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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

01.12.21

Virás do céu profundo ou surges do abismo,
Beleza?!
O teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

O poema de Baudelaire elucida-nos quanto à beleza, é simultaneamente paradisíaca e infernal. Embriaga e é fluída como o vinho. Em linguajar de taberneiro, a beleza foi e será pau para toda a obra, seja na filosofia, seja na poesia. Tanto agarrou o papel de norte como de demónio a ser exorcizado.
A relação homem-beleza é suficiente para medir a pulsação do século, oferece-nos um belo retrato da nossa ingenuidade, da nossa descrença, clarifica a nossa relação com as coisas terrenas e aéreas.

A beleza é ponte e engodo. Façamos uma pequena paragem, mas não nos deviemos do assunto central da crónica.

A beleza é uma província onde tudo é outra coisa. Estranhíssimo, não é? A beleza tem o condão de fuzilar o raciocínio, recordem-se, por exemplo, da última vez em que se apaixonaram. A beleza convida o Homem a entrar nos seus domínios, porém o cinismo fica amiúde à porta. Se unida à paixão e ao desejo, a beleza atordoa-nos num misto de caos e ordem, obriga o poeta a novas combinações na língua e na mão, força-o a escolher caminhos antes empoeirados, dados como extintos, e dá nova vida ao mundo. O olhar desdobra-se graças à beleza.

Para citar Gonçalo M. Tavares, a fealdade argumentativa não convence: feio é o que não me convence, belo é o que me arrebata, o que me conquista. Os perigos da grandiloquência espreitam a cada esquina do discurso. A beleza é a mais eficaz das esparrelas.
Dito de outra forma, o belo é um engodo para observadores, o feio, um repelente.

Facilmente somos convencidos a aderir num clube se convidados pela beleza, ao contrário do feio, do qual queremos distância.
Nietzsche alerta o homem contemporâneo, o qual está embeiçado pela beleza pirotécnica, soar bem e pensar bem não são sinónimos. Focarmo-nos na beleza e descurarmos a fealdade é ser míope.

Mas por que raio queremos estreitar laços com a beleza e afastarmo-nos da fealdade? A fealdade dá-nos uma imagem da decadência, de finitude, põe em discurso debilmente cantado a nossa morte, ao passo que a beleza é uma ilha prenhe de possibilidades.

A beleza, afiançam-nos poetas e escritores, é uma espécie de luz. Os mais belos são os predilectos da luz. Grosso modo, o belo são as sobras de Deus. Ao aproximarmo-nos perigosamente do belo, corremos o risco de cegar. A emoção é um perto de mais.
Como Lhansol escreveu “chorar em vez de ver”. Chorar interfere na visão. Perto de mais é deixar de ver, eis um dos perigos da beleza. Porém o feio não é isento de perigos. Numa manobra oposta à da beleza, o feio afasta-nos, obriga-nos a ver à distância.

Se demasiado perto da beleza, seremos engolidos por ela, se demasiado afastados da fealdade, não veremos nada. O pensamento ideal é aquele que dança entre a beleza e a fealdade. Um passo para a frente e um passo para trás até não restar mais passos ao dançarino.

O belo não é sinónimo de verdade, nem o feio é sinónimo de praga.

O Feio e o Belo

 

 

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