Roberto Gamito
23.01.22
O exercício poético não é fecundo; é apenas entretenimento para as unhas. O ofício de juntar palavras que poucas vezes se encontram numa linha, de transformar a tragédia em canto, de sublimar o grito numa brisa é somente exorcismo subtil, um afloramento do mundo interior de jaez metamórfico. Entendo perfeitamente o poeta, exclama o leitor de nariz empinado. Se assim for, o poeta ficou a meio caminho: expiou as suas máscaras da superfície e não o seu rosto precário. Os verdadeiros problemas sucedem quando a mão regressa do encontro com o inominável e, apesar do formigueiro de hesitações, de minúsculos medos que borbulham na mente, é incapaz de ingressar na folha com segurança. Os verdadeiros problemas — a verdadeira arte, digamo-lo sem receio de cometer uma barbaridade — só começam depois de termos calcorreado de gatas ou esgotado essa primeira poesia.
A mão vazia do poeta generoso é a que me interessa. O rescaldo do espectáculo é mais revelador que o pino da pirotecnia. Veja-se o caso do humorista. No palco, um ser todo ginga e palavras certeiras; afastado do riso, e ficamos na companhia de um leproso, um homem a cair os pedaços. Esse encontro liquidar-nos-ia a estatura fictícia como a qual nos pavoneamos no mundo num estalar de dedos. Não passamos de uma migalha emplumada, a qual pode ser comida ou espezinhada a qualquer momento. Evitamos a todo custo o contacto com essa verdade derradeira.
O cinismo contemporâneo, não o da corrente filosófica, que o tempo não está para grandes pensamentos, mas o de pacotilha, rebaixou tudo o que mexe à categoria de pretexto. Há uma espécie de ironia da fragilidade. Ironizo para me proteger; careço de dentes para mastigar o mundo tal como ele é. Só me sinto inspirado por um tipo de Homem: aquele que compreendeu a sua monumental nulidade, que consentiu que o nada corresse de marreta nas veias e mesmo assim, sem discípulos nem mestres, avançou rumo à folha branca.
Reconheço a utilidade da estratégia do novo cínico. A humanidade vive turisticamente no seio dos acontecimentos que a aniquilam. Ou abraçamos a farsa de sermos levados em ombros pela turba nervosa e sempre sequiosa de sangue, ou a vida torna-se irrespirável. Que venha então a coroa de cuspo gerada pelo palavrório dos carrascos nómadas.
Peguemos no exemplo da música, a arte mais manobrável para se encetar o seguinte pensamento. Quando diante do espelho, seja ele literal ou imaginado, a música mergulha para lá das raízes das máscaras e retorna à superfície com o nosso rosto verdadeiro, de supetão surpreende-nos a imagem de uma criatura desconhecida. Mas cedo os efeitos desse encontro se dissipam e se relevam nulos. Apressamo-nos a escutar a música uma e outra vez até ela perder o seu poder sobre nós, melhor dizendo, o tempo suficiente para as máscaras alcançarem essa profundidade até então desconhecida. Apesar da música, a máscara regressa ao reflexo. Até ao dia em que, mais frágeis ou mais seguros da nossa ficção, reencontramos a mesma música, a mesma mas simultaneamente outra, dado que se aperfeiçoou na distância — e reencontramo-nos novamente, vulneráveis e sem sorriso.