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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

16.03.21

É bem verdade que encontramos certas virtudes em criaturas imprevistas, até então ocultas pela multidão de sedimentos — por assim dizer máscaras — por baixo da qual o rosto precário recebe a pressão do mundo. Homem, o fóssil vivo mascarado.
Por isso, desejando este humilde escriba aumentar-vos ainda mais a miséria, ou o intelecto, uma vez que se equivalem, e não podendo ofertar-vos um cabaz de conas, visto que o Natal é quando o Homem quiser e hoje não estou para aí inclinado, resta-me oferecer-vos o amor posto em discurso ou outra bagatela de semelhante jaez. Uma ideia digna de fé, pensarão alguns.
Falo disto como laracheador expedito que sou, digo, funâmbulo trocista deste mundo povoado de Homens remendados. Rio-me nas alturas ao mesmo tempo que passo a minha vida a limpo.
E, para pôr fim a este aparte, mas abrindo as portas à didascália, a cerveja bate no balcão da taberna qual machado vindo do céu e a conversa dá uma guinada. Vertebrados ou criaturas cuja alma é regateada por necrófagos sofisticados, somos feitos da mesma matéria, todos feitos de fogo, o qual varia segundo o espectro da mansidão, há-os indomáveis e os domesticáveis, são metros e metros de tripas, antes um novelo de digestões, somos máquinas polivalentes que ora geram abismos, ora geram montanhas de merda. Não me agarram sem baixas; armadilhei cada uma das minhas linhas.

Ponho nestes rios de letras que raiam a paródia o travo acerbo de continuar em queda. O fado do Diabo não me chega. A novidade, o instinto canino que nos obriga a ir atrás. A perpétua corrida ao ouro e as suas infindáveis mutações. Humanidade, a turba de pegas-rabudas. É raro o Homem que se mantém indiferente ao objecto reluzente. Cegos, encurralados no meio das patranhas aperaltadas como preciosidades, afadigam-se em cabeçadas e gritos e narrativas e ficções de vitória. Com a boquinha a espumar tanto como um carrossel de caranguejos, o manifesto falhado jura pôr fim ao império que o espezinhou. Um interregno de maldições entre regicídios.

A lâmina ébria, não sei se comprada numa loja de vão de escada, se pedida de empréstimo à Bíblia, dançando segundo o refrão da época. O dinheiro fê-la centro de um espectáculo onde saltam cabeças como pipocas para gáudio do titereiro.

Todavia ela não se move, mas eu insisto cá em baixo, nos bastidores do inferno, sem réstia de vaidade nem de humanidade, na criação da língua simultaneamente espada e rosa. Gravito furibundo em torno das sobras do canto, uso os pássaros empalhados como acendalhas.

Privado de palavra, o Homem expõe a fragilidade do ventríloquo. Nesse curto momento de hesitação, a marioneta torna-se senhor do seu futuro. Que é como quem diz, pode cagar na mão do seu mestre, o Homem dos Robertos.

 

Homem dos Robertos, Roberto Gamito

 

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