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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

21.07.21

No entrave entre a língua prefaciadora e o sexo, habitou, selvagem, hoje romantizada, a obra do poeta. Oh, lacaios da faúlha ressentida e restante comitiva de papagaios, mais um incêndio em Alexandria? Caramba, não dão sossego à vossa mediocridade. O interregno entre infernos teorizados — e Deus vos abençoe por isso —, a bala carpindo a emenda póstuma no romance inacabado, revelou-mo a sacerdotisa degolada. Tudo ardis no sentido de insuflar silêncios dolorosos. As pessoas definham, sozinhas ou agrupadas em cachos de eremitas, sob o tecto arruinado da catedral abandonada. Do chão ao tecto vai apenas a ideia de verticalidade. Em todo o caso, trazer o coração à baila numa cantiga de amansar espíritos mais agrestes é-me insuportável. Por estes dias, contento-me a inventariar os vermes da minha carcaça. Quantos mais serão necessários a fim de reclamar a minha morte?

E aqui temos o naufrágio burilado, sem tábuas de salvação nem deuses a quem pedir uma côdea. O sangue seduz os tubarões, dá-lhes currículo, sugere-lhes o círculo da fome — a possibilidade de posfaciar a carne.
Mas, alto lá!, ainda não chegámos à carnificina. As ondas legam melancolia ao último turista, que há-de morrer na praia. Desafortunadamente, não legará postais aos vindouros.

K. está lá em baixo a vigiar o convés atafulhado de fruta apodrecida. Os deuses, velhos solteirões, se preferirem, entregam-se a um oficioso banquete canibalesco. Maquilhagem no gesto, rosto, digamos, a descoberto como manda a moda da época, truques de mágico com o fito de distrair o público do que realmente interessa.

Lâmina e corvo agouram à vez. Cabeça de João Baptista, timoneiro no barco fantasma. Na mesa ao lado, o biógrafo mumifica o faraó entronizado pelos holofotes. Génio escarnecendo do século, barómetro receando pela sua obsolescência. Morte marcada para depois do poema perfeito: eis a maldição do poeta imortal, profetizada pelos cadáveres das musas.

O mofo na métrica, o bolor no verbo, o nome apinhado de arrebiques e a frase parada por falta de peças e talento. O filão do amor à espera de mineiros, mineiros esses abortados pelo século independente.

O shaker das desculpas apresenta-se como cronista do rescaldo. Uma relação falhada emboscada por caminhos jamais percorridos. Lobos postos em passos, lobos quilométricos por cima dos quais podemos alcançar a morte perfeitíssima.

Amputada a folia, o vate destes anos crê dar à luz poesia. Uma ideia sem pernas impedida de sair da folha rumo à cabeça dos leitores desnutridos de luz. Anacrónico exagero. Aconselham-me a abandonar o voo e a substituí-lo por um simulacro. Uma pedra emplumada é suficiente se a ideia for despertar a atenção destes cérebros encalhados no ruído.

Grito que venho em paz, todavia o hálito a guilhotina denuncia-me. Fera de esferovite aplacada pelas carícias e os afagos brincalhões dos indefesos, eis outra legenda deste marasmo.

Lufada de ar fresco na sala de mafiosos. A querela burocratizada pelas boas maneiras. Um apego abrandado pelas notas de rodapé. Uma distância em pulgas de ser dinamitada e nada.

Pequenos homens, fingidores de proezas, adquirem hérnias com migalhas aos ombros. Embrenha-se-nos o cadafalso na carne e na língua. Doravante cada passo em falso será morte certa.

Fera de Esferovite, Roberto Gamito

 

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