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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

05.07.21

Não pertencia à paróquia da miragem; pôs o revólver na boca e desenvencilhou-se da vida. Recusou-se a contribuir com mais um tijolo para esse oásis fictício. Como paga, os crentes não voltaram a dirigir-lhe a palavra a noite inteira. Ao que pude apurar, o cadáver reagiu ao desprezo como um senhor.

Nos arredores deste episódio multiplicam-se os boatos e as versões. A morte enquanto semente de universos paralelos — olha que há coisas! Daí que aquilo que se sabe seja sobretudo cadáveres esquisitos, frutos e enxertos do diz-que-disse.

Precisaríamos de uma camioneta de caixa aberta apinhada de escribas se quiséssemos levar a cabo um balanço das conquistas intelectuais que tiveram lugar após este acontecimento charneira. Porém, os dias passam e com eles chega a diluição do ensinamento. Consequentemente, há aspectos dessa sensibilidade perdida que hoje, renovada em bagatela, está mais próxima da magia. Eu digo que o mundo é isto, logo, ao pronunciar estas palavras supremas, o mundo não tem remédio senão metamorfosear-se ao meu gosto.

Na província mais próxima, à qual a história chegou já na forma de livro de bolso, alcançamos uma verdade de algibeira. A ideia de que se pode dizer qualquer coisa conclusiva sobre o que quer que seja é claramente absurda — não digam isto em voz alta.

Em certa medida o coração continua indisponível e o cérebro continua parado por falta de peças. No entanto, como não há escapatória, urge trabalhar com o que temos — com as tripas. O resultado está à vista de todos — mesmo dos míopes. Perante estas alternativas, falhar por pouco ou falhar por muito, a nossa opção acaba por ser uma questão de instinto, um pressentimento a raiar a revelação. E, embora seja absurdo que um leigo possa sequer fazer conjecturas sobre temas tão herméticos, a verdade é que os Homens não têm mãos a medir. É raro o dia sem o lançamento do barrote — a avaliação posta em discurso ou em livro — para a pira do esquecimento. Amanhã já ninguém se lembrará de nós.

A morte? Sim, mas. Qualquer pessoa que tenha pelo menos o interesse amadorístico pela vida poderá dizer-vos um punhado de citações, o qual visa agrilhoá-la na gaiola do futuro distante. São as nossas armas — que risíveis, diria o sage, caso existisse.

O amor, quando chega a desoras, a minutos de concluirmos o perfil psicológico do precipício, não nos fornece o atrito necessário para adiar a queda. Ao contrário dos boatos enfatizados pelos finais felizes (bonito oxímoro), o resultado da sua chegada não é de cortar a respiração.
Cortar a respiração é o meu departamento — riposta a morte.

Não desprezo que a carne, ao ser posta em fogo, pode conduzir-nos ao píncaros, monumentalizando o momento. O desenlace confere-nos a certeza: somos um tornado de apetites, uns pobres animais de argila moldados pelas mãos da banalidade. Volta e meia, todavia, avançamos rumo ao outro a cavalo no beijo, mais uma tentativa de tornar o coração acessível ao outro.

Num dos capítulos desta história, o coração era um dramaturgo do abstracto cujo olhar era bastante penetrante, capaz de ver coisas onde elas não existem, capaz de resgatar do episódio perfumes que esbracejam nos poços da província da insensatez. Mais tarde, já sem calor nem pressão, numa temperatura incapaz de gerar cobiça ou medo ou apóstolos, o ser humano procede à geologia desse troço biográfico. Emana desse estudo uma assombração muito particular.

Coração, dramaturgo do abstracto

 

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