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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

09.06.22

"Não é o homem que cai que ri da sua própria queda, a não ser que seja um filósofo, um homem que haja adquirido, por hábito, a força de se desdobrar rapidamente e de assistir desinteressado aos fenómenos do seu eu."
- Baudelaire
 
Permita-se-me uma achega que me servirá para mesclar algumas coisas que, na clandestinidade, tenho tentado irmanar.
Vou fazê-lo muito de passagem e por conseguinte não estranhem os saltos de raciocínio.
Partilho da ideia de Baudelaire, da proximidade da comédia com a filosofia. O comediante, tal como o filósofo, é aquele que começa a questionar exactamente onde os demais adquiriram as suas certezas. Segundo Baudelaire, e para outros antes dele, o riso tem o seu quê de satânico. Os comediantes são, empregando uma expressão sua, Satãs em flor. O comediante é uma espécie de agrimensor que tenta decidir, pelo seu próprio pé, qual é o território do bem e do mal. Ora é um trabalho que, a ser bem feito, carrega os seus perigos. A dose faz o veneno, e o comediante quer sempre mais.

Outra ajuda de Baudelaire: "O riso é essencialmente infinito, é sinal de uma grandeza infinita e ao mesmo tempo de uma miséria infinita. É do choque permanente entre este dois infinitos que se solta o riso." Daí as oscilações de humor — perdoem-me a simplificação — características de um humorista. Ninguém consegue ficar imune a tamanha amplitude.
Outra coisa que os comentadores de porcelana se esquecem quando tocam no assunto é a natureza mais funda da arte. A comédia pode ser somente — e tanto universo que carrega este somente — um animal ferido a tentar sobreviver. Opera com o medo, a hipótese possível de redenção. E isso pode ser projectado para o medo em si, ou para algo totalmente distinto.
Eu clarifico: um comediante carrega um medo absurdo de morrer de cancro, então tenta parir piadas sobre esse assunto para tentar a sua vitória de Pirro. O comediante não ignora que essas vitórias são infinitesimais. Nunca vencerá a morte, que tanto o amedronta, nunca vencerá os seus medos, nunca vencerá nada. Mas isso não o impede de experimentar tudo o que estiver ao seu alcance para obter essas "vitórias fictícias" sobre a morte. Pode, como atrás mencionei, ter medo de morrer, e projectar esse medo em piadas sobre cadeiras; o medo estará presente na fúria e no olhar com que debita a piada, por exemplo. A sua relação com o medo move-se nos meandros da piada aparentemente inócua. O riso é a libertação da sua cólera e do seu sofrimento. Como a dor não passa, precisará sempre de mais e mais risos.

Façamos agora aqui uma pequena ponte, pois é de suicídio que iremos falar. E sim, a frase anterior está envernizada humoristicamente, pois esta é a forma de abrandar o poder da morte.
O suicídio, no tocante a quem procura o riso no outro, frise-se procura o riso no outro, é quando o laracheador se dá conta do exercício inútil que é tentar a redenção através desse método. Observem a recorrência do verbo tentar. É uma tentativa perpétua. De se livrar da dor — particularmente a depressão — que é invencível. Nunca é extinta, quando muito adormece.
Faça o que fizer, continuará o mesmo. Quando esta ideia lhe surge clara na mente, então, meus amigos, é normalmente o fim.
Mas regressemos ao primeiro excerto.

O desdobramento — uma espécie de projecção astral, para piscar o olho a quem viu o Doctor Strange — é só uma forma de entre muitas formas de ver, de comunicar com aquilo que está a acontecer. Há o perigo de nos afastarmos tanto que doravante tudo nos parecerá igual. É nas imediações do acontecimento que podemos aceder aos detalhes. Longe, por si só, não tem grande valor. É um artifício usado em metaconsiderações quando se pretende discorrer de um assunto de uma forma que ofereça menos propostas de retaliação. Então cria-se um assunto sobre o assunto, e assim sucessivamente, dependendo do medo do comentador.
Esse distanciamento barroco, curioso exercício de estilo, é a forma natural de exibir uma erudição postiça, muito comum nos dias que correm. É possível pairar bem alto sobre um assunto, qual falcão, todavia tem de chegar o momento em que o falcão inicia a queda vertiginosa sobre a presa — aquilo que realmente interessa. Ora ver de fora só tem sentido se houver a intenção de voltar a entrar no circo — naquilo que lhe causou uma perturbação — com novas abordagens, novas ideias, novo fôlego.
E mais: isto — a comédia e a filosofia — dificilmente acaba no eu.

É mais o que está para lá do eu. Tal propensão pode gerar um cardápio de leis só aplicáveis ao seu eu, todavia desajustadas ao mundo real. Pode igualmente embeiçar-se pelo seu eu — ei-lo, o mundo polido dos Narcisos.
A rapidez com que o realiza pode ser igualmente problemática. Há que deixar o veneno actuar, se quiserem realmente arrepiar o tecido da realidade. A não ser que seja só um comediante ou filósofo de superfície. É preciso deixar que o mundo entre em nós, que se entranhe. E para tal necessitamos de tempo. Daí o estado actual da comédia, por exemplo. Não pensa, reage, mas isso são outros quinhentos. O olhar desinteressado não é tão benigno como se afigura à primeira vista. À medida que o tempo corre, se o comediante se aperfeiçoar nessa forma de olhar o mundo, dar-se-á conta que tudo é igual, sem sabor, sem cheiro, que nada lhe suscita interesse. Outro itinerário para alcançar o suicídio.
Parece que Baudelaire não leu o que escrevinhou. Noutra altura escreveu que a arte, a ser arte, tem de ser parcial.
Assim já nos entendemos, senhor B. E só nos podemos comprometer com o amor. Quiçá por aí dê para o comediante se esquivar à depressão e ao suicídio. Vale a pena tentar.

O compromisso eterno com aquilo que nos promete a salvação.
Escrever como se cada frase tivesse o poder de mudar o mundo. E insistir, insistir até partir os braços e ficar afónico.
Volta e meia desdobramo-nos até à loucura, e somos o coliseu, um homem inerme a lutar com a fera, o público, cada elemento com as suas nuances, o imperador. Somos uma legião, cada um a lidar de forma distinta com a morte. Num só instante podemos morrer, aplaudir, rir, matar, sofrer. Essa é a natureza do combate interior. O Homem é múltiplo. Mesmo que o esventres até ao átomo, nada saberás sobre ele, não sabes os seus apeadeiros da queda, que lutas travou, o seu portefólio de derrotas. Nunca conhecerás um homem —
mulher — a não ser que a ames. Nunca conhecerás o que é a comédia — a filosofia — a não ser que a ames. O amor, esse, deve ser o ponto de partida para tudo. O único dogma. A tua Ítaca, se preferires. Quando se sentires perdido, tenta regressar.

Mas calma, não se levem demasiado a sério, somos todos personagens risíveis. Soa estranho, não é?

Humorista, o Satã em flor

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