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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.10.21

Em tempos idos, acreditava-se numa relação directa entre o sofrimento e a qualidade da obra do artista. Mais sofrimento era sinónimo de maior qualidade na obra. Presentemente, vivemos numa espécie de mundo almofadado em que as arestas cortantes foram relegadas para figurantes. Apesar do contributo das influencers, o sofrimento perdeu a sua antiga aura. O prazer tomou o seu lugar. Não é necessário ter a quarta classe para nos darmos conta das limitações do prazer. Se o prazer fosse aquilo que promete, a melhor poesia seria escrita durante o orgasmo. Ora, consultando a literatura especializada, é árduo manter a cabeça orientada para a prosa ou para a versalhada no pino do calor, aliás, alcança as raias do impossível. Vim-me logo sou poeta. Revirei os olhos logo sou artista. Eis duas frases improváveis.

Não me espantaria nada que a maioria dos artistas visse na sua obra em construção uma espécie de lareira. É vital combater o frio de uma forma imprevista e duradoira. Fique bem claro que esta diatribe não se estende aos mártires e às carpideiras da nova escola que frequentam as redes sociais, esses viveiros de palermas.

O sofrimento por si só não nos conduz a nada, todavia parece-me disparatado atirá-lo para o monte das ideias obsoletas. A título de exemplo, veja-se o que aconteceu com as serpentes marinhas e as lulas gigantes, a psicanálise e o vento Föhn (1). A oscilação do prestígio é indicador de como o Homem, este intelectual-sopeira, anda às aranhas. Primeiro existe, tem muita força, depois não existe, é uma mentira pegada e quando damos por ela estamos novamente a debruçarmo-nos sobre ela, a ideia, a prestar-lhe atenção e a admirar o conhecimento dos antigos. Eis as flutuações da empáfia do Homem.

Com efeito, há pelo menos um fundo de verdade. Veja-se o caso de Dante e o seu amor platónico por Beatriz. Substitua-se o magno sofrimento por um fenómeno muito mais caseiro: colhões cheios.

No meu humilde parecer, obras como A Vida Nova e a Divina Comédia de Dante só existem graças aos colhões cheios. Tais obras seriam inconcebíveis de colhões vazios. Não quero com isto postular que Dante não seria poeta se dinamitasse o termo platónico com a farpela pelos joelhos, mas dificilmente alcançaria as alturas que alcançou. Em correndo bem com Beatriz e esta se revelasse uma foliona de alcova, Dante acabaria por se tornar um aedo dedicado à construção de quadras de manjericos.

Que é o Inferno senão a ilustração da vida de um homem esfarrapado que é condenado a permanecer com os tomates atestados a escassos metros da amada? É uma espécie de Tântalo, morrer à sede mesmo estando rodeado de água.

Não exagero se dissesse que os colhões apinhados são os últimos descendentes de uma grande linhagem de deuses, musas e daemons. A fagulha da inspiração, a existir, habita aos pinotes os testículos. Assim sendo, a obra de um grande artista é a miscelânea cifrada ou escancarada das fodas que ficaram por dar. Querem criar grandes obras mas sentem-se medíocres? Querem? Fodam menos.

(1) Segundo os antigos, este vento era capaz de deprimir um homem saudável e conduzi-lo ao suicídio. Estudos recentes encontraram uma relação entre este vento e as flutuações de serotonina.

O colhão é a última musa

 

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