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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

25.02.22

Está um belo dia para dar em maluco. O influencer é a figura capital destes últimos anos, de tal forma importante que em redor dela gravitam uma série de émulos, cópias medrosas, aspirantes e todo um mar de variações que ambiciona alcançar o pedestal da insipez máxima. Movidos pela crença de que é possível fazer dinheiro fácil, a saber: pôr versos de Pessoa como legenda de um nobre mamaçal, ou celebrar o óbvio ululante, o homem contemporâneo abandonou o mundo palpável, usando-o apenas para carregar os seus gadgets. Desembaraçado dos grilhões do homem lúcido, partiu rumo ao mundo fantástico das redes sociais. Por conseguinte, como leva a vida a levitar entre patrocínios, é o animal mais desligado do mundo, move-se e pensa segundo uma lógica só sua. O disparate é o seu idioma. Apesar de temer como ninguém o ridículo, bate recordes nessa modalidade dia sim, dia não. É o atleta do ridículo contra o qual nem o humorista pode competir. Estamos diante de um Mozart, um virtuoso-mor do disparate diante do qual só nos resta ajoelhar.

O influencer tem no seu arsenal várias magias, sendo que uma das mais inesperadas é a de tornar aborrecido qualquer tema, até a guerra. Como nele não habita qualquer nexo entre a palavra e a acção, é capaz de condenar quem promove um produto graças à guerra e no segundo seguinte promover a sua marca. Vamos tentar dissecar o raciocínio do bicho. 1) Importa mostrar o mais rapidamente possível, qual político, que estamos contra determinado comportamento, dizê-lo de forma veemente, ainda que nada mude na prática, de seguida, receber os aplausos e insuflar o ego; 2) fazer exactamente aquilo que condenou, dado que só andamos nesta vida para fazer carcanhol. Só o que faltava a indústria bélica ganhar rios de dinheiro em virtude das guerras e eu não aproveitar para ganhar algum com os meus cremes e a minha marca de pijamas, eis o pensamento do influenciador.

Em certas províncias, os apóstolos da virtude não têm mãos a medir: há um concurso para ver quem é que se importa mais com a guerra. O policiamento da virtude atingiu o zénite. Debitam-se obviedades sobre o episódio bélico entre Rússia e Ucrânia, comentam-se as obviedades com outras obviedades, fazem-se piadas óbvias sobre esses comentários e ninguém é capaz de dizer nada que não seja parente do eco.

A minha solidariedade está com o povo ucraniano, corta para “vejam bem esta promoção imperdível”. O povo russo não é todo como o Putin, corta para “vejam este filme”. Não é obrigatório ser uma carpideira a tempo inteiro, mas essa postura fluída é o retrato perfeito do homem do século XXI. Há batalhas de emojis, corações partidos — transformamos a guerra num concerto do Tony Carreira; uma tempestade de emojis a simular a reza, e transformamos as redes sociais numa grande igreja. Mas o quadro do ridículo não acaba aí: os youtubers comentam a guerra — a chamada react — sem saber uma migalha do que se passa. Ficaríamos melhor servidos se o trocássemos por um bêbedo ou por um taberneiro furioso.

A influencer queixa-se, logo após as primeiras horas, que não está a aguentar, segundo ela, a sua saúde mental está a deteriorar-se. Minutos antes, convém sublinhar, mostrou-se solidária com os inocentes. É uma solidariedade à TikTok: no máximo dura 30 segundos. Só consigo sentir empatia durante uma janela de tempo muito curta, caso contrário dou em maluco. Expliquem-me a guerra em dancinhas ou através de memes. Só conseguimos saborear o mundo em finíssimas fatias.

O Carnaval vem em boa altura. Creio que a música “ você acha que cachaça é água? Cachaça não é água não” é a banda sonora ideal para o fim do mundo. Isto só está bom para o Hulk e para as gajas que fantasiam marotices com gajos fardados.

Influencer e a Guerra

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