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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

21.02.21

Um génio, a ser génio, é sempre incompreendido; mesmo entre génios. A título de exemplo, Miguel Ângelo apoucava Leonardo Da Vinci em relação à sua velocidade de aprendizagem, Einstein foi escarnecido pelo maior matemático da altura, o qual equiparou os seus dotes na disciplina à de um miúdo na escolinha. Darwin era visto quase como um caso perdido, quando comparado com um amigo, na altura apelidado de prodígio, aprendia as matérias a custo e só se preocupava em recolher bichos. Curioso verificar quão longe levou Darwin essa obsessão. Isolado no seu deserto, cortadas as ligações com as convenções e a língua vigente, o génio pondera o diálogo com a sede, a qual, em correndo bem, será perpétua. Antes da era da vitimização, a definição de génio era aquele que lograva vencer o obstáculo que os demais viam como intransponível; mais: era aquele que se agigantava fosse qual fosse o tamanho do obstáculo.

Num século em que os génios se extinguiram, talvez não seja inútil enumerar as características mais comuns nesse grupo singular, e sempre raro: concentração profunda, imunidade à distracção, semelhante a um transe, e uma devoção ao seu ofício que raia o religioso. Esta devoção remonta ao cristianismo antigo, o qual encontra parentesco nalgumas escolas de budismo. A devoção implica o esmagamento do ego. O artista perde o nome, funde-se no gesto que o singularizou, tornando-se impossível distinguir onde acaba o artista e onde começa a obra. Parece que com isto dá para perceber a razão pela qual os génios se extinguiram: a narcisismo exacerbado e a nossa incapacidade de nos concentramos por longos períodos de tempo. 

Nessa busca desse não sei quê, o génio entrega-se à missão de o trazer à tona sempre que possível, sem grandes ademanes. Há momentos mágicos em que o livre-arbítrio e o Destino se encontram na mesma esquina. Por exemplo quando Coltrane escutou Charlie Parker e obteve o seu momento eureka. Alguns de nós têm uma espécie de pré-voz; andamos à procura de um meio de a expressar, de nos livrarmos dessa afonia, às vezes uma vida inteira. Coltrane entregou-se ao instrumento com tal intensidade que, numa década, tornou-se o maior artista de jazz do seu tempo. Em suma, encontrou o meio perfeito para expressar a sua singularidade, calejou-se no processo durante um período suado em que, abandonando o guião das desculpas, só havia uma escapatória, comum a todos os artistas excepcionais: entregar-se à paixão com as mãos de um possesso. 

Mozart principiou as lides do piano aos 4 anos com o pai, que era professor de música. A sua irmã, à época com 7 anos, já tocava piano. Foi Mozart que pediu para iniciar a aprendizagem tão cedo. 

Graças à rivalidade entre irmãos, que os pais actuais condenam ou tenta suprimir, Mozart superou a irmã no espaço de um ano. Há quem afirme que, ao ver o amor que a irmã recebia do pai por causa do seu talento ao tocar piano é que Mozart levou tão a sério a sua aprendizagem.

Aos cinco anos já compunha as suas partituras. Volvido um nadinha, já o pai levava o prodígio e a filha para tocar em todas as capitais da Europa. 

Pouco tempo depois já o pequeno Mozart sustentava a família. O que faz dele o mais célebre (e provavelmente mais bem sucedido) trabalhador infantil de todos os tempos. Só isto daria para escrever uma crónica. 

Ao crescer, foi dando conta que estava sob o jugo do pai, que o aconselhara a ter um trabalho que, em nomenclatura mais coloquial, poderíamos designar “emprego certinho”. 

Fez várias viagens com o fito de agarrar esses supostos trabalhos certos, uma das quais para Paris, mas em todas o trabalho ficava aquém do seu génio. Era como se fosse uma mão incansável cuja missão fosse a de lhe abafar a voz. 

Ao regressar pela última vez, o pai recordou-o da dívida de gratidão que tinha para com ele. 

No fundo, repetia-se um dos episódios mais célebres do Homem. A família, como se sabe, ou é uma bênção ou é uma maldição. Zeus, Édipo, Kafka, Mozart. A relação com o pai forja o artista. Alguns matam-no, outros, em não arranjando coragem, canalizam o seu sentimento de revolta para a sua vocação.

Para Mozart, o pai era um obstáculo, arruinava a sua vida, confiança e saúde. Nunca queiram saber o que é a cabeça de um artista quando é impedido de se efectivar. O Diabo, esperto que nem um alho, aproveita essas ideias negras que pairam em redor da cabeça do génio de molde a melhorar as condições do seu estaminé. 

Dando o golpe fatal, em 1781, Mozart viajou para Viena e nunca mais olhou para trás. O pai nunca lhe perdoou.

Sentindo o tempo perdido a borbulhar e a fervilhar nas veias, Mozart compôs a um ritmo frenético e, como se em transe, possuído pelo mais fecundo dos demónios ( ou Daimon, se recuar até ao princípio da história da inspiração), reclamou o seu lugar na prateleira da eternidade. 

Resumindo e descendo da altura do génio para degraus mais modestos, o artista, no início, se é de atenção que necessita, em geral motivada por um vazio interior, espera preenchê-lo com o falso e movediço amor da aprovação pública. 

Quando o artista atinge a maturidade, principalmente o génio, a coisa muda de figura. É uma batalha corpo a corpo contra si próprio, obra e artista dançando no mesmo gesto, indiscerníveis, Ahab e Moby Dick caçando-se mutuamente numa peleja sem fim; fecha-se o círculo, pois o caçador faz-se na caça. Um homem com sede não se sacia com palmas nem sequer os apupos lhe fazem qualquer dano. 

Mas já Píndaro, poeta da Grécia antiga, nos havia alertado: “Torna-te quem és, aprendendo quem és.”

Mozart matou o seu Laio, Roberto Gamito

 

 

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