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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

07.02.22

O Homem contemporâneo (indivíduo em teoria informado, ponderado, perdoem-me o gracejo, hábil na metamorfose) vê-se, sem surpresa, capturado pelas artimanhas da ganância humana. Que haja jornalistas ou ensaístas a abraçar a imbecilidade de que o Homem é um ser a caminho da bondade é algo com o qual nunca hei-de compactuar. Os períodos de paz são tão-somente um respirar fundo colectivo antes do abismo. Mudamos, quando muito, o aspecto das nossas patifarias, mas no fundo permanecemos iguais, bárbaros até ao tutano. Levantemos o malhete com o qual o juiz profere sentenças e fechemos, de uma vez por todas, o assunto.

Um século novo é sempre um século novo: se não consentirmos a sedução da mentira de que nos serve avançar no tempo? A crueldade é a única coisa que muda ao longo dos séculos: subtiliza-se, torna-se labiríntica. Ao tornarmos a salvação burocrática, a crueldade ganhou ares de invencível. Com a agravante de que, ao subtilizar-se, a crueldade torna-se crónica. Um detalhe: presentemente o algoz não se identifica como algoz mas como amigo. Essa é a beleza deste século.

As religiões determinavam — e ainda determinam em algumas coordenadas — o certo e o errado, não segundo a razão e o senso comum mas segundo um rol de dogmas decididos por homens de indumentárias imaculadas que dizem interpretar correctamente as palavras e a vontade da Luz. Com ou sem Deus, este é o guião: arranjar um manual de normas de molde a facilitar as manobras da casta superior. Perdoem-me o salto: os bancos são viveiros de carrascos engravatados. Escandaliza-me a forma como agrilhoam pessoas a empréstimos intermináveis. Choca-me que tentem impingir-nos que são de confiança quando, durante décadas, não só permitiram o endividamento, como o encorajaram e o fomentaram com um sem-número de créditos. A forma como nos deixamos engodar cegamente só prova que o Dinheiro é mesmo o novo Deus. Além disso, há uma relação de poder assimétrica entre o banco e o enfermo — o cliente. O banco é um rico transformado em instituição: é forte com os fracos e fraco com os fortes.
É vítima ou carrasco consoante o clima económico. Ei-lo actor versátil deste teatro em chamas.

Esvaziadas as carteiras, o cliente transforma-se em ratazana e é despejado. Tanto faz expulsar do seu lar uma velhota de 90 anos que aguarda a última molécula de oxigénio, como uma família com cinco catraios aos guinchos. O pontapé no cu não discrimina pobres. Esvaziados de homens, os sítios deterioram-se, transformam-se em ginásios onde se treina o vandalismo, e são desmantelados de cima a baixo até só restar as paredes. Ou então tornam-se locais de ocupas e sem-abrigo. E se estivermos a pintar erradamente os bancos como maus da fita? E se eles não passam, afinal, de filantropos que querem o nosso bem?

De facto, a família que foi despejada pelo banco por não pagar as prestações, pode regressar como sem-abrigo. Representa uma poupança assinalável para o agregado familiar, incentiva o contacto com outras realidades — é como viajar sem sair do bairro. Não haver electricidade dá oportunidade aos cinco catraios de explorar o mundo antes do advento das redes sociais — o que é sempre salutar. Como é possível enganarmo-nos tanto? Os bancos vêem-nos como um peso e limitam-se a vandalizar-nos as carteiras — errado! São nossos amigos, podemos confiar sem medo.

Em Defesa dos Bancos, Roberto Gamito

 

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