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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

21.11.20

Volvidos uns anos como gladiador na arena do desespero, revela-se-nos em nós uma impotência em participar ingenuamente na vida; treinámo-nos em separar o trigo do joio, demo-nos conta do equívoco do trigo. Alcançámos a verdade seguindo um caminho a raiar o intransitável, chegámos ao anagrama de Roma pela via dos Alpes. Não conseguiríamos aceder a ele levando a cabo danças ingénuas ou procissões de domingo: apenas através de gritos abafados, sufocados que estávamos pela morte. Elefantes derrubados, outros mais tarde conservados em gelo, outros resvalando, mas sobrevivendo a custo. Elefantes em queda, avalanches feitas de trombas; animais deslocados. Animais avessos a subidas.
 
Precipitemo-nos, ridiculamente, em direcção ao vazio em cima de um elefante. Marcha atrás na confiança, da ideia risível de vitória, regresso ao caos e ao grito, essa palavra desfeita que prefacia e posfacia qualquer empreendimento humano.
 
Não cesso de me atormentar com a ideia de que a vida é uma travessia, não pelo deserto, mas pelos Alpes. Montado num animal inesperado, absurdamente despreparado para as alturas, avançamos por um labirinto de cumes. A maior estupidez que o Homem alguma vez concebeu foi a ideia da felicidade no sopé.
Aí, meus queridos tristes em flor, morre-se de qualquer maneira.
 
A esta altitude, como ousaríamos nós ainda falar de vida quando, nesta paisagem inóspita, mal conseguimos respirar e a morte espreita a cada passo do paquiderme? Não posso senão rir-me perante o facto de alguns se empenharem na sua jornada em terrenos respiráveis. Haverá coisa mais bela que consumar a atracção primeva pelo abismo, lançando-nos do alto de um precipício cujo fundo não se nos revela. Abandonarmo-nos à queda enquanto a morte passa de esboço a retrato consumado.
 

Gladiador, Roberto Gamito

 

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