Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

03.11.23

Que bela tarde para arranjar uma nova leva de inimigos.
Bem combinado, despachava já isso, em menos de nada vou-te ao focinho, comunicar-me-á o apóstolo da rixa. Estás disposto a penar por isso, questiono eu sem gaguejar em nenhuma sílaba com uma rosa nos dentes, sem descurar nenhum espinho. O que pode sair daí? Um cadáver ou uma amizade. Arrisque-se, a hesitação demorada é um assento para cus de passagem. Ó amigo, a minha intuição segreda-me que é possuidor de uma cabeça que nunca conheceu uma ideia. Confirma-se o boato que é um imutável burro?

A hipocrisia morde-me as tripas, e diabos me levem se não hei-de erigir do negro da ardósia a relação entre hipocrisia e número de peidos; porra, que a vida adulta nunca me impeça de dizer as verdades. A hipocrisia cai-me mal e começo aos saltinhos — e ninguém se abalance a chamar isto dança contemporânea. Os leitores, que é como quem diz, os que não espatifam os olhos em qualquer linha, preferem-nas de boas colheitas, caíram que nem patinhos alfabetizados, engodados pelas gordas da publicidade cujo ofício é trazer os canhenhos aos ombros, ora pelos holofotes que separam o trigo do joio, e atiram ao lixo o trigo e celebram o joio, ora pela avalanche de números debaixo da qual os anónimos e os aspirantes a qualquer coisa mais em voga são enterrados às pazadas, andam a encher o bucho episodicamente requintado com aquilo que lhes atiram para o prato — espertos, para casa levamos tudo, até pedras. Abdiquemos de torturar os patifes que caíram na armadilha de nos ouvir por mais de trinta segundos, usemos essas sobras bolorentas de humanidade para pedir afinadamente mais um copázio ao taberneiro. Os mundos possíveis? Assassinei-os todos na imaginação, cada qual com um precipício de autor. Não tarda estou mais velho e hão-de principiar-me a falhar as palavras e terminará o carnaval vocabular onde mortos encimam abutres numa cavalgada de raiva e delírio. Eu, que não tenho tempo para mim nem para fodas más — alguém que foda por mim —, que fiz da minha memória uma vala comum dedicada àqueles que podia ter sido, reergo-me desse magma de universos abortados com a pele de Ícaro, entoando com as notas todas na língua um hino luciferino.

Noutro dia, naquelas horas durante as quais o olhar não é suficiente para encetar um poema, é possível observar no espelho o desgaste violento, aflitivo, qual parque de diversões comprado pelo abandono, o presente e o que há-de vir, todos os tempos empilhados na mesma imagem assustadoramente superficial. Não fosse o ego, e o homem não seria tridimensional. Não sendo uma personagem redonda nos piores dias, mantenho-me gordo — e isso há-de ter algum valor, nem que seja para o palato de alguma — permitam-me o sonho — nutricionista literata.

Não sei onde começa e acaba o teatro de marionetas. Finjo-me livre; no entanto, quando me iço, sem recurso a refrão alheio, seja ele oriundo da esfera poética, ou mesmo das províncias mais oportunistas, sou eu que me levanto. Que fado triste, cantem este, ó neofadistas da construção social, a marioneta descobre que a mão que a manobrou durante tanto tempo, à qual dedicou templos e livros não é senão uma extensão mais obscura de si própria, a qual se habituou a viver no breu dos bastidores ou atrás de uma cortina onde a luz do reconhecimento não alcança, isto contou-me um morcego dedicado ao espectáculo.

Pobre autómato de carne e osso, tenham lá calma direi eu, caso ouça essas palavras.

Numa escrita fragmentada, a união é a capital do cuspe, não foi feita para durar, tão-só para adorar, apinhada de palavrões, sexo e banquetes, na volta ressuscitamos Rabelais e Sterne numa nota de rodapé e saímos de um pensamento marginal aos tiros, vasculhando na podridão dos outros as pepitas nossas, oscilando entre a frase curta e a barroca, que aqui ninguém pára enquanto houver fôlego — o uso diabólico da linguagem e tumultuá-la sem concessões para que, amanhã, possamos colher mais uma tonelada de diabos e cumprir a profecia de Baudelaire.

As vossas vitórias alardeadas por tenores contratados para o efeito são bonsais sãos porém despovoados, a passarada não quer nada com a vossa pequenez, a acidez deste tempo reduzirá o vosso gigantismo de andas a uma lenda de vão de escada; um pouco mais de grito e um pouco menos de legenda, pintem o quadro com os restos do sangue e terão entre os vossos críticos os maiores vampiros.

À força de escrever sobre o humor acabei por acreditar que ele existia. Espero que não haja margem para negociações.

 

jared-subia--2mEhM9nKsM-unsplash.jpg

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Sigam-me

Partilhem o blog