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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

17.07.22

 
Há toda uma escala de assobios, um tom para cada tipo de gado. Do labor ao assédio vai uma nota fora de tom, ensinava o pastor a Beethoven, que se fazia de surdo, pois na morte recuperara a audição, ambos numa tasca entre o Céu e o Inferno lá para os lados onde a arte perdeu as botas. O compositor soltou uma procissão de caralhadas, rendera-se, finalmente, ao valor terapêutico de certos vocábulos portugueses. A flora, nem me digam nada, a fauna, que horror, bichos pequenos não me entram em casa, tal declaração ofende os insectos, embora estes careçam de estudos para adentrar na frase do rico. Afinal o que sabe esta malta quitinosa que anda à cata de grãos de açúcar como os homens de salvação? Mais um besouro de patas para o ar.

O que importa é animar a malta. Eis a frase apócrifa que Deus terá dito após ter bombardeado Sodoma e Gomorra com a sua cólera. Não há necessidade de encher o ar de histórias carunchosas, o pescoço não deixará de se embeiçar pela lâmina, os tempos de Xerazade já lá vão, nem tão-pouco podemos esperar encontrar, debaixo de uma pedrita musgosa, um interlocutor em condições de quem se esperasse interpretações particularmente inteligentes.

Ponderou como pôde se havia ou não de meter o bedelho na sarrafusca; acabada a festa, era tempo de posficiá-la com gritos e pontapés, talvez assim a memória fizesse o seu trabalho. Havias de querer entrar na História com as mãos nos bolsos, comentou o Diabo.

Noutros tempos, ensacaríamos o século numa definição breve e catita, um epíteto que pudéssemos exibir nas noites mais longas, mais despovoada de decotes, uma espécie de medalha larapiada ao inferno. Em faltando temas no mundo, o poeta observa o poeta com o fito de lhe arrancar o coração e pô-lo na folha. Noutros tempos, tal acção reputá-lo-ia de avariado dos cornos, todavia, vivemos numa época em que a loucura é um campeonato lotadíssimo de talento. Não é fácil um louco destacar-se num hospício em expansão.

O que vai para aqui de verborreia e de pinotes, pensará o leitor; cabrão, ripostará o escritor, não me interpretes assim, não te conheço de lado nenhum, não sou como as tuas putinhas mansas que lês na net, todas afagos e músicas de embalar egos mais irritadiços.

Na folga do cão, o moço, aprendiz de pastor, dispersava o gado com gritos para poupar no chumbo. Eu sou o cornaca da minha vida, bradava o vate ao hindu que ria porque não percebia português. Para mim, o sexo deve ser como um bom livro, dizia alguém cujo nome não importa frisar, deve apressar-se para chegar ao inferno, entrar logo sem prosa manca, do estilo: Chamem-me Ismael ou filho da puta, não vim ao mundo para ser educador de infância de umbigos, mas sim para pegar no legado inconcluído (belo mamarracho linguístico) de Tifeu e coleccionar cabeças de deuses. Ignoro se a terra é plana nas costas curvas de um paquiderme, o qual repousa em cima de uma tartaruga que por sua vez repousa no centro da rosa. Daqui para a infância só há caminhos de cabras, é impossível regressar a essas províncias bem montado. O que é o Homem afinal? Isso é fácil: uma espécie de Himalaias povoados por animais espantadiços, sentimentos que raramente se deixam ver, feras que jamais se deixarão fotografar, templos esvaziados pelas neves, estradas intransitáveis reabertas pelo calor. Belo naco de prosa, porém importa reter o seguinte: não dêem dinheiro aos monges budistas ou hinduístas, eles fodem tudo em comida para percas, atafulham o Rio Ganges de farnel, porra, assim é fácil ser peixe, diz um pombo invejoso da fartura de migalhas.

