Roberto Gamito
24.11.20
Conheci desde muito cedo o apelo de escangalhar os objectos que tivessem o azar de se cruzar comigo. Entretanto, deu-se um azar e envelheci. Como as coisas me saem do bolso — sou mágico a tempo inteiro —, reflicto demoradamente antes de esfrangalhar o que quer que seja. É a diferença crucial entre um petiz e um adulto: reflectimos antes de escangalhar. Porque é que isto é assim? Não faço a mínima ideia. No entanto, o apelo subsiste agora mais subtil. Em vez de pôr as mãos numa coisa até a desfigurar, opto pela via mais sofisticada do humor, essa arte dos bárbaros, como declaram os detractores da galhofa.
Isso mesmo, esfrangalho o mundo humoristicamente.
Possivelmente, é uma forma de indemnização pelo facto de o mundo não cooperar na concretização dos meus sonhos. Uma vitória risível, argumentarão vocês. Nada temam, eu e o mundo continuamos amigos, aliás, é um jogo durante o qual estreitamos laços.
Uma forma de sacar humor é pôr lado a lado duas personagens muito diferentes. E aí reside o problema. Presentemente, estamos a caminhar a passos largos para a homogeneização. No limite, esse humor parido do contraste entre duas personagens antagónicas está condenado à extinção. Em virtude de toda a gente ambicionar a perfeição — ainda que estejamos cada vez mais longe dela —, repetir as mesmas frases, gostar das mesmas coisas, o contraste torna-se, inevitavelmente, mínimo. Péssimas condições para a prática de comédia.
Citando Steve Martin, o caos no meio do caos não tem graça; o caos no meio da ordem tem. E aqui temos outro problema, ou, se quiserem, o mesmo berbicacho visto de outro ângulo.
A sociedade transformou-se numa festa de reputações. Há uma ordem aparente que é postulada. Uma fanfarra de egos à qual é impossível opor o caos — a comédia. Esse padrão de normalidade, o qual preso por arames e mais postiço que um capachinho, contra o qual o indómito humor se vê à rasca quando chega a altura de mandar o seu palpite arisco. A ordem a todo o custo é quase sempre sinal de uma mente doente — por azar, colectiva.
O que antes era visto como prática tendencialmente inocente é hoje olhada como tortura. O ego não suporta ser contestado.
Daí que não seja de estranhar que o Narciso seja um bicho ágil no linchamento.
Nunca como hoje reprimimos tanto a nossa veia humorística. Se, como escreveu Ricardo Araújo Pereira, o humor resulta da tensão provocada pelo desconcerto entre um tema e uma atitude, nunca houve um tempo tão fértil para esfrangalhar o mundo humoristicamente. Eis-nos chegados aos cumes da hipocrisia sem poder abrir a boca para engendrar piadas. Creio que faz falta um bobo a tal ponto lunático que ponha fogo à feira das vaidades.
É possível viver sem estrafego, todavia é fodido.