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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

10.12.20

Ponham-se no lugar da baleia. Ninguém gosta de engolir um Jonas só para fazer a vontadinha ao superior. Não perceberam? Substituam baleia por vocês mesmos e Jonas por sapo.
Perdoem-me, a ver se escrevo por linhas mais direitas e menos obscuras.

A primeira ideia — há, decerto, alguma ousadia em chamá-la assim — subordina-se ao temário do Homem típico e sua relação conflituosa com a vidinha. Minúscula e com diminutivo que é para não fornecer pasto aos sonhos.

Contrariamente ao que seria expectável da minha parte, eu que sou cavalheiro clandestino cuja vacuidade oratória não assanha nem enfurece criaturas tresmalhadas, vou criticar a mulher. Presentemente, glorifica-se a mulher até o elogio se transfigurar numa onomatopeia de mãe que tenta comunicar com o seu garotito. Os cumes do ridículo e da farsa não me alegram, prefiro outros passeios. Além de que, asmático oficial como sou, raciono o fôlego para escaladas mais sumarentas, tais como o amor, a paixão ou ver o meu clube a esbardalhar-se em mais um empate quando a vitória parecia assegurada.

Dou de barato que a mulher sexualmente emancipada possa, no rescaldo de uma foda mal parida, criticar a prestação do macho inábil. Deve, no entanto, ter atenção para o facto de que o possuidor do nabo é um ser frágil. À frente dela, da mulher francamente desiludida, está o homem desnudo, de pila em decrescendo e a fumegar em virtude do acto recém-realizado, prestes a cair nas malhas da vergonha. Caso não haja sensibilidade, a mulher tornar-se-á uma espécie de enxovalha-defuntos. O pirilau e o jóquei do dito desiludiram-me. Venderam-me outro espectáculo, diz a mulher. Apostei em vocês e perdi. São coisas dessas que traumatizam o pénis.

Dissequemos, não o pobre homem — coitada da criatura enxovalhada, mas da mulher endeusada pelo feminista barbudo; e, como escreveu Twain noutro contexto, façamos deles salsichas.

O endeusamento da mulher por parte do homem alegadamente feminista (amiúde machista clandestino) precisa de ser analisado de uma vez por todas.
Factualmente, nunca se fodeu tão pouco como neste século. Há estudos, livros e documentários que consubstanciam a frase anterior. Se quiserem, é uma verdade indelevelmente escrita no guião das nossas vergas e conas, que é como quem diz, as nossas vidas amorosas. Em suma, não está fácil para ninguém.

Tudo leva a crer que a criação desses altares postiços — há que frisar que a mulher é tão hábil quanto o homem não vá uma feminista furibunda ver estas linhas pelo lado que mais lhe convém, pegar numa marreta e escavacar-me os pés — são resultantes de um misto de amor platónico e de culpa subterrânea.

A culpa subterrânea traz-nos uma espécie de assombração de como tudo poderia ter sido diferente. Até aqui tudo bem, se há coisa que nos une é a procura do perdão. Contudo, há um detalhe que estraga a festa: o narcisismo. O Narciso só pode alcançar o perdão se deixar de ser quem é.

Regressemos ao endeusamento das mulheres por parte dos homens feministas, uma franja, não a totalidade, não vá um amigo do literal empertigar-se. Estamos a assistir a um dos efeitos mais nefastos da paixão platónica. Para citar Alain de Botton, não é o charme que nos mantém magnetizados; é o nosso desconhecimento dos seus defeitos.

Quanto mais os laços se estreitarem, mais perceberemos quanto temos em comum com todas as pessoas. Isto é válido para qualquer relacionamento humano: amizades, relações laborais e amorosas.

A paixão platónica só pode ser desfeita com uma proximidade real. Os deuses só permanecem deuses se não ousarmos dar um passo em frente. À medida que nos aproximamos, o ideal vai perdendo estatura e, a pouco e pouco, entramos nos domínios do real.
O endeusamento é sintoma de miopia.

endeusamento e feminista postiço, Roberto Gamito

Narcissus, Roberto Ferri

 

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