, o cérebro definha, a alma definha: injectamos a luz de um falso Deus em cada átomo, todavia permanecemos vazios. Seduzidos pelos holofotes que criam anjos e demónios por geração espontânea, somos cachalotes derretidos nas margens surreais de um século farto e decadente.

Numa hora em que ninguém desconfia, a ideia funambulesca percorre os fios altos e abandonados do cérebro. Não há público, nem a salvação proporcionada pelo aplauso.
Uma viagem fabulosa entre ídolos caídos, deuses de gatas, constelações de sonhos feitos em papa. Não há parede à altura deste quadro.

O sucesso e o fracasso são-me indiferentes. Tudo depende da dimensão do fio. Um fio infinito, mesmo para o mais virtuoso funâmbulo, significa partir em direcção à morte.

O fanatismo do óbvio e a obsessão pelo útil são-me estranhas. Desesperado por instinto, elíptico por vocação, triunfo sobre o desfile de carcaças que fui sendo. Novas fogueiras, porventura sublimadas, prosperam à sombra de novos dogmas.

Banalização da banalização

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog