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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.06.21

O único ser humano sem aspas que sobrevivera às vagas sucessivas de predadores está neste momento a editar a História da humanidade na sua cabeça. Suspiro, uma palavra antes da emenda, um e uma indícios, sementes de caminhos abortados.

Deus extinguiu-se num jogo de pirotecnia canhestro. Uns aplaudiram, outros assustaram-se. Houve até, vejam bem até onde vai a natureza humana, quem fizesse de conta que não aconteceu nada — o mais fácil. A noite pariu uma ninhada de cegos.

A estatura do gigante começava a dar mostras de querer definhar. Dizer o que se pensa é, antes de mais, um desperdício. Ademais, quem de entre nós saberá dizê-lo e, mais difícil, quem de entre nós está em condições de o ouvir.

Aterrando na mão, o beijo inicia o seu êxodo pela pele. Graças à imaginação, alcançar-me-á os lábios dentro de dois batimentos cardíacos, mais coisa, menos coisa.

É inútil medirmo-nos com coisas pequenas, cartografadas da cabeça aos pés, sem esquecer as entranhas. O fogo, esse, agiganta-se ao ouvir falar da minha fome. Poeta e fogo digladiam-se numa miríade de formas. Ambos peregrinam até à extinção enquanto se desdobram num chavascal de formas. Há quem afiance que o Homem pleno e o fogo homenageiam as metamorfoses plasmadas por Ovídio.

Sem ousadia não há pensamento. Não há passo em frente se a bipedia estiver cabisbaixa. O amor, seja ele um texto ou um deus, refugiou-se numa estória estrangeira. Hoje sou incapaz de o soletrar.

Não sei quantos eus dos que fui sendo passarão o crivo da memória. Ser legião é uma despesa inútil. Do muito o tempo faz pouco.

Reinvento a respiração onde o texto é mais lacónico. Venho ensinar-Vos a desistência; sentem-se e não se levantem por nada.
O discurso caudaloso é o primeiro indício da derrocada.

Ninharias empoladas pelos holofotes nada criteriosos.
As metáforas debandaram, esquivaram-se sem mapa nem norte ao jugo do literal. No pino do desespero, pariram um deserto íntimo — o que me sossega.
As gastas, as cheias de dedadas, refiro-me às metáforas convertidas ao literalismo, foram engaioladas como se fossem bichos sem asas. Vingar-vos-ei com a minha queda intraduzível.

O fogo combate-se com fogo. Tenho um inferno na gaveta, é tempo de o publicar. Usa a carne em tudo o que fazes. Põe a carne toda no assador. A bailarina faz dela — da carne — o que bem entende. Não esqueças de a rodar.

Consinto que os corpos encalhem na cama quando, no rescaldo da fornicação, a realidade nos doutrina chapada atrás de chapada.
Usou palavras que ninguém entendeu — Ele sim o estrangeiro.
Ele, o primeiro Meursault. Recordemo-nos do episódio em que Deus estava inclinado a chacinar o seu povo sem porquê. Moisés foi capaz de pôr cobro ao absurdo de Deus. Daí em diante, a lucidez — ou a razão — deixou de ser coisa que se peça.

Barricado nessa miragem, o estudioso de determinada bolha, diz que o mundo é um paraíso sem ângulos mortos. Disse isto, apesar das dúvidas. As penas e a cera escasseiam. Mesmo assim, urge simular outra espécie de Ícaro. Não tenho tempo para morrer, diz K., ao que R. responde, não demora nada. Num instante fazemos a festa.

Alguém soletrou o meu interior noutra língua, no outro lado do mundo. Eis outra espécie de efeito borboleta.
Eu, adianta outra personagem, venho cá para bombardear as sobras de Deus com versos burilados. Está bem, abelha, prossegue lá rumo ao leite e mel.

Foda-se, não estou em condições de ressuscitar ninguém, as palavras carecem de poder para tal.
Nós, os poucos sem tribo, contra o mundo. Resta-nos enlouquecer para equilibrar os números.

Deus está morto. Choca-me que continuem a malhar no cadáver como crianças à volta de uma pinhata. Feliz ou infelizmente, estamos completamente às escuras quanto à doçura do depois.

Não havendo outra anestesia que não a palavra, a agrimensora de lábios infernais percorre-me, metódica, a cicatriz da alma. A fronteira entre o eu palpável e os eus estilhaçados.
Não vás por aí, vais meter-te em sarilhos, comunica-me uma voz prenhe de lábia.

Desço ao fundo de mim mesmo na esperança de não encontrar ninguém conhecido. Nem aí, foda-se!, estou sozinho.
Ao menos ajudou-me a endireitar a prosa.

O Diabo entrou em mim com mandato de captura. Digo-Lhe que deus não está dentro de nós, mas Ele não acredita.

Vigio a minha respiração à procura de falhas. Sinto que posso morrer a qualquer momento. Foi no que deu andar a brincar os criadores.

O Dinheiro, há muito coroado divindade, intromete-se com a errata: Odiai-vos uns aos outros.

A bailarina cai nos abismos do desespero quando o nervosismo se apossa dela. Quem vem lá para me coreografar a carne? A dor, que pode fazer as vezes das musas na poesia, é uma tragédia na dança. Chega ao rés da bailarina a fim de lhe adicionar gestos vãos a uma dança ontem burilada.

Animal de asas magras. Por sorte, a língua é permeável aos ensinamentos do perfume. Enquanto gladiador, sou uma farsa — estou à mercê do tiquetaque.

Sem mestres, o coração aflito marcava o ritmo da prosa.
Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções.

Ninguém encontrava-se fascinado por aquilo que o homem acabara de erigir da página. Deus estava ali, diante dele, qual cachalote encalhado. Prossigo a dissecação sem maiúsculas. Imaginava-o maior, culpa das ficções, das lendas e dos livros. Esventrá-lo não é conhecê-lo. De seguida, deu ordem aos neurónios para desempacotar os futuros abortados do Homem de dentro do cadáver de Deus. Conseguiu salvar um punhado deles, mas isso teve um preço. Por mais que tente, não consegue livrar-se do cheiro nauseabundo de uma luz caída em desgraça.

Deus, o cachalote encalhado, Roberto Gamito

 

 

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