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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.12.20

Bem sei que tenho sido, não poucas vezes, derrotado pela depressão, por esse negrume tentacular que faz de mim o seu joguete. Avanço custosamente pelo labirinto da minha existência com o fardo desse denso nevoeiro a rondar-me. Volta e meia ausenta-se, ou finge ausentar-se, e ocorre um certo alívio. Todavia, aquando do seu regresso, ignoro se nos abandonou provisoriamente para ter formações, ataca-nos ainda com mais competência.
A depressão, tal como a ansiedade, que também a tenho, é uma doença do Eu. Um Eu que, atirado como uma bola entre o passado e o futuro, se esqueceu da sua estatura.

Aí entra a comédia. A leveza, se preferirem. No limite, o projecto de levar a vida de mão dada com a comédia consiste em deixar de estar no centro das atenções. Ao contrário do que se possa cogitar, não é tarefa de somenos. Pôr o foco da atenção noutra coisa que não o Eu é tornar a vida mais leve. Que sei eu da vida? Que sabe a vida de mim? Não me parecem maus começos para erigir um sorriso ou uma gargalhada.

Em francês há uma palavra que nos pode auxiliar: dégonfler, termo caro a Alexandre O’Neill, poeta hábil em baixar a crista aos galos postiços. Em Português, seria qualquer coisa como desimportantizar, como nos escreve Joana Meirim no seu ensaio sobre o aedo presente no livro O Cânone, recentemente editado pela Tinta da China.

Presentemente, num mundo cada vez mais centrado em si mesmo, viciado em ver no espelho qualidades inexistentes, tempo em que o ego é rei e senhor, tal abordagem pode ser contraproducente. É quase criminoso parar o baile das vaidades com uma anedota, com um “esperem lá, os gigantes afinal são anões”.
A comédia não serve para quase nada. Mas, se baixarmos as defesas, pode ofertar-nos um conselho de como lidar com as derrotas, sublimando os falhanços de maneira bem-humorada. Aliviar o peso. Não é uma grande vitória, é a vitória possível. Sem a manutenção operada pela comédia, o Eu tornar-se-á demasiado grande para ser curado.

 

Comédia e Depressão, Roberto Gamito

 

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