Neste mundo pós-pimba, não há uma alminha capaz de nos ensinar seja o que for. Cercam bibelôs de andaimes e chamam a isso arte contemporânea. Meu querido Duchamp, se fosses para o caralho ganhavas mais. Recordo-me dos tempos em que houve uma cruzada antimasturbatória, composta por médicos e padres, em que a punheta e a guitarrada de clitóris eram a raiz de todos os males. Não sabemos dar valor ao nosso século, espancar o maroto despreocupadamente é das grandes conquistas civilizacionais; o activista da sarapitola, engolido pelo tempo, merece todo o meu respeito. Tempos houve em que bastava a criança levar a mão ao sexo para ser motivo de a banirmos de casa. As implicações de ser apanhado a afagar a cobra zarolha pelos pais eram tremendas no século XVIII. Ser médico nesses tempos era a coisa mais fácil do mundo: era recuar com o auxílio do doente até o episódio onde a mão lhe fugira marotamente para as províncias acesas. No princípio, era a masturbação. Ei-la, a marotice-mor, a masturbação, o epicentro do inferno, causava cegueira, meningite, doenças nos ossos, o rol é quase infinito. A punheta, naqueles tempos, era um jogo de tudo ou nada. Os habitantes deste século são os privilegiados da masturbação. O caminho foi longo mas valeu a pena, no fim gozamos todos, cada um no seu dialecto de gemidos e roncos.

Porra, eu não mereço isto, pensa o bardo entre dois versos, não ganho para a côdea, vendi a farpela de pardal de molde a poder editar o livrito numa edição de autor entre aspas, foram-se os banquetes e os Neros, os Bacos e os Petrónios, ficaram os incêndios, eu que sempre fui sério de contas, noves fora nada, pronto, estou gasto, doravante só lá vou com citações, pronto, lá vou eu aborrecer os paleontólogos quando descobrirem que fossilizei numa cadeira à espera do futuro. Mais um besouro de patas para o ar.

Estou aqui, filho, entre metáforas, a fazer festinhas a uma greguería, sou desenrascado ou enfrascado entre assonâncias, façam-me um favor, vão à janela fazer adeus às pontes para lado nenhum, vejam-me a rir satanicamente entre os maus, com dinamite entre os dentes, que se foda a rosa, não há tempo para tangos.

Ai que valente que o político é, a fazer peitinho à tragédia com um rosário de frases feitas. Não me queiram junto dos vossos ídolos, meus queridos, num repente detonaria o discurso positivo preso por arames, aqui está o vosso inimigo, em carne e osso e gordura. Não me tentem capturar nas vossas palavras, eu transbordarei sempre dos vossos epítetos. Hei-de cuspir ácido nas vossas gaiolas até ter força no esqueleto.

A razão por que me intrometo em todos os episódios, qual velha treinada nos boatos, ai, ainda estás entre nós, pensei que havias morrido ou desaparecido, não, caro colega de marasmo, estive a agigantar-me em pipas de cólera, a fermentar a cabeça e a mão esquerda. Não quero passar o resto da vida como aquelas poetas que confundem poesia com inventários de ninharias. Ai, vejam bem o demónio que lhe tomou conta das mãos, diz o exegeta cruzando Freud e restante pandilha que espreme a relação entre pai e filho em busca de um sentido para a vida, olha-me o cabrão, comenta o especialista de rodapés despindo a língua de etiquetas, nunca desafiou o pai nem a autoridade e agora deu-lhe para marrar com os deuses na escrita.

Cada vez me convenço mais de que vivo naquele mundo povoado por mãos, elas que destronaram o homem, descrito por Herberto Helder no Photomaton & Vox.

Além das sobras dos trabalhos de Hércules, há a empreitada de fazer e desfazer o tédio sem morrer no processo, sobra-nos atacar o muro das convenções à cabeçada e ao pontapé e rezar para que o sangue faça brotar do muro um poema eterno capaz de rachar este casulo.
 

Dinamite nos Dentes, Roberto Gamito

